Em relação à moradia, doze (12) entre os entrevistados residiam em casa própria, um 01 compartilhava a moradia com os parentes e um (01) habitava em residência cedida. Todas as quatorze (14) casas dos entrevistados eram de alvenaria, apresentando uma (01) das casas, na sua arquitetura, material misto, ou seja, uma parte da construção em tijolo e a outra parte em taipa.
Quanto ao tipo de piso, nove (09) das moradias apresentavam piso de cimento e em cinco (05) o piso era de cerâmica. Todas possuíam cobertura de telha. Todas estavam abastecidas com energia elétrica, água canalizada e serviço de coleta de lixo. Onze (11) estavam localizadas em ruas pavimentadas e apenas três (03) não possuíam pavimentação, o que equivale também, ao acesso ao esgotamento sanitário, que do total das quatorze (14), apenas quatro (04) não estavam ligadas à rede de esgoto público. Nove (09) dessas residências encontravam-se localizadas em áreas consideradas periféricas, mais distantes do centro, com mais problemas sociais; e as demais, cinco (05) se localizam mais próximas do centro da cidade.
O município de Arez é considerado de pequeno porte pela Política Nacional de Assistência Social. Na área urbana convive uma população de 6.761 habitantes. Assim, ao analisarmos as condições de moradia das famílias dos entrevistados percebemos que apesar de residirem em áreas consideradas periféricas, possuem boas condições de infra-estrutura básica, tais como: abastecimento de água canalizada, energia elétrica, pavimentação, coleta de lixo e esgotamento sanitário.
Esses dados reforçam aqueles publicados recentemente pelo IBGE, a partir dos dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios)25 2007 que revelam que em comparação com o ano de 2006 houve aumento na aquisição de imóveis próprios em todo o país, apresentando um crescimento de 0,7%. Também houve acréscimo no acesso aos vários serviços públicos, entre eles o de energia elétrica, perfazendo um total de 98,2% de domicílios atendidos em todo país; abastecimento de água com 83,3%; acesso a rede coletora de
25 Informações disponível em publicação em 18/08/2008:<http://www.ibge.gov.br/home/presidencia
esgotamento sanitário com 51,3% e serviço de coleta de lixo com 87,5%. Observemos alguns avanços em relação a estes serviços públicos:
Em 2007, após crescimento de 3,2% em relação ao ano anterior, o país ultrapassou o número de 55,6 milhões de domicílios. Houve melhoras nos indicadores de posse de quase todos os bens e serviços pesquisados, tais como energia elétrica, telefonia, fornecimento de água, saneamento básico e coleta de lixo.
(Disponível: <http://www.ibge.gov.br/home/presidência/noticias/noticia>. Acesso: 01 jul. 2008)
Quanto à renda da família dos entrevistados, observamos que os dados demonstram aquilo que a realidade do mundo do trabalho já evidencia: relações de trabalho precarizada e desemprego estrutural. Assim temos, nos responsáveis pela manutenção dessas famílias um número de seis (06) trabalhadores que atuavam na informalidade, desenvolvendo serviços de pedreiro, pintor de paredes, serralheiro, flanelinha, vigilante e agricultor; quatro (04) destes trabalhavam no mercado formal com o respectivo registro trabalhista, três (03) encontravam-se aposentados, estando um (01) deles a complementar a renda no trabalho agrícola e um (01) efetivamente desempregado, conforme apresentado no Gráfico 01.
Gráfico 01 - Distribuição da ocupação do pai ou responsável pela família segundo os entrevistados
Nesses lares, revelaram os entrevistados, que sua mãe ou responsável em sua maioria, doze (12) deles constituíam-se de donas de casas, ocupando-se das tarefas diárias do lar e do cuidado com os filhos, uma (01) delas encontrava-se aposentada, mas também desenvolvia as atividades do lar, e apenas uma (01) trabalhava como empregada doméstica, no entanto sem vínculo empregatício.
Conforme as falas dos entrevistados, destacamos as condições precarizadas de inserção no mercado de trabalho:
Só meu pai e minha irmã trabalha lá em casa. Tem minha vó que é aposentada e também ajuda [...]. (Luiz, 16 anos, informação verbal)
Meu padrasto só está em casa no fim de semana, porque ele trabalha lá em Natal, na rua onde tem estacionamento dos carros (flanelinha) [...]. (Luciana, 16 anos, informação verbal)
Meu pai tem um comercio em frente a escola [...] hoje tenho mais responsabilidade e arrumei um comercio de digitação pra mim também, comprei com a ajuda de meu pai um computador e uma impressora. Quando eu vou pro projeto, ela (referindo-se a companheira) fica lá cuidando do comercio. (Jorge, 17 anos, informação verbal)
As falas dos entrevistados acima expressam com contundência as transformações sentidas no mundo do trabalho pelas classes trabalhadoras. São exemplos das diversas dificuldades vivenciadas no interior das famílias, que são diretamente atingidas pela crescente redução dos postos de trabalho e conseqüentemente da renda, mas que nem por isso se mantém distantes da produção capitalista e do processo de acumulação de capital. O que tem levado, seus membros na busca pela sobrevivência a se inserirem no mercado informal de trabalho, desempenhando atividades precarizadas, desprotegidas e sem vínculo formal.
Isso implica afirmar, o que Antunes (2005) já evidenciava nos últimos tempos, uma constante intensificação da desqualificação e subproletarização que se fazem presentes no trabalho precário, informal, temporário, parcial, subcontratado etc.
O que queremos remarcar é que esses trabalhadores, detentores apenas da força de trabalho, se lançam no mercado em busca da garantia de sua sobrevivência e de sua família se submetendo, muitas vezes, ao desempenho de atividades degradantes.
A Tabela 02 representa o número de habitantes por residência comparados ao rendimento familiar. Tal cruzamento foi efetivado com fins de comparação entre essas duas informações. Assim, em relação ao tamanho das famílias e tomando como parâmetro o rendimento das mesmas, verificamos que as famílias mais numerosas constituíam aquelas que percebiam menores salários.
Tabela 02 – Distribuição do número de moradores na residência e a renda familiar mensal dos entrevistados
1 0 0 1 1 1 0 2 2 2 0 4 0 1 0 1 0 1 0 1 2 0 0 2 0 2 1 3 6 7 1 14 QUANTIDADE DE MORADORES DA RESIDÊNCIA 3 moradores 4 moradores 5 moradores 6 moradores 7 moradores 8 moradores 9 moradores Total ½ a 1 Salário mínimo 2 a 3 Salários mínimos 3 a 4 Salários mínimos RENDA FAMILIAR Total
Fonte: Dados primários
Os dados revelam que os jovens fazem parte de famílias geralmente compostas de três (03) a nove (09) membros sobrevivendo com baixa remuneração, em média entre meio (½) a três (03) salários mínimos. Entretanto essas famílias que apresentam os maiores rendimentos familiares, a renda é constituída com os ganhos de seus membros, aposentados e pensionistas. Atrelados a esse rendimento encontram-se os beneficiárias do Programa federal de transferência de renda, “Bolsa Família” perfazendo um total de dez (10) beneficiários e quatro (04) que fazem parte do Programa do Leite, sendo esse estadual.
Essa realidade local vem ratificar a pesquisa de Indicadores Sociais Municipais do IBGE, elaborada a partir dos dados do Censo 2000, comprovando que 27% dos idosos são responsáveis por até 90% do rendimento de suas famílias. Nesse caso, municípios pequenos com menos de 20.000 habitantes, como é o caso de Arez, com 12.236 habitantes apresentam características rurais, se constituindo de pessoas que trabalham auxiliando na renda familiar, por meio do cultivo na agricultura, com rendimento proveniente de atividades informais.
Esta proporção ganha ainda mais destaque nas áreas rurais. Nos municípios com até 20 mil habitantes, cerca de 35% dos idosos contribuem com 30% a 50% do rendimento familiar mensal. Isto pode ser explicado por fatores como o menor número de empregados com carteira assinada e o alto percentual de residentes analfabetos funcionais (pessoas com até quatro anos de estudo).(Disponível em <http://www.paraiba.com.br/noticias.shtml?9404>. Acesso: 19 ago. 2008)
Desse total de habitantes residentes em Arez, segundo os dados do IBGE, 976 são de idosos acima dos 60 anos de idade. Aqui a renda monetária do idoso ganha relevância não só para a sobrevivência da família, como para a economia local do município.
As famílias dos jovens entrevistados apresentavam diversas características e composições, em alguns casos, coabitando em um mesmo ambiente diversos modelos familiares, como por exemplo, famílias apresentando agregados em sua composição: padrastos, primos, avós, sobrinhos, cunhada, esposa. Trata-se de novas formas de organização das famílias, isto é, novos arranjos familiares em vista dos rompimentos e recombinações nas relações de parentesco.
Esses novos modelos/arranjos de famílias são frutos do próprio processo de desenvolvimento das relações sociais que em determinado período e influenciam ou determinam as transformações no interior dos grupos familiares.
Assim sendo, entende-se que a família contemporânea não existe como um modelo ideal de família. Cada núcleo possui configurações e características peculiares, constituindo-se em um nicho composto de valores, relações de afeição, respeito, dependência, reciprocidade e responsabilidades que lhes são intrínsecas.
Como diz Antônio:
[...] Lá em casa mora muita gente. São 09 pessoas contando com minha avó. E no quintal de casa, ainda tem meu irmão, a mulher dele e a filha que mora num quartinho lá no quintal. (Antônio, 16 anos, informação verbal)
Luciana afirma como se dão as relações na sua família:
Lá em casa mora 08 pessoas: eu, minha mãe, meu padrasto, meus irmãos e minha prima. O relacionamento com minha mãe é bom. Agora, com meu padrasto a gente tem discussão, porque ele fica passando na cara o que ele bota dentro de casa. Uma hora ele ta bom, outra hora ele ta ruim. Ele bebia, mas parou. Agora ele só fuma. Eu e minha mãe, a gente conversa sobre muitos assuntos sobre drogas, sobre namoro, sexo também [...] eu tenho um irmão que é assim [...] gosta de homem. (Luciana, 16 anos, informação verbal)
Para Vanda, o núcleo familiar não considera os primos como parte da família:
Minha família não é bastante unida, porque num só mora a minha família. Mora também meus primos [...] (Vanda, 16 anos, informação verbal).
O entrevistado Jonas, fala com veemência do quanto é extensa a sua família, destacando a importância da aposentadoria dos avôs para o sustento desta família:
Vixe! É muita gente lá em casa. Têm meus avós, eu que já vim da casa de minha mãe, mas, tem também as minhas tias e os filhos delas. Ainda bem, que meus dois avós são aposentados [...]. (Jonas, 15 anos, informação verbal)
Em relação à coabitação da família com parentes idosos trata-se na sua maioria de uma alternativa, um tipo de ajuda mútua, encontrada em muitas das famílias pobres brasileiras, ou seja, enquanto os familiares agregam seus idosos,
parte ou a totalidade dos rendimentos de sua aposentadoria ou benefício servem para o sustento de toda a família. Há situações em que, os filhos casados, separados voltam a residir na casa dos pais ou mesmo, nem chegam a sair da família, por falta de recursos financeiros.
Vimos que as falas dos jovens entrevistados constituem-se um exemplo das modificações desencadeadas, no interior das famílias. Esse processo, que vem sendo instituído, sobretudo, no século passado, produz rompimentos e re- configurações nas relações de parentesco – “ora relações amplas, ora restritas; ora legítimas, ora ilegítimas >...@”. (LOPES, 1994, p.08).
Calderón e Guimarães (1994, p. 33) destacam que cada família contemporânea:
[...] possui configuração e características próprias, constituindo-se em um caso particular e específico. Em vez de compreender a família pela sua composição, tomando como referência a família nuclear, deve-se procurar compreende-la pelos valores nela existentes, bem como pelas relações de afeto, respeito, dependência, reciprocidade e responsabilidade que possam existir.
A Tabela 03 evidencia a distribuição da renda familiar dos entrevistados em comparação com os bens e equipamentos eletroeletrônicos dispostos em suas moradias. Sabemos que a existência de bens duráveis, como geladeira, DVD, máquina de lavar, telefone entre outros, são importantes indicadores das condições de vida dos indivíduos. Evidenciamos assim, que essas famílias com rendimento máximo de até 03 salários mínimos apresentam o mínimo necessário para viver.
Um fator que vem justificando, segundo dados do IBGE, o aumento do consumo de bens duráveis e eletroeletrônicos nas camadas mais pobres é advindo da estabilidade monetária, do aumento ainda que discreto do salário mínimo, dos recursos do Programa Bolsa Família e da ampliação do crédito consignado.
Tabela 03 – Renda familiar e consumo de bens duráveis.
ITEM QUANTIDADE RENDA FAMILIAR
½ a 1 SM 2 a 3 SM 3 a 4 SM Total TV em cores Nenhum 0 0 0 0 Um 6 6 1 13 Dois 0 1 0 1 Três 0 0 0 0 Rádio Nenhum 1 0 0 1 Um 5 5 1 11 Dois 0 2 0 2 Três 0 0 0 0 Banheiro Nenhum 0 0 0 0 Um 6 7 1 14 Dois 0 0 0 0 Três 0 0 0 0 Automóvel Nenhum 6 7 1 14 Um 0 0 0 0 Dois 0 0 0 0 Três 0 0 0 0 Máquina de lavar Nenhum 6 7 1 14 Um 0 0 0 0 Dois 0 0 0 0 Três 0 0 0 0 DVD Nenhum 3 0 1 4 Um 3 6 0 9 Dois 0 1 0 1 Três 0 0 0 0 Geladeira Nenhum 1 0 0 1 Um 5 7 1 13 Dois 0 0 0 0 Três 0 0 0 0 Freezer Nenhum 6 5 1 12 Um 0 1 0 1 Dois 0 1 0 1 Três 0 0 0 0 Telefone fixo Nenhum 6 7 0 13 Um 0 0 1 1 Dois 0 0 0 0 Três 0 0 0 0 Telefone celular Nenhum 1 1 0 2 Um 4 3 1 8 Dois 1 3 0 4 Três 0 0 0 0
Fonte: Dados primários
A situação sócio-econômica das famílias descritas pelos entrevistados revela o grau de precariedade em que vivem. O acesso aos eletro-eletrônicos básicos que dispõem para facilitar as atividades diárias; promover o
entretenimento e o conforto da família denuncia a situação de pobreza vivenciada pelas famílias.
A pesquisa da PNAD publicada pelo IBGE, já mencionada por nós anteriormente, também constatou o crescimento no acesso aos serviços fundamentais e a posse dos principais bens, com destaque para a aquisição de telefones celulares. Diz a publicação eletrônica do IBGE (2008)26 “ [...] de 2006 para 2007, mais 2,7 milhões de domicílios passaram ter algum tipo de telefone e, entre os que possuíam somente telefone móvel celular, o aumento foi de 2,680 milhões”.
Dessas informações observa-se que do total dos quatorze (14) entrevistados pelo menos doze (12) afirmaram terem celular na família. Expressam os entrevistados que com as condições econômicas existentes, há falta de comodidade e falta de bens duráveis, gerando algumas situações de disputas e confrontos entre os membros da família.
Mencionaram os jovens que há discussões nas disputas em família, tais como:
Para Luiz:
Às vezes, mainha diz que gostaria de ter outra televisão pra acabar com essas briga. (Referia-se as discussões sobre a disputa por programas
televisivos entre os membros da família) (Luiz, 16 anos, informação verbal)
Acrescenta Antônio:
Lá em casa eu brigo muito com minha irmã de 15 anos por causa da televisão e do som. Eu quero um canal e ela quer outro, daí começa a confusão. (Antônio, 16 anos, informação verbal)
26 Informações disponíveis em: <http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia visualiza
A importância dos valores monetários pagos através dos Programas Bolsa Família e Agente Jovem, no orçamento familiar, para o pai desempregado se tornam evidentes, como revelou Ronaldo:
Meu pai agora está desempregado, está esperando a Usina chamar. A sorte é que ele esta recebendo o salário desemprego e tem o Bolsa Família e o dinheiro do projeto (Projeto aqui mencionado refere-se ao
Programa Agente Jovem). (Ronaldo, 16 anos, informação verbal)
Convém considerar algumas diferenças, ao analisarmos a Tabela Nº 03 e as falas acima, no que diz respeito aos bens que se encontram mais acessíveis a população e aqueles de valor monetário mais elevado. Assim, o acesso das famílias a geladeira e a televisão em cores constituem bens que estão no mercado há mais tempo, ao contrário daqueles que apresentam valores de mercado mais elevado, como no caso de freezer e automóveis. No caso, da máquina de lavar há que considerar que apesar de sua existência antiga, esta passou por uma redefinição tecnológica que elevou o seu preço e fez reduzir o acesso às camadas populares. Por outro lado, geralmente a máquina de lavar se associa ao trabalho feminino o que possivelmente poderá se relacionar a baixa prioridade na aquisição do bem em relação a outros de maior prioridade.