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3.3. Meslek Gurupları ve Zümreler

3.3.1.1. Fonetik (Sessel) Sanatlar

Do ponto de vista heurístico, os autos criminais e dossiês relacionados à criminalidade política constituem uma rica fonte histórica, pois ajudam a dimensionar o alcance efetivo do dito autoritarismo anticomunista na vida da cidade de Londrina; por eles pode-se vislumbrar um elemento fundamental nas estratégias de preservação da ordem estabelecida: a tentativa de domínio das representações discursivas sobre o mundo social e seus desdobramentos nas práticas políticas e coercitivas.

Contudo, conforme frisou Règine Robin 58, não se trata de conceber,

na relação do historiador com a linguagem, o discurso como elemento indiciário do comportamento político, como se houvesse uma relação de transparência entre o sujeito e a palavra e a cada grupo político correspondesse um léxico específico e estanque, desconsiderando as estratégias de conformação a determinadas contingências que estão atravessando determinados atos de enunciação; situação tanto mais específica na hermenêutica de processos-crime. Nesse sentido, não podemos deduzir o comportamento político diretamente das palavras utilizadas pelos interlocutores, com o que redundaríamos em uma dupla ingenuidade, lingüística e política, pressupondo um isomorfismo entre os conteúdos do discurso e do vivido59. No que tange ao alcance e utilidade dos estudos da linguagem na análise histórica, R. Robin informa que “A lingüística permite substituir o dado do texto por uma lógica

57 AMADO, Gilberto. Eleição e representação. Rio de Janeiro: Oficina Industrial Gráfica, 1931.p.210. apud

OLIVEIRA, 1998, p.13.

58 ROBIN, Régine. História e Lingüística. São Paulo: Cultrix, 1977. pp.44-46. 59 Ibid.

do texto. Serve apenas para revelar a economia interna de uma ideologia, em caso algum para estabelecer sua função social”, devendo esta estar articulada às suas condições sociais de produção.

Partimos da noção de que o teatro jurídico pressupõe um jogo de interpretações no plano da apropriação simbólica dos acontecimentos, ou como diria Michel de Certeau em “A invenção do Cotidiano” 60, uma ‘estética de lances’, uma

‘ética da tenacidade’, em certo paralelismo com a concepção de habitus discutida por Pierre Bourdieu61, a que Certeau propõe em um diapasão que capte os fluxos

contraditórios e fragmentários dos acontecimentos abordados em um processo criminal.

O fio condutor desta análise segue a proposição de que, conforme Mariza Corrêa62, há necessidade de um maior detalhamento da relação entre as estratégias e interesses dos atores envolvidos nas situações de prisão, inquérito policial e eventual abertura de processo, distinguindo os níveis de atuação da esfera policial e judiciária, e o seu comprometimento direto com a aplicação estrita ou dilatada de um código que servia de parâmetro para incluir ou excluir determinados sujeitos em certas categorias jurídicas.

Nesse sentido, os autos constituem conjuntos documentais importantes quanto ao desvelamento das práticas jurídicas e de resistência em face das contingências sócio-políticas do período proposto para análise, conforme sugerido no início deste capítulo e constatado por Bóris Fausto, em sua obra “Crimes e cotidiano: a criminalidade na cidade de São Paulo (1880-1924)“, verificando que,

[...] na sua materialidade, o processo penal como documento diz respeito a dois ‘acontecimentos’ diversos: aquele que produziu a quebra da norma legal e um outro que se instaura a partir da atuação do aparelho repressivo. Este último tem como móvel aparente reconstituir um acontecimento originário, com o objetivo de estabelecer a ‘verdade’ da qual resultará a punição ou absolvição de alguém [...] os autos traduzem a seu modo dois fatos: o crime e a batalha que se instaura para punir, graduar a pena ou absolver63.

60 CERTEAU, Michel de. A invenção do Cotidiano. Artes de Fazer. Petrópolis:Vozes, 1994. 61 BOURDIEU, Pierre. Economia das trocas simbólicas. Perspectiva, 1974.

62 CORRÊA, Marisa, In: PINHEIRO, Paulo Sérgio (Org). Crime, Violência e Poder. São Paulo: Brasiliense,

1983. p.216.

63 FAUSTO, Bóris. Crimes e cotidiano: a criminalidade na cidade de São Paulo (1880-1924). São Paulo:

Também Sidney Chalhoub, utilizando os processos-crime como fonte para apreensão das ações da polícia e do judiciário, e dos modos cotidianos de seus atores, entende que “o controle social [...] procura abarcar todas as esferas da vida, todas as situações possíveis do cotidiano: este controle se exerce desde a tentativa de normatizar ou regular as relações de amor e de família, passando, nos interstícios, pela vigilância e repressão contínuas dos aparatos jurídico e policial [...] O empreendimento do controle social no mundo capitalista, portanto, diz respeito à totalidade das relações sociais por definição”.64

No plano das possibilidades estratégicas do réu e da defesa ante ao aparato repressivo, o caminho da absolvição remetia a determinado ritual de assujeitamento, onde, nas palavras de Fausto

[...] é preciso, pois, falar, mas falar de modo conveniente, o que não significa apenas expressar verbalmente. O acusado deve construir uma imagem que se ajuste ao modelo de sua identidade social, ao temor reverencial devido à justiça. Isto se traduz não só pelas palavras, mas pelo gesto, pelo modo de sentar-se, de responder às perguntas, de colocar-se diante do corpo de jurados.65

No que tange à formação discursiva predominante no processo- crime, deve-se considerar que a presença do Estado enquanto entidade se estende para além dos procedimentos estruturantes do processo, e intervém de modo direto na produção da maior parte dos textos através dos agentes da justiça como os escrivões, peritos, delegados, promotores, advogados, juízes, procuradores e desembargadores, cujos papéis na dinâmica jurídica pressupõem uma competência social, enquanto representantes das instituições judiciárias, e técnica na medida em que são investidos da autoridade para interpretar e reconstruir textos. 66

Além da dessimetria entre a entidade estatal, detentora legal do monopólio da violência frente aos cidadãos desarmados, o estamento reveste-se das prerrogativas dos interesses e objetivos da Nação, enquanto o Uno simbólico que remete a sentimentos comunitários buscando produzir um apagamento do diferente, sobretudo em períodos de crises sistêmicas de amplo espectro, como verificamos no conturbado ano de 1956 e após, em abril de 1964, quando ocorreram

64 CHALHOUB, Sydnei. Trabalho, Lar e Botequim. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.101. 65 FAUSTO, 1984, p.25.

66 ROMUALDO, Edson Carlos. A Construção Polifônica das falas na Justiça: As vozes de um processo crime.

2002. Tese (Doutorado em Letras). Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2002. p.17.

os eventos que motivaram a abertura dos processos que constituem o nosso corpus documental.

Nesse sentido, considera-se que o uso do processo-crime como fonte histórica implica em reconhecer o caráter polifônico da sua composição.

Devido à pluralidade de procedimentos, pessoas e até áreas do saber envolvidas em sua elaboração, o processo caracteriza-se por ser polifônico. Tomando a narrativa processo como ponto de partida, consideramos que esta polifonia manifesta-se em dois níveis: o externo e o interno. O primeiro diz respeito à diversidade de peças juntadas durante a constituição do processo. Essas peças provêm de fontes diversas (médicas, policiais, jornalísticas, econômicas), o que colabora para a multiplicidade de vozes da narrativa processual. O segundo, refere-a a polifonia interna, própria da construção do processo e da elaboração de seus textos. Este segundo nível está imbricado com o primeiro, pois a organização do processo, devido ao axioma que o regula, supõe a juntada de peças diversas que, uma vez inseridas no corpo processual, passam a fazer parte do discurso jurídico. 67

Devemos também diferenciar a natureza inquisitorial do inquérito policial, onde não vigora o princípio do contraditório, desde que, juridicamente, não haja acusação, supostamente preservando a igualdade entre as partes no tocante aos direitos e obrigações 68 até a fase de instauração do processo, quando se objetiva produzir uma versão conclusiva dos fatos através da explicitação das contradições entre as partes litigantes, proferida pelo juiz, que é quem detém as prerrogativas para fazê-lo, mediante o cumprimento de todas as etapas presumidas do processo.

Tecnicamente, o inquérito policial é uma investigação sumária do fato, tendo o caráter de instrução provisória, servindo apenas para o Ministério Público apresentar a denúncia e iniciar a ação penal. 69 Em obediência ao princípio

do contraditório, a prova obtida em inquérito é excluída do conjunto de elementos de convicção sobre o qual o juiz fundamenta-se para produzir o seu convencimento e é

67 ROMUALDO, 2002, p.16.

68 "O contraditório se efetiva assegurando-se os seguintes elementos: a) o conhecimento da demanda por meio de

ato formal de citação; b) a oportunidade, em prazo razoável, de se contrariar o pedido inicial; c) a oportunidade de produzir prova e se manifestar sobre a prova produzida pelo adversário; d) a oportunidade de estar presente a todos os atos processuais orais, fazendo consignar as observações que desejar; e) a oportunidade de recorrer da decisão desfavorável." Conforme GRECO FILHO, Vicente. Direito processual civil brasileiro. 11.ed. São Paulo: Saraiva, 1996. v.2, p.90. Outra definição sucinta nos dá Giacolli “Tese e antítese, voz ativa e voz passiva, pedido e contrapedido, ataque e defesa, culpado ou inocente, igualdade de meios de acusar e de se defender. Isso é a essência do contraditório, cujo equilíbrio deve ser garantido pelo juiz”. GIACOLOLI. José Nereu. Juizados especiais criminais: Lei nº9.099/95. 2.ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2002. p.48.

69 FRAGOSO, Heleno Cláudio. Advocacia da liberdade: a defesa nos processos políticos. Rio de Janeiro:

por essa razão que sempre se exige a confirmação em juízo das declarações feitas no inquérito policial. 70

Esta divisão dos procedimentos dentro do processo criminal busca ensejar condições de verificação da lógica argumentativa das partes e sua sustentação em dois momentos distintos; por outro lado, permitem da parte do pesquisador verificar o viés interpretativo que os agentes da justiça imprimem aos textos:

Em obediência ao princípio constitucional do contraditório, as provas colhidas no inquérito policial devem ser renovadas no decorrer da instrução criminal. Este é o motivo pelo qual, para Aranha (1983), as testemunhas e vítimas novamente são ouvidas. [...] Assim, os depoentes falam em dois momentos distintos, o que permite ao promotor e aos advogados cotejar as declarações para produzirem seus textos. A tomada de depoimentos em contextos institucionais diferenciados causa uma multiplicação de textos e efeitos de sentidos no processo. A dupla tomada de depoimentos – na delegacia e no judiciário – traz à tona, entre outras questões, as interferências dos agentes da justiça nos depoimentos e as diferenças lingüístico-discursivas dos depoimentos, causadas pelos dois contextos enunciativos. 71

A transcrição nas tomadas de depoimentos orais constitui um outro momento de reconstrução dos sentidos expressos pelo depoente. Quando são reduzidos a termo pelo escrivão ou consignados pelo juiz, passando a integrar o processo sob o modo escrito, os depoimentos manifestam seu caráter eminentemente polifônico, na medida em que sofrem diversas interferências interpretativas e seletivas por parte dos agentes da justiça, dando lugar a uma outra situação enunciativa. 72

De acordo com os princípios jurídicos que norteam a formalização do inquérito, a tomada de depoimento não possuiria um caráter inquisitório, sendo um testemunho espontâneo, contudo, deve-se observar que o questionário tem um papel fundamental na construção da lógica implícita à produção dos depoimentos, precisamente por ser apagado. Nesse sentido, as perguntas são um fator decisivo no caráter intertextual e polifônico das narrativas no contexto processual. Segundo ALVES,

A tomada de depoimento é um tipo especial de inquérito, pois no termo das audiências não aparecem as perguntas feitas. Embora as perguntas orientem a construção tópica dos enunciados produzidos, somente as

70 FRAGOSO, 1984, p.151. 71 ROMUALDO, 2002, p.57-58. 72 Ibid., p.71

respostas são registradas no termo. Visto que a pergunta é um dos elementos concretos explicitadores das condições de enunciação, apagar a pergunta implica descaracterizar o evento como inquérito e omitir uma das condições de enunciação. 73

Com efeito, no âmbito da justiça, as prerrogativas de transposição da fala dos depoimentos para o texto são do juiz, que ordena seu escrito eliminando possíveis descontinuidades que apareçam eventualmente nos depoimentos feitos na delegacia e atuando diretamente na seleção e organização do que considere pertinente. Segundo Alves, no judiciário brasileiro, o procedimento de produção da prova testemunhal, diferentemente da maioria dos países, não admite o “registro literal do depoimento prestado”, ocorrendo no seu entendimento, “um complexo processo comunicativo”. 74 Desse modo,

A totalidade do depoimento prestado registra apenas o ‘essencial’ e tem por lei o dever de ser ‘fiel’ a tudo o que foi dito. Como autoridade principal, o juiz pode considerar uma inserção feita pela testemunha não essencial para o direcionamento dado ao depoimento e desprezá-la, o que contribui para a inexistência de inserções. 75

O ponto nodal da análise de Alves76 é precisamente que, no processo de transformação do depoimento oral em texto escrito, ocorre uma alteração não apenas quantitativa, mas qualitativa, ressignificando as falas na medida em que substitui o encadeamento descontínuo e menos elaborado, típico da oralidade, pelo léxico classificatório do sistema jurídico, dando lugar ao que Marisa Corrêa denominou “manipulação técnica”. O depoimento transcrito adquire também a propriedade de durabilidade e instrumento legal, para o qual retornam constantemente os agentes do processo, pelo recurso da paráfrase ou da citação. A citação por seu turno tenciona pelo recurso à utilização das aspas, estabelecer o “interior” e o “exterior” de uma formação discursiva, produzindo o que Authier-Revuz

77 denominou de “ilusão do sujeito”, quando, através do ato de “mostrar” o discurso

do outro, induz à subsunção de que todo o restante parte de si próprio:

73 ALVES,V.C.S.F. A decisão interpretativa da fala em depoimentos judiciais. 1992. Dissertação (Mestrado em

Lingüística) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1992, apud ROMUALDO, 2002, p.75.

74 ALVES, apud ROMUALDO, op cit., p.104-105. 75 Ibid.

76 Ibid., p.105, nota 18.

Nessa perspectiva, o escrivão, ao delimitar, pelo uso das aspas, determinadas palavras e expressões próprias da testemunha como exteriores ao resto do discurso, demonstra as interferências dos agentes da justiça nos depoimentos. As palavras aspeadas agem contra a ilusão da fidelidade pretendida pela justiça, pois a delimitação da voz da testemunha denuncia, também por denegação, que o restante do discurso não foi produzido somente por ela. 78

Esta constatação põe em xeque a perspectiva de “verdade” isenta e definitiva sobre os fatos na acepção positivista em que o discurso jurídico se sustenta para aplicar a lei. Há que se considerar assim que, na composição da narrativa, interagem vozes diversas, as quais sofrem, por sua vez, as injunções do contexto policial e judiciário e, ipso facto, do próprio historiador que as aborda e as traduz dentro da perspectiva subjetiva que adota quando assume a condição de narrador em um relato.