No segundo contato, havíamos programado uma atividade com o objetivo de observar e coletar a partir do grupo informações mais qualitativas. Com base
em um roteiro de discussão de forma a levar os jovens a interagirem sobre suas idéias, sentimentos, valores, atitudes e dificuldades sentidas no cotidiano de violação dos direitos, especificamente nesse contato sobre o direito a “vida e a saúde”.
Na medida em que os jovens chegavam ao local da reunião recebiam um crachá, facilitando a identificação por parte do pesquisador. Observamos que o clima era de desconfiança em relação a nossa presença.
Iniciamos a atividade expondo os objetivos do projeto de pesquisa e esclarecendo o propósito e o formato da reunião naquela tarde. Sugerimos em seguida, a confecção de um cartaz, a fim de estabelecermos alguns “tratos de convivência” para esse e para os próximos encontros. Assim, estimulamos a participação dos jovens por meio da discussão e da definição das regras registradas no cartaz, por meio da escrita.
Nesse momento, constatamos a dificuldade na elaboração da escrita28 desses jovens e a pequena participação na atividade, por maior interlocução que se fizesse por parte do pesquisador quanto da coordenadora do Programa.
Posteriormente, a fim de promover maior interação utilizamos uma dinâmica de grupo dividindo os participantes em duas equipes. Esse foi o inicio de maior descontração no grupo.
Durante a dinâmica de grupo três jovens do sexo masculino declararam-se incomodados, por não se sentirem a vontade em participar da brincadeira com o colega do mesmo sexo e que se encontrava na equipe concorrente. Vejamos alguns fragmentos de suas falas:
[...] não! Esse negócio de brincar com macho não dá certo não! Eu mesmo não vou fazer isso não! (Antônio, 16 anos, informação verbal)
[...] Não ta vendo que isso não vai dar certo! Se ainda tivesse que miar pra conquistar uma menina. Mas, fica miando pra macho! Com que cara eu vou ficar? Não, eu não vou fazer isso! Vou nada! (Luiz, 16 anos, informação verbal)
28 O PNAD 2007 revelou que 21,6% dos brasileiros apresentam dificuldades de ler, escrever e
calcular plenamente., Esses constituem os analfabetos funcionais compreendendo os maiores de 15 anos e com menos de quatro anos de escolaridade.
A brincadeira chamada de “Gato apaixonado” (anexo B) consistia em imitar um gato no momento da conquista. Assim, os participantes tinham que emitir sons - “miados” - para o colega que se encontrava na equipe oposta. Esse, por sua vez, não podia rir para não prejudicar a sua equipe.
Observamos como a questão de gênero, ainda hoje no século XXI, encontra-se imbricada no cotidiano da juventude contemporânea. A declaração dos jovens, descritas acima, revela o desconforto e a insatisfação em participar da dinâmica com o colega do mesmo sexo. Isso tudo demonstra os valores preconceituosos arraigados na mentalidade de nossa juventude.
Essa atitude dos jovens do sexo masculino revela o quanto a internalização de determinadas formas discriminatórias de pensar são absorvidas e reproduzidas pela juventude atualmente.
Sabemos que a questão de gênero:
são construções sociais historicamente constituídas nas relações estabelecidas pelos sujeitos. Nesse processo, recebem diretamente influências da família, da escola e de outras esferas sociais. Essas construções são centrais no processo de formação da identidade social, principalmente a construção de gênero. (Disponível em http://www.fazendogenero7.ufsc.br/artigos/P/Paula_Graciele_Rodrigues_ 01.pdf. Acesso em 15 de fev de 2009).
Assim, no trabalho com jovens é imprescindível refletir e discutir relações de gênero, repensando as relações de desigualdade e de dominação de um sexo sobre o outro, bem como a sua reprodução ao longo dos séculos.
Ao avaliarmos esses primeiros contatos com o grupo, constatamos a importância de numa etapa anterior a coleta de dados a promoção de encontros anteriores com os participantes da pesquisa, no sentido de conhecer o grupo pesquisado, buscando maior intimidade e interação entre o pesquisador e os sujeitos da pesquisa.
Dando continuidade a atividade programada àquela tarde, passamos a coleta de dados propriamente dita. Os jovens foram divididos aleatoriamente em 04 grupos, sendo entregue um roteiro de discussão (apêndice C) contendo quatro perguntas norteadoras para o debate sobre o direito a vida e saúde. A tarefa do
grupo era discutir entre seus pares a temática e elaborarem um cartaz alusivo a proposta.
Observamos que no momento da divisão dos grupos, alguns jovens preferiram romper com a divisão aleatória estabelecida, preferindo se agruparem segundo suas próprias escolhas e afinidades. Foi entregue, a cada grupo, revistas, colas, pincéis atômicos e papel madeira para construção de um cartaz coletivo alusivo as idéias preponderantes à temática “Vida e Saúde” e onde posteriormente, após a escolha de um relator fariam a exposição no grande grupo.
Verificamos também, que as perguntas norteadoras promoveram abertamente grande discussão entre os participantes, favorecendo um momento de grande interação, apesar de alguns momentos de dispersão, onde foi preciso a intervenção do pesquisador para a retomada das discussões a fim de não prejudicar o andamento do trabalho.
No momento da apresentação da síntese pelos grupos houve grande dificuldade entre os participantes na escolha do relator. Após grande discussão entre seus pares, dividiram a tarefa da exposição entre dois relatores. Observamos, nesse momento, grande dificuldade na apresentação. Todos os relatores demonstravam pressa em terminar a exposição da síntese.
No momento da síntese, os jovens relacionaram o direito a vida e a saúde como o bem estar em sua totalidade, não apenas o bem estar físico, mas também o direito ao lazer, a educação, a profissionalização, ao não uso de drogas e a convivência familiar, a partir das oportunidades que lhes são oferecidas na família.
Vejamos:
Ter vida é crescer aproveitando as oportunidades que são oferecidas. A vida não é feita só de lazer e de saúde. Nós jovens devemos aproveitar todas as oportunidades [...] É aproveitar a vida profissional e em casa de todas as maneiras em família. A saúde que temos está ligada a nossa felicidade, ao bem estar e ao nosso lazer [...] vai além da nossa saúde física. (Resultado do grupo focal 01)
Ter a capacidade de viver bem com a família e ao mesmo tempo com todo mundo lá fora, com o objetivo de ser alguém na vida [...] Ser feliz com o que a nossa família nos dá. (Resultado do grupo focal 02)
Ter vida é estar longe das drogas. É estudar para ter uma vida confortável e pra ter um futuro melhor [...] É praticar esportes. Isso sim é que é ter saúde. [...] (Resultado do grupo focal 03)
Observamos que um dos jovens participantes da atividade apresentava um pequeno déficit cognitivo. Este se isolou no momento das discussões, se afastando do grupo o qual pertencia, permanecendo isolado até o momento final dos trabalhos. Não havendo qualquer tipo de interferência dos membros deste grupo no sentido de reintegrá-lo a atividade.
Constatamos nessa atitude a presença de discriminação, ainda que inconsciente, por parte dos membros do grupo para com o participante que possuía a deficiência cognitiva, traduzido em seu isolamento no momento da atividade proposta.