İCRA YOLUYLA VEYA DİĞER NEDENLERLE MÜZAYEDE MAHALLİNDE YAPILAN SATIŞLARIN KDV KARŞISINDAKİ
5. İCRA YOLUYLA VEYA DİĞER NEDENLERLE MÜZAYEDE MAHALLİNDEYAPILAN SATIŞLARDA KDV İSTİSNA UYGULAMASI
Segundo Joel Best (1990), quando organizações e instituições são mobilizadas para tentar propor mudanças sociais, elas querem que outras pessoas façam algo. Porém, é difícil fazer com que as pessoas respondam a seus apelos quando o problema que elas querem que mude ainda não está consolidado, ainda não faz parte de uma agenda (FUKS, 2000). Para tal, elas precisam – na medida em que apontam que X é um problema, parafraseando Ian Hacking – fazer com que as pessoas reconheçam que X existe, é real, e que é um problema social.
Ian Hacking (1999) afirma que uma postura construcionista em pesquisa envolve um compromisso crítico-político, como discutido no capítulo dois. Ele distingue então diferentes graus de compromisso com a transformação social a partir desta postura: a) histórico, quando o objetivo é fazer a história de X de modo a argumentar que X foi construído por meio de processos sociais que são histórico e culturalmente situados; b) irônico, quando reconhece que X é parte inevitável do mundo e dos nossos conceitos, mas poderia ter sido substancialmente diferente; c) reformista quando crê que X é ruim! Se não podemos viver sem X, podemos alterar alguns de seus aspectos e minimizar seus efeitos nefastos; d) desmascarador, quando procura expor as funções de X; e) rebelde, quando leva a sério a postura reformista e assume que estaríamos melhor sem X; e f) revolucionário, quando extrapola a esfera das ideias e busca ativamente mudar X.
Acredito que minha postura nesta tese estaria próxima do item a), uma vez que busco remontar a maneira na qual a Lei da Cadeirinha foi construída. É preciso entender como é que esse X passou a ser visto como um problema, uma vez que, para que este X venha a ser objeto de atenção, precisa ser reconhecido como um assunto de interesse público (FUKS, 2000).
Geralmente, isto acontece através de jornalistas, legisladores, especialistas, pessoas sensibilizadas com o tema, ONGs e instituições diversas. Para que isso aconteça, é preciso haver grupos de pressão, ou seja, aqueles que podem rotineiramente exercer influência sobre decisões governamentais, pois seus interesses são comumente reconhecidos no processo de tomadas de decisão sobre determinados problemas sociais (BEST, 1990).
Best (1990) diz que existem os insiders, ou aqueles que têm influência direta sobre as decisões governamentais no que diz respeito a problemas; são organizações, especialistas que têm expertise no problema e agências oficiais que podem exigir do governo mudanças diretas nas políticas através de suas atribuições. De maneira semelhante, afirma Mário Fuks (2000) que
[...] se, de um lado, uma pluralidade de atores, grupos e instituições tende a participar na disputa que envolve a emergência e a caracterização dos assuntos públicos, de outro, alguns desses têm claras vantagens sobre os outros. Essas vantagens existem em razão da distribuição diferenciada de recursos materiais, organizacionais e simbólicos. Os atores situados no âmbito das instituições governamentais estão entre aqueles que assumem uma posição privilegiada nessa disputa. A visibilidade de seus pronunciamentos e o caráter singular do discurso público oficial - fortalecido por seu amparo em outras formulações estatais (p. ex.: leis) - asseguram a esses atores condições especiais de participação no debate público (p. 84). Há ainda os outsiders, que não dispõem dessa influência e que tentam passar aquilo que desejam para o público, esperando ganhar aceitação e reconhecimento por suas reivindicações e angariar pessoas que apoiem sua causa. Para estes últimos, a mass media é muito importante. Neste sentido, Best (1990) compara o processo de reivindicar determinado problema para insiders e outsiders da seguinte forma:
Ou seja, o mass media é importantíssimo para as reivindicações dos outsiders, pois através deste eles podem atrair a atenção dos jornais através da produção de matérias
chocantes, conduzindo demonstrações ou conferências de imprensa, ou de notícias mais leves, tais como aparecer em entrevistas, palestras, oficinas, ações educativas, etc. Isto acaba por atrair a atenção do público para a causa que procuram promover. A cobertura da mídia acaba por pressionar os formuladores de políticas, que se sentem obrigados a responder àquilo que está sendo veiculado. Para isso, a linguagem adotada por eles deve ser bastante persuasiva.
Devem convencer os outros que suas preocupações sobre determinado fenômeno social merecem atenção e que suas avaliações sobre este fenômeno são corretas e que as soluções que oferecem devem ser adotadas como política. Além disso, devem convencer também a mídia de que suas preocupações merecem cobertura por parte desta, atrair a atenção do público e convencer os políticos a agir (BEST, 1990).
Como importante teórico no que diz respeito à influência da mídia na formação das sociedades modernas, o sociólogo John B. Thompson (1998) afirma que esta costuma ser utilizada por atores, tanto individuais como coletivos, para lograr seus próprios propósitos e não é isenta de estar entrelaçada com outras formas de poder – econômico, político, militar etc. Apesar do jornal aparentemente ter um caráter puramente informativo, a comunicação midiática possui uma dimensão simbólica que lhe é irredutível ao se ocupar da produção, armazenamento e circulação de materiais significativos tanto para aqueles que produzem tais materiais, tanto para aqueles que os recebem (THOMPSON, 1998).
Conforme discutido no primeiro capítulo, a ideia de risco na atualidade vai se entrecruzar com o governo da população baseado em um modo de poder exercido à distância, no qual o indivíduo torna-se o único responsável por buscar quais são as informações disponíveis para que ele possa gerir seu próprio comportamento em relação à sua vida. Segundo Carvalho (2007), este modelo de governo:
[...] promove discursos nos meios de comunicação de massa; estabelece modos de lidar com o corpo pelas ciências biomédicas; cria políticas de saúde; organiza estratégias político-militares anti-terror e de segurança urbana; negocia o futuro, na medida de sua possibilidade e preço através de um contrato. Este modelo também produz e reproduz saberes que promovem e promovem-se na gerência sobre si e na responsabilidade pessoal e culpabilização dos indivíduos pelos próprios sucessos e insucessos existenciais (físicos, psíquicos, financeiros, profissionais, etc.). Além disso, tem por base uma série de verdades sobre a vida em sociedade para a qual os indivíduos devem orientar-se, constituindo-se uma nova pedagogia: a do auto-didactismo, que fundamenta-se na disponibilização ou oferta de informações e conhecimentos sobre o indivíduo em todos os aspectos de sua vida (p. 148).
Isto acaba por conduzir as pessoas a uma busca frenética por sua própria autorrealização, condição indispensável para que estas sintam que atingem o que se considera
ser um ser humano pleno atualmente: ter saúde, qualidade de vida, sucesso profissional, beleza, expectativa de vida, perspectiva de futuro, etc. No que diz respeito à segurança da criança no trânsito, criar modelos e expectativas do que seria um/a pai/mãe ideal no compromisso consigo mesmo e com seus filhos, informando como um “responsável modelo” deve transportar seus filhos nos carros de passeio. Porém, estes aspectos constituem-se como estratégias econômicas de uma racionalidade política própria dos governos de tipo neoliberal, na qual o Estado assume o papel de facilitador do acesso individual a ferramentas de auto- gestão, dentre as quais destacam-se os dispositivos de informação (CARVALHO, 2007).
Dentro desse princípio, quanto menos se governa, melhor é o governo e o papel de provedor de bem-estar dos indivíduos. Papel este que era atribuído ao Estado, e que agora será substituído pelo papel do governo de viabilizar o autogoverno, a autogestão.
Nesse sentido, o desenvolvimento dos meios de comunicação tem dado lugar ao alargamento de novos tipos de ação à distância, os quais trazem consigo também uma nova forma de visibilidade que se diferencia em aspectos essenciais da visibilidade típica dos fenômenos de co-presença (THOMPSON, 1998; 2008).
Segundo Thompson (1998), os meios de comunicação de massa têm em conta diferentes níveis de separação espaço-temporal, no qual qualquer processo de intercâmbio simbólico leva consigo a separação de seu contexto de produção tanto espacial quanto temporal, podendo ser inserido em contextos novos que poderiam se encontrar em diferentes tempos e lugares. Já as interações face-a-face se diferenciam bastante destas, pois existe uma separação espaço-temporal bastante escassa. As conversas acontecem no espaço de co- presença, os participantes estão fisicamente presentes, um de frente para o outro, e compartilham de um conjunto bem parecido de referentes espaço-temporais:
Las expresiones intercambiadas en la conversación están generalmente disponibles sólo para los interlocutores, y para los individuos ubicados en las proximidades inmediatas, por añadidura, las expresiones no permanecerán más allá del fugaz momento de su intercambio o lo que tarden sus contenidos en desvanecerse en la memoria. (THOMPSON, 1998, p. 41) Porém, a amplificação do discurso através dos meios técnicos, tais como o registro escrito, o gravador de som, a câmera de vídeo e atualmente o celular, permite que exista uma maior disponibilidade espacial e temporal na divulgação de informações. Uma mensagem gravada pode ser preservada para ocasiões posteriores: a notícia que é veiculada várias vezes ao longo do dia, as campanhas publicitárias que se repetem com periodicidade, os sites voltados para pais/mães, os folders informativos entregues na rua, o jornal impresso para ser lido assim que houver disponibilidade, a notícia compartilhada nas redes sociais etc.
A partir da alteração das condições de comunicação espaço-temporais, o uso de meios técnicos também altera as condições espaciais e temporais nas quais os indivíduos exercem poder. Uma vez que são capazes de comunicar através de distâncias temporais e espaciais, tornam-se capazes de atuar e intervir à distância, influenciando os acontecimentos que se sucedem em lugares remotos daqueles em que a informação é produzida. A utilização desses meios oferece novas maneiras de organizar e controlar o espaço e o tempo, bem como maneiras novas de utilizar o espaço e o tempo para alcançar seus propósitos (THOMPSON, 1998).
A título de exemplo, podemos contrastar duas notícias envolvendo personalidades na Folha de S. Paulo, de anos diferentes, de forma a perceber como elas são utilizadas para visibilizar a necessidade do uso dos dispositivos de retenção em um primeiro momento e, no segundo, para assegurar sua eficácia pouco antes da Resolução 277/08 entrar em vigência:
A atriz Isabel Fillardis acerta ao sempre transportar sua filha, Analuz, 2, no banco de trás, mas usa um cinto de segurança infantil, que não é recomendado por especialistas. (Mães na contramão, FSP-08.03.03)
Na TV, Jaqueline Petkovic, 29, ficou conhecida entre as crianças por ter apresentado um programa infantil no SBT de 1998 a 2003.
Na vida real, ela hoje é mais admirada dentro da própria família por ter insistido em utilizar a cadeirinha para transportar Enzo, seu filho de menos de dois anos, dentro do carro. O bebê sobreviveu sem nenhum ferimento a um acidente gravíssimo, oito meses atrás.
"Fiquei em coma, sedada dentro do hospital. Ele não teve nenhum arranhão, foi direto para casa. E olha que a batida foi bem do lado dele", recorda Jaqueline, numa referência aos três dias em que ficou na UTI.
O carro que ela dirigia atingiu um caminhão, numa colisão que envolveu também outros dois veículos no Rodoanel, na região do município de Osasco (Grande São Paulo), numa manhã de terça feira. (Acidente levou
apresentadora à UTI; filho, na cadeirinha, saiu ileso, FSP-19.04.10)
Desta forma, a mídia implica o uso de meios técnicos para transmitir informações – ou conteúdos simbólicos, como Thompson (1998) chama – a pessoas que estão em lugares distantes, afastadas no tempo do contexto de produção daquela notícia, porém sem deixarem de ser afetadas por elas.
É a partir do desenvolvimento dos meios de comunicação que novos tipos de ação a distância tornam-se cada vez mais presentes. No caso do uso das cadeirinhas, vários órgãos produziram materiais informativos e os tornaram públicos através de seus sites e de entrevistas cedidas para jornais impressos e televisivos: Inmetro, Criança Segura, Abramet, Contran, Sociedade Brasileira de Pediatria, etc. Bem como as controvérsias, que surgiram a partir da sua adoção obrigatória apenas nos carros de passeio, se tornaram públicas através dos mesmos meios, como no caso do Procurador Jefferson Aparecido Dias, mencionado na
introdução, que foi convocado a expor suas opiniões após exigir a anulação da resolução caso a exigência de cadeirinhas em vans escolares não fosse cumprida.
Para compreender o papel da mídia impressa no estabelecimento da criança em risco no trânsito como um problema e a cadeirinha como solução, analiso as notícias dos jornais a partir de dois aspectos cruciais: 1) este meio de comunicação serve aos propósitos de se exercer poder a distância, típico de um governo neoliberal, realizado na 2) expectativa de que cabe ao cidadão se autogerir e buscar as informações necessárias, através dos modelos disponíveis na mídia.