Os valores da sociedade capitalista contemporânea, se fazem presentes, nos meandros da formação econômico social do modo de produção capitalista e a maneira como este veio a se tornar dominante, a partir da produção e reprodução das condições materiais de existência, especialmente a partir da análise de como se efetiva a distribuição e o consumo dos bens socialmente produzidos.
Isto posto, observamos que a distribuição se relaciona diretamente a maneira pelo qual o produto da riqueza socialmente produzida é compartilhada pelos indivíduos na sociedade, ou seja, entendendo que “as relações de distribuição são determinadas pelas relações de produção” (PAULO NETTO, 2006, p.64).
Queremos, portanto afirmar que o modo de produção capitalista seguindo a lógica da acumulação vem se perpetuando e se metamorfoseando através dos séculos e que nos últimos tempos, a partir dos ideais (neo)liberais vem propagando incisivamente sobre a sociedade o culto ao individualismo, a exaltação do mercado e do consumo. Nesse ínterim, observamos como o poder e
a dominação imperiosa do capital se articula e impõe um “novo estilo” global de ser, de viver e de pensar que atinge a totalidade da vida social cotidiana.
O traço específico do imperialismo total consiste no fato de que ele organiza a dominação externa e a partir de dentro e em todos os níveis da ordem social, desde o controle da natalidade, a comunicação de massa, o consumo de massa, até a educação, a transposição maciça da tecnologia ou de instituições sociais, a modernização da infra e superestrutura, os expedientes financeiros ou de capital, o eixo vital da política nacional etc. (FERNANDES, 1981, p.18).
Dessa maneira, o capital imperiosamente propaga e impõe os seus valores burgueses capitalista sob um discurso de “modernidade” que aos poucos se alastra, domina e escraviza tudo e todos sem exceção, num turbilhão de informações, mercadorias e tecnologias descartáveis em tempo recorde.
Cumpre frisar que, pensar os valores da sociedade capitalista na contemporaneidade exige do profissional, do pesquisador, do estudioso ou do individuo o esforço no sentido de desvelar os nexos que se encontram obscurecidos pelas nebulosidades intrínsecas ao modo de produção capitalista e que propositalmente aliena e desqualifica os indivíduos no seu processo de desenvolvimento.
Esse esforço de entendimento nos remete ao processo de transição e esfacelamento da sociedade feudal para a sociedade capitalista, que inaugurava nesse período a constituição do individuo burguês por meio da modificação na maneira e no ritmo de produzir bens e serviços, que contraditoriamente aproximam as classes, aglutinam indivíduos numa mesma cadeia produtiva e paralelamente os distancia, isolando-os dentro de um mesmo processo que os torna indiferentes, e estranhos entre si.
Naquela fase, de grandes transformações o princípio que se tornou norteador foi o “livre” desenvolvimento das forças e das capacidades individuais. Instaurava-se a libertação das amarras feudais e inaugurava-se o encarceramento do homem ao domínio escravizante e alienante do capital, sob o olhar vigilante do Estado que vigiava e normatizava para garantir a lei e a ordem social. Trata-se de um período antagônico que oscilou entre a liberdade subjetiva
do pensamento e às crenças atreladas a não-liberdade material que provinha da nova maneira de produzir.
A ordem social capitalista transparece como a melhor possível, daí que todos precisam colaborar voluntária e passivamente para a sua manutenção. O discurso é divisado pela igualdade e liberdade universais, pelo direito ao trabalho. (PALANGANA, 1998, p. 34).
A análise dessa fase do modo de produção capitalista em seus primórdios parece nos remeter, sem sombra de dúvida, aos tempos contemporâneos, onde contraditoriamente aumenta-se a capacidade social de produção em detrimento da subtração da individualidade. O que comprova, a contínua centralidade do trabalho, a sua não extinção e a degradação humana que se instala em todos os espaços sociais, inclusive o domiciliar. Com isso queremos destacar que os métodos de trabalho aos poucos se modificam e se metamorfoseiam sob os auspícios do lucro capitalista que astutamente domina e cunha ideologicamente o modo de viver, pensar e de sentir a vida, despersonalizando milhares de indivíduos que renunciam a sua essência ontológica de ser singular e diverso, se submetendo a racionalidade tecnológica e consumista que se apropria e estabelece lentamente um modelo mental e comportamental para o proceder de cada ser humano, ou quiçá de toda a humanidade.
Os meios de comunicação se encarregam de divulgar através das imagens os produtos e os valores capitalistas formando mentalidades e comportamentos, induzindo estilos de vida necessários a sua perpetuação. Uma doutrinação midiática que cerceia o pensamento humano e a livre individuação24, dissimulando a opressão capitalista. Na verdade, vive-se uma realidade ilusória previamente fabricada pelo mercado, que se constitui o genitor das opções individuais, que através de seus aparatos institucionais veiculam e padronizam uma cultura global consumista. “O andar veloz da sociedade do consumo impregna o trabalho, o pensamento, o sentimento; impregna a produção e a
24 A individuação é entendida como a singularização de um individuo primordialmente social,
sendo fruto do processo coletivo desenvolvido nas relações de trabalho. Ela acontece no percorrer do processo de apropriação/reelaboração do patrimônio social. Resultando na construção da objetividade e subjetividade humana.
reprodução das condições necessárias à liberdade e das condições necessárias à continuidade da opressão” (PALANGANA, 1998, p. 137).
A manipulação mercadológica feita por meio dos veículos midiáticos chega a tal ponto que suscita e mantém as emoções dos indivíduos numa escala que vai da total indiferença ao deslumbramento. A enxurrada de produtos que se tornam supérfluos, em fração de minutos a dispor dos indivíduos promovem uma busca incessante de prazer e felicidade efêmeros.
Bauman (2007, p.106-107) em suas análises sobre a flexibilidade e a “liquidez” da vida moderna, esclarece que as necessidades humanas passam a se traduzir como necessidades de consumo, e sobre esse processo explicita:
Uma forma de causar efeito é depreciar e desvalorizar os produtos de consumo logo depois de terem sido alçados ao universo dos desejos do consumidor. Uma outra forma, ainda mais eficaz, no entanto, se esconde da ribalta: o método de satisfazer toda necessidade/desejo/vontade de uma forma que não pode deixar de provocar novas necessidades/desejos/vontades. O que começa como necessidade deve terminar como compulsão ou vício.
O mercado capitalista no seu processo de obtenção ampliada do lucro e sob os auspícios da felicidade e satisfação do prazer dos indivíduos, despeja uma enxurrada de novidades descartáveis destinados a satisfação, a acomodação e conseqüentemente a alienação dos indivíduos. Assim, quanto mais o individuo supostamente livre busca a comodidade e o conforto do mundo moderno, através do consumo de seus produtos, mais ele se submete ao jogo do poder capitalista que convenientemente determina o tipo de produto, como e o momento de consumi-lo. O estilo de vida, a moda, os produtos de beleza e os equipamentos da microeletrônica rapidamente se tornam obsoletos estimulando a busca de novos consumidores pelo mais novo produto do mercado, que em pouco difere do outro em termos de qualidade, mas não em suas características básicas. Vive-se numa sociedade fugaz que seduz e domina a todos em o todo momento, promovendo a compulsão desenfreada pelo consumo. Tudo e em todas as esferas sociais são transformadas em lucratividade pelo capitalismo.
Seguindo essa ótica cria-se um quadro de grandes desigualdades sociais, onde não são dadas as mesmas oportunidades aos indivíduos, tendo em vista
que o acesso aos bens produzidos e o poder em adquiri-los torna-se extremamente desigual. Fica claro, porém, que o problema repousa na distribuição eqüitativa das riquezas socialmente produzidas e não na produção dessas riquezas.
Face ao exposto, assistimos nos últimos anos do século XX, a intensificação das transformações sociais no seio do capitalismo. Transformações essas que trouxeram mudanças significativas para o universo juvenil.
A valorização da juventude, acompanhada de seus atributos, na sua maioria, relacionados ao culto ao corpo, a jovialidade, a disposição, a beleza entre outros; tem levado a propagação do desejo da perpetuação dessa fase a todas as outras faixas etárias.
Como não poderia deixar de ser, esse grupo etário não poderia ficar de fora dos interesses do capital, o qual ardilosamente vem os entrelaçando em suas teias, se constituindo em presa fácil na divulgação dos seus valores capitalistas e dos seus produtos. Nesse sentido, tem sido criados, uma infinidade de produtos específicos, que vão da moda, aos produtos de beleza, aparelhos eletrônicos e da microeletrônica, móveis e etc, produzindo uma verdadeira cultura de massa que nos remete a efemeridade da vida.
Entretanto, a “nova” onda liberal, iniciada no século XX, tem poderosos instrumentos de controle social: o marketing e os meios de comunicação de massa que trabalham o modo de pensar e existir pautados em valores que exaltam o individualismo e o consumismo exacerbados, associados à difusão das novas tecnologias num mundo comandado pela competitividade.
Dessa forma, o apelo ao consumo tem levado milhares de jovens ao consumo desenfreado de produtos que em fração de tempos se tornam obsoletos ante a flexibilidade e fugacidade que permeiam todas as esferas sociais. E assim, nessa dinâmica perversa da acumulação o capital vai por meio de seus mecanismos, cooptando adeptos a sua ideologia e a aquisição de sua gama de produtos descartáveis; e em detrimento de tudo isso; temos baixo investimento na área social o que reflete no crescimento do trabalho infantil, da exploração sexual e na exclusão dos jovens no acesso a educação e ao mercado de trabalho.
Perpetua-se assim, a saga do capitalismo promovendo o que lhe é peculiar: tempos de incerteza que redesenham conjunturas econômicas dramáticas ao manter o fosso entre as minorias abastadas e a massa de
populações extremamente pobres ou miseráveis transfigurando o quadro de injustiça social vivenciada em nosso país e definindo o longo percurso que “nos separa de uma necessária redistribuição de renda e da constituição de políticas que se voltem às demandas sociais dos grandes contingentes esmagados pela pobreza.” (YAZBEK, 1996, p. 13).
Nesta seção, buscamos numa perspectiva histórico-crítica apreender e desvelar as configurações que circundam a realidade da juventude na sociedade contemporânea. Com base na discussão aqui ensejada, nos adentraremos na terceira seção deste trabalho, que envolve a “Caracterização dos Jovens no Contexto de Violação de Direitos”.
3.0 CARACTERIZAÇÃO DOS JOVENS NO CONTEXTO DE VIOLAÇÃO DE