Este trabalho teve por objetivo a construção de um glossário dos neologismos registrados na obra Urupês de Monteiro Lobato. Nossa intenção foi demonstrar que as novas criações lexicais literárias atendem não somente às necessidades expressivas do autor, mas também contribuem para o enriquecimento vocabular de nossa língua.
Importa ressaltar que, para o exame do léxico lobatiano, entendemos que foi relevante dedicar um capítulo sobre a vida e obra de Monteiro Lobato, pois acreditamos que, em se tratando de um corpus literário, seria um exercício difícil pesquisar os recursos lingüísticos, dentre eles o neológico, sem nos atermos também à figura do autor. Este capítulo, embora não constitua o foco principal deste estudo, permitiu-nos também situar o leitor em um período da sociedade brasileira, bem como sublinhar a importância da atuação de Monteiro Lobato no campo literário brasileiro.
Desse modo, consideramos que o capítulo proposto, além de proporcionar ao leitor um melhor entendimento sobre o autor e sua produção artística, trouxe algumas informações que puderam subsidiar a análise do corpus.
Já a fundamentação teórica de nossa pesquisa forneceu contribuições para a discussão do tema e, para isto, apresentamos as reflexões teóricas de autores, como: Dubois (1971), Guilbert (1975), Boulanger (1979-1990), Barbosa (1981-1991- 1995-2001), Haensch (1982), Riffaterre (1989), dentre outros.
Desta forma, circunscrevendo-se ao estudo dos neologismos na obra Urupês de Monteiro Lobato, podemos dizer que a pesquisa do vocabulário lobatiano, focalizada no quarto capítulo, evidenciou um número significativo de inovações lexicais. Foram encontradas 38 palavras neológicas e as nossas análises sobre elas consistiram em demonstrar os possíveis sentidos contextuais destas palavras. Neste sentido, objetivando complementar os
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significados das palavras apresentadas como neológicas e, até mesmo, fornecer outras informações ao leitor de obras lobatianas, procuramos acrescentar as notas lingüísticas.
Podemos destacar que o processo mais freqüente encontrado no corpus foi o neologismo, proposto na teoria de Boulanger (1979), como formal. Assim, obtivemos 29 neologismos classificados como formais e apenas 9 neologismos classificados como semânticos. Dentre os neologismos formais, podemos verificar, ainda, que o processo de formação de palavras mais utilizado pelo autor foi o neologismo composto por derivação sufixal. Este resultado somente vem a contribuir para a nossa afirmação, exposta neste trabalho, de que os neologismos criados por derivação sufixal são os mais produtivos na Língua Portuguesa.
Os quadros, expostos antes das análises das palavras, mostram que Monteiro Lobato recorre às palavras já existentes na língua, mas, no contexto literário em que foram empregadas, elas apresentam semas diferentes daquelas já conhecidas pelo falante. O autor também busca no léxico português algumas bases lexicais para formar novas palavras ainda não empregadas na língua.
Assim, a dinâmica da produção neológica em Monteiro Lobato torna-se compreensível uma vez que este escritor constrói seus neologismos, sustentando-se no próprio sistema lingüístico de nossa língua, o qual propicia a capacidade de criar e recuperar novos signos lingüísticos. Isto demonstra, sem dúvida, a vitalidade do léxico português.
Face ao exposto, cabe-nos, agora, retomar as hipóteses apresentadas no primeiro capítulo, com a finalidade de demonstrar até que ponto revelam-se verdadeiras. Foi possível confirmar que a literatura lobatiana valoriza a criação lexical. É notável que o uso de neologismos, em sua obra, ora exprime as suas idéias, ora prima pela imaginação fértil do homem, demonstrando a necessidade de traduzir sua realidade. Diante disso, é importante que, em algumas palavras, como por exemplo: aliadismo (sistema de aliança entre grupos
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políticos), caboclocêntrico (esta palavra recupera, até mesmo, a imagem do caboclo no sertão e na literatura brasileira), azeitona (uma crítica às características do caboclo na literatura), ingramaticalissima (que traduz também a ignorância da gente da roça) entre outras, estas criações lexicais retomam, de certa forma, os aspectos da realidade do autor.
Por último, resta-nos esclarecer que a seleção neológica realizada pelo autor não contextualiza, necessariamente, na obra Urupês , o léxico interiorano, mas evidencia o interesse de Lobato em tornar a linguagem mais simples e descontraída, eliminando a retórica exagerada que prevalecia há muito tempo na literatura brasileira. Desse modo, na tentativa de alcançar este objetivo, acreditamos que Lobato utilizou-se de novas palavras a fim de romper com o lugar comum, convencional e instaurar o inusitado, além de enriquecer a nossa língua com informações inesperadas. Contudo, percebemos que a sua literatura, ainda que apresente uma linguagem clara, criativa e destinada a atender uma grande massa de leitores, não deixa de resgatar alguns aspectos lingüísticos conservadores em seus textos.
Os dados do corpus examinados na presente pesquisa demonstram a importância de se registrar estas engenhosidades neológicas buscadas, na literatura, pelos escritores. Estas análises revelam-se, ainda, como um auxílio aos leitores de obras lobatianas para melhor compreenderem a sua linguagem e o dinamismo da língua.
Assim, como todo trabalho, este também é passível de limitações. Por isso, não pretendemos com a conceituação destas palavras banir outras possibilidades de interpretação, haja vista também o grau de literariedade e de subjetividade.
Vale destacar que a análise neológica em Monteiro Lobato não se esgotou com o nosso trabalho. A necessidade de um recorte e seleção da obra Urupês para o trabalho científico, pode ter deixado de lado tantas outras interfaces com outras obras lobatianas. Colocar um ponto final, muitas vezes, é apenas uma vontade de continuar, rever ou mesmo estimular outros estudiosos interessados pelo tema.
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