C) KONUDA BELĠRLĠLĠK
III- AÇIKLIK (ALENĠYET) ĠLKESĠ
Apesar de a apresentação do presente caso ter sido segmentada, isso foi feito com o escopo de proporcionar um melhor entendimento do caso como um todo. As conclusões sobre o caso, entretanto, podem ser feitas em conjunto.
A origem das ações judiciais, como visto, surgiu de iniciativas tomadas ainda fora da seara judicial, por exemplo, a partir de uma articulação política entre sindicatos e partidos de oposição ao Governo Federal. Processualmente falando, a maioria das ações foi proposta por atores políticos que compunham a oposição ao Governo Federal e ao Presidente da República, responsável pela Medida Provisória que deu origem ao PROES. Isso demonstra o jogo político em torno do modelo de intervenção do Estado no sistema financeiro. Vale lembrar que, nesse “jogo”, os atores estavam envolvidos na disputa da implementação de uma política pública do governo federal: o PROES.
Um fato importante verificado foi a unanimidade das decisões que declararam a matéria inconstitucional. Essa é uma informação que pode parecer indiferente, mas uma Corte Judicial que consta na sua formação com um Ministro chamado, informalmente, de “senhor voto vencido” (KOSTMAN, 2006, p. 98-99), é de se ressaltar decisões colegiadas em que haja unanimidade nos votos.
A legislação que vier a editar ressalva ao art. 164, §3º, da Constituição Federal, terá de observar a proporcionalidade e razoabilidade dessa exceção, mesmo que o STF, em nenhuma manifestação dos seus Ministros, tenha oferecido qualquer dado (ou mesmo indício) objetivo sobre o que seria um prazo razoável e uma medida proporcional. Do ponto de vista objetivo dos votos: obrigatoriamente, ambos esses requisitos deverão ser feitos mediante legislação federal de abrangência nacional.
Outro argumento comum às decisões analisadas é o princípio da moralidade administrativa. Os principais argumentos pela impossibilidade dos bancos oficiais depositarem os recursos provenientes do art. 164, §3º da CF/88, podem ser resumidos a partir de: disponibilidade de caixa é dinheiro público, devendo, portanto, ser depositado em bancos oficiais, pois eles são disciplinados por princípios da Administração (art. 37 da Constituição Federal), que não são aplicáveis ao setor privado; há riscos concorrenciais dos bancos privados gerirem monopólios, promovendo uma vantagem concorrencial, seja entre eles, como para com bancos públicos; favorecimento indevido
a nível estadual a bancos privados. Esses são argumentos que corroboram com a conclusão de uma visão restritiva do STF aos bancos privados para depositar a disponibilidade de caixa dos Estados e demais entes federativos.
Na medida em que o STF poderia ter rompido, ou mesmo mitigado esse monopólio, sinalizando a futuros casos como esses leilões poderiam ocorrer para que houvesse uma concorrência de fato pelas disponibilidades de caixa, ele manteve a exclusividade dos bancos oficiais em depositar as disponibilidades de caixa. Mesmo quando decidiu sobre a constitucionalidade de determinações do PROES, em si, não sinalizou qualquer alternativa viável, sequer existente, para que se pudesse ressalvar o monopólio constitucional.
Desse modo, diante da reserva de mercado criada pelo texto constitucional, quando bancos públicos detêm a exclusividade sobre as disponibilidades de caixa, há uma interpretação e aplicação literal do art. 164, §3º, reforçando esse dispositivo. Porém, na tentativa de excepcionar o texto constitucional, o legislador, e os governantes responsáveis pelos leilões dos respectivos bancos estaduais, encontram um campo de atuação mais restrito, por conta dos vários obstáculos extraídos das decisões do STF.
Sobre essa “visão restritiva” do STF para a tentativa de se excepcionar o texto constitucional em desfavor dos bancos oficiais, note-se a interpretação de Henrique Pinto (2010) acerca desse modo de tomada de decisão:
Para responder à indagação lançada acima [sobre a concessão de privilégios a empresas estatais exploradoras de atividade econômica], podemos afirmar que a jurisprudência do STF vem reforçando a regra constante do § 3º do artigo 164 da Constituição ao refutar as ressalvas que o constituinte estadual e o legislador, estadual e nacional, pretenderam conceber. O tribunal vem adotando, desta maneira, uma postura não restritiva diante do monopólio dos bancos estatais sobre os depósitos de disponibilidades de caixa do poder público, que o leva a afastar as ressalvas instituídas pela lei. Diante desse dispositivo constitucional, a corte busca reforçar a regra que ali está contida, sendo excessivamente rigoroso com as normas que procuram ressalvá-la. Trata-se de postura contrária à adotada na interpretação da norma que impede às empresas estatais a fruição de privilégios, em que o STF é restritivo em seu alcance (PINTO, 2010, , p. 106-107).
Portanto, ao manter a exclusividade dos bancos oficiais e impor uma série de condicionantes aos bancos privados em depositar as disponibilidades de caixa, o STF privilegia uma interpretação de que recursos públicos devem ser depositados em bancos oficiais.
As decisões do STF poderiam, todavia, ter sido tomadas a partir de uma outra linha interpretativa sobre os princípios constitucionais. O princípio da moralidade administrativa não comporta somente o entendimento de que bancos públicos devem, obrigatoriamente, depositar as disponibilidades de caixa por se submeterem aos princípios da Administração. Um exemplo disso é a interpretação apresentada por Carlos Ari Sundfeld e Rodrigo Pagani de Souza (2005) de que a moralidade administrativa estaria sendo respeitada devido aos procedimentos do certame que escolhessem o vencedor apto a depositar as disponibilidades de caixa previstas no art. 164, §3º, da CF/88. No entanto, o STF optou por interpretar que a moralidade como requisito, também, para gerir os recursos das disponibilidades de caixa e a este princípio somente os bancos públicos se submetem.
Além disso, o Tribunal poderia ter enumerado alternativas, de acordo com o princípio da livre concorrência, sobre como seria possível haver razoabilidade e proporcionalidade na gestão dos bancos privados sobre recursos públicos, também acerca das cláusulas e elaborações dos leilões, etc. Entretanto, os princípios da ordem econômica da livre iniciativa e da livre concorrência, quando suscitados, foram interpretados de outra maneira.
É possível inferir das decisões judiciais que abordaram os princípios da livre concorrência e da livre iniciativa: a inadmissibilidade de proporcionar maior poder concorrencial para os bancos privados sobre os seus concorrentes, sobretudo, os bancos públicos, sendo vedado esse monopólio sobre as disponibilidades de caixa às instituições financeiras privadas. Todavia, atribuir o monopólio desses recursos aos bancos oficiais é admitido judicialmente a partir de uma interpretação praticamente literal do art. 164, §3º, da Constituição Federal. Neste caso, atribuir monopólio a bancos públicos recai sobre um poder de discricionariedade judicial mais abrangente, enquanto que para os bancos privados, estes encontram um espaço de atuar com exclusividade mais restrito sob o olhar judicial.
Sendo assim, mesmo diante desses diversos fatores e interpretações possíveis, há uma conclusão indubitável a partir do conjunto de decisões judiciais analisado: enquanto o STF poderia ter afirmado que todos estariam aptos a operar esses recursos financeiros, o Tribunal estipulou a necessidade de esses recursos serem operados por banco oficial, somente.