5.1 Considerações preliminares
Após analisarmos as construções dos autores aqui selecionados a respeito de Júlio César e de Marco Antônio, passamos agora para as considerações acerca de um homem de múltiplas denominações: Otávio, Otaviano, César e Augusto.
Assim como nos capítulos anteriores, procuraremos salientar alguns pontos dentro das obras, sendo estes: forma de incorporação ao relato, referências genealógicas, aspecto físico e qualidades morais e intelectuais (instrução, caráter, atitudes militares, virtudes e caráter divino). Dessa forma, pretendemos demonstrar como se dá a elaboração de Veléio, Plutarco e Suetônio em torno de Augusto, suas similaridades e diferenças. Ainda, trata-se de percebemos como as representações acerca deste importante personagem do cenário romano de finais do século I a.C. giram em torno das semelhanças com César e das disparidades com Antônio.
5.2 Os relatos dos autores sobre Augusto
É em meio à instabilidade política em Roma após os idos de Março que surge em maior evidência a figura do jovem Caio Otávio, futuro Otaviano. Dentre os autores aqui trabalhados, Suetônio é quem possui uma biografia sobre este romano. Nos dois autores restantes, as descrições acerca deste personagem serão retiradas de forma indireta, tanto em Veléio quanto em Plutarco. O primeiro, refere-se muito ao herdeiro de César no decorrer de sua obra. Cita seu nascimento, seu apogeu, seus feitos e sua morte. As maiores referências de Plutarco são encontradas na biografia sobre Antônio e aludem, principalmente, às ações de Augusto como governante durante o Segundo Triunvirato. Entretanto, mesmo as pequenas menções nos são significativas, uma vez que expressam as concepções de seus criadores a respeito daquilo que relatam.
5.2.1 Forma de incorporação ao relato e referências genealógicas sobre Augusto
Na obras dos autores por nós aqui selecionados, a figura de Augusto aparece em momentos distintos de suas narrativas. A primeira menção a Augusto por Veléio Patérculo ocorre quando este, em meio aos relatos sobre Pompeu Magno, descreve o nascimento de Augusto. De acordo com ele: “O nascimento do Divino Augusto, que iria obscurecer a todos os homens de todas as naturalidades com sua grandeza, há noventa e dois anos atrás, acresceu de brilhantismo o consulado de Cícero1.”
(VELÉIO PATÉRCULO, História Romana II, 36).
Desde este momento, já se faz possível notar qual será o tom adotado por este escritor ao descrever Augusto. Logo de início, ele já o caracteriza como Divino e salienta que este irá eclipsar os demais homens deste período. Em meio a seu relato, ora o chama como Otávio (principalmente quando trata de sua descendência), ora como Augusto ou César. Tais nomeações variam de acordo com o período sobre o qual o autor relata e a posição social e política ocupada pelo personagem neste mesmo recorte temporal.
Em Plutarco, a primeira menção sobre Augusto ocorre logo após a descrição do assassinato de César, quando nos informa a respeito das perseguições dos assassinos. Entre os perseguidores, encontra-se o jovem César (PLUTARCO, César LXVII, 5). Ao fazer uso dessa denominação, Plutarco já especifica dois pontos. Primeiramente, já alude ao fato de Otávio ter sido adotado por César, colocando-o como seu herdeiro. Além disso, também destaca a posição política que futuramente será ocupada por este jovem, a de César, a qual, para além de nome, será usado também como um título ligado ao Império.
É também em meio a sua biografia de César que Suetônio se refere, pela primeira vez, a Augusto. Trata-se da ocasião da abertura do último testamento de César, onde este instituía seus herdeiros, assim como a divisão de seus bens. Nas linhas de Suetônio:
Mas no último testamento, instituiu herdeiros três netos de suas irmãs, Caio Otávio, em três quartos, Lúcio Pinário e Quinto Pédio, na quarta parte restante; na parte final do testamento adotou Caio
1 Seria por volta de 63 a.C., período em que Cícero é eleito cônsul pela primeira vez (MANZANO,
Otávio e lhe deu seu nome, tendo nomeado tutores dos filhos que lhe viessem a nascer a maior parte dos que o apunhalaram; entre os herdeiros de segundo lugar estava até mesmo Décimo Bruto. Legou ao povo, coletivamente, os jardins do Tibre, e trezentos sestércios por pessoa. (SUETÔNIO, O Divino Júlio LXXXIII, 3-4)
Suetônio, diferente de Plutarco, adota, a princípio, o nome Otávio ao tratar da juventude deste romano. Posteriormente no relato suetoniano, o jovem será tratado por sua titulação religiosa, ou seja, por Augusto.
Assim como os outros autores, Patérculo não deixa de citar a adoção do jovem cidadão romano por César, aspecto este que será de grande importância na nova configuração da sociedade romana. Nas palavras desse autor: “Depois, se abriu o testamento de César onde este adotava Caio Otávio, neto de sua irmã Júlia.” (VELÉIO PATÉRCULO, História Romana II, 59). Logo, encontramos aqui um novo ponto de concordância entre nossos autores: todos concordam que Otávio, ainda jovem, foi adotado por César, com quem possuía, inclusive, laços consanguíneos. A partir desse ponto, os autores aproximam as questões positivas de Otaviano a Júlio César, separando-o, por conseguinte, dos vícios de Marco Antônio.
Sobre a genealogia de Augusto2, Veléio e Suetônio são os que nos dão as maiores informações. De acordo com o escritor militar, a descendência do jovem herdeiro de César é, de certa forma, simples, porém honrosa, como podemos perceber no excerto abaixo:
Seu pai, Caio Otávio, descendia de uma família que, embora não fosse patrícia, era muito ilustre dentro da ordem dos eqüestres; um homem severo, irrepreensível, honrado e rico. Obteve em primeiro lugar a pretura junto com homens muito notáveis, depois que sua dignidade o tornou merecedor do casamento com Átia, a filha de Júlia, terminou essa magistratura, dirigindo-se a Macedônia, onde foi nomeado general; porém, em sua volta a Roma para apresentar sua candidatura ao consulado, morreu, deixando um filho de quatro anos. (VELÉIO PATÉRCULO, História Romana II, 59).
Notamos que Patérculo parece denotar muita importância ao fato de Otaviano apresentar ligação com a ordem equestre. Aqui, ao contrário do que faz quando trata de César (História Romana II, 41), o autor não menciona nenhuma origem divina
para este personagem, mesmo este sendo pertencedor da família do Iulis3. Segundo
Préneron (1992, p. 107), esta característa da obra velleiana está relacionada com a posição que o próprio autor ocupa dentro da sociedade romana. Ou seja, como pertencente ao grupo dos equestres, aparenta grande satisfação ao destacar que um dos filhos de seus membros chegou ao mais alto cargo dentro do Império, tornou-se Imperador. Com este ponto, concordamos, uma vez que enxergamos o discurso como fruto da subjetividade de seu autor.
Já Suetônio aborda a descendência de Augusto através de outros viés. Este autor menciona a constituição das famílias dos Otávios desde os primórdios de Roma. Para ele, muitos são os vestígios que levam a crer que a família Otávia foi uma das primeiras de Velitras4. Em suas palavras:
Muitas evidências comprovam que a família Otávia foi, outrora, a primeira de Velitras. De fato, o bairro localizado na parte mais populosa da cidade já muito era chamado de Otávio, e aí se erguia um altar consagrado a Otávio, que fora general em guerra contra povos vizinhos (SUETÔNIO, O Divino Augusto I, 1)
Suetônio, por conseguinte, também nos fala a respeito da posição social ocupada pela família otaviana desde seus primóridios: “ Essa família foi, em meio às de segunda posição, admitidas pelo rei Tarquinío Prisco5 ao senado e em seguida transferida ao estatuto patrício por Sérvio Túlio6(...)” (SUETÔNIO, O Divino Augusto
II ,1-2).
Suetônio ainda cita que, após muitos anos, a família Otávia agrega-se a plebe novamente, só retomando seu status de patrício através do intermédio de Júlio César (SUETÔNIO, O Divino Augusto II,3). O desempenho de cargos e magistraturas por parte dos ancestrais de Augusto também é bastante citado na obra suetoniana. O autor relata desde os antepassados mais longícuos, que desempenharam importantes funções junto a Roma, até os bisavôs e avôs paternos de Otávio (SUETÔNIO, O Divino Augusto II, 3-5).
3 Como ressaltamos no Terceiro Capítulo dessa Dissertação, Veléio destaca que os Júlios
descendiam de Ânquises e Vênus, sendo o primeiro um herói, e a segunda uma deusa (História Romana II, 41).
4 Cidade dos Volscos, povo que, como os latinos também habitavam o Lácio antigo. Velitras
localizava-se a sudeste de Roma.
5 Tarquínio Prisco, de acordo com a cronologia de Tito Lívio, foi o quinto rei de Roma, durante os
anos de 616 a 578 a.C..
Neste ponto, é interessante notarmos a alusão que o autor faz a respeito da descedência de Augusto e a utilização desta para zombarias por parte de Marco Antônio. De acordo com suas descrições, poucas são as informações que ele pode coletar a respeito do avô paterno de Augusto. Este, em relatos de outras pessoas, teria sido um homem bem afortunado, que envelheceu tranquilamente enquanto se ocupava com a administração de uma região. No entanto, Suetônio cita que este descendente de Augusto é muito utilizado em chacotas proferidas por Antônio. Em suas linhas biográficas:
Seu avô envelheceu muito tranquilamente, com um patrimônio abundante e satisfeito com o governo do município. Isso, porém, outros disseram: o próprio Augusto nada mais escreve que ter nascido numa família equestre e rica, e na qual o primeiro senador foi seu pai. Marco Antônio lança-lhe ao rosto um bisavô liberto, cordoeiro do território de Túrio7, e um bisavô banqueiro. Nada mais
pude descobrir sobre os ancestrais paternos de Augusto. (SUETÔNIO, O Divino Augusto I, 4-5.)
Neste momento, de acordo com o relato suetoniano, o fato de Antônio chamar Augusto de Túrio possui o propósito de denegrir, de certa forma, sua imagem. Contudo, o impasse é deixado no ar, uma vez que, como o próprio autor ressalva, sobre este homem, até mesmo Augusto pouco fala.
O próximo passo da narrativa suetoniana é ater-se ao pai de Augusto. Em suas próprias palavras:
Seu pai, Caio Otávio, desde a juventude gozou de grande riqueza e prestígio, de modo que certamente me admira sabê-lo arrolado por alguns como banqueiro ou ainda entre os agentes e cabos eleitorais; de fato, criado em meio à opulência, obteve magistratura com facilidade e exerceu-as com distinção. Ao deixar o cargo de pretor coube a ele, por um sorteio, a província da Macedônia e, no caminho, destruiu os fugitivos que ocupavam o território de Túrio, bando restante de Espártaco e de Catilina, em uma missão extraordinária confiada a ele pelo Senado. Governou a província com não menos justiça do que firmeza, pois, desbaratados os bessos e trácios numa grande batalha, de tal modo tratou os aliados, que ainda restam cartas de Cícero nas quais ele exorta e aconselha o irmão Quinto, que na mesma época desempenhava o proconsulado da Ásia gozando de reputação pouco favorável, a imitar seu próprio vizinho, Otávio, a fim de granjear aliados. (SUETÔNIO, O Divino Augusto II, 1-3)
Assim como Patérculo, Suetônio também demonstra o pai de Augusto, Caio Otávio, como um homem dotado de muitas qualidades, distinto, corajoso e justo, que desempenhou inúmeras funções em meio a sociedade romana, chegando a, inclusive, tornar-se senador (SUETÔNIO, O Divino Augusto II,4)
É, ainda de acordo com Suetônio, no retorno a Roma, quando ia candidatar- se ao consulado, que o pai Caio Otávio veio a falecer de forma repentina. Nesse ponto, possuímos mais uma informação que não nos é passada por Veléio nem por Plutarco. Suetônio nos diz que, antes de se casar com Átia, mãe de Augusto, o pai do futuro governante contraiu casamento com Ancária, com quem gerou Otávia Maior. Assim, ao falecer, não deixava apenas Augusto e Otávia, mas também uma meia irmã, Otávia Maior (SUETÔNIO, O Divino Augusto IV, 1).
A respeito de Átia, Suetônio igualmente aborda. Segundo ele, esta era filha de Marco Átio Balbo, descendente de muitos senadores e parente de Pompeu, com Júlia, irmã de Júlio César, como podemos notar no treco de sua obra arrolado abaixo:
Àtia foi gerada por Marco Átio Balbo e por Júlia, irmã de Caio César. Balbo, um aricínio8 pelo lado paterno, com muitas figuras senatoriais
na família, era, pelo lado materno, parente muito próximo de Pompeu, o Grande e, tendo exercido o cargo da pretura, dividiu, integrando a comição dos vigintíviros, o território da Campânia entre a pleble de acordo com a lei Júlia9. (SUETÔNIO, O Divino Augusto
IV, 2)
Notamos assim, novamente, que Suetônio cita uma genealogia, de certa forma, nobre para seu biografado. Este mantinha relações de parentesco com importantes nomes da sociedade romana, tais como Pompeu Magno e Caio Júlio César. Todavia, mais uma vez na narrativa suetoniana, encontramos referências ao nome de Marco Antônio, o qual também se utiliza da imagem do avô materno de Augusto para lhe atribuir injúrias e desdenhos. Nas palavras do autor: “Entretanto, o mesmo Antônio, desdenhando também a linhagem materna de Augusto, lançou-lhe ao rosto que seu avô era de origem africana e que havia possuídos comércios diversos em Arícia.” (O Divino Augusto IV, 2-3).
8 Arícia era uma cidade do Lácio, situada entre Velitras e Roma.
9 Como o próprio Suetônio relata em sua biografia de César (O Divino Júlio XX, 1-4), quando cônsul,
este dividiu e distribuiu terras da Campânia. Pela passagem da biografia de Augusto acima destacada, nota-se que seu avô materno foi parte integrante de uma comissão de vinte homens encarregados de proceder e fiscalizar a partilha destas terras.
No desenrolar das descrições suetonianas, o nascimento de Augusto é destacado. Da mesma forma que Veléio, Suetônio o insere em 63 a.C: “Augusto nasceu durante o consulado de Marco Túlio Cícero e Caio Antônio, nove dias antes das Calendas de outubro, pouco antes do nascer do sol, na região do Palatino próxima às Cabeças de Boi (...)” (SUETÔNIO, O Divino Augusto V, 1). Logo, Augusto teria nascido por volta do dia 24 de setembro, pela manhã. O local do nascimento e da criação durante sua juventude, para o autor supracitado, seria um lugar sagrado, onde apenas por extrema necessidade se poderia adentrar (SUETÔNIO, O Divino Augusto VI, 1-2). Tem-se aqui, a primeira das manifestações de origens divinas relacionadas a Augusto que podemos encontrar na obra suetoniana, origens divinas que também aparecem nas construções de nossos autores sobre César, mas não nas de Antônio.
O nascimento de Augusto, em um momento posterior da narrativa suetoniana, ainda é imbuído de novos ares de mistério e de manifestação dos deuses. Segundo o autor, vários foram os incidentes que se cercaram o nascimento daquele que viria a ser chamado de Augusto. Para o autor, tais manifestações são de origem divina e já evidenciavam o que se podia esperar daquele que nascia sua grandeza futura e sua sempre presente ventura (O Divino Augusto XCIV, 1). A origem divina também é muito destacada em César. Neste ponto, notamos mais uma aproximação entre Júlio César e Augusto realizada por Veléio, Plutarco e Suetônio.
É também o autor acima arrolado que nos fala a respeito de um outro cognome de Augusto, Turino, o qual poderia aludir tanto a origem de seus ancestrais, quanto ao sucesso de seu pai perante a contenção de escravos fugitivos dessa região (SUETÔNIO, O Divino Augusto VII, 1-2). Para o autor, ao perceber que esse cognome é utilizado por Antônio para desacreditá-lo, Augusto surpreende-se, pois para ele não lhe constituia em motivo de infâmia. (SUETÔNIO, O Divino
Augusto VII, 3).
Plutarco, por nós aqui pouco mencionado, pouco fala sobre os aspectos genealógicos daquele que, por inúmeras vezes, chama de César. Em detrimento de não possuirmos a suposta biografia de Augusto de sua autoria, as referências acerca da descendência daquele a quem chama de jovem César ficam restritas somente a esse ponto: era sobrinho neto de Caio Júlio César, quem o adotou e, por conseguinte, deu-lhe o nome de César (PLUTARCO, César LXVII). Em suas palavras: “Neste estado das coisas, o jovem César chegou a Roma. Ele era, como já
foi dito, filho de uma sobrinha do falecido César, a quem este deixou como herdeiro. Achava-se em Apolônia quando César foi morto.”’ (PLUTARCO, Antônio XVI, 1).
Contudo, mesmo em que tenhamos poucas linhas plutarqueanas sobre Augusto, notamos que, mesmo nestas, o autor não deixa de reforçar a aproximação de Júlio César com seu herdeiro, o futuro Augusto.
5.2.2 Aspectos físicos de Augusto
Sobre a constituição física de Augusto, Suetônio, novamente, é quem nos dá as maiores descrições. Em um momento posterior de sua obra, quando trata a respeito dos aspectos da personalidade, das virtudes e dos vícios do biografado, o autor menciona as características físicas constitutivas do futuro governante. Em suas palavras:
Desfrutou de rara beleza e foi bastante atraente ao longo de toda sua vida. Contudo, prescindiu de qualquer adorno e a tal ponto era descuidado com os cabelos que se prestava às pressas e ao mesmo tempo aos cuidados de vários barbeiros, e raspava ou aparava a barba enquanto lia ou mesmo escrevia algo. Tinha as feições tão tranqüilas e serenas quando falava ou se calava, que um dos nobres gauleses declarou aos companheiros ter sido de tal modo inibido e abalado por sua presença que, ao ter-se aproximado dele a pretexto de conversar, não o lançou de um precipício durante a travessia dos Alpes como determinara a fazer. Tinha os olhos claros e brilhantes: chegava mesmo a desejar que se julgasse haver neles uma espécie de força divina, e alegrava-se caso, a alguém que o olhasse mais fixamente, fizesse baixar o rosto como que diante do brilho do sol. (SUETÔNIO, O Divino Augusto LXXXIX, 1-3).
Notamos aqui um ponto de diferenciação entre César e Augusto10. O primeiro,
como o mesmo autor nos diz, aparentava ser mais cuidadoso com os cuidados corporais, apresentando meticulosidade desde o corte de cabelo até a forma de se vestir. Como já destacamos, em nossa visão, ao relatar tais cuidados com o corpo físico de César, Suetônio nos passa uma velada crítica11, ao contrário do que faz
quando trata das mesmas questões pertencentes a Augusto. Aqui, o autor destaca
10 Não podemos deixar de notar certa diferença, igualmente, entre os aspectos que Suetônio relata
em Augusto e as descrições de Plutarco sobre Antônio. O autor beociano descreve seu biografado como um homem bonito e vaidoso, que de tudo fazia para mostrar seu corpo e, desta maneira, ser comparado a Hércules, de quem dizia descender.
11 Sobre tal característica da obra suetoniana, discutimos no Terceiro Capítulo, na seção aspectos
que o governante era belo por natureza, de uma forma que encantava e, até mesmo, ludibriava as pessoas. Contudo, nada fazia para manter-se belo, não sendo, desta forma, vaidoso. Seus cuidados com os tratos corporais, de acordo com a narração suetoniana, eram poucos e chegam a ser, até mesmo, questionados pelo autor.
As descrições sobre os traços de Augusto ainda continuam nesta parte da obra de Suetônio. O autor também ressalva que este era de estatura baixa, a qual era compensada pela proporção de seus membros, de pele que variava entre morena e clara, de cabelos levemente anelados e alourados, dentes pequenos e desiguais, orelhas de tamanho mediano, sobrancelhas unidas e nariz sobressalente na parte de cima (O Divino Augusto LXXXIX, 4-5). Fala-nos ainda que: “Diz-se que seu corpo era marcado com sinais de nascença dispersos pelo peito e pelo abdômen, dispostos, quanto à forma, ordem e número, como as estrelas da Ursa Celeste (...).” (O Divino Augusto LXXX, 1). Até mesmo no corpo, possuía marcas que o ligavam a questões divinas e celestes.
Porém, o mesmo Augusto também é narrado com algumas fraquezas físicas, tais como pouca força no lado esquerdo do corpo o que fez com que, durante os meados de sua vida, passasse a mancar e a utilizar-se de certos artifícios que lhe permitissem andar e sustentar tal parte do corpo (O Divino Augusto LXXX, 2).
Suetônio igualmente aborda algumas das doenças que vitimaram seu biografado ao longo da vida. Segundo o autor, Augusto padecia anualmente, de acordo com as estações, de alguns males, tais como constipações e inflamações intestinais. Tais doenças faziam com que Augusto adotasse, nesses períodos,