Para se compreender o histórico da água na Terra, partiu-se de sua origem por meio de estudos e pesquisas geológicas, e eticamente é obrigatório dizer que o capítulo 1 do livro Águas Doces no Brasil6, de autoria de Aldo Rebouças, deu subsídios a esta discussão. A propósito, este autor é cearense e, sem sombra de dúvidas, foi um dos maiores geólogos da humanidade, que dedicou incansavelmente sua vida acadêmica em prol das grandes descobertas sobre a água na Terra.
Para Rebouças (2006: 8 e 9), foi a partir da década de 1960 que astronautas e cosmonautas em órbita, ao olharem para o lugar onde vivem, distinguiram mares, continentes e calotas de gelo em cada um dos pólos geográficos da Terra. Salienta-se que os conhecimentos geológicos adquiridos nas décadas de 1960 e 1970 foram superiores aos de duzentos anos anteriores da história das ciências geológicas.
Nesse sentido, Rebouças (2006: 9) afirma ainda que:
Ao longo da história geológica da Terra, as erupções vulcânicas, associadas à “Tectônica de Placas7”,
lançaram na sua atmosfera grandes quantidades de oxigênio (O), hidrogênio (H2) e gases como hidróxido de
6 REBOUÇAS, Aldo; BRAGA, Benedito; TUNDISI, José Galizia. Águas Doces no Brasil - Capital
Ecológico, Uso e Conservação. 3. Ed. São Paulo: Escrituras, 2006.
7 Tectônica de Placas é uma teoria da geologia que descreve os movimentos de grande escala que ocorrem
carbono (CO2), nitrogênio (N2), dióxido de enxofre (SO2)
monóxido de carbono (CO).
O oxigênio e o hidrogênio assim lançado, rapidamente combinaram-se para dar origem ao vapor de água da atmosfera. No começo, as temperaturas e pressões reinantes na Terra só possibilitaram a ocorrência de água na forma de vapor.
À medida que as temperaturas baixaram, os vapores de água da atmosfera condensaram-se e formaram nuvens, as quais foram atraídas pela gravidade e caíram na forma de chuva, principalmente, na superfície da Terra. A água que escoava pela superfície da crosta provocava erosão das rochas, cujas partículas transportadas foram se acumular e formar depósitos nas suas depressões. As rochas mais antigas, formadas em ambientes subaquáticos, datam de 3,8 bilhões de anos, indicando que, pelo menos desde então, a água na forma líquida existe na Terra. Assim, a “atmosfera” e a “hidrosfera” foram formadas pelos gases expelidos pelos vulcões associados à “Tectônica de Placas”
(...) Nesse processo, parte do CO2 contida nas rochas
fundidas é novamente lançada à atmosfera pelos vulcões. O ciclo todo – ligando vulcão a erosão das rochas, a bactérias do solo, a algas oceânicas, a sedimentação de carbonáticos e novamente a vulcões – atua como um gigantesco processo de realimentação, que contribui para a regulação da temperatura da Terra (Lovelock, 1991). Esses processos engendraram, certamente, as condições propícias à existência de água na Terra nos três estados físicos fundamentais – líquido, sólido e gasoso – e ao desenvolvimento da vida.
Analisar a situação da água na Terra atualmente pressupõe pesquisar sobre muitos elementos, inclusive aqueles de cunho político, a exemplo das drásticas mudanças climáticas, advindas, sobretudo, do “aquecimento global”, traduzido pelo aumento da temperatura média dos oceanos e do ar perto da superfície da Terra, que se tem verificado nas décadas mais recentes.
A respeito desta intercorrência, que não é inesperada, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), estabelecido pelas Nações Unidas e pela Organização Meteorológica Mundial em 1988, em seu relatório mais recente diz que grande parte do aquecimento observado durante os últimos 50 anos se deve muito provavelmente a um aumento do efeito estufa, causado pelo aumento nas concentrações de gases estufa de origem antropogênica (incluindo, para além do
aumento de gases estufa, outras alterações como, por exemplo, as devidas a um maior uso de águas subterrâneas e de solo para a agricultura industrial e a um maior consumo energético que gera poluição).
Embora se concorde que o processo derivado da atividade humana tenha impacto nas mudanças climáticas, o que afeta diretamente a distribuição e a qualidade da água na Terra, é necessario atribuir a esse contexto a dinâmica social que desencadeia tal processo. A ação humana não pode ser analisada em si, tampouco para si, requer refleti-la num contexto sócio-histórico, em que a forma de produção do sistema capitalista é, em sua gênese, predatória a outros sistemas, no caso específico ao dos Recursos Hídricos, que por sua vez seus ecossistemas sustentam diversas formas de vidas.
Assim, Leff (2002: 62) é categórico ao afirmar que:
“A problemática ambiental não é ideologicamente neutra nem é alheia a interesses econômicos e sociais. Sua gênese dá-se num processo histórico dominado pela expansão do modo de produção capitalista, pelos padrões tecnológicos gerados por uma racionalidade econômica guiada pelo propósito de maximizar os lucros e os excedentes econômicos em curto prazo, numa ordem econômica mundial marcada pela desigualdade entre nações e classes sociais”.
Com efeito, o aquecimento global “atual” não pode ser visto sem os principais elementos constitutivos da sua engendragem político-ideológica, que se dá justamente pela irresponsabilidade na emissão de gases8 liberados, principalmente pela combustão de combustíveis fósseis – carvão, petróleo, gás natural –, que ocorre, sobretudo, com a poluição industrial e automotiva e com o desflorestamento.
Como citado acima, na origem da água na Terra, pode-se perceber que o dióxido de carbono é um dos compostos essenciais para regulação da temperatura na Terra,
8 Os gases, em particular o dióxido de carbono (CO2) emitido em grande quantidade, ocasionam o efeito
processo esse propiciador da água nos três estados fundamentais – líquido, sólido e gasoso –, bem como ao desenvolvimento da vida.
Figura 4 – Ciclo da água na Terra
Fonte: http://www.cprm.gov.br
No entanto, o modo de produção capitalista promove em grande escala o consumismo exacerbado de produtos que emitem descontroladamente gases tóxicos na atmosfera, contribuindo para impactar a fina camada de ozônio, protetora da radiação ultravioleta.
Figura 5 – Fotografia translunar da Terra em 7 de dezembro de 1972
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Bolinha_Azul - Acesso em: 21 mar 2012
Os efeitos do aquecimento global são os mais drásticos e inconvenientes para toda a comunidade de vida existente no globo terrestre, entre os quais se pode citar o forte aumento da temperatura no mundo inteiro, gerando vários impactos socioambientais, como a diminuição a cada ano das geleiras e dos Alpes, que literalmente estão desaparecendo; chuvas ácidas e elevação da temperatura nos oceanos – e quando os oceanos ficam mais quentes, é possivel observar as grandes e irreparáveis tempestades, denominadas furacões e tornados.
Rebouças (2004: 88) diz que durante a segunda metade do século XXI ocorrerá a elevação do nível dos mares em cerca de 30 centímetros, mudanças nas correntes marinhas e ventos, acumulação de neve e gelo nas calotas polares, aumento da frequência das tempestades, extensão das epidemias e outros processos que afetam a saúde das pessoas; alteração dos padrões de precipitações atmosféricas – chuvas, neblina e neve, principalmente; alterações das terras encharcadas, pantanais, florestas e
outros ecossistemas naturais; variação de disponibilidade das águas doces, dentre outros aspectos.
Mapa 2 – Desvios negativos e positivos de chuvas nas regiões hidrográficas
Mapa 9 – Anomalias de chuvas no Brasil
Fonte: Relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil. Acervo, ANA, 2011. Legenda organizada pela a autora.
Este emaranhado de consequências traz muitas transformações socioambientais, pois milhares de espécies deixam de existir e outras poderão se reproduzir em grande
1. Desvios positivos nas Regiões Hidrográficas do Paraná, Atlântico Sul, Uruguai, Atlântico Sudeste e Paraguai.
2.Desvios negativos nas Regiões Hidrográficas Amazônica, Tocantins-Araguaia, Atlântico Nordeste Ocidental e Parnaíba.
quantidade, acrescido de milhões de pessoas vítimas desses impactos, tornando-se desabrigadas pelas enchentes e alagamentos ou vulneráveis com a falta de água pela estiagem de chuvas, dependendo de sua classe social.
Nesta perspectiva, Aldo Rebouças (2004: 88) continua sua análise ao afirmar que não é possível, atualmente, se fazer uma previsão precisa dos efeitos da mudança global nos climas da Terra. Grosso modo, pode-se esperar uma sensível expansão da faixa de clima tropical e redução das faixas ocupadas pela agricultura de clima temperado. Este fator é por demais preocupante em termos de produção de alimentos, tendo em vista que os países correm o risco de perder a hegemonia agrícola para os países da faixa tropical. Além disso, o processo de aquecimento global deverá ocasionar a subida dos níveis dos mares, elevando os custos das obras de proteção em muitas cidades costeiras.
Considera-se, portanto, que não se pode analisar a relação do ser humano com a natureza, sem antes identificar a causa central da “esculhambação mundial”, que chega a ser imoral, dos que detêm o poder do monopólio político e financeiro sobre a expropriação da qualidade do ar, da água, das florestas, dentre outros recursos naturais essencialmente relacionados à vida no Planeta Terra.