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A introdução do termo e conceito de Medicina Social é de março de 1848, época em que as idéias liberais e de uma república social irão impregnar todos os setores da sociedade ao irromper e se propagar este período revolucionário pela Europa: em fevereiro, na França; em março na Alemanha, Bavária, Áustria, Hungria e Itália. As revoluções de 1848 surgiram e levantaram questões fundamentais como a operária, marcaram o fim da política da tradição, das monarquias, a regra do direito divino na sucessão das dinastias e colocaram em evidência as questões da

saúde (NUNES, 1980). Conforme Nunes, em 1848 parecia que as possibilidades de criação de uma nova sociedade estavam abertas e do ponto de vista dos médicos reformadores sociais três princípios eram básicos para um programa de ação:

1º) A saúde das pessoas é um assunto de interesse societário direto e a sociedade tem a obrigação de proteger e assegurar a saúde de seus membros; 2º) As condições econômicas e sociais têm um impacto crucial sobre a saúde e a doença e estas devem ser estudadas cientificamente; 3º) os passos para promover a saúde e combater a doença são tanto sociais como médicos (NUNES, 1974, p.174).

As concepções de Medicina Social encontram sua forma mais acabada na primeira metade do século XIX e se desenvolvem sobre o pano de fundo da industrialização gradual da França após a Revolução e as Guerras Napoleônicas, industrialização que reproduz as precárias condições de trabalho e vida urbana a que estiveram sujeitos os trabalhadores industriais também na Inglaterra e nos outros países já citados. Durante esse período, sucedem-se as afirmações do vínculo entre saúde, medicina e sociedade, sendo forjado o termo Medicina Social por Jules Guérin em 1848, condensando todo esse longo processo de elaboração (DONNANGELO; PEREIRA, 1976).

Jules Guérin, importante protagonista desse momento político, considerava que a rubrica de Medicina Social tentava sistematizar teorias e ações que até aquele momento haviam se voltado para as relações entre a medicina e os assuntos públicos, sendo esta a chave para os mais importantes assuntos desse período de regeneração. Guérin configurou então a Medicina Social, como um campo que se voltasse de forma geral para uma teoria, cujo principal conteúdo seria as relações entre o processo saúde-doença e a sociedade de forma sistemática (ROSEN, 1979). Segundo Donnangelo e Pereira (1976, p. 57) na concepção de Medicina Social exposta por Guérin reproduzem-se os componentes :

Análise dos problemas sociais e de sua relação com a saúde e a doença; determinação de medidas para a promoção da saúde e a prevenção de doenças; finalmente, a medicina como “terapia social”, através do fornecimento do meio médico e outros meios para tratar com a desintegração social e outras condições que as sociedades podem experimentar.

Na Inglaterra, a problemática de uma Medicina Social tem suas raízes no século XVIII e foi levantada pela questão da pobreza acentuando-se, porém, com a

urbanização e a expansão industrial. Nunes relata que a questão do proletariado e as suas precárias condições de vida foram descritas e analisadas por Engels no importante trabalho: A situação da classe trabalhadora em Inglaterra, em que o autor associa as precárias condições habitacionais e de vida da população operária e o aparecimento de grande quantidade de doenças (NUNES, 1980). A legislação sobre saúde pública na Inglaterra se consolida, porém, em 1875 e nessa data, os health

service e os health offices estendem suas funções sobre o controle da vacinação,

organização do registro das epidemias, identificação dos lugares insalubres e destruição dos focos de insalubridade. Surge, dessa forma, nos meados do século XIX, o movimento ideológico que será o Sanitarismo ou Reforma Sanitária, que resultará no Projeto de Saúde Pública (NUNES, 1980).

A Revolução Industrial no século XIX na Europa representa o avanço de um processo macrossocial de grande importância histórica, produzindo um impacto enorme sobre as condições de vida e de saúde de suas populações. Segundo Paim e Almeida Filho (2000, p.37):

[...] com a organização da classe trabalhadora e o aumento da sua participação política, principalmente nos países que atingiram um maior desenvolvimento das relações produtivas, como Inglaterra, França e Alemanha, rapidamente incorporam-se temas relativos à saúde na pauta de reivindicações dos movimentos sociais do período.

Meados do século XIX é sem dúvida um momento chave na história da medicina como prática social e um momento histórico no desenvolvimento da Medicina Social. Conforme Nunes, embora as revoluções de 1848 tenham surgido e

se quebrado como uma grande onda, deixando pouco, exceto mito e promessa,

levantou questões fundamentais como as citadas anteriormente (HOBSBAWM, 1979 apud NUNES, 1980, p.43). Nas últimas décadas do século XIX inicia-se a grande fase da visão cientificista da medicina que chega até nossos dias de forma hegemônica. Este período constitui um momento chave, porém, o ressurgimento da preocupação com o social na primeira década do século XX e o início de um processo de reaparecimento de colocações sociais na medicina dos países capitalistas neste período, são também momentos de grande importância (NUNES, 1980).

A proposta de Medicina Social surgida na Europa no século XIX gera importante produção doutrinária e conceitual (PAIM; ALMEIDA-FILHO, 1998), que

integrada à ação do Estado institui-se no movimento chamado Sanitarismo. Esse movimento alcança maior expressividade na Inglaterra e Estados Unidos que implantam agências oficiais de saúde e bem estar, em que são produzidos, através dos seus funcionários, discursos e práticas sobre as questões da saúde baseados em aplicação de tecnologia e em princípios de organização racional para a expansão de atividades profiláticas (saneamento, imunização e controle de vetores), destinadas principalmente aos pobres e setores excluídos da população (PAIM; ALMEIDA-FILHO, 2000). Os autores relatam que no início do século XX, com o célebre Relatório Flexner, desencadeia-se nos Estados Unidos uma profunda reavaliação das bases científicas da medicina, que resulta na redefinição do ensino e da prática médica a partir de princípios tecnológicos rigorosos, impulsionando o surgimento das primeiras escolas de saúde pública. Nesse contexto, há pesados investimentos de organismos como a Fundação Rockfeller, inicialmente nos Estados Unidos e em seguida em vários países, inclusive na América Latina.

Com a incorporação do paradigma microbiano nas ciências básicas da saúde, esse campo passa a ser denominado Saúde Pública, centrando a sua ação a partir da ótica do Estado com os interesses que ele representa nas distintas formas de organização social e política das populações. A Saúde Pública passa a ser considerada então, como um campo científico e âmbito de práticas, cuja concepção ideológica está atrelada à tecnociência, ao modelo biomédico, bem como ao seu confinamento, no caso do Brasil, a uma ação normativa que ocorre até os dias atuais (CAMPOS, 2000).

Na concepção mais tradicional Saúde Pública é a aplicação de conhecimentos com o objetivo de organizar sistemas e serviços de saúde, atuar em fatores condicionantes do processo saúde-doença-cuidado, controlando a incidência de doença nas populações através das ações de vigilância e intervenções governamentais (CAMPOS, 2000). A limitação conceitual e política imposta à saúde pública impulsionou o surgimento da Saúde Coletiva na América Latina, que trato a seguir.