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O processo de criação de sindicatos rurais no Paraná foi galvanizado pela presença do Partido Comunista Brasileiro na região131. Em 1946,

representantes dos comitês do PCB inclusos os de Londrina e Jaguapitã, no Paraná, e os de Assis e Presidente Prudente, em São Paulo, iniciam suas primeiras incursões as áreas dos conflitos fundiários na região de Porecatu, entre estes o advogado Flávio Ribeiro, o principal figurante no processo nº. 6094/56 instaurado em Londrina dez anos depois, no ano de 1956. Flávio Ribeiro já havia sido alvo de outro processo em 1951132, do qual fora absolvido apenas em 1955 e que fora objeto de pesquisa da historiadora Sônia Adum133, através da qual retratou o processo de constituição em 1945 do comitê de zona do PCB em Londrina, e a sua ação e representação no período imediatamente após o término do Estado Novo até o ano de 1956, onde iniciou-se o recorte temporal deste estudo.

Em novembro de 1948, o PCB ingressa efetivamente na região com o intuito de liderar o conflito armado que se acenava pela posse daquelas terras, cuja fase mais crítica dá-se do último trimestre de 1950, portanto imediatamente após a publicação do “Manifesto de Agosto” do PCB, a junho de 1951, quando as forças policiais do estado conseguem obter o controle da área, já sob o comando do governo de Bento Munhoz da Rocha, eleito pela coligação UDN-PR.

O “Manifesto de Agosto”, decorrente de uma declaração de Luis Carlos Prestes em 1º de Agosto de 1950, representou uma radicalização do PCB à esquerda em resposta à cassação do registro do partido em 1947 e da repressão sistemática do Governo Dutra pelos sucessos eleitorais que o PCB granjeara no pleito de dezembro de 1945; há que se considerar também a polarização que a “guerra fria” vinha produzindo no cenário das relações internacionais. Contudo, no seu IV Congresso, realizado em novembro de 1954, o partido arrefece suas posições incorporando estratégias reformistas mais moderadas e imediatas. 134

131 A presença dos comunistas em entidades de trabalhadores rurais teria tido sua primeira experiência em um

congresso de Colonos e Assalariados Agrícolas realizado em Ribeirão Preto no ano de 1930, quando teria sido fundado um Sindicato de Trabalhadores e Colonos. Congresso dos Operários Agrícolas de Ribeirão Preto. In: CARONE, Edgard. O PCB: 1922-1943. São Paulo: DIFEL, 1982. p.348-350.

132 Processo-crime nº 109/51. 2ª Vara Criminal do Fórum da Comarca de Londrina. Investigações das atividades

comunistas no norte do Paraná. Anos de 51/55. 4 v.

133 ADUM, 2002.

Ilustração 1 - Selos comemorativos do IV Congresso do PCB em 1954. No selo da esquerda temos a figura de Luis Carlos Prestes, trazendo em seu ombro direito a foice e o martelo sobre um ramo de louro; no selo central temos novamente Luis Carlos Prestes, agora como cavaleiro da esperança, na “Coluna Prestes” da década de 1920, denotando o personalismo em torno da sua figura. No selo à direita, de maior valor, temos (da esquerda para a direita) Marx, Engels, Lênin e Stálin. Estes selo eram vendidos como meio de arrecadar fundos para o Partido. Fonte: Processo-crime nº 135/64. Londrina, UEL/CDPH.

De todo modo, Luis Carlos Prestes declara a necessidade da “luta direta pelo poder”, com a organização de uma ampla frente popular, que daria origem à Frente Democrática de Libertação Nacional (FDLN) e um programa que defendia entre seus nove pontos, um governo popular e democrático, a nacionalização das empresas imperialistas, a reforma agrária e a formação de um exército popular de libertação nacional.135

No que tange à relação entre o “Manifesto de Agosto” e a opção pela radicalização das formas de luta no campo, afirma Ângelo Priori:

Evidente que essa mudança radical da linha do partido não foi apenas conseqüência do processo de proscrição da vida legal do partido, da cassação dos seus parlamentares e da repressão crescente do governo Dutra. Havia uma articulação com a conjuntura internacional principalmente com a leitura realizada a partir da União Soviética. Devemos lembrar que em setembro de 1947, foi criado o Bureau Comunista de Informação (Cominform), que de certa forma, garante um relacionamento mais estreito entre o PCB e o PCUS. Como conseqüência, tanto O PCB como os partidos comunistas da América Latina vão substituir o ”reformismo de frente- popular” por uma ‘retórica revolucionária’. 136

O fato é que o partido apenas retomará sua atuação formal junto aos segmentos legais de representação dos trabalhadores (leiam-se sindicatos) quando da reformulação de suas linhas de ação em 1952, já sepultados os conflitos mais

135 CHILCOTE, 1982, p.107-108.

136 PRIORI, Ângelo A. A revolta camponesa de Porecatu. A luta pela defesa da terra camponesa e a atuação do

Partido Comunista Brasileiro (PCB) no campo (1942-1952). 2000. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista Assis, 2000. p.173.

ingentes do episódio de Porecatu. Após a supressão por Getúlio Vargas da exigência de atestado ideológico para os cargos de direção nos sindicatos, o Comitê Central (CC) do partido determinou que retornassem a este espaço político buscando ampliar o alcance das reivindicações trabalhistas, e forjar novas alianças com as demais forças sociais, como foi o caso do Partido Trabalhista Brasileiro, legenda onde se abrigou após 1954, para fins eleitorais; ainda em 1952, o partido reorganizara clandestinamente, como entidade de fachada, a Confederação de Trabalhadores do Brasil (CTB)137, fechada por Dutra em 1947, objetivando utiliza-la

como central operária, de onde planejara retomar suas atividades junto à direção dos sindicatos como em suas bases.138

Contudo, o PCB mantinha sua retórica revolucionária herdada do IV Congresso em 1954, confirmando muitas das teses do “Manifesto de Agosto” tais como a defesa da expropriação imediata das terras dos latifundiários e a distribuição aos camponeses sem-terra.

As lideranças nacionais do PCB procuravam atuar em estreita coordenação com o Comminform139, reproduzindo o esquematismo stalinista em suas “críticas”, “autocríticas” e “análises da realidade nacional”. Admitia, entretanto, a atuação na esfera sindical, em decorrência das demandas mais imediatas dos trabalhadores rurais, instrumentalizando o sindicato como uma estratégica “correia de transmissão” entre o Partido e as bases.

Como exemplo dessa posição ambígua, Luis Carlos Prestes aceitou apoiar Ademar de Barros nas eleições para o governo do Estado de São Paulo em 1946, e em fins de 1947, em troca da libertação de militantes presos, por liberdade de imprensa e de sua própria integridade, o que não o impediu de, no mesmo ano, celebrar acordo com Vargas contra a candidatura do vice de Ademar para o governo do Estado. 140

137 “Quando o MUT [Movimento Unificador dos Trabalhadores] foi declarado ilegal, os comunistas e os

funcionários do Ministério do Trabalho divergiram sobre a questão de formar uma confederação. No entanto [...] os sindicatos pró-comunistas e os que estavam nas mãos do PTB estabeleceram a CTB. A CTB teria existido legalmente por apenas seis meses no ano de 1947, chegando a aglutinar, segundo suas declarações, cerca de 200 sindicatos; o Ministério do Trabalho teria criado para contrapô-la a Confederação Nacional dos Trabalhadores (CNT)”. CHILCOTE, 1982, p.99 nota 21; p.222.

138 Ibid., p.110.

139 A Agência de Informação dos Partidos Comunistas (Comminform), criado em 1947 retomava a política

centralizadora da extinta Internacional Comunista, fortemente influenciada pelo PCUS e pelo Stalinismo. CHILCOTE, op cit., p.137.

Esta combinação entre esquematismo analítico e pragmatismo político permitiu que o partido de Prestes apoiasse também a coligação entre o PTB e o PSD para a candidatura de Juscelino Kubitschek nas eleições de 1955, cuja vitória significara um suposto compromisso de tolerância de JK à atuação do PCB. Esta composição permitiu o fenômeno do grande movimento de sindicalização desses trabalhadores, em função da luta pela extensão da legislação trabalhista para a categoria, que já vinha se organizando em associações locais de trabalhadores rurais.

A primeira “Liga camponesa” brasileira teria surgido em 1944 no Norte do Paraná, sendo que, segundo PRIORI, as ligas eram em verdade mais comumente denominada por “Associação de Trabalhadores Rurais” ou “Associação de Lavradores” 141 voltadas à legalização da posse da terra.

Em janeiro de 1956, ocorre a fundação do Sindicato dos Colonos e Assalariados Agrícolas de Londrina pelo advogado Flávio Ribeiro e outros militantes do PCB, o que incitará a reação dos fazendeiros contra o seu reconhecimento e dará origem ao processo-crime com o objetivo de evitar a legalização do sindicato e coibir o movimento dos trabalhadores rurais.

Como já mencionado anteriormente, a constituição de sindicatos legais no meio rural sofria severas restrições e provocava imediata reação dos proprietários rurais, de modo que entre 1955 e 1957, apenas um sindicato conseguiu obter reconhecimento oficial escudado no D.L. 7.038, chegando ao número de oito sindicatos rurais em todo o país até 1960, situação que só se modificaria em 1962, quando a expedição das Portarias 209-A/25 e 355-A/20.11.62 permitiram o reconhecimento imediato de 100 sindicatos de trabalhadores rurais.142

Com a assunção dos plenos poderes da presidência da república por João Goulart143, em janeiro de 1963, a legislação sindical para a constituição e

reconhecimento dos sindicatos de trabalhadores rurais foi dilatada e aplicada com a

141 PRIORI, 2000, p.213, nota 19.

142 FÜCHTNER, Hans. Os sindicatos brasileiros de trabalhadores: organização e função política. Rio de

Janeiro: Graal, 1980. p.116.

143 Após a renúncia de Jânio Quadros em 25 agosto de 1961, João Goulart foi empossado e governou desde 07 de

setembro de 1961, sob a forma parlamentarista, até 06 de janeiro de 1963, quando um plebiscito decidiu por larga margem a volta ao sistema presidencialista (9.457.488 votos contra 2.073.582). Ver JOÃO Goulart. In: ABREU, Alzira Alves de et al (Coord). Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós 1930. 2.ed..Rio de Janeiro: Editora FGV, CPDOC, 2001.v.3, p.2610-2629.

Lei 4214/63 e o Estatuto do Trabalhador Rural (ETR), recrudescendo vivamente a questão agrária e colocando-a de forma ostensiva na agenda política do governo.

Com o advento do golpe de abril, o PCB e a sua influência nos meios sindicais foram suprimidos radicalmente, mediante medidas repressivas, pois o partido era considerado ilegal, passando a direção da grande maioria dos sindicatos para a interventoria do Ministério do Trabalho e Previdência Social, que delegara à Igreja Católica a função de velar pelos interesses dos trabalhadores rurais nas vicissitudes de suas relações com os fazendeiros.

Em Londrina e região, já nos primeiros dias de governo militar, houve uma série de arrombamentos e a intervenção em diversos sindicatos, 144

instaurando-se inquéritos e processos contra vários sindicalistas, entre eles o líder e advogado do Sindicato dos Colonos e Assalariados Agrícolas de Londrina, Manoel Silva, militante do PCB, acusado de prática de subversão e enquadrado na Lei de Segurança Nacional nº 1802/53, em processo que será analisado detalhadamente no terceiro capítulo, quando então procedeu-se à comparação entre os processos com o objetivo de analisar as suas similitudes e diferenças quanto às práticas de contenção do movimento sindical rural na região, em direção àquilo que Paulo Sérgio Pinheiro, inspirado por Guillermo O’Donnel, denominou autoritarismo socialmente implantado, como formas diferenciadas e arraigadas de violência para além do regime político strictu sensu, e que estariam entranhadas em toda urdidura da sociedade:

No caso brasileiro predomina o que se poderia chamar de um ‘autoritarismo socialmente existente’ que precede e ultrapassa os regimes políticos autoritários e independe da periodização da história política [...] Parece estar inscrito numa grande continuidade autoritária que marca a sociedade brasileira (e sua ‘cultura política’) diretamente dependente dos sistemas de hierarquia implantados pelas classes dominantes e reproduzidos regularmente com o apoio dos instrumentos de opressão, da criminalização da oposição política e do controle ideológico sobre a maioria da população.145

144 LÍDER Sindical advertido. Folha de Londrina, Londrina, 02 abr. 1964. p.4. NA VIA pública móveis e

arquivos de Sindicato em Astorga. Folha de Londrina, Londrina, 03 abr. 1964. p.5. ARROMBADO na madrugada o escritório de conhecido advogado e líder sindicalista; Folha de Londrina, Londrina, 04 abr. 1964. p.5. POLÍCIA de Londrina fecha sindicatos de trabalhadores. Folha de Londrina, Londrina, 04 abril.1964. p.4. ARROMBADO pela segunda vez e agora também assaltado o escritório de Manoel Silva. Folha de Londrina, Londrina, 16 abr. 1964. p.5. INTERVENÇÃO nos sindicatos. Folha de Londrina, Londrina, 18 abr.1964. p.6.

145 PINHEIRO, Paulo Sérgio. Autoritarismo e transição. Revista da USP: Dossiê Violência, São Paulo, n.9, p.55,

De fato, para regimes de transição no Brasil, constituiu-se um desafio afirmar-se como anátema, desconstruindo as representações de violência do regime anterior, e tendo de exercer o monopólio da violência dentro das regras da legalidade, pois tratou-se de sustentar a credibilidade do próprio discurso sobre o jogo de forças democrático.

Contudo, a relação entre legal/ilegal não se dá apenas no âmbito da aplicação ou não da lei, mas em todo entorno social que sustenta aquele conjunto de regras materiais já normalizadas nos códigos jurídicos; ou seja, há uma interação no plano das práticas entre o direito normalizado e o direito normalizador, o qual deriva por sua vez da complexa trama entre a esfera da norma, entendida aqui como a tessitura de medidas comuns que atravessam todas as relações sociais, e que informa a aplicação estrita ou dilatada do código consignado na lei por parte do judiciário.

Em contrapartida, é necessário observar que, embora o judiciário mantenha o status de instituição autorizada que versa sobre o verdadeiro e o falso, os indivíduos não sofrem passivamente a sua ação; pelo contrário, em maior ou menor grau, buscam, senão participar diretamente do jogo estratégico no campo jurídico, reservado aos iniciados, impor formas de resistência e manipulá-lo favoravelmente aos seus interesses, justos ou injustos, de acordo com a lógica consuetudinária daquela conjuntura histórica. Em extremo, a população eventualmente chama para si os atos de justiça, escapando aos tribunais a legitimidade de exercê-la. O Estado, por seu turno, recorre ao dispositivo jurídico, sempre que se sente ameaçado ante a sedição do povo. 146

É nesse sentido que pretendeu-se demonstrar que no caso do período democrático compreendido entre o Estado Novo e o Golpe de 1964, o governo de Juscelino Kubitschek manteve estruturas tradicionais de dominação e poder, e em particular as práticas judiciárias utilizadas pelos governos autoritários, como no caso em questão, objetivando coibir a criminalidade política a partir da Lei de Segurança Nacional, como forma de manter intocadas as relações de força pré- existentes na cidade de Londrina, assinalando o fato que a percepção que se construiu do delito político nos autos, fora produto das representações não só do judiciário, mas dos fazendeiros, jornalistas, comerciantes, profissionais liberais,

professores, clérigos, e de toda a população por onde circulam os discursos do certo e do errado, no normal e do anormal, do legal e do ilegal.

Crê-se ser nesse sentido que Michel Foucault afirma que o poder não é algo que possa ser dividido entre aqueles que o possuem e aqueles ao qual são submetidos e não pode ser apropriado como um bem147, pelo contrário, “nas

suas malhas os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão”. 148

Com efeito, é nessa direção que a análise comparativa dos autos foi empreendida procurando verificar, como sugerido por Foucault, quais as estratégias discursivas dos poderes instituídos e práticas de subjetivação específicas utilizadas através do dispositivo jurídico, para coibir a atuação do sindicato e dos trabalhadores rurais em Londrina, durante o regime que se denominou de democracia, e em que medida a instauração do governo dos militares no Brasil em 1964, representou um regime discursivo diferenciado de atuação do judiciário local contra a “criminalidade política” dos setores de oposição.

147 FOUCAULT, 1998, p.103. 148 Ibid.

2 A criminalização da política