Pontua-se nesse tópico a atividade adequada a um fim, ou seja, o próprio trabalho do artesão, diante da natureza capitalista. Nessa lógica, o artesão como trabalhador é força de
trabalho em ação (MARX, 1984, pag.201), agente potencial transformador da matéria-
prima em produto, o qual põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e
Por traduzir-se o artesão como sujeito principal desse processo de trabalho, faz-se
necessário esclarecer o significado da terminologia “artesão” e as diversas conotações
dadas a essa forma de trabalho. A Nova Enciclopédia Brasileira de Consultas e Pesquisas
traz o termo “artesão” como “artífice, aquele que exerce uma arte, operário, artista”
(COSTA et al., 1981) e o Novo Dicionário Aurélio atribui à forma de trabalho “artesanal”
aquilo que é próprio do artesão ou artesanato. Ainda segundo o padrão erudito “artesão deriva do italiano artigiano e representa um indivíduo que exerce por conta própria uma arte, um ofício manual”.
Logo, observa-se nas definições, a correlação entre artesão e arte, a qual evidencia uma forma particular e singular de expressão, como se o objeto manipulado traduzisse o sentimento e o desejo de quem o constrói, sedimentados pela própria “competência” do artesão (SCHWARTZ, 1998; LEPLAT, 2001; MONTMOLLIN, 2001). Enraizado nesse conceito de artesanal, ou artesanato, subentende-se que o produto, resultante desse trabalho, apropria-se de um só indivíduo, como compreendido por Freyer (1955, p. 28):
“Um artesão que com toda a serenidade elabora um objeto completo: primeiro escolhe a peça adequada de couro, madeira e metal, com a experiência adquirida durante longos anos por seus olhos e dedos; depois enfileira as ferramentas uma atrás da outra; em seguida reúne seus pensamentos num projeto (vários modelos aparecem diante de seus olhos e cada peça é um pouco diferente e assim tem que ser); depois medindo com os olhos e seus instrumentos, transforma espaço em superfície e superfície em espaço, transportando o desenho para o material; a seguir executa passo a passo os golpes, marteladas e cortes necessários, ocasião em que antecipa o que deveria vir por último e deixa pela metade o que foi iniciado: enquanto isso, ajuda, aperfeiçoa e arranja – essa é a visão idílica do trabalho.”
Essa percepção amorosa do trabalho se recolhe internamente ao ofício do artesão, qualquer que seja seu objeto de trabalho. Reconhece-se a produção de artigos têxteis como um dos mais antigos ofícios sob a ação transformadora do homem. Em outras épocas, a tecelagem vinculava-se à produção de vestimentas, seja pelo caráter decorativo ou simbolizando status
social (MONTAGU, 1977 apud ABREU, 2002), ou pelo caráter utilitário (GASPAR, 1986 apud ABREU, 2002).
A tecelagem artesanal caracteriza-se como uma atividade milenar e faz o uso de teares de madeira ou de pau, instrumento de trabalho do artesão que se mantém até os dias atuais nesse cluster. Nesse processo de trabalho, o artesão, comprometido com a peça têxtil que deseja fazer, opta pela escolha da matéria-prima que deseja trabalhar, o material constitutivo do fio, sua espessura, a combinação de cores e, por fim, o modelo que se deseja formatar. Segundo Freyer (1955, p. 17), é preciso estudar o mundo das matérias-primas
como se estuda um livro.
Num segundo momento, a matéria-prima escolhida é separada por cores e pela qualidade. Parte dela é destinada à fabricação da teia para a qual se usa a urdidura, e outra parte destina-se à formação de pequenos novelos de fios, sendo que ambos serão utilizados no tear durante o processo de tecer. A teia urdida, produzida a partir da interface do artesão com a urdidura, é montada no tear pelo próprio artesão e confere o sentido vertical da trama, enquanto o novelo de fios confere o sentido horizontal da trama e juntos dão origem ao tecido. Até a década de 60, na região de Resende Costa, recarregava sobre os artesãos a fabricação dos fios do tecido, inicialmente fiados a partir do algodão ou da lã do carneiro, que posteriormente passou a vir em meadas.
Os novelos de fios cediam lugar aos novelos de retalhos, conforme o que se queria fabricar. Nesse caso, a separação desse retalho e sua preparação (corte e emenda) ficavam sob incumbência do artesão. Além disso, inúmeros artesãos se encarregavam da confecção do arsenal primitivo dos meios de trabalho.
Uma vez instalada a teia no tear, o artesão, através dos gestos, movimenta o equipamento,
usando os braços e as pernas, cuidando para manter a “tensão” dos fios, sempre bem
esticados, característica imprescindível que qualifica o tecido. Terminada a peça, inicia-se o seu arremate e o cuidado na inspeção de pequenos detalhes como fios soltos.
Resume-se dessa forma o trabalho do artesão, tal como compreendido até os anos 60 em Resende Costa, demarcado por uma época econômica distinta dos anos 90. Na circunstância da forma tradicional de produção da tecelagem artesanal, pode-se inferir a respeito dessa organização do trabalho do artesão, conforme depreendido por Freyer (1955,p.28), essa forma de trabalho, calma e tranqüilamente organizada, feita passo a
passo, existe de fato e exatamente onde algo é feito, o que aliás é bastante compreensível. Um trabalho desse tipo se divide por si mesmo. Segue uma ordem que está na própria coisa e é nessa ordem que se realiza. Restringe-se a divisão do trabalho ao indivíduo:
Figura 1 – Representação da organização do trabalho do artesão vigente nos anos 60 Artesão
Separa a matéria-prima
Define o modelo a ser produzido
Fabrica a teia na urdidura
Faz novelos de fios Seleciona e prepara o retalho (pica e emenda)
Monta a teia no tear
Tece a peça no tear
Faz o acabamento das peças