Ferdinand Gonseth (1890-1975) desenvolve quatro princípios para explicar sua filosofia e que são importantes para que compreendamos o que ele entende por dialética.
O primeiro princípio é o da revisabilidade, ou seja, revisão das ideias, das teorias e dos fatos, que possibilitará atribuir valor de verdade a certas colocações como também afetará seu significado.
O segundo é o princípio da tecnicidade que serve para contrabalancear o princípio da revisabilidade. Para que tenhamos a motivação da mudança necessária à revisão, ela deve partir de dentro dos meios técnico e experimental, incluindo a técnica de linguagem da ciência.
O terceiro princípio é o da dualidade. Gonseth o entende como complemento metodológico ao princípio da tecnicidade, pois ele é o princípio que une a razão e a experiência. A experiência, para ele, é a colocação dos fatos e, portanto, conceitual. Assim, há uma interação entre as colocações conceituais lógicas e as conceituações particulares sobre os fatos.
E, por fim, o princípio da integralidade. Este princípio indica que há uma totalidade, sem partes autônomas, na qual as partes se integram. O objetivo deste princípio é um sistema coerente de conhecimento que retrata o mundo ao incluir a experiência, revelando progressivamente a realidade.
Mesmo assim, com esses princípios, Gonseth não vê linearidade no progresso das ideias. Ele acredita que esses quatro princípios são apropriados para ligar a filosofia à experiência. Nesse sentido, Gonseth (apud CASTORINA; BAQUERO, 2008, p. 29) considera que “O processo científico real não é um caminho de certezas em certezas, é uma marcha de evidências provisórias e sumárias em evidências provisórias e sumárias, de horizonte de realidade em horizonte de realidade”.
Sua dialética está exatamente no diálogo entre a razão e a experiência. E mais, a dialética é a ligação entre a liberdade de escolha entre um sistema de conhecimento e a responsabilidade de levar em conta toda a experiência disponível e todos os parâmetros lógicos que estejam disponíveis. Ou seja, para ele, a dialética do conhecimento científico se
estabelece num diálogo entre teoria e experiência, na abertura das hipóteses às mudanças experimentais. Em suas palavras, “O processo dialético é essencialmente progresso e depuração de um conhecimento sob a pressão de uma experiência com a qual se confronta” (GONSETH apud CASTORINA; BAQUERO, 2008, p. 29).
Portanto, os juízos científicos são móveis e idôneos. Um conhecimento pode ser considerado como um ponto de partida desde que não seja proposto como inatingível, que seja tratado conforme sua relação com os fins e que seja considerado como passível de revisão.
Aqui também encontramos uma filosofia dialogada entre o a priori e o a posteriori dos fatos; entre o concreto e o abstrato.
Acredito que a sua afirmação de não linearidade e diálogo entre as ideias ou a ciência em si, colocam sua dialética como processo e este como mola propulsora da construção do novo, apesar de valorizar a experiência em si.
Diante do exposto, entendo que sua ideia de dialética vem ao encontro de todos os conceitos de dialética aqui discutidos: dialética como processo de construção da novidade, como função dessa construção.
A seguir, tecerei breves considerações sobre o porquê dos autores escolhidos, o que penso sobre a dialética e qual a ligação do que discuti com as teorias de Jean Piaget e Paulo Freire.
Primeiro, penso ser importante reiterar por que escolhi os autores discutidos acima. O primeiro ponto que me levou a estes autores foi porque acredito que eles representam e, de certa forma, resumem, a dialética de seu tempo. Mas também tenho consciência de que existem outros filósofos de grande importância para esta discussão. No entanto, este não é um tratado sobre todas as dialéticas.
Outro fator, que me levou a escolha feita aqui, foi porque acredito serem estes autores importantes para a discussão que pretendo fazer sobre a dialética como processo de construção do conhecimento e da novidade e por terem, direta ou indiretamente, influenciado as dialéticas presentes nas teorias piagetiana e freireana. Com isso, e a com base no que analisei até aqui, proponho uma discussão sobre uma dialética que creio ser um dos aspectos funcionais para a construção de ideias27.
Bem, dito isso, penso que devo esclarecer o que entendo por dialética. Para além de conter a ideia de opostos ou contrários, assim como aparece no dicionário comum, creio que a dialética, mais do que saída e chegada de ideias de conceitos, é a travessia que produz
27 Esta discussão sobre o processo dialético, a importância de sua funcionalidade e a sua semelhança nas teorias
de Jean Piaget e Paulo Freire, serão feitas a seguir e no próximo capítulo intitulado Em busca da ilha desconhecida: aspecto funcional e construção do conhecimento nas teorias de Piaget e Freire.
novidade. Na verdade, acredito que a semântica nos complica aqui. Creio que a palavra dialética está carregada de ideias argumentativa, materialista e humanista de visão de mundo, mas, tanto nesta concepção do dicionário comum ou na concepção hegeliana ou marxista, quanto na concepção antiga de Heráclito ou na concepção atual como a de Foucault, a função dialética é semelhante. Quer dizer, a grande ideia de todos esses autores quando discutiram dialética, estava em abraçar a ideia de possíveis.
Quando palavras, portanto, ideias e conceitos estão em movimento, em seus encontros elas produzem novidade. Para mim, isso é dialética. Saberes diferentes ou iguais que, ao se encontrarem, produzem possíveis. Acredito que dialética não significa só encontro de contrários – ideias opostas. Significa encontro de iguais ou diferentes que produzem novidade e, portanto, produzem algo “diferente”, afinal, nem mesmo palavras iguais permanecem iguais depois do encontro do sujeito com elas. Assim como Guimarães Rosa (1984), quando propôs, como muitas palavras novas, a novidade da palavra nonadas, em seu livro Grande Sertão Veredas, entendo que a dialética também proponha o seu nonadas, em que o não-nada pode ser o nada em si, o tudo em si ou o tudo-nada, indicando uma novidade que se construirá. Isto é o que denomino de funcionamento dialético.
Por mais que Heráclito entenda a dialética como movimento, interdependência e harmonia dos contrários; Platão como ciência dos princípios baseada na unidade entre o ser e o não ser; Sócrates como a arte da argumentação e da refutação; Aristóteles como a arte de argumentação; Kant como a dialética provinda da razão e do real; Hegel como tese, antítese e síntese; Marx como contradição e luta de opostos; Engels como a ideia de dialética a de Marx, acrescentando a dialética da Natureza; Lênin como fenômeno universal, funcionando tanto no mundo natural como no humano; Della Volpe como processo metodológico para a construção das artes; Colletti como a dialética voltada à realidade em que a oposição invalidaria a realidade; Althusser como relação entre sujeito e sociedade; Sartre como método de conhecimento e movimento no objeto; Garcia como ação desequilibradora das hipóteses do sujeito e da ciência; Foucault como relação do saber/não-saber humano; Goldmann como dialética transindividual; Bachelard como dialética da interação, na qual a negação contém a afirmação; e Gonseth como diálogo entre a razão e a experiência, acredito que a função de encontro e de produção da novidade apareça em todos. Assim, não creio que a dialética deixou ou vai deixar de existir, pois seu processo é mais importante que sua saída e sua chegada.
Indo um pouco adiante, creio que a dialética deveria ter uma nova nomenclatura para que ela representasse, de fato, o processo funcional de conhecimento do novo que perpassa
por todos os autores discutidos. Arrisco-me com sugestões como a palavra travessia, ou a expressão devir do novo28, que seriam bons substitutos para o termo atual chamado dialética29.
Na tentativa de responder às duas primeiras questões apontadas no início do capítulo, discutirei, a seguir, as concepções de dialética de Jean Piaget e Paulo Freire e como elas dialogam com a afirmação que faço sobre a importância do processo dialético para a construção da novidade.
3.2 As Dialéticas de Jean Piaget e Paulo Freire