Como afirmou Frei Luís de Sousa, “da mesma maneira que desta cidade de Lisboa procederam todas as conquistas que os Portugueses fizeram, assi as confrarias e devoções do Rosário que a elas levaram, não se pode negar deverem sua origem à mesma cidade e ao lugar dela em que tinham sua raiz e floresciam que era este convento [de São Domingos] (244). Nessa medida, há notícias da constituição de associações de negros dedicadas ao culto do Rosário em muitos dos territórios sob domínio luso desde a primeira metade de Quinhentos. Estas ficaram sob a alçada da Ordem de Cristo, por concessão da bula Inter Coetera, através da qual o papa lhe atribuiu o domínio espiritual sobre as terras de Além-Mar, domínio que veio a recair na coroa a partir do século XVI.
A mais antiga foi talvez a da ilha de São Tomé, que recebeu carta de privilégios de D. João III em 1526. Pela mesma o rei autorizou os homens e mulheres pretos forros daquele território insular a terem uma irman- dade dessa invocação, à qual concedeu os privilégios e liberdades da sua congénere de Lisboa (245). No início do século XVIII foi instituída outra de devotos Brancos da mesma invocação, apesar da oposição dos Negros,
244 Frei Luís de Sousa, Ob. Cit., p. 358.
245 António Brásio, Monumenta missionaria africana. África Ocidental (1471-1531), v. I, p. 472-473.
70 que tentaram impedi-la (246). Também do início de Setecentos há notícia da irmandade do Rosário dos Pretos da ilha do Príncipe, do mesmo arqui- pélago equatorial (247). Em 1612 estavam ativas na Ribeira Grande, da ilha de Santiago de Cabo Verde, duas confrarias de negros, uma da invocação de Nª. Sª. do Rosário e outra da Cruz (248).
Em Luanda, Angola, formou-se a confraria do Rosário dos Pretos em 1628, com igreja própria. Nela era o capelão obrigado a confessar os devotos e a catequizá-los na língua nativa. Segundo António de Oliveira de Cadornega, em 1681 veneravam-se no templo, além da padroeira, São Bento, São Domingos e São Benedito de Palermo, o qual “ainda que foi preto nas cores, foi mui branco nas obras”. A festa ocorria no segundo domingo de outubro, porque no primeiro cabia à gente branca, por certo através da respetiva confraria, homenagear Nª. Sª. do Rosário. O autor afirmava que “também era bom que os pretinhos, como naturais da terra, tivessem sua igreja e o seu dia, o que em toda a parte lhe é dado”. À festa concorria “inumerável gentio” calculado em mais de 20.000 almas, “a maior parte escravaria e alguns forros” (249).
Outra irmandade foi a de Goa, capital do Estado da Índia, ”de cafres de Nª. Sª. do Rosário”, da iniciativa dos Dominicanos, que aí fundaram um mosteiro da sua ordem. De acordo com Gaspar Correia, nas Lendas da Índia, referindo-se ao ano de 1548, os frades pregavam de forma tão viva a favor dos escravos e contra a sua condição cativa, procurando atraí- -los à sua confraria do Rosário, que muitos abandonaram os donos, indo acolher-se a São Domingos. Eram tantos que importunavam os padres, ao ponto de estes terem que os desenganar e desincentivar de deixarem os senhores (250). Adivinham-se aqui sérios conflitos com os proprietários de escravos e as pressões destes para que os Pregadores desistissem de
246 Lucilene Reginaldo, Os Rosários dos Angolas: irmandades negras, experiências escravas e identidades africanas na Bahia setecentista (Tese de Doutoramento), p. 38.
247 Lucilene Reginaldo, Ob. Cit., p. 37-38, que refere Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário mariano, tomo V, p. 445-446.
248 Maria Emília Madeira Santos e Maria João Soares, “Igreja, missionação e sociedade”, p. 472-474.
249 António de Oliveira de Cadornega, História geral das guerras angolanas. 1681, tomo III, p. 26-28.
71 advogar a causa dos cativos. Problemas que vimos repetirem-se, embora
com contornos diferentes, em Lisboa.
Mas foi no Brasil que surgiu o maior número de irmandades de negros, devido à grande quantidade de descendentes de africanos que aí viveram. Além da invocação de Nª. Sª. do Rosário, muitas escolheram outras devo- ções ligadas, de alguma forma, às caraterísticas dos respetivos confrades: Santa Efigénia, Santo António de Catalagerona, Santo António de Noto, Santo Elesbão e São Benedito, santos pretos, Santo Rei Baltasar, São Gonçalo Garcia, santo mestiço, assim como a de Nª. Sª. das Mercês, patrona da remissão dos cativos, Senhor da Redenção e Senhor Bom Jesus dos Martírios, de conotação óbvia, sobretudo para os escravos. E ainda outras em que essa ligação é menos evidente, como Nª. Sª. da Conceição, Nª. Sª. do Parto e a Santíssima Trindade. Frequentemente algumas dessas invocações juntaram-se numa mesma irmandade. Caraterístico também das irmandades brasileiras foi o surgimento de associações próprias de determinados grupos étnicos, como dos Pretos Minas, dos Nagôs e dos Jejes, na cidade de Salvador, assim como de Crioulos e Pardos.
Os estudos publicados defendem ter sido em Belém, Baía, Recife, Olinda e Rio de Janeiro que surgiram as primeiras associações de negros, umas ainda no século XVI, outras já no XVII (251). Maristela dos Santos Simão recenseou, com base nos pedidos de registo das mesmas na Mesa da Consciência e Ordens, 70 irmandades dedicadas ao Rosário no Bra- sil do século XVIII, admitindo que fossem em número superior: 16 no arcebispado da Baía, 23 no bispado de Mariana (Minas Gerais), 5 no bispado do Pará, 13 no de Pernambuco, 12 no do Rio de Janeiro, uma no de São Paulo e nenhuma no do Maranhão (252). As mais conhecidas, por terem sido objeto de investigação mais aprofundada, são as da Baía (253) e de Minas Gerais (254).
251 Maristela dos Santos Simão, As irmandades de Nª. Sª. do Rosário e os Africanos no Brasil do século XVIII (Tese de Mestrado), p. 71.
252 Maristela dos Santos Simão, Ob. Cit., p. 105-108.
253 Lucilene Reginaldo, Os Rosários dos Angolas: irmandades negras, experiências escravas e identidades africanas na Baía setecentista (Tese de Doutoramento), 2005.
254 Caio César Boschi, Os leigos e o poder (Irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais); Célia Maia Borges, Escravos e libertos nas irmandades do Rosário. Devoção e solidariedade em Minas Gerais, Séculos XVIII-XIX; Julita Scarano, Devoção e escravidão. A Irmandade de Nª. Sª. do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século XVIII.
72 No arcebispado da Baía do século XVIII encontrou Lucilene Reginaldo 17 irmandades de negros dedicadas ao culto do Rosário, 7 das quais na capital, Salvador. Mas nesta houve mais 9, de outras invocações (255). Quanto às irmandades de Minas Gerais, foram assinalados por vários autores como seus traços caraterísticos o surgimento tardio, devido ao facto de o desenvolvimento urbano dessa capitania ter ocorrido só no século XVIII com a intensificação da exploração mineira, a sua não dependência das ordens religiosas, impedidas pela coroa de se fixarem no território, como forma de evitar que se dedicassem ao contrabando e, por isso, uma liga- ção direta ao rei e um controlo estreito por este (256). O clero secular não deixou, no entanto, de tomar parte ativa quer na criação quer no apoio a essas irmandades (257).
255 Lucilene Reginaldo, Ob. Cit., p. 75 e 102-103. 256 Didier Lahon, Ob. Cit., p. 376-380.