3.6. BOP’UN FARKLI BOYUTLARI
3.6.1. Avrasya’da Petrol Mücadelesi
Este último capítulo, em forma de parêntese, dialoga com as imagens do primeiro capítulo, O NEGRO EM DISCUSSÃO, discute a representação do negro na mídia as migrações. Sabemos que o nosso tema é a representação do negro em um romance que é focalizado no Peru. Contudo, a pesquisadora é brasileira e não poderia deixar de abrir um espaço para destacar como o negro é representado na mídia no contexto brasileiro.
Cabe relambrar que, em pleno século XXI, o pano de fundo para a perpetuação do olhar frente ao outros são as migrações para o velho continente. Se no pasado havia escravidão, hoje são as piadas que menosprezam as características físicas como boca e nariz para ridicularizá-los; quanto maiores, mais feios, e o império da beleza é sempre destacado a partir do sujeito não-negro.
Parafraseando Walter Benjamin (1985), devemos retomar o passado para construção de um futuro com êxito. O autor propõe uma reescritura de nossa história, ou seja, teremos a salvação no futuro se construirmos um novo conceito de história onde nós, oprimidos, sejamos sujeitos da história universal.
Podemos confirmar tal argumentação na mídia televisiva e impressa. Nos noticiários de grande massa, o negro é reconhecido de forma positiva apenas quando consegue ascensão por intermédio dos esportes, ou pelo meio artístico, na música, em filmes e na televisão.
Raras são as exceções, como é o caso do presidente americano Barack Obama, que hoje vem sendo um ícone para os sujeitos não-brancos. A pesar de o presidente eleito não ser nosso representante político, é o nome da moda para se destacar a ascensão de um descendente africano que conseguiu mudar o curso da história que é destinada aos sujeitos afro-americanos, afro-peruanos, afro- brasileiros, entre outros “afros”.
Vale a pena ratificar que esta terminología foi criada para “amenizar” a conotação do vocábulo negro, mas também soa de forma excludente, ou seja, somos moradores do Brasil, Peru, Caribe, Eua, mas pertencemos à África, a mesma que nos foi tirada na época da colonização.
Vários negros foram ícones de mudanças em seu tempo, como: Luís Gama, Machado de Assis, Antônio Pereira Rebouças e Carolina Maria de Jesus, entre outros em nosso país.
Quanto ao negro pobre, é observado como o “ladrão”, “indolente” ou “preguiçoso”, deveria estar enjaulado ou no “gueto”, segundo o discurso oficial. Como personagens de telenovelas, são representados como empregados domésticos, traficantes ou moradores de espaços populares. Raros são os papéis de presidentes, prefeitos, empresários, professores, advogados. Quando lhes destinam cargos que fogem ao estigma do negro, é no papel do mau-carácter, como foi o caso da telenovela “Favorita” (2008), trazendo o ator Milton Gonçalves como um deputado corrupto, na TV Globo.
Já a telenovela Da Cor do Pecado (2004) da mesma emissora, expõe a personagem principal, vivida por Taís Araujo, que só teve ascensão, “sucesso” ao se casar com um branco rico, pano de fundo para destacar mais um estigma do sujeito
negro na mídia. O título da novela em específico colabora para o estigma da mulher negra como sendo da cor do “pecado”.
O carnaval brasileiro é um forte exemplo de como a “sensual” mulher negra é vista como objeto sexual na Passarela do samba. Muitas passam o ano todo como domésticas, faxineiras, babás e no carnaval tornam-se “rainhas”. Cabe destacar a carnavalização, “o mundo às avessas”, a inversão dos papéis, ou seja, a trabalhadora assalariada torna-se rainha de sensualidade, mas quando termina o carnaval voltam aos lugares reais.
O negro atua sempre como protagonista de cenas de violências, como é o caso dos filmes Cidade de Deus (2002), Carandiru (2003), Última Parada 174 (2008), ora como traficante ora como morador de espaços populares, as favelas.
Por que durante a escolha do elenco dos filmes, os atores globais pertencentes à etnia branca não são convidados para atuar como bandidos, ladrões ou favelados? Resposta retórica: estes papéis “privilegiados” para representar os outros cabem aos negros e não a um sujeito branco.
Ironias à parte, o que realmente sabemos é que não há respostas para as exclusões, por isto lembramos aos desmemoriados que estamos aqui, os silenciados pedem a palavra, ou melhor, a exigem!
Hoje, dia 06 de janeiro de 2008, assistimos a um pequeno vídeo enviado por uma integrante do grupo de Pesquisa da UERJ, que, acreditamos, é relevante nesta discussão, quando falamos sobre o imaginário construido frente à beleza ser atributo dos sujeitos brancos, enquanto a nós caberia a feiura, entre outras “qualidades”.
Pois bem, o vídeo nos mostra uma pesquisa norte-americana, que segue em anexo. Um entrevistador expõe duas bonecas, a primeira negra e a segunda branca.
São feitas diversas perguntas às crianças negras, como por exemplo: Que boneca é bonita? Que boneca é legal? Por que esta boneca é agradável? Que boneca se parece com você? Que boneca é má?
O mais interessante são as respostas destas crianças: quanto às três primeiras perguntas iniciais, as crianças indicaram a boneca branca, ou seja, a boneca branca é bonita, legal e agradável. O entrevistador perguntou a um menino por que a boneca escolhida é agradável e a a resposta foi: porque ela é branca e tem olhos azuis. Em contrapartida, as duas últimas perguntas são associadas à boneca negra.
O que percebemos com este questionário é que desde muito pequena a criança negra internaliza que a pele branca é o ideal de beleza e o que foge a isso é feio; além disso a idéia da maldade também está associada à cor negra. Por exemplo, crianças têm medo do escuro, da noite, do homem da cara preta, cargas negativas são atribuídas a tudo que foge ao branco, ou à claridade. Alguém tem medo do sol?
Há uma poesía de Victoria Santa Cruz que dialoga com esta nossa temática: “Me gritaron negra”. Aos sete anos de idade gritaram negra e logo ela pôde perceber a carga negativa que o vocábulo carrega, o que a fez cada vez mais consciente de sua atuação como pesquisadora, poetisa e questionadora do papel do povo negro no contexto peruano.
Observemos um trecho do poema:
Tenía siete años apenas, apenas siete años,
¡Que siete años! ¡No llegaba a cinco siquiera! De pronto unas voces en la calle
me gritaron ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! "¿ Soy acaso negra?"- me dije
"¿Qué cosa es ser negra?" ¡Negra!
Y yo no sabía la triste verdad que aquello escondía. ¡Negra!
Y me sentí negra, ¡Negra! Como ellos decían
¡Negra! Y retrocedí
¡Negra! Como ellos querían
¡Negra!
Y odie mis cabellos y mis labios gruesos y mire apenada mi carne tostada
Y retrocedí ¡Negra! Y retrocedí (. . .)”
Todas as situações destacadas, como os filmes, as telenovelas, o vídeo da pesquisa norte-americana e a poesia da Victoria Santa Cruz29 colaboram para nossa reflexão. Sabemos que há grupos como os Movimentos Negros, ONGS, Preparatórios para o vestibular para Jovens e Adultos de Espaços Populares, sistema cotas para o ingresso nas universidades estaduais e, em um futuro próximo, para as federais, ou seja, há irmãos negros lutando por nossos direitos, mas necessitamos de muito mais para revertermos o quadro atual. Estamos em processo.
V- CONCLUSÃO
O romance aqui analisado traz um rico material para discutir a história não- oficial do Peru e também para provocar leitores mais atentos ao novo e ao lúdico da nova narrativa hispano-americana. Vimos no decorrer dos capítulos a questão do negro e como este é representado no imaginário universal, tanto na época da colonização como nos dias atuais.
Séculos passaram-se e a discriminação frente ao negro continua presente, apenas escamoteada em um racismo cordial que prega que preconceitos e diferenças são coisas que já foram superadas pela população há muito tempo.
Trouxemos à tona as vozes dos silenciados, ora com o instrumento da palavra ora com imagens e ilustrações de teóricos comprometidos com a real mudança que ainda não aconteceu, como muitos afirmam.
No primeiro capítulo, específicamente, apresentamos o negro em discussão, começando de um passado bem distante, a época das conquistas, que dialoga com o nosso presente. Observamos que a colonização das Américas por parte dos europeus ocidentais subjugava os irmãos subsaarianos, pertencentes a várias etnias do continente africano.
No segundo capítulo destacamos o surgimento e as características do novo romance histórico, ou nova narrativa hispano-americana; e a contribuição que este novo modelo literário fez em favor das discussões das minorías.
No terceiro capítulo mergulhamos na análise do romance e ressaltamos a importância de Crónica de Músicos y Diablos. Partimos do início da mestiçagem na narrativa, destacamos o papel da mulher, as viagens da familia Guzmán, o movimento de resistência, mostrando que mesmo depois da escravatura no Peru havia escravidão disfarçada.
No quarto capítulo, utilizamos como paradigma o Brasil, investigamos como o negro é representado na mídia. Acreditamos que a discussão se associa ao início de uma caminhada de denúncias frente a tudo que presenciamos; sabemos que há diversas ONGs, projetos e pessoas comprometidas com a temática e a tomada de consciência quanto à representação do negro na mídia no contexto brasileiro.
Em suma, em nosso trabalho buscamos contribuir para o diálogo entre literatura, história e sociedade, e convidar os leitores à reflexão sobre como somos representados e quais são os nossos papéis como sujeitos colonizados, em pleno século vinte e um.
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