A promoção da saúde é um campo teórico-prático-político que em sua composição com os conceitos e as posições do Movimento da Reforma Sanitária no Brasil delineia-se como uma política que deve percorrer o conjunto das ações e projetos em saúde, apresentando-se em todos os níveis de complexidade da gestão e da atenção do sistema de saúde (CAMPOS et al., 2004).
Como uma das estratégias de produção de saúde, ou seja, como um modo de pensar e de operar articulado às demais políticas e tecnologias desenvolvidas no sistema de saúde brasileiro, a promoção da saúde, contribui na construção de ações que possibilitam responder às necessidades sociais em saúde. Desde que surgiu como importante alternativa teórica e prática para o enfrentamento global da ampla
gama de problemas que afetam a saúde das populações humanas, a promoção da saúde tem sido implementada em diversos contextos, com distintas concepções de forma mais ou menos abrangente.
O termo Promoção da Saúde foi usado inicialmente por Winslow, em 1920, quando afirmou que,
[...] a saúde pública é a ciência e a arte de evitar doenças, prolongar a vida e desenvolver a saúde física, mental e a eficiência, através de esforços organizados da comunidade para o saneamento do meio ambiente, o controle das infecções na comunidade, a organização dos serviços médicos e paramédicos para o diagnóstico precoce e o tratamento preventivo de doenças, e o aperfeiçoamento da máquina social que irá assegurar a cada indivíduo, dentro da comunidade, um padrão de vida adequado à manutenção da saúde.
A promoção da saúde é um esforço da comunidade organizada para alcançar políticas que melhorem as condições de saúde da população e os programas educativos para que o indivíduo melhore sua saúde pessoal, assim como para o desenvolvimento de uma „maquinaria social‟ que assegure a todos os níveis de vida adequados para a manutenção e o melhoramento da saúde (WINSLOW, 1920, p. 23 apud BUSS, 2003, p. 17).
Henry Sigerist, busca reordenar o sentido da medicina na sociedade em quatro funções: promoção da saúde; prevenção de enfermidades; cura e reabilitação (RESTREPO apud ANDRADE; BARRETO, 2002). Conforme os autores, Sigerist utilizou o termo Promoção da Saúde para denominar as ações embasadas em educação sanitária e ações do Estado para a melhoria das condições de vida.
Conforme Ferreira e Buss (2002), o que caracteriza a promoção da saúde modernamente, é a constatação do papel protagônico dos determinantes gerais sobre as condições de saúde. Sustentam-se eles na constatação de que a saúde é um produto de amplos fatores relacionados à qualidade de vida, um padrão adequado de alimentação e nutrição, de habitação e saneamento, condições adequadas de trabalho e renda, oportunidades de educação ao longo da vida, ambiente físico limpo, apoio social para famílias e indivíduos, estilo de vida responsável e um espectro adequado de cuidados de saúde.
Dessa forma, a promoção da saúde demanda uma ação coordenada entre os diferentes setores sociais, as ações do Estado em suas políticas intersetoriais, da sociedade civil e do sistema de saúde propriamente dito (ANDRADE; BARRETO, 2002).
De acordo com Ferraz (2008 apud TEIXEIRA, 2009), o Canadá, influenciado pelas produções científicas no campo da saúde e pelo desenvolvimento da medicina
social na Inglaterra, já nas primeiras décadas do século XX, implementou no seu sistema de saúde o princípio da universalização da assistência médica, com a valorização das ações de prevenção e promoção da saúde.
Na década de 1970 o então ministro da saúde do Canadá, o eminente epidemiólogo Marc Lalonde, publicou o Relatório Lalonde, “após analisar a evolução dos indicadores de mortalidade infantil e da esperança de vida, e constatar que a diferença persistente entre esses indicadores não era devida somente à ampliação de cuidados médicos, mas que estava associada à inserção social dos indivíduos” (TEIXEIRA, 2009, p.4). O movimento canadense desenvolvido a partir da publicação do Relatório Lalonde - Uma Nova Perspectiva na Saúde dos Canadenses (1974) trouxe importantes contribuições para a saúde pública mundial. No relatório, Lalonde questiona o investimento excessivo no sistema de saúde voltado aos cuidados médicos, no tratamento das enfermidades, em detrimento da prevenção, além de identificar como razões para as primeiras causas de mortalidade bases relacionadas a três conceitos: biologia humana, meio ambiente e estilo de vida (FERRAZ, 2008 apud TEIXEIRA, 2009).
O Relatório Lalonde foi considerado um avanço por ter incorporado nos seus pressupostos a importância da adoção de políticas de saúde, que contivessem ações intersetoriais para além do sistema de cuidados médicos (FERRAZ, 2008 apud TEIXEIRA, 2009). Estabeleceu as bases para importantes movimentos de convergência na conformação de um novo paradigma formalizado na Conferência de Alma-Ata (1978) com a proposta de Saúde Para Todos no Ano 2000 e a estratégia de Atenção Primária de Saúde. Com a Declaração de Alma-Ata é possível demonstrar como a mesma foi suficientemente clara ao indicar que a conquista do mais alto grau de saúde exige a intervenção de muitos outros setores sociais e econômicos, além do setor saúde e a promoção e proteção da saúde da população é indispensável para o desenvolvimento econômico e social sustentado e contribui para melhorar a qualidade de vida e alcançar a paz mundial (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA, 1978).
Nesse mesmo período, na América Latina, essa observação já vinha sendo amplamente disseminada, em especial na área acadêmica, através dos trabalhos de Juan Cesar Garcia, Cristina Laurell, Jaime Breilh, Cecilia Donangelo e Sergio Arouca, entre vários outros, que no desenvolvimento do ensino da medicina preventiva e social introduziram importante evidência, resultante da expansão da
pesquisa no campo das ciências sociais aplicadas à saúde. Obviamente, a reação do que na época era visto como o Terceiro Mundo não alcançou maior repercussão na evolução das práticas discutidas nos países centrais. No Sul, destacavam-se as causas sociais e, no Norte, discutiam-se possíveis abordagens individuais, sem que qualquer interação se viabilizasse entre os principais atores da época (BRASIL, 2002).
As Conferências Internacionais para a Promoção da Saúde desempenharam um papel central no desenvolvimento do conceito e das idéias da promoção da saúde em todo o mundo e descrevemos uma síntese dos postulados das principais conferências.
A I Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde foi realizada em Otawa, Canadá, em novembro de 1986, em colaboração com a Organização Mundial da Saúde e a Associação Canadense de Saúde Pública e teve como principal produto a Carta de Otawa (BRASIL, 2002). A Carta de Otawa define promoção da saúde como o “processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria da sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo” (BRASIL, 2002, p. 19). Nessa Conferência a saúde é conceituada, não como o objetivo, mas sim como a fonte de riqueza da vida cotidiana. As condições e requisitos para a saúde são: a paz, a educação, a moradia, a alimentação, a renda, o ecossistema estável, a justiça social e a equidade. As estratégias-chave para promover a saúde incluem o estabelecimento de políticas públicas saudáveis, a criação de ambientes favoráveis, fortalecimento de ações comunitárias, o desenvolvimento de habilidades pessoais e a reorientação dos serviços (ANDRADE; BARRETO, 2002).
A II Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde foi realizada em Adelaide, Austrália em 1988 (Declaração de Adelaide, 1988) e elegeu como seu tema central as políticas públicas saudáveis “que se caracterizam pelo interesse e preocupação explícitos de todas as áreas das políticas públicas em relação à saúde e a equidade e pelos compromissos com o impacto de tais políticas sobre a saúde da população” (BRASIL, 2005, p. 35). A II Carta Mundial de Promoção da Saúde indicou quatro áreas para atuação imediata: saúde das mulheres, acesso à alimentação e a nutrientes saudáveis, redução do consumo de tabaco e álcool e a criação de ambientes saudáveis.
A III Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde realizada em Sundsval – Suécia, em 1991, foi a primeira a focar a interdependência entre saúde e ambiente em todos os seus aspectos (BUSS, 2009). Ocorreu um ano antes da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, tendo sido realizada num contexto de intensos debates sobre a questão ambiental e podendo ser considerada uma espécie de pré- Rio-92, colocando a discussão ambiental na agenda da saúde, abordando a interdependência entre os dois fatores (ANDRADE; BARRETO, 2002).
A IV Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde realizada em Jacarta, Indonésia, foi a primeira a realizar-se em um país em desenvolvimento. Atualiza a discussão sobre um dos campos de ação definidos em Otawa: o reforço da ação comunitária e reafirma vínculos entre saúde e desenvolvimento, e, sobretudo a contribuição da saúde para o desenvolvimento (BUSS, 2009). A Declaração de Jacarta estabeleceu cinco prioridades para a promoção da saúde do século XXI: promoção da responsabilidade social da saúde; aumento da capacidade da comunidade e do “empoderamento” dos indivíduos; expansão e consolidação das alianças para a saúde; incremento das pesquisas voltadas para o desenvolvimento da saúde e o compromisso de que seja assegurada uma infra-estrutura para a promoção da saúde (ANDRADE; BARRETO, 2002).
No debate sobre promoção da saúde um especial destaque deve ser dado ao tema das políticas públicas saudáveis, da governabilidade, da gestão social integrada, da intersetorialidade, das estratégias dos municípios saudáveis e do desenvolvimento local. Conforme entendimento de Buss (2000), estes são mecanismos operacionais concretos para a implementação da estratégia da promoção da saúde, com ênfase particular no contexto do nível local.
Os documentos oriundos das primeiras conferências são de uma riqueza inestimável porque, além de trazerem as linhas mestras, diretrizes e proposições no campo das políticas públicas e ações para o alcance dos objetivos da promoção da saúde, contêm ainda os pressupostos teóricos subjacentes a esses aspectos.
Segundo Teixeira (2009, p.10)
A concepção de promoção da saúde desenvolvida nas várias Conferências avança na ampliação do conceito de saúde, entende o ambiente em seus diferentes aspectos, reconhecendo a sua forte relação com a saúde, e estabelece campos de ação imprescindíveis para alcançar os seus propósitos, enfatizando, todavia, que a saúde deve ser prioridade e um pré-
requisito para o desenvolvimento industrial e agropecuário. Numa visão desenvolvimentista, valoriza a saúde também em função do aumento da produtividade dos indivíduos, que trará um maior desenvolvimento econômico, e apesar de considerar que o modelo atual de desenvolvimento está em crise, acredita na possibilidade de coexistência de desenvolvimento econômico, preservação dos limitados recursos naturais, que assegurará qualidade de vida, consubstanciada na proposta de desenvolvimento sustentável.
Com base em uma análise crítica dos pressupostos das Conferências, Teixeira (2009, p.15), impele-nos a refletir ao fazer o seguinte questionamento:
“Como implementar políticas públicas saudáveis, criar ambientes favoráveis à saúde, implementar um modelo de desenvolvimento sustentável, na lógica de produção do sistema capitalista, fundamentada na industrialização, que pressupõe concentração de renda, aumentando as desigualdades sociais e de acesso a bens e serviços, e que para atingir metas exorbitantes de lucro, os trabalhadores pagam o custo da exploração e são submetidos além de outros aspectos a precárias condições de trabalho”?