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1.3. ĐDARĐ VE SĐYASĐ YAPI

1.3.1. Đdari Yapı

DODECASSÍLABOS

Estala na mudez universal das coisas estrídulo tropel de cascos sobre pedras e naquela assonância ilhada no silêncio o cataclismo irrompe arrebatadamente. O doer das folhas urticantes

corta a região maninha das caatingas fazendo vacilar a marcha dos exércitos sob uma irradiação de golpes e de tiros. Por fim tudo se esgota e a situação não muda, lembrando um bracejar imenso, de tortura, em longo apelo triste, que parece um choro. Num prodigalizar inútil de bravura desaparecem sob as formações calcáreas as linhas essenciais do crime e da loucura.122 Augusto de Campos e Euclides da Cunha (parceria póstuma)

Outro aspecto fundamental na obra de Vargas Llosa no que se refere à comparação entre a História e a Literatura reporta-se à transformação de alguns personagens históricos em seres fictícios. É evidente que o romancista, ao utilizar Os sertões como ponto de partida, procurou apresentar uma base documental sólida e consistente, tendo criado, conforme já salientado, um palimpsesto típico e, por isso mesmo, fundamental para a sua colocação como uma espécie de modelo do Novo Romance Histórico. É possível afirmar que, neste caso, o distanciamento no tempo trouxe para o escritor peruano um conhecimento muito mais completo a respeito das ações e decisões das pessoas que participaram daquele conflito. Isso provocou uma série de alterações capazes de ressaltar a visão subjetiva, porém muito mais ampla, de Vargas Llosa na construção desses personagens, contrastando com a pretensão de objetividade assumida por Euclides.

El hombre era alto tan flaco que parecía siempre de perfil. Su piel era oscura, sus huesos prominentes y sus ojos ardían con fuego perpetuo. Calzaba sandalias de pastor y la túnica morada que le caía sobre el cuerpo recordaba el hábito de esos misioneros que, de cuando en cuando, visitaban los pueblos del sertón bautizando muchedumbres de niños y casando a las parejas amancebadas. Era imposible saber su edad, su procedencia, su historia, pero algo había en su facha tranquila, en sus costumbres frugales, en su impertubable seriedad que, aun antes de que diera consejos, atraía a las gentes.123

122 CAMPOS, A e CUNHA, E. Jornal de poesia. In. www.revista.agulha.nom.br/euclid.html.última

consulta em 23 de julho de 2010.

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…E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até aos ombros,

barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão, em que se apóia o passo tardo dos peregrinos...

[...]

O evangelizador surgiu, monstruoso, mas autômato.

Aquele dominador foi um títere. Agiu passivo, como uma sombra. Mas esta condensava o obscurantismo de três raças.

E cresceu tanto que se projetou na História...124

Como nos grandes épicos hollywoodianos, a descrição de Antônio Conselheiro surge diante do leitor, num crescendo, tendo como pano de fundo o cenário do sertão nordestino. Esse aspecto descritivo será uma constante ao longo do romance, expondo o domínio de uma técnica a qual poderíamos chamar de cinematográfica. Após a leitura do texto de Euclides, entretanto, cumpre chamar a atenção para o fato de as estratégias serem muito parecidas. A leitura das duas obras, no entanto, apresenta mudanças bastante significativas. Salta aos olhos, neste caso, a inversão feita por Vargas Llosa em relação à narrativa euclidiana, pois, se este se havia preocupado inicialmente com os aspectos naturais da região e com a gênese da formação do sertanejo, segundo um determinismo mesológico, numa longa análise geográfica e social, para somente depois apresentar o elemento humano, o escritor peruano, de imediato, põe o homem na frente da paisagem. E não se trata de um homem qualquer, mas de Antônio Vicente Mendes

Maciel, conhecido como “o Conselheiro”.

O aprofundamento dessas leituras leva o leitor a outra constatação: Euclides da Cunha mostra a figura do Conselheiro na segunda parte de Os sertões, “O homem”, somente depois de um exame minucioso a respeito da constituição do homem brasileiro. Ele enfatiza a ação do meio na fase inicial da formação das raças e, ao voltar-se para o Nordeste, apresenta a provável origem do jagunço. Chega finalmente ao criador de Canudos, exibindo-o como um documento vivo do atavismo, “um gnóstico bronco”125.

Era, ainda segundo Euclides, “um grande homem pelo avesso”126

, representante natural do meio em que nascera. Tal descrição criaria uma imagem bastante negativa deste personagem, não exatamente como a de Vargas Llosa, que destaca o forte carisma exercido pelo pregador sobre o povo daquela região. Outro aspecto a ser ressaltado refere-se ao fato de, em Os sertões, Euclides ter feito um mergulho na vida pregressa do personagem, detalhando seus problemas familiares, seus primeiros reveses, chegando

124 CUNHA, E. Os sertões, pp. 266-268. 125

Ibid., p. 254.

67

até a sua “queda”. Euclides, em sua lógica, quer mostrar “como se faz um monstro”127

.

As peregrinações e os martírios ajudariam a alimentar a lenda que o “projetaria na história”. Vargas Llosa, por outro lado, enfatiza o tom misterioso do personagem,

acentuando-lhe o aspecto romanesco, pois “era impossível saber sua idade, sua

procedência e sua história”. E em vez da “face escaveirada”, acompanhada do “olhar

fulgurante e monstruoso”, temos um homem com “aspecto tranqüilo e costumes

frugais”, o qual, “mesmo antes de dar conselhos, era capaz de atrair a todos”. Euclides,

coerente com sua formação, trouxe ao leitor uma imagem negativa de Antônio Conselheiro. Vargas Llosa, por outro lado, deu-lhe outra apresentação, mostrando a importância do seu carisma, mas destacou, como veremos posteriormente, o aspecto fanático do pregador. Importa ressaltar, porém, que a controvérsia em torno deste personagem é fundamental para a projeção de sua imagem, a qual, segundo o poeta popular Ivanildo Vila Nova, teria, conforme destaca o Anexo 1 deste trabalho, página 111, sua figura resgatada pela história.

Em relação às diversas pessoas que seguiram o pregador para fundar Canudos e trabalhar para o crescimento da comunidade, ocorre uma inversão. Euclides muito pouco fala a respeito desses personagens e, quando a eles se refere, ressalta neles, de forma constante, o aspecto facinoroso ou, no mínimo, grotesco. O escritor peruano, porém, chama a atenção para a angústia de cada seguidor do Conselheiro e, deste modo, seus dramas são expressos, também, com bastante intensidade. Ao contrário do ignorado por Euclides, o momento da conversão de cada um deles, e seus possíveis motivos, será exposto detalhadamente, destacando as qualidades que surgirão neles a partir daquele momento tão significativo em suas vidas. Deste modo, Vargas Llosa enfatiza dois fatores importantes no relacionamento entre Antônio Conselheiro e os moradores de Canudos: a força da imagem projetada pelo pregador, resultante de sua maneira de agir e de ser, acrescida ao poder de sua capacidade de indução, resultante de sua oratória. Esses dois aspectos seriam fundamentais para o convencimento daquelas consciências e para suas respectivas transformações, culminando com a conseqüente aglutinação de todos à vida comunitária daquela cidade.

La primera vez que vio al Consejero, el Beatito tenía catorce años y había sufrido, pocas semanas antes, una terrible decepción. El padre Moraes, de la misión lazarista, le echó un baño de agua helada al decirle que no podía ser sacerdote, pues era hijo natural. Lo consoló, explicándole que igual se podía servir a Dios sin recibir las órdenes, y le prometió hacer gestiones con un convento capuchino, donde talvez lo

127 Ibid., pp. 266-268.

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recibirían como hermano lego. El Beatito lloró esa noche con sollozos tan sentidos, que el Tuerto, encolerizado, lo molió a golpes por primera vez después de muchos años.

[…]

Después de observarlo unos segundos, sin pestanear, el Consejero asintió y una sonrisa cruzó brevemente su cara que, diría cientos de veces al Beatito en los años venideros, fue su consagración. El Consejero señaló un pequeño espacio de tierra libre, a su lado, que parecía reservado para él entre el amontonamiento de cuerpos. El muchacho se acurrucó allí, entendiendo, sin que hicieran falta sus palabras, que el Consejero lo consideraba digno de partir con él por los caminos del mundo, a combatir contra el Demonio. Los perros trasnochadores, los vecinos madrugadores de Pombal oyeron mucho rato todavía el llanto del Beatito sin sospechar que sollozos eran de felicidad. 128

No meio destes perfis trágicos uma figura ridícula, Antônio Beato, mulato espigado, magríssimo, adelgaçado pelos jejuns, muito da privança do Conselheiro; meio sacristão, meio soldado, misseiro de bacamarte, espiando, observando, indagando, insinuando-se jeitosamente pelas casas, esquadrinhando todos os recantos do arraial, e transmitindo a todo instante ao chefe supremo, que raro abandonava o santuário, as novidades existentes.129

A descrição do Beatinho, provavelmente o mais importante auxiliar do Conselheiro, acompanhada de sua adesão à causa do pregador, é apenas a primeira dentre outras que surgirão ao longo de La guerra del fin del mundo. Quase todas baseadas em personagens extraídos do mundo real, as descrições vão-se sucedendo e, em cada uma delas, as motivações para cada conversão são analisadas detalhadamente por Vargas Llosa, sempre focalizando o aspecto pessoal daqueles seres sofridos, sem deixar, porém, de fazer uma análise das implicações sociais geradoras do drama vivido por cada um deles nos diversos episódios. O contraste estabelecido entre as duas descrições acima é bastante evidente, pois Vargas Llosa humaniza o personagem, enquanto Euclides o ridiculariza. Essa imagem será uma constante ao longo das duas obras, pois o escritor peruano procura sempre sensibilizar o leitor com o drama individual daquelas pessoas que haviam largado suas vidas para seguir as prédicas do conselheiro. E no momento em que a narrativa se encaminha para o desfecho, o escritor peruano acentua-lhes o tom épico e heróico. Já o escritor brasileiro, embora deixe entrever também a epopéia dos defensores da cidade, procura citar apenas o que ele, como repórter da época, acompanhante da tropa e republicano exaltado, sem ter estado dentro de Canudos durante o cerco, pôde observar. Ressalte-se que, quando descreve os diversos personagens do grupo de Antônio Conselheiro, Euclides evidencia-lhes o aspecto selvagem, bárbaro e até cruel, mostrando-os como bandidos perigosos. Vargas

128

VARGAS LLOSA, M. La guerra del fin del mundo, Libro Uno, primer capítulo, p. 23.

69 Llosa, por outro lado, acentua a humanização dessas pessoas conseguida através do arrependimento, da conversão e de uma vida dedicada aos padrões cristãos pregados pelo Conselheiro na comunidade.

El Brasil del Sur ha entendido ya que la República es irreversible. Se lo hemos echo entender. Pero aquí, en Bahia, queda mucho aristócrata que no se resigna. Sobre todo desde la muerte del Mariscal; con un civil sin ideales en el gobierno creen que se puede dar marcha atrás. No se resignarán hasta sufrir un buen escarmiento. Y ésta es la ocasión, señores. 130

Ora de todo o exército, um coronel de infantaria, Antônio Moreira César, era quem parecia haver herdado a tenacidade rara do grande debelador de revoltas.

O fetichismo político exigia manipansos de farda. Escolheram-no para novo ídolo.

[...]

Aos que pela primeira vez o viam custava-lhes admitir que estivesse naquele homem de gesto lento e frio, maneiras corteses e algo tímidas, o campeador brilhante, ou o demônio crudelíssimo que idealizavam. Não tinham os traços característicos nem de um, nem de outro. Isto, talvez, porque fosse as duas coisas ao mesmo tempo. 131

Da mesma forma que Vargas Llosa descreve os personagens mais marcantes que habitavam Canudos, também o faz com todos os demais, incluindo, neste caso, militares das mais diversas patentes, que povoam a narrativa. Euclides, neste caso, como pôde acompanhar de perto o deslocamento da tropa e como via a história a partir do ângulo daqueles que pretendiam conduzi-la, teve condições de fazer descrições bastante detalhadas desses personagens. Sobressai, neste caso, a figura do coronel Moreira César, o qual, naquele momento, dispunha de muito prestígio dentro do Exército Brasileiro. A descrição que Vargas Llosa faz deste militar, tão minuciosa quanto a de Euclides, põe em relevo a crítica que esse autor faz aos extratos urbanos e à burguesia emergente, as quais passaram a exaltar os militares, vendo-os como salvadores da pátria. Neste caso, os governos civis seriam sempre incapazes de exercer o poder a contento, deixando-se dominar por corruptos de vários matizes, além de serem presas fáceis para agitadores e revolucionários de diversos tipos.

Ressalte-se que a imagem desse personagem construída por Euclides ao longo de sua obra em nada difere da de Vargas Llosa, pois é possível perceber, nos dois casos, que Moreira César representava um tipo de liderança militar muito comum nos países da América Latina desde a separação de suas matrizes ibéricas, tendo-se acentuado no

130

VARGAS LLOSA, M. La guerra del fin del mundo, Libro Tres, tercer capítulo, p. 184.

70

Brasil a partir da Proclamação da República, criando o chamado “jacobinismo de caserna”. Tal liderança conduziria os diversos países do continente a uma série de

golpes militares ao longo do século XX, deixando aflorar ditaduras de cunho fascista. As elites burguesas apreciavam a idéia de que somente o poder exercido com mão de ferro conseguiria trazer o progresso e criar uma sociedade moderna, além de reduzir consideravelmente a possibilidade de movimentos reivindicatórios ou que pudessem produzir qualquer tipo de contestação. Euclides denuncia, já naquela época, a fraqueza

da sociedade civil, sempre ansiosa por um “manipanso de farda”, e a excessiva

intromissão dos militares na política nacional. Vargas Llosa faz o mesmo tipo de denúncia, acentuando o autoritarismo e o fanatismo do coronel, de modo a mostrar que suas atitudes, além de não conseguirem produzir as mudanças necessárias à sociedade, seriam, também, sua perdição naquela campanha.

Rufino tenía en la mano una suerte de puñal de madera. Lo vio soltar a Jurema, empujarla, agazaparse para embestir:

– Qué clase de bicho eres, Gall – lo oyó decir –. Hablas mucho de los pobres,

pero traicionas al amigo y ofendes la casa donde te dan hospitalidad.

Lo calló, lanzándose contra él, ciego de furia. Habían comenzado a desrtrozarse y Jurema los miraba, estupidizada de angustia y fatiga.132

“Ya le pusiste la mano en la cara, Rufino”, piensa Jurema. “¿Qué has ganado

con eso, Rufino? ¿De que te sirve la venganza? Si has muerto, si me has dejado sola en

el mundo, Rufino?” No llora, no se mueve, no aparta los ojos de los hombres inmóviles.

Esa mano sobre la cabeza de Rufino le recuerda que, en Queimadas, cuando para desgracia de todos Dios hizo que viniera a ofrecer trabajo a su marido, el forastero palpó una vez la cabeza de Rufino y leyó sus secretos, como el brujo Porfirio los leía en las hojas de café y doña Casilda en una vasija llena de agua.133

Os episódios acima remetem a dois personagens criados por Vargas Llosa com o intuito de instaurar o tom novelesco da narrativa. Segundo Seymour Menton, na pregação do escritor peruano contra qualquer tipo de extremismo, Rufino, esposo de Jurema, seria o quarto fanático, depois de Antônio Conselheiro, Coronel Moreira César e Galileo Gall. Diferente dos outros, porém, que lutavam pelas causas que conduziam o eixo dos acontecimentos nacionais presentes na região de Canudos, o rastreador tem uma causa que se poderia dizer restrita, exclusivamente pessoal. Ele se sente pressionado por seus próximos a limpar sua honra tanto matando a sua esposa Jurema – porque foi violada por Gall – como esbofeteando a este antes de matá-lo ou no mesmo

132

VARGAS LLOSA, M. La guerra del fin del mundo, Libro Tres, sexto capítulo, p. 305.

71 ato e matá-lo.134 A voz de seu amigo Caifás não parava de repercutir em sua mente “La muerte no basta, no lava la afrenta. La mano o el chicote en la cara, en cambio, si.

Porque la cara es tan sagrada como la madre o la mujer.”135

A quebra do código matrimonial vigente, não apenas naquela região, mas em toda a América Latina, conduzia seu desejo cego de vingança. E Rufino não ficaria em paz enquanto não encontrasse o escocês e reparasse, de forma violenta, o dano que este lhe causara.

A presença de Jurema, ex criada da esposa do Barão de Cañabrava, dá o tom diferente proposto pelo autor. Tudo ocorre involuntariamente quando essa mulher, esposa de Rufino, ao ajudar Galileo Gall a escapar do atentado provocado por Epaminondas para, após a morte do revolucionário, imputar-lhe a pecha de monarquista, acaba tendo um relacionamento sexual com o escocês. Segundo Renata Wasserman, “é uma mulher que torna possível a narração em La guerra del fin del mundo, quando por amor faz com que a testemunha dos últimos dias da cidade, o jornalista míope sem

óculos, consiga „ver‟ o que depois nos conta dos acontecimentos.”136

Depois de ter mudado a trajetória de Galileo, Jurema, em meio ao caos e à destruição, faz amor com o jornalista míope, contribuindo de maneira significativa para a mudança vivenciada por esse personagem.

Ao contrário de Euclides, que utiliza a guerra como motivação para sua obra, esvaziando a figura feminina e desconsiderando qualquer aspecto sentimental, Vargas Llosa envereda por esse caminho. Afinal, Jurema não apenas seria preponderante na transformação da vida do jornalista míope, mas também na de Pajeú, visto na Bahia como um bandido muito perigoso, agora um dos líderes mais importantes dentre os defensores de Canudos. O jagunço, apaixonado por ela, havia-se tornado um homem mais compreensivo e, de certo modo, bem menos violento. Afinal, ele chegara até a aceitar o fato de que Jurema houvesse escolhido o jornalista míope, não ele. O encontro dela com Galileo provocaria também profundas alterações na trajetória do militante revolucionário, cuja postura era tão ascética e misógina, a ponto de julgar que o sexo poderia diminuir consideravelmente o fervor revolucionário. As atitudes de Jurema ao

longo dos Livros Três e Quatro se contrapõem ao “fanatismo exacerbado” de Rufino e

de Galileo. Sua fala, questionando o fato de o marido, agora morto, ter posto a mão na cara do escocês, é bem representativa. Afinal, “o que ele havia ganhado com isso?”

134 MENTON, S. La nueva novela histórica de la América Latina , p. 74.

135 VARGAS LLOSA, M. La guerra del fin del mundo, Libro Tres, según capítulo, p. 197. 136

WASSERMAN, R. Mapeando os sertões: congruências. In.: BERNUCCI, L.M. (org.) Discurso, Ciência e Controvèrsia em Euclides da Cunha, p. 179.

72

– ¡Prejuicioso! !Insensato! !Vanidoso! !Terco! – gritó, ahogándose –. No soy tu

enemigo, tus enemigos son los que tocan esas cornetas ¿No las oyes? Eso es más importante que mi semen, que el coño de tu mujer, donde has puesto tu honor, como un burgués imbécil.

[…]

– No moriré por las miserias que hay en mí, Rufino. – rugía Gall –. Mi vida

vale más que un poco de semen, infeliz. 137

A cena acima descreve o desespero de Galileo ao tentar fugir da perseguição de Rufino. O anarquista, que havia lutado na Comuna de Paris em 1871, acreditava que sua experiência revolucionária no continente europeu seria suficiente para inseri-lo na luta de Antônio Conselheiro e de seus seguidores. Esse personagem foi criado por Vargas Llosa para, conforme já mencionado no capítulo anterior, criticar o que ele considerava uma postura cega e, às vezes, pueril de muitos extremistas de esquerda. As atitudes de Galileo remetem ao escritor peruano suas experiências de juventude com seus antigos companheiros do Cahuide. De acordo com Vargas Llosa, o fanatismo do escocês afastava-o da realidade, em vários aspectos. É o que ocorre na cena descrita acima, quando o escocês tenta, de forma racional, dialogar com o rastreador, procurando fazê- lo abandonar um código de honra que lhe havia sido inculcado de modo permanente ao

longo de sua vida. Vargas Llosa enfatiza que a “cegueira revolucionária” de Galileo