3.TEMİNAT MEKTUBUNUN PARAYA ÇEVRİLMESİ 3.1.Banka Teminat Mektuplarında Riskin Gerçekleşmesi
4.3. Bankanın Ödeme Yükümlülüğü
Por outro lado, houve participantes que relataram só ter adquirido a cadeirinha em função da lei, por conta da ausência-da-cadeirinha-que-multa, utilizando-a apenas na iminência de blitz:
Pedro: E, por exemplo, dia a dia. Tu vai fazer compra com tua esposa... tu vai com eles, tu vai sem eles...
Antônio: Eu sempre saio com eles pra fazer feira, tudo. Como são lugares perto, a gente bota as cadeiras no carro, mas fica por ali, né? Na enrolação. Quando vê a polícia “Sobe na cadeira, Mário!” Aí ele vai correndo e sobe. Alguns/mas participantes partilham a crença que pode ser sintetizada na frase “brasileiro só obedece quando pesa no bolso”. Porém, é possível notar que outras participantes utilizavam o dispositivo pouco antes da lei entrar em vigor, mas em concordância com a pesquisa da Criança Segura em conjunto com a Datafolha de que o uso se faz mais frequente em crianças pequenas, geralmente menores de cinco anos, por uma percepção de que estas seriam mais frágeis (CRIANÇA SEGURA BRASIL; DATAFOLHA INSTITUTO DE PESQUISAS, 2012). Hélio e Quitéria compartilham do argumento de que as pessoas agem por medo da punição:
Hélio: Antigamente era o cinto, né? Ninguém usava o cinto- porque eu acho um absurdo, o quanto de gente que lucra. E agora é automático, né? O brasileiro é aquela coisa, só começa a fazer as coisas quando pesa no bolso, né?
Quitéria: O que eu acho é o seguinte, que aqui a gente não tem- a gente só se preocupa de fazer alguma coisa, quando a gente sabe que vai ser punido por ela. Brasileiro- eu acredito que nós não temos o hábito... de precaver- assim- de uma coisa- assim- é- é- voluntária. A gente só faz quando sabe que vai ser punido.
Quitéria: É o que eu to falando. O povo, ele começa a agir mais por uma questão de punição do que por conscientização. Mesmo sabendo... que todo mal que ia ser provocado, quando foi lei faltou. Por que não antes? Né? Pelo menos eu acho desse jeito. Por isso que eu to falando das campanhas mais agressivas, incentivo do governo... questão de conscientização eu acho que é isso. Se eu sei que vou ser multado... né? Dessa forma. A pessoa ter cuidado antes de ter- ser punido, só fez reutilizar... dessa- dessa questão toda. Mas eu acho- acho também que é uma questão cultural, investir na educação do- do país.
Hélio e Quitéria tentam se distanciar daqueles que só utilizam a cadeirinha por medo da punição, mas ao mesmo tempo se identificam com eles dizendo que as pessoas muitas vezes só utilizam quando sabem que vai pesar no bolso – como foi no caso deles próprios, que continuaram a utilizar a cadeirinha após o bebê-conforto apenas por este motivo. Eles muitas vezes posicionam o governo como responsável por esse comportamento por não promover campanhas educativas adequadas para que as pessoas mudem de comportamento de forma espontânea, restando à pessoa a ausência-da-cadeirinha-que-multa como única intervenção que pode ser eficiente.
Hoje eles se percebem como um casal que transporta os filhos de maneira adequada e que mudaram de comportamento a partir dos relatos de acidente que escutaram, e não por medo da multa, que eles acreditam ser a única maneira de provocar comportamentos adequados. Diferente de participantes da entrevista que ou já utilizavam a cadeirinha por questão de segurança, ou que declaram só tê-la por medo da multa, Hélio e Quitéria se encaixam naqueles que mudaram de comportamento a partir da escuta de relatos de acidente de alguém próximo ou da própria vivência de um acidente que reforçam a importância do uso. Eles parecem não perceber que sua mudança de comportamento se deu de forma alheia ao que eles consideram eficaz para se estabelecer a conduta correta no transporte da criança.
O argumento deles ecoa com a maneira na qual o uso da cadeirinha passou a ser veiculado na mídia, conforme analisado no capítulo três. Quer dizer, uma vez que se acredita que a cadeirinha enquanto actante no binômio uso da cadeirinha/segurança está bem estabelecido, basta apenas lembrar do binômio não uso da cadeirinha/penalidade para que os comportamentos dos pais que transportam seus filhos sejam adequados. Mas nas práticas cotidianas não é assim que ocorre. Os entrevistados se dividiam entre aqueles em que a cadeirinha era um dispositivo que evitava a multa e outros que a utilizavam como dispositivo de segurança.
Como previsto pelas teorias que falam sobre como uma pessoa assume comportamentos de risco (ADAMS, 2013, 2002; WILDE, 2005), a percepção individual sobre a compensação de risco faz com que as pessoas se localizem em um pólo ou em outro.
Ou ainda, como foi o caso de Hélio e Quitéria (e possivelmente de Neuza), mudar de um pólo para outro através de uma mudança de percepção. No que diz respeito ao transporte da criança no trânsito, os comportamentos considerados adequados dependem de intervenções que tornem visível este transporte como sendo algo arriscado e a cadeirinha como actante que promove segurança.
Desta forma, a necessidade de campanhas educativas para promover o comportamento adequado é algo inquestionável, porém, nenhum dos entrevistados lembrou de alguma das campanhas promovidas pelo Detran na mídia radiofônica ou televisiva que entraram em circulação entre os anos de 2008 e 201060. Por outro lado, quase todos
lembravam ter lido alguma coisa no jornal ou ter visto nos telejornais sobre a vigência da lei e a aplicação de multa caso a cadeirinha não fosse utilizada. O sentimento de Hélio e Quitéria parece plausível não com o comportamento “do brasileiro”, e sim, com a maneira na qual o uso da cadeirinha foi veiculada nos jornais na proximidade da vigência da lei, conforme discutido no capítulo anterior.
Uma vez que os/as participantes tinham motivos diversos para utilizar ou não a cadeirinha, que iam desde o seu uso por questões de independência e conforto até seu não uso por questões práticas, a experiência pessoal aparenta ter um peso maior para moldar comportamentos do que as campanhase educativas em si. O medo da multa também não é suficiente para causar comportamentos adequados, principalmente quando de todos os entrevistados, apenas Hélio e Quitéria, Sandra e Olga foram pararadas em blitz rotineiras que, por ver que havia uma criança na traseira do carro, verificaram a existência da cadeirinha. Trago o trecho em que Hélio e Quitéria contam sobre a abordagem:
Pedro: Vocês já foram parados em blitz? Quitéria: Várias
Pedro: Várias? Quitéria: Constante.
Pedro: E pediram essa questão da cadeirinha?
Quitéria: Pediram. Três vezes. A primeira... a gente fez compra e botou as compras no Moisés e tirou Úrsula foi no meu colo. Foi a primeira vez. Aí... Hélio: Mais velha ((incompreensível)) mas tava no braço.
Quitéria: Tava no braço, mas era. Então veja só, as compras poderiam ter ficado onde eu estava e ela no Moisés. A gente botou as compras no Moisés e botou ela no meu colo. Então na blitz foi parado. Aí ele pegou- quando questionou eu disse “Não, não é obrigatório”. Ele fez- ele não sabia. Que era pequena. Um bebê. Ele chamou um amigo “Não é obrigado é?” ele “Não, não é obrigatório ainda”. Aí... a segunda vez, ela tava dormindo, já estava maior. Ela estava fora do bebê conforto, eu estava sentada e ela no meu colo, ela já estava maior, vindo da Cohab, da onde minha mãe mora. E o guarda liberou, que também não era obrigatório ainda... né? Mas ainda também não
era esclarecido, a gente pensou que era obrigatório, todo mundo pensava que era obrigatório e Úrsula pegou- acordou e começou a rir. Ele disse “Só vou liberar vocês por causa do sorriso da criança”. E ele liberou. E a outra vez a gente foi parado e ela tava no bebê mas não tava travado, mas ele não chegou a ver, só pediu documento de- de Hélio, mas não começou a ver. Três vezes a gente foi parado, né? Por causa dessa circunstância.
Hélio: Aonde tem blitz eu sou parado logo.
Hélio e Quitéria colocam, inclusive, que foram liberados pelo agente de trânsito61
mesmo quando estavam levando a criança de maneira inadequada. Apesar do medo de tomar multa por estar com a criança no colo, ficou aliviada ao saber que ainda não era obrigatório transportá-la na cadeira – o sentimento de insegurança não era presente nesse momento. Sandra aponta para uma questão marcante na fiscalização de trânsito no Brasil: ela só costuma acontecer na iminência de uma lei ou na época em que ela vai gerar mais multas – ou mais “tocos”62, para as línguas mais ferinas –, como no que diz respeito ao IPVA, por ela
mencionado.
De fato, no capítulo anterior discuti que as blitze específicas para verificação das cadeirinhas só aconteceram de forma intensa na iminência da lei, sendo logo depois deixadas de lado, provocando uma possível sensação de impunidade para aqueles/as que transportam as crianças de maneira inadequada. Por sua vez, Olga alertou para outra questão patente nas discussões dos atores que inventaram a criança em risco no trânsito: a inabilidade dos agentes de trânsito em checar se a criança está sendo transportada de maneira adequada, preocupando- se apenas com a atividade de aplicar ou não a penalidade. Não há questionamento sobre a possibilidade do agente cumprir um papel pedagógico para além do período previsto para divulgação educativa de uma norma: é dado por certo que sua função é punir63. O importante
não é os pais/mães aprenderem a forma segura de transportar seus filhos, e sim, serem punidos caso não o façam.
61 Segundo o CTB, o agente da autoridade de trânsito é toda pessoa, civil ou policial militar, credenciada pela
autoridade de trânsito para o exercício das atividades de fiscalização, operação, policiamento ostensivo de trânsito ou patrulhamento.
62 Palavra utilizada em Pernambuco para caracterizar o suborno entre condutor e policial para não haver
aplicação de multa em caso de irregularidade.
63 O CTB define fiscalização como sendo o “ato de controlar o cumprimento das normas estabelecidas na
legislação de trânsito, por meio do poder de polícia administrativa de trânsito, no âmbito de circunscrição dos órgãos e entidades executivos de trânsito e de acordo com as competências definidas neste Código” (BRASIL, 1997).
No que diz respeito a isso, é interessante notar a incongruência presente na prática do agente de fiscalização de trânsito64, uma vez que o próprio Manual Brasileiro de Fiscalização
de Trânsito (DENATRAN, 2010), traz no texto do seu prefácio que este tem um papel
[...] fundamental para o trânsito seguro, pois, além das atribuições referentes à sua operação e fiscalização, exerce, ainda, um papel muito importante na educação de todos que se utilizam do espaço público, uma vez que a ele cabe informar, orientar e sensibilizar as pessoas acerca dos procedimentos preventivos e seguros (p. 6, grifos meus).
Porém, pouco abaixo afirma que as ações de fiscalização
[...] influenciam diretamente na segurança e fluidez do trânsito, contribuindo para a efetiva mudança de comportamento dos usuários da via, e de forma específica, do condutor infrator, através da imposição de sanções, propiciando a eficácia da norma jurídica (p. 15, grifos meus).
Parafraseando Foucault, poderíamos dizer que, na experiência dos/as entrevistado/as, os agentes de trânsito parecem estar mais próximos do poder soberano65, no qual decidem
sobre a multa ou não-multa dos pais que transportam crianças baseando-se não apenas nas leis vigentes, mas em características outras que podem ir desde “o sorriso da criança”, até o desinteresse em aplicar a multa, como no caso de Neuza:
Pedro: Ou numa blitz que parou...
Neuza: Que parou e viu ele atrás comigo no colo. Pedro: E o que fez?
Neuza: Não. Aí eu fiquei... tensa, né? Que o vidro tava... mas o vidro é fumê. Aí eu fiquei na dúvida, eu disse “Meu Deus do céu, e agora?” Porque ele tava mamando, aí... ele deu uma olhada assim, mas... pediu a documentação... da minha mãe e fim.
Os pais/mães que não transportam os filhos nas cadeirinhas saírem impunes após uma fiscalização, somados à percepção do agente de trânsito como alguém que não promove intervenções educativas, e sim, que detém o poder de aplicar ou não a multa, faz com que os pais que se preocupam com a ausência-da-cadeirinha-que-multa não tenham o sentimento de insegurança ao transportar seus filhos fora da cadeirinha – ou tendo que lidar com a dissonância entre os benefícios de levar os filhos fora da cadeirinha e a insegurança, como Antônio o faz. E, uma vez que as blitze específicas da cadeirinha não acontecem mais, a sensação de que não vão ser parados numa fiscalização é maior entre estes/as entrevistados/as, reforçando o comportamento inadequado.
64“O agente da autoridade de trânsito competente para lavrar o auto de infração de trânsito (AIT) poderá ser
servidor civil, estatutário ou celetista ou, ainda, policial militar designado pela autoridade de trânsito com circunscrição sobre a via no âmbito de sua competência” (DENATRAN, 2010, p. 15).
De toda forma, seria ingênuo afirmar que este é o único motivo pelo qual os/as entrevistados/as que se localizam neste pólo não transportam seus filhos nas cadeirinhas, uma vez que até aqueles que têm o comportamento adequado por crerem na cadeirinha-que-salva estão submetidos à mesma lógica de compensação de risco e já transportaram seus filhos fora da cadeirinha em algum momento em que o benefício foi maior que a percepção do risco (ou da impunidade). Entre os/as participantes, àqueles/as que de maneira regular levam seus filhos na cadeirinha, sem se deixar levar por exceções, tiveram alguma experiência marcante que asseguram a percepção da cadeirinha-que-salva. Apenas a educação sobre a maneira correta de transportar a criança no carro parece que não é tão eficiente nesse sentido, uma vez que não há falta de informação entre os que transportam incorretamente.
Alertar apenas para a questão da impunidade, como promovido pelos mídia em conjunto ou não com o Denatran e os atores interessados na segurança da criança, parece também não ser eficiente. Isso fez apenas com que os/as entrevistados/as utilizassem a cadeirinha na iminência da multa ou por medo dela, não sendo suficiente para sensibilizar para os riscos. O fato de transportes coletivos, táxis e vans escolares não serem passíveis de punição reforça a atenção de alguns/mas participantes apenas para a ausência-da-cadeirinha- que-multa. Mas este fato também causa indignação para aqueles que acreditam na cadeirinha- que-salva justamente por ela não estar lá para promover segurança, exemplificado no trecho abaixo:
Diana: [...] Mas a gente tem a cadeira. Aí quando a gente vai pro táxi, aí precisa ter todo o cuidado de- da filha dela, num sei o que, o marido de nu- num levar multa, mas quando vai pro taxi, cadê a segurança? E aí num acho que a pergunta é pra gente não, é pro legislador. E cadê?
Os/as participantes apontam as dificuldades de se exigir cadeirinhas em táxi, tanto para os taxistas quanto para os/as pais/mães. Vimos no capítulo anterior que esta foi uma questão colocada pelos próprios taxistas em algum momento. Apesar de os táxis serem considerados por lei um “serviço de transporte individual de passageiros”, não há codificação presente no CID-10 para acidentes de transporte que os diferenciem de carros de passeio (os acidentes envolvendo ônibus , por sua vez, têm codificação própria).
Na forma como são calculados os riscos na modernidade tardia, os táxis participam do mesmo processo de inscrição que os carros particulares mas, na Resolução 277/08, são vistos como formando uma categoria à parte. Em termos estatísticos, a única certeza é de que, no caso de acidente fatal, crianças transportadas tanto no carro particular quanto no táxi, ônibus e vans escolares morrem. Este argumento irônico está de acordo com a lógica governamental
que rege esta lei, onde o que está em pauta não é segurança ou insegurança, e sim, a prevenção de mortes num recorte populacional específico, construído como estatisticamente significante por atores interessados.
Como sair dessa encruzilhada? Essa é uma questão para uma possível pesquisa-ação que proponha estratégias de intervenção em que possam ser verificados mudanças de comportamento de pais/mães que transportam filhos em carros de passeio num estudo longitudinal. É um interesse futuro surgido durante a escrita desta tese. Porém, inspirado nas reflexões de Foucault, posso de antemão afirmar que sempre haverão comportamentos de resistência à lei, sempre haverão situações que farão os/as pais/mães burlarem a regra quando os benefícios forem percebidos como maiores que os riscos. Desenvolver argumentos que promovam tanto comportamentos de cautela como mudanças na percepção de risco para todos os veículos e não apenas para o carro também me parece importante para provocar esta mudança. Pois, como me indagou Sandra a respeito da Resolução valer apenas para os carros particulares, “Se é uma lei pra valer, tem que valer pra todo mundo né, Pedro?”. Do que tenho discutido até agora, uma resposta plausível é: Sim! Se o que está em jogo é segurança, então a segurança tem que valer para todo mundo. Porém, enquanto a ideia de criança em risco no trânsito – e a medida de segurança prevista para gerir esse risco – for vista como uma questão governamental, ela inevitavelmente seguirá uma lógica estatística que não implica, necessariamente, em segurança, mas em normas que tentem evitar gastos em saúde pública e não mexam no bolso de algumas categorias (ou aumentem os bolsos de outras).