As pesquisas sobre movimentos sociais, segundo Damasceno (2005), referem-se a duas matrizes existentes: a modalidade “clássica” e a vertente denominada “novos movimentos sociais.” A modalidade “clássica” é constituída pelos movimentos que surgem na esfera da produção a partir do desenvolvimento industrial, atrelados ao movimento sindical, tendo como móvel central responsável pelo surgimento e o desenvolvimento desses movimentos, a luta de classes. A vertente denominada de “novos movimentos sociais”, expressa novas formas de resistência, de organização, se caracterizando pela diversidade de experiências, que são interpretadas como sendo novas formas de lutas e que não mais trabalham com
a perspectiva de transformação global da sociedade, mas como veículo de ampliação da cidadania.
A autora Glória Gohn (2005) em seu importante estudo sobre Teorias dos Movimentos Sociais, refere-se à abordagem clássica sobre os movimentos sociais nas ciências sociais norte-americana, associando-a ao próprio desenvolvimento inicial da sociologia nos Estados Unidos. Divide em cinco grandes correntes teóricas a abordagem clássica sobre a ação coletiva, especificando os movimentos sociais em três delas. Discorre acerca dos paradigmas europeus com a teoria dos Novos
Movimentos Sociais (NMS) que se trata de uma reconstrução de orientações
teóricas já existentes, uma revitalização na teoria da ação social a partir de suas matrizes básicas como as clássicas Weberianas e Durkemiana, a Parsoniana comtemporânea e Neomarxistas. Tendo como matrizes teóricas Weber, Marx, Habermas, Foucault, Guatarri e Goffman, que resultaram nas três principais correntes teóricas: a francesa de Alain Touraine e seu grupo de pesquisa, a italiana liderada por Alberto Melucci e a alemã por Claus Offe. Essas correntes influenciaram sobremaneira os autores latino-americanos.
Segundo Scherer-Warren (1993) a produção de teorias sobre os movimentos sociais na América Latina (AL) tem uma trajetória que está vinculada a dois fatores principais: à própria história da AL nos seus aspectos econômicos, políticos, culturais e sua captação pelo pensamento das ciências sociais e a história do pensamento social da AL, em suas articulações com o pensamento teórico internacional. A autora enfatiza nesse texto as quatro fases de constituição do pensamento sociológico relativo à teorização dos movimentos sociais da AL nos meados do século XX, destacando-se as décadas de 1970, 1980 e início de 1990 com sua fértil produção teórica sobre o tema. Inicia com a teoria predominante desde os meados do século XX até o início da década de 1970, época em que o pensamento sociológico dominante polarizava-se nas correntes marxista e funcionalista, dando-se mais atenção as análises sobre o Estado, partidos políticos e vanguardas e menos atenção sobre as organizações da sociedade civil ou sobre o significado de suas ações, conflitos e resistências.
Cohn (2003) caracteriza os movimentos sociais por se constituírem em “novos” sujeitos coletivos no cenário político em distintas e diferenciadas arenas e espaços que não aqueles tradicionalmente definidos pela concepção liberal clássica de democracia. A autora detecta sintomas de conflitos presentes na sociedade, na
luta por conquistas e na efetivação de demandas por direitos, dando origem a movimentos sociais como representação de interesses de determinados grupos e à natureza de sua própria legitimidade.
Cohen (2003) relata que os novos movimentos sociais nascidos no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, apresentavam um novo tipo de pluralidade e incluíam desde a luta pelos direitos civis, até os movimentos feministas, ambientalistas, pacifistas, os grupos de defesa de consumidor e de organização de comunidade. Afirma que essa nova forma de pluralidade era indicativa da vitalidade da sociedade civil, por envolver formas de engajamento cívico capaz de gerar capital social importante para os projetos de democratização.
Segundo Touraine (2006) a idéia de movimento social busca demonstrar a existência, no interior de cada tipo societal, de um conflito central. Esse conflito, segundo o autor, está presente na sociedade pós industrial informatizada e representa a idéia de um sujeito em luta, de um lado, contra o triunfo do mercado e das técnicas e, de outro lado, contra os poderes comunitários autoritários, sendo, predominantemente, um conflito cultural. Enfatiza que o movimento social é muito mais do que um grupo de interesses ou um instrumento de pressão política, pois questiona o modo de utilização social de recursos e de modelos culturais. Diz que é necessário não aplicar a noção de movimentos sociais a qualquer tipo de ação coletiva, conflito ou iniciativa política, porém, utiliza a definição de que os movimentos sociais são condutas coletivas e não crises ou formas de evolução de um sistema.
Conforme Cohn (2003) Alain Touraine, nos anos de 1980, atribuía aos movimentos sociais a condição de serem fatos portadores de futuro; Gadea e Scherer-Warren (2005) consideram a referência teórica de Touraine como uma das mais expressivas sobre movimentos sociais que seriam aquelas que atuam no interior de um tipo de sociedade, lutando pela direção de seu modelo de investimento, de conhecimento ou culturais; Gohn (2005) diz que o tema dos movimentos sociais ganhou extrema importância na obra de Touraine, pois ele o elegeu como o centro de estudo da própria sociologia, daí a facilidade com que transita sobre o tema ao longo da sua obra.
Calle (2007) afirma que os movimentos sociais são construtores de novas culturas políticas e de socialização para seus ativistas e para a cidadania. Propõe uma socialização radicalmente oposta a certos paradigmas dominantes, intervindo
na reprodução da ordem social, no meio de participação dos ativistas, o meio político, o meio das grandes redes de comunicação e o meio social.
O fio condutor dos debates sobre os movimentos sociais reside no argumento de que nas sociedades pós-industriais a gestão e o controle público tendem a se aproximar, porque os conflitos sociais tendem a se generalizar por toda a rede societal, verificando-se uma reaproximação entre a base social das ações coletivas e suas formas de ação (COHN, 2003).
Machado (2007) diz que se tiver que optar por uma definição do termo “movimentos sociais”, considerando as tão variadas abordagens existentes e aceitas, poderia dizer que o mesmo se refere a formas de organização e articulação baseadas em um conjunto de interesses e valores comuns, com o objetivo de definir e orientar as formas de atuação social. O autor considera que:
[...] tais formas de ação coletiva têm como objetivo, a partir de processos freqüentemente não-institucionais de pressão, mudar a ordem social existente, ou parte dela, e influenciar os resultados de processos sociais e políticos que envolvem valores ou comportamentos sociais ou, em última instancia, decisões institucionais de governos e organismos referentes à definição de políticas públicas (MACHADO, 2007, p. 252).
A importante contribuição dos autores citados sugere o vasto campo teórico existente sobre movimentos sociais, representados pelas diversas formas de organização da sociedade civil. Scherer-Warren (2006) afirma que essa diversidade organizativa traz à tona a luta dos sujeitos, na sua identidade cultural e sua liberdade, contra a lógica dominadora dos sistemas sociais, criando espaços para a participação cada vez mais perceptíveis, garantindo o respeito às diferenças individuais e ao pluralismo.