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3.2. Cinsiyetler

3.2.1. Kadın

A instauração dos dois processos que constituem as fontes primárias deste estudo remete a dois “acontecimentos” distintos aos quais buscamos inteligir. O primeiro, no plano das práticas relativas aos conflitos pela consolidação de um determinado modelo fundiário e de representação política na região denominada Norte Novo do Paraná, localizada na porção central do setentrião paranaense. O segundo, no plano discursivo dos processos, quando se estabeleceu o locus jurídico como arena do confronto pela condenação ou absolvição dos réus.

Há, contudo, um terceiro “acontecimento” o qual deve-se considerar que é o tempo da intriga narrativa à qual procedeu-se neste momento. Para Paul Ricoeur, este terceiro tempo, o tempo histórico, é quando se realiza a mediação entre os tempos da natureza e o da consciência que, em princípio, estavam separados. O tempo histórico opera essa mediação não apenas como tempo do vivido, mas como “discurso”, como imitação narrativa desse vivido. 49 Pois “o tempo

torna-se tempo humano na medida em que está articulado de modo narrativo, em compensação, a narrativa é significativa na medida em que esboça os traços da experiência temporal”. 50

É na narrativa que se “inventa” uma intriga que é também ela uma

síntese: a tensão e a composição entre as virtudes e os vícios dos indivíduos, o altruísmo ou vileza de seus objetivos, as possíveis causas e acasos e os eventos múltiplos e dispersos são todos dispostos sob a unidade temporal de uma ação total e acabada, já que não é possível descrever uma realidade que é inacessível à descrição direta. 51 Como afirma Ricoeur, as intrigas inventadas constituem o meio privilegiado pelo qual reconfiguramos nossa experiência temporal confusa, informe e, no limite, muda [...]. 52

É nesse sentido que, dentro da perspectiva foucaultiana de análise, procurou-se estabelecer uma genealogia que reconheça a dispersão dos

49 RICOEUR, P. Temps e récits. apud REIS, José Carlos. Tempo, história e evasão. Campinas: Papirus, 1994.

p.78.

50 RICOUER, P. Tempo e narrativa. Campinas: Papirus, 1994. Tomo 1. p.15.. 51 Ibid., p.10.

acontecimentos (FOUCAULT, 1979, P.21), demonstrando que existe uma descontinuidade entre o “objeto” e a palavra que o nomeia, que o conceito de crime político não constitui, desde sempre, um mesmo problema, pelo contrário, ele é produto de dispositivos historicamente forjados, de modo que devemos nos interrogar de quais relações de saber-poder é produzido.

O dispositivo em questão para este estudo é o judiciário, através do inquérito policial e do processo criminal, que atuam como mecanismos de produção de um “caso”, que, uma vez desencadeado, passa a produzir um campo documentário que visa capturar e fixar a “superfície social” de um indivíduo, colocando-o em relação comparativa com o sujeito transcendental da personalidade sócio-jurídica, sendo então classificado e objetivado.

Os arquivos passam a constituir assim uma urdidura de mecanismos políticos e de efeitos de discurso (FOUCAULT, 2002, P.211) com o fito de produzir uma tecnologia que permita não apenas desmontar as estratégias do agir, mas a própria subjetividade do indivíduo, não como forma de manipular e controlar, mas de transformar e, se necessário, destruir a própria estrutura egóica e/ou física do sujeito.

Desse modo, nesse primeiro capítulo, aborda-se alguns elementos pertencentes ao plano do primeiro “acontecimento”, de práticas cujos desdobramentos produziram a quebra da lei e da norma que deram origem ao segundo acontecimento, a instauração dos processos.

A constatação inicial informa a existência de uma “economia da dominação” disposta de modo diverso nos dois períodos referidos nessa pesquisa, mas que não estão em relação de oposição e também não estão vinculadas diretamente ao tipo de regime político comumente denominado e periodizado pela historiografia como democrático (1945-1964) e autoritário (1964-1985).

Cabe esclarecer que a conceitualização e problematização desses regimes fogem ao escopo deste trabalho, na medida em que seu objetivo, mais restrito, foi realizar uma análise qualitativa dos processos crimes, visando precipuamente o confronto no plano jurídico entre forças políticas distintas, a partir dos campos discursivos atinentes aos processos.

Com efeito, o governo Juscelino Kubitschek foi caracterizado, senão por práticas repressivas dotadas do mesmo modus operandi utilizado durante o período dos governos autoritários, por diversas práticas normalizadoras pulverizadas

na imprensa, no judiciário, na polícia, cada qual a seu modo, operacionalizando seus processos de estabilização das contradições sociais decorrentes do modelo do liberalismo econômico vigente. Este modelo fora seriamente posto em questão pelo crack de 1929, onde a crença na economia política liberal, através de sua expressão retórica da auto-regulação de mercado, alçada à condição de “natural”, como algo que possui uma homeostase própria, fracassara estrondorosamente, dando ensejo durante o Estado Novo, a reforçar as práticas e representações daquilo que Otávio Velho denominou “capitalismo autoritário”53, vindo a transformar-se no saber que

regulou o repertório político dos anos cinqüenta: “segurança e desenvolvimento”. A noção de segurança neste momento refere-se, sobretudo à segurança do processo produtivo, a salvo tanto das ameaças dos abusos econômicos cometidos pelos detentores do capital (em tese) e das turbulências ocasionadas por males de qualquer ordem, sejam econômicos, políticos, biológicos, climáticos, etc.

Contudo, o peso da herança negativa do liberalismo econômico após 1929, refletiu-se no descrédito ao jurisdicismo liberal, reforçando as interpretações autoritárias sobre o tipo de regime mais adequado às particularidades brasileiras. De acordo com Luzia H. Herrmann, que estudou o problema da democracia e da institucionalização partidária em Londrina, Azevedo Amaral postulava que o surgimento do Estado Novo era uma necessidade, de modo que “um governo liberal no Brasil seria, fatalmente, o governo dos proprietários de terra”54: Para Amaral, “a classe dos proprietários rurais, tanto nas zonas da lavoura como nas regiões da pecuária, constituía o único grupo em condições de assumir a direção da sociedade”.55

Ainda que em uma perspectiva diferente, Sérgio Buarque de Holanda expressara de modo sintomático a descrença no discurso sobre o regime democrático: “a democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semi-feudal importou-a e tratou-a de acomodá-la , onde fosse possível, aos seus direitos e privilégios [...]”.56

53 VELHO, Otávio G. Capitalismo autoritário e campesinato. 2.ed. São Paulo: DIFEL, 1977.

54 OLIVEIRA, Luzia H. Hermmann. Democratização e Institucionalização Partidária: o processo político-

partidário no Paraná 1979-1990. Londrina, Pr: Ed. UEL, 1998. p.13.

55 AMARAL, Azevedo. O estado autoritário e a realidade nacional. Brasília: UNB, 1981. p.29. apud

OLIVEIRA, op cit., p.13.

56 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1995, p.160. apud OLIVEIRA,

Por fim, mesmo Gilberto Amado, democrata convicto, assinalava o espírito de rebanho que perpassava a política nacional no princípio do Estado Novo: “à extrema uniformidade de opiniões de políticas de massa, corresponde à extrema uniformidade de opiniões da elite e mostra que ainda somos um corpo amorfo onde o processo de diferenciação política ainda não começou”. 57

Fora esta fraca legitimidade democrática que atravessara os quinze anos do primeiro governo de Getúlio, desaguando no período conhecido como “interregno democrático”.