DÖRDÜNCÜ BÖLÜM
4.1. Gelişmişlik Düzey
Juntamente à construção dos dados, fomos procedendo aos exercícios de interpretação e análise, para cuja realização tomamos como referência, princípios da
Análise do Discurso, por compreendermos que as experiências vividas são internalizadas mediante processos de elaboração de sentidos e significados dos sujeitos, marcados pelos contextos histórico-sociais em que ocorrem e pelas condições materiais em que se encontram, sendo o discurso a materialidade dessa construção. Esses aspectos são destacados por Caragnato e Mutti (2006) quando afirmam que:
O processo de análise discursiva tem a pretensão de interrogar os sentidos estabelecidos em diversas formas de produção, que podem ser verbais ou não verbais, bastando que sua materialidade produza sentidos para interpretação; podem ser entrecruzadas com séries textuais (orais e escritas) ou imagens (fotografias) ou linguagem corporal (dança) (CARAGNATO; MUTTI, 2006, p. 680).
Este argumento é ampliado por Orlandi (2009) ao nos explicar que a Análise do Discurso trata do discurso e entende-o como palavra em movimento, ou efeito de sentidos entre os interlocutores, entendendo que numa pesquisa tanto o pesquisador/analista, como o sujeito, são mutuamente influenciados dentro das circunstâncias em que o discurso é construído. Nesse sentido, a análise discursiva tem a pretensão de interrogar os sentidos estabelecidos nas produções verbais ou não-verbais, desde que a materialidade dos discursos produza sentidos para a interpretação, considerando que o discurso se constitui da integração entre ideologia, história e linguagem.
Entender o discurso como produção de sentidos implica considerar o que Vygotsky (2009) define por sentido de uma palavra e sua relação com o significado.
O sentido de uma palavra é a soma de todos os fatos psicológicos que ela desperta que ela desperta em nossa consciência. Assim, o sentido é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. O significado é apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso e, ademais, uma zona mais estável, uniforme e exata. Como se sabe em contextos diferentes a palavra muda facilmente de sentido. (VYGOTSKY, 2009, p. 465).
Podemos dizer, então, que dependendo do contexto em que os sujeitos falam, as suas palavras podem apresentar sentidos diferentes. Mas, é justamente o significado construído social e culturalmente pelos sujeitos em suas interações que medeia o pensamento – os sentidos – sua constituição e expressão. Assim, para se
compreender/interpretar os sentidos emitidos pelo discurso do sujeito é preciso ter em vista o contexto em que este (se) enuncia, os motivos que o leva a dizer o que diz, da forma que diz, ou seja, o que existe além das palavras, além do texto.
Essa perspectiva de análise aproxima-se das concepções de linguagem como uma construção ideológica e histórica posta por Bakhtin (1998) que entende as palavras são tecidas por múltiplos fios ideológicos e estão em toda a parte servindo de trama em todas as relações sociais e por isso elas servem de indicadores de todas as transformações sociais. ―A palavra é capaz de registrar as fases transitórias mais íntimas, mais efêmeras das mudanças sociais‖ (BAKHTIN, 1998, p.41), ou seja, as palavras são a materialidade da consciência social e estão presentes em todos os atos de compreensão e de interpretação; como expressão- enunciação é produto das condições reais em que o discurso é construído, ou seja, pela situação social imediata. Assim, a posição social que os sujeitos ocupam no espaço social provoca efeitos de sentidos na produção dos discursos. Para o autor, a organização hierarquizada das relações sociais exerce influencia poderosa sobre as formas de enunciação.
A AD nos aponta, portanto, que a linguagem vai além do texto, que o discurso do sujeito não é de propriedade particular, mas sim um dizer resultante do que já foi dito em outras situações e que circula na sociedade afetando as situações discursivas em que se envolve. Isso contribui para que as palavras do sujeito tenham sentido, pois o dizer é uma construção histórica e ideológica que só tem significado se estiver relacionado com o que já foi dito e com as condições de produção em que é elaborado o discurso e não somente das intenções dos sujeitos. Como nos diz Orlandi:
Os dizeres não são, como dissemos, apenas mensagens a serem decodificadas. São efeitos de sentidos que são produzidos em condições determinadas e que estão de alguma forma presentes no modo como se diz, deixando vestígios que o analista de discurso tem de apreender. [...] Esses sentidos têm a ver com o que é dito ali, mas também em outros lugares, assim como com o que não é dito, e com o que poderia ser dito e não foi. (ORLANDI, 2009, p.30).
Corroborando com o proposto por Baktin (1998) a autora nos aponta que as relações de força são um dos fatores das condições de produção que constituem os discursos e que identificam o sujeito que fala, em que ―o lugar a partir do qual fala o
sujeito é constitutivo do que ele diz. Assim, se o sujeito fala a partir do lugar de professor, suas palavras significam de modo diferente do que se falasse do lugar do aluno‖. (ORLANDI, 2009, p.38).
Nesse sentido, compreendemos que o discurso das professoras que são sujeitos da nossa investigação sobre suas concepções e práticas, se produziu num contexto socioideológico e histórico em que exercem suas atividades pedagógicas e assumem uma função/lugar social, mas foi marcado pelas relações de hierarquizadas inconscientemente estabelecidas entre elas e nós, do lugar de pesquisadora.
Desse lugar, e assumindo esta perspectiva de análise, nosso papel foi realizar o movimento analítico de descrever, interpretar e compreender os sentidos e significados produzidos pelos discursos dos sujeitos à luz da teoria – outros discursos produzidos e acessíveis em determinadas condições sociais – o que deslocou a nossa escuta nas entrevistas e nos permitiu apreender outros possíveis gestos de interpretação.
Para Orlandi (2009, p. 62) ―não há análise de discurso sem a mediação teórica permanente, em todos os passos da análise, trabalhando a intermitência entre descrição e interpretação que constituem, ambas, o processo de construção do analista‖.
Buscando nos orientar por esses princípios construímos o nosso dispositivo analítico, articulando a questão do estudo – a pergunta que nos guiava em nossas ações – o material empírico construído nas entrevistas e nas observações das práticas, juntamente com as proposições curriculares do Programa e com fundamentos teóricos que ancoravam nossos passos. Mediante esse entrecruzamento de informações, construímos nossas sínteses de interpretação acerca de quais as repercussões do Programa Pró-Letramento nas concepções e práticas das professoras que se constituíram em sujeitos do estudo.
O córpus, ao mesmo tempo em que é organizado pelo pesquisador, é que organiza a relação do pesquisador com o discurso e leva-o a construir o seu dispositivo analítico, onde irá optar por mobilizar determinados conceitos e procedimentos em busca de responder à questão do estudo. Diante desse pressuposto, destacamos sequências de enunciados e construímos as ―montagens discursivas‖, buscando orientar-se pelos princípios da análise do discurso,
verificando os indicadores de sentidos que se aproximavam nos diálogos e estabelecendo relações com as formações discursivas teóricas.
Resumindo, procuramos ver nos enunciados das professoras o que se generalizava, observando, nas singularidades, as aproximações, sempre realizando o movimento constante de idas e vindas entre teoria e córpus, entrecruzando – em movimento de triangulação – as enunciações com os dados obtidos nas observações e com os conteúdos propostos pelo curso de formação no intuito de compreendermos, à luz do marco teórico assumido, o que repercute desses conteúdos em suas concepções e práticas.