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A teoria de Karl Marx (1818-1883) baseia-se em três pilares fundantes para sua construção, que só existem se forem mantidos em suas interdependências.

O primeiro deles é o método dialético. A dialética é o pilar que, se for retirado da teoria marxista, faz desabar o edifício de suas ideias. O segundo pilar é a perspectiva da revolução do proletariado. Há um compromisso político e ideológico de Marx com os trabalhadores por ele ser, além de teórico da revolução do proletariado, um líder revolucionário em vários cenários das revoluções operárias a partir de 1848. E o último deles é a teoria do valor-trabalho, na qual o que gera valor é o trabalho em cuja exploração a ordem burguesa se apoia.



20 Detive-me um pouco mais na discussão da dialética hegeliana, por entender que a mesma, representa a

dialética utilizada hoje pelo dicionário, pelo senso comum e por ter sido amplamente estudada tanto por Jean Piaget quanto por Paulo Freire.

21 Durante a seguinte discussão, privilegiarei os aspectos teóricos onde Marx discute seu conceito de dialética.

Assim, não me aprofundarei nas suas concepções de ideologia e alienação, apesar de ter consciência de sua importância na teoria marxista.

As ideias de Marx só passam a ser conhecidas a partir da 2ª Internacional Socialista criada em 1889. Neste encontro, havia um núcleo de ideias criado por ele sobre um tipo de concepção de mundo constituído de uma ideologia e de um conjunto de valores que caracterizava o universo proletário e socialista. Esse conjunto de valores e de objetivos demandou uma prática política para a sua realização e Marx vinculou essa prática política à ideia de revolução e a uma determinada ideia de poder político pós-revolucionário.

Em resumo, toda esta concepção de mundo foi assentada a uma filosofia cuja suma seria o materialismo dialético. Assim, podemos dizer que a filosofia marxista está assentada no materialismo dialético.

O materialismo dialético é o fundamento geral da ideologia e da política de Marx. Para ele, os princípios do materialismo dialético são a chave para a compreensão do ser em todos os tempos. Junto ao materialismo dialético está o materialismo histórico, que é a aplicação dos princípios do materialismo dialético ao ser social, à história e à sociedade. Com esta afirmação, a concepção do materialismo dialético permite a compreensão de algumas formas do ser e da sociedade.

O movimento dialético, para Marx, está na aparência da realidade, pois ela contém tanto a revelação quanto a ocultação da realidade do fenômeno. Desse modo, conhecer é negar a realidade e negar é ultrapassar a aparência do real. Isto é muito interessante porque atribui ao conceito de dialética o seu movimento e não apenas as contradições necessárias para seu acontecimento. Portanto, a elaboração teórica advinda da leitura do real é uma negação da expressão empírica do real sendo o real extremamente complexo, móvel e dialético.

Devemos compreender que a concepção da realidade de Marx é a própria essencialidade e o centro de seu dinamismo está nas contradições e nos antagonismos que são necessariamente gerados na constituição da realidade social. Aqui, podemos encontrar uma das definições de dialética: o que move a história são suas contradições e antagonismos. Quer dizer, o que move a história é a dialética.

Segundo Marx, outro movimento dialético que podemos perceber no real é a concepção de trabalho para o homem. O homem, para ele, é um ser prático e social e sua condição de humanidade é o trabalho. Ou seja, o homem é um ser que se constitui pelo trabalho e se realiza no trabalho. Mas o trabalho do homem o antagoniza com ele mesmo. Este é o movimento dialético que levará o homem à práxis.

Portanto, na teoria marxista, não há estática, há práxis. A sua estrutura teórica para a realidade não é um modelo de realidade. É uma reconstrução ideal da estrutura real do objeto

e este objeto está em movimento. Assim, o ser é processo e esse processo é movido por um sistema de contradições inerentes a ele mesmo. Isto é a dialética para Marx.

Outra compreensão dialética marxista e que vai de encontro à dialética hegeliana, é quando Marx se fascina com a interpretação que Feuerbach dá a respeito da relação espírito- mundo de Hegel. Feuerbach afirma que não é o espírito que cria o mundo, mas o mundo que cria o espírito. Então, segundo essa lógica, é preciso inverter a afirmação de Hegel. Sendo assim, além da inversão da dialética de Hegel, Marx enxerga também a inversão na relação Estado-Sociedade Civil, em que não é o Estado que cria a Sociedade Civil e sim a Sociedade Civil que cria o Estado.

Dessa maneira, o núcleo racional da dialética está na contradição e na luta dos opostos como motor dos processos históricos. Por isso a pesquisa dos processos econômicos e do mundo social requer a unidade dos contrários.

Observemos um exemplo sobre as afirmações anteriores. Em sua teoria, encontramos os termos abstratos e concretos, em conceitos construídos historicamente. Por exemplo: “capital”. Este conceito inclui: a) conhecimentos que podem ser utilizados na produção; b) saber fazer; c) as patentes e os procedimentos técnicos; d) as relações sociais; e e) seu significado abstrato. Isto nos mostra que os conceitos incluem as ideias abstratas e concretas que os constituem. Os conceitos se constituem pela dialética inclusa em seu significado.

Portanto, Marx recusou o idealismo hegeliano de uma unidade dialética prévia às contradições. Recusou seu caráter teleológico e a dissolução das contradições no espírito absoluto. Ele afirmou que os fenômenos socioeconômicos incluem uma complexidade interna com tendências opostas que conformam sua identidade.

Para ele, é crucial que os opostos sejam propriamente antagônicos e que mudem sua hegemonia durante o desenvolvimento dos fenômenos. Portanto, a dialética se refere às dinâmicas do desenvolvimento e da transformação das totalidades sociais, cujo aspecto motor é a contradição.

Existem quatro aspectos relevantes que podemos encontrar em Marx:

1º) Marx deu primazia a um conceito epistemológico de dialética. Ele utilizou o termo dialética como “método científico”. As relações entre o processo dialético e o mundo real são complexas para Marx. Ele sugere uma posição epistemológica realista crítica, em que as formulações produzidas pela ciência econômica ou suas explicações (relações essenciais) não coincidam com os fenômenos que são sua manifestação e, às vezes, opõem-se a eles. Quer dizer, os fenômenos não coincidem com o que é produzido pela

ciência econômica e por suas explicações. E, além disso, uma ciência seria inútil se as aparências coincidissem com a essência, se os fenômenos coincidissem com as relações essenciais que eles mesmos pretendiam captar. Os fenômenos expressam essas relações como seu contrário. Se, de fato, os fenômenos representassem a ciência e vice-versa, tudo já haveria sido descoberto. Tudo estaria parado. O que movimenta a dialética também é o não-sabido, o não-saber.

2º) Do ponto de vista metodológico, Marx explicita que o que importa é a gênese interna elaborada pela conceituação de uma forma de valor, e não as causas que levaram à substituição histórica de uma forma de valor por outra. Ele analisou a gênese, por exemplo, da forma monetária de valor, como: a) a forma simples do valor: lógico- histórica; b) a forma desenvolvida do valor; c) a forma total do valor; d) a forma monetária do valor. Podemos chamar esse processo de derivação genética ou dialética do conceito analisado.

3º) Marx utilizou os processos sociais para explicar as relações. Sua ideia se distingue do enfoque galileano – causalidade nos termos mecanicista e quantitativos. Para ele, a relação causa-efeito é insuficiente para explicar o modo de produção capitalista, porque os processos sociais são como:

Um organismo submetido constantemente a processos de transformação. [...] A dialética é um método que se põe em relevo a gênese das mudanças reorganizadas das totalidades sociais. [...] Simultaneamente, ela pode ser concebida como um princípio explicativo da mudança social. (CASTORINA; BAQUERO, 2008, p. 22).

Qual o significado, o lugar, da unidade dos contrários, da dialética, na explicação do desenvolvimento econômico? Uma das explicações é que ela, por exemplo, está inerente à mercadoria. Existe uma unidade de contrários interna nos objetos, nos participantes, nas situações envolvidas nos processos de desenvolvimento econômico, e a contradição se expressa nos fenômenos do antagonismo social em contradições relativamente externas. As contradições são a principal causa, no sentido figurado, de um todo em desenvolvimento. As contradições são em seu próprio devir, o caminho histórico da dissolução e recomposição de um sistema social.

4º) As mudanças provocadas dialeticamente na sociedade não são inelutáveis, segundo Marx. A unidade de contrários, para ele, abre um leque de resoluções possíveis.

A complexidade em Marx está vinculada com a criação da novidade pelo método dialético. Para Marx, a dialética é um método científico.

Reiterando, para Marx, o processo de transformação não é estático, pois a unidade dos contrários abre um leque de resoluções possíveis porque Marx afirma que o oposto/contrário é a mola propulsora e seu resultado, os possíveis.

Marx descobriu que temos ilusão de estarmos pensando e agindo com nossa cabeça e por nossa própria vontade (ele chamou esse movimento de reificação) porque desconhecemos um poder invisível (denominado por ele de ideologia) que nos força a pensar como pensamos e a agir como agimos.

Marx desmistificou a política liberal e criticou a economia política22. A política nunca conseguiu separar o privado do público porque o poder político sempre foi o modo legal e jurídico pelo qual a classe econômica dominante de uma sociedade mantém seu domínio. O aparato legal e jurídico apenas dissimula o essencial: que o poder político existe com o poderio dos economicamente poderosos, para servir seus interesses e privilégios e garantir- lhes a dominação social. Sendo assim, a economia política representa o liberalismo econômico e o homem como indivíduo.

Portanto, para ele: 1) a propriedade privada não é um direito natural; 2) o Estado não é resultado de um contrato social; 3) a economia não é expressão de uma ordem natural racional; 4) o Estado não é ideia ou espírito encarnados no real e 5) a história não é movimento da consciência e suas ideias.

Como coloquei anteriormente, para Marx, os homens se diferenciam dos animais porque são capazes de produzir as condições de sua existência material e intelectual. Assim, é o ser social e suas condições que determinam a consciência do homem.

Sua teoria levanta a bandeira do materialismo por entender que somos o que as condições materiais e suas relações de produção nos determinam a ser e a pensar.

Por Marx afirmar que o processo histórico é movido por contradições sociais, o materialismo histórico marxiano é dialético. O que nos leva a entender que dialético é um processo de transformação social pelas contradições entre os meios de produção, a forma de propriedade e as forças produtivas, o trabalho, os instrumentos e as técnicas.

E este processo ancora: 1) a ideologia que é a lógica da dominação social e política e 2) a práxis que é, na política capitalista, ainda greco-romana, uma práxis do trabalho sem valor, do trabalho penoso.

Pelo trabalho, os seres humanos estendem sua humanidade à natureza. É nesse sentido que o trabalho é práxis: ação em que o agente e o produto de sua ação são idênticos, pois o 

22 Marx foi o primeiro a anunciar a estreita relação entre os termos economia, representação do privado, com

agente se exterioriza na ação produtora e no produto, à medida que este interioriza uma capacidade criadora humana ou a sua subjetividade.

A práxis marxista só pode ocorrer no coletivo para que os outros se percebam nos outros e em si, possibilitando um movimento de ruptura, um movimento dialético.

Em resumo, para Marx, a dialética está relacionada à práxis social e às relações econômicas. A pesquisa dos processos econômicos e do próprio mundo social requer, em sua visão, a unidade dos contrários. Na teoria marxista, é fundamental que os opostos sejam antagônicos e que mudem sua hegemonia (preponderância/supremacia) durante o desenvolvimento dos fenômenos.

Portanto, acredito que a dialética marxista, para além de seus contrários, indica-nos que sua unidade, seu processo, é movimento e, mais uma vez, para além da chegada e da saída das ideias e conceitos, não se pode rejeitar a construção da novidade por estar ela intrínseca ao movimento dialético.

Outro teórico importante e contemporâneo a Marx, foi Friedrich Engels. Ele foi considerado o “dialético da natureza”.