2.2. MÜTESELSİL BORÇLULUKTAN FARKI
2.2.3. Müteselsil kefalet Sözleşmesi ile Müteselsil Borçluluk Ayırımı İçin Kıstaslar
Durante as atividades diárias no ambiente organizacional, as decisões tomadas se originam em informações de variadas fontes e da forma que essas informações são compreendidas pelos diferentes indivíduos responsáveis por essas decisões. Essas diferentes formas de compreensão de informações foram o substrato para a elaboração de uma nova proposição teórica referente às diferentes formas de cognição da realidade.
Berger e Luckmann em seu trabalho publicado originalmente em 1967, A Construção Social da Realidade, deram origem a uma corrente sociológica denominada construcionismo social, principalmente pelas contribuições feitas pelo seu trabalho no questionamento sobre a natureza ontológica da realidade e a natureza do conhecimento. Eles se propuseram a um esforço de síntese direcionado às diferentes abordagens existentes na sociologia do conhecimento, se apoiando essencialmente, nas idéias de Marx, Weber e Durkheim, metodologicamente sustentados pela abordagem fenomenológica de Schutz. Com isso, eles desenvolveram as bases de uma análise compreensiva do conhecimento socializado (KELLER, 2005)
Para cumprir seus objetivos, esses autores desenvolvem o raciocínio a partir do conhecimento empírico do dia a dia, que faz as pessoas entenderem e lidarem com o mundo em que vivem, defendendo o preceito de que a sociologia do conhecimento deve focar em como e o quê as pessoas entendem como realidade em seu dia a dia, e que é esse conhecimento prático que elabora os significados essenciais à existência da sociedade.
Essa realidade do dia a dia será então tratada pelos autores em duas perspectivas: num primeiro momento eles tratam a sociedade como realidade objetiva ou “dada” àqueles que vivem nela, reconhecendo que, apesar de a realidade estar continuamente sendo construída pelos homens que vivem na sociedade, o conjunto de ideologias, hábitos e rotinas tem
concepções compartilhadas e entendidas como sendo a forma de ser e fazer naturais e pré- existentes, como instituições sociais. Assim, apesar de o mundo social ser construído via processos de externalização dos homens, o processo de objetivação dessas externalizações constrói aquilo que Berger e Luckmann (1967) denominam de realidade objetiva.
Em um segundo momento, os autores tratam da sociedade como realidade subjetiva, onde eles chamam a atenção para o processo de socialização, onde os indivíduos internalizam a realidade objetiva, como a adaptar o ambiente aos propósitos individuais e coletivos, propósitos esses que não são “dados” e sim construídos. Assim, a partir de uma predisposição inicial, a aquisição de sentido da realidade social em prevalência sobre a realidade natural, o homem se mobiliza, via interações simbólicas para internalizar a realidade objetiva de outros, e constrói um sentido de si como pessoa e ser social pelos processos que Berger e Luckmann denominam de socialização primária e secundária.
A teoria da Construção Social da Realidade de Berger e Luckmann (1967) foi estruturada em cima de proposições conceituais chaves que apresentamos a seguir:
Conhecimento: “a certeza de que os fenômenos são reais e possuem características
específicas” (p.1);
Realidade: “para nossa finalidade, será suficiente definir “realidade” como uma
qualidade pertencente a fenômenos que reconhecemos ter um ser independente de nossa própria volição (não podemos “desejar que não existam”15) (p.1);
Exteriorização: “O ser humano é impossível numa esfera fechada de quiescente
interioridade. O ser humano tem de externalizar a si mesmo continuamente em atividade” (p.52). “A existência humana é, desde o início, uma exteriorização contínua. Enquanto o homem exterioriza a si próprio, ele constrói o mundo dentro do qual ele se exterioriza. No processo de exteriorização, ele projeta seus próprios significados para a realidade” (p.104);
Objetivação: “O processo pelo qual os produtos exteriorizados da atividade humana
alcançam o caráter de objetividade...” (p.60);
Legitimação: “um processo que se descreve melhor como uma objetivação de
segunda ordem” e que “produz novos significados que servem para integrar os significados já associados a processos institucionais diferentes” (p.92). Ela “explica” “a ordem institucional
15
No original: “we cannot wish them away”. Esses conceitos foram verificados na obra original em inglês, que tem paginação diferente da versão em português, também consultada. Aqui, todos os conceitos estão em português por
atribuindo validade cognitiva a seus significados objetivados” e a justifica “dando dignidade normativa a suas práticas imperativas” (p.93);
Institucionalização: “...ocorre sempre que há uma tipificação recíproca de ações
habituadas por grupos diferentes de atores [...] qualquer dessas tipificações é uma instituição” (p.54);
Estrutura social: “ a soma total dessas tipificações e dos padrões recorrentes de
interação estabelecidos por elas. Dessa maneira, a estrutura social é um elemento essencial da realidade cotidiana.”(p.33);
Reificação: “... a apreensão dos fenômenos humanos como se eles fossem coisas, isto
é, em termos não-humanos ou possivelmente sobre-humanos.” (p.89);
Papéis: tipificações de conduta objetivadas socialmente que ocorrem “no contexto de
um estoque objetivado de conhecimento comum a uma coletividade de atores. Papéis são tipos realizados por atores em determinado contexto.” (p.73);
Sem dúvida, a proposição teórica da Construção Social da Realidade teve uma contribuição enorme, senão a principal, para a sociologia do conhecimento, podendo ser considerada uma das bases epistemológicas para o construcionismo social, principal suporte teórico desse trabalho de investigação. Ela disponibilizou um argumento sistemático para a noção de que o mundo em que vivemos não está simplesmente aí, não é apenas um fenômeno natural objetivo e sim que ele é construído por uma variedade de arranjos sociais e de práticas sociais. Outro feito do tratado de Berger e Luckmann é sua ênfase em tomar uma avaliação simétrica do conhecimento, tratado como falso ou verdadeiro (POTTER, 1996).
Entretanto, mesmo tendo inúmeros adeptos e tendo explicitado importantes conceitos assumidos pela comunidade acadêmica como essenciais para a compreensão dos fenômenos sociais e sua significação, a teoria da Construção Social da Realidade não ficou imune a críticas oriundas de diversos setores da academia, notadamente da psicologia social.
Dessa maneira, Potter (1996, p.13) afirma que:
Berger e Luckmann foram melhores ao abrir o potencial para a análise da construção das situações como um tópico que no percurso percorrido nessa análise. Há numerosos aspectos potencialmente problemáticos no argumento deles. Primeiro, o livro não é analítico. Ele não contém muito da análise de como a realidade é construída. Em vez disso, ele fornece argumentos gerais dessa construção e explora sua implicação para a vida social[...] Segundo, o estudo de Berger e Luckmann é focado na fenomenologia da experiência individual. Isto é, em vez de examinar o processo de construção em operação nas falas e textos, ele enfatiza a percepção das pessoas e sua compreensão [...] isto tende a obscurecer a natureza interacional e retórica da construção das situações, enquanto reifica um mundo mental [...] Um problema final
com Berger e Luckmann é que o construcionismo deles é mais um evento limitado [...](eles) ignoram os problemas epistemológicos associados à reflexividade.
Quando observamos a perspectiva colocada por Crotty (1998), observa-se outro ponto de crítica ao tratado colocado por Berger e Luckmann. O autor pontifica que, se de um lado o construcionismo social afirma que toda realidade é construída socialmente, sem exceções:
...nem todo mundo concorda. Há alguns que usam o construcionismo social para significar que realidades sociais, e somente realidades sociais, têm uma gênese social. Realidades físicas ou naturais não. Em outras palavras, eles entendem que o construcionismo social se refere à “construção da realidade social” em vez de construção social da realidade (CROTTY, 1998, p.54).
O mesmo autor, para corroborar essa afirmação, interpreta Giddens (1979) em sua diferenciação de mundo natural e mundo social, pela perspectiva da significação de que este postula que o homem não “criou o mundo natural, mas que teve de construir sentido para um ‘mundo que já estava lá’ (expressão de Heidegger e Merleau-Ponty, não de Giddens)” (CROTTY, 1998, p.55).
Não tanto uma crítica, mas uma diferenciação de perspectiva, é percebida na afirmação de Spink e Frezza (1999) de que enquanto Berger e Luckmann, como sociólogos, preocupam-se sobretudo com os processos de conservação e transformação social, focalizando os processos de tipificação, institucionalização e socialização, os autores da psicologia social portadores da perspectiva construcionista na psicologia social focalizam o momento da interação, ou seja, os processos de produção de sentidos na vida cotidiana. Entretanto, os mesmos autores, apesar de reconhecerem o caráter inovador de sua proposição afirmam que:
(eles) pertencem à sua época [...] usam e abusam de conceitos problemáticos como realidade e conhecimento, embora os usem entre aspas (somente postuladas, não explicitadas graficamente – nota do autor), e fazem uma distinção, hoje suspeita, entre idéias – domínio dos homens sábios – e senso comum – domínio do povo.”(SPINK E FREZZA, 1999, p.25)
Tal distinção, à vezes ocorre de modo que pode ser considerado inclusive preconceituoso, como quando os autores da Construção Social da Realidade afirmam em seu livro:
...os significados institucionais devem ser impressos poderosa e inesquecivelmente na consciência do indivíduo. Como os seres humanos são freqüentemente preguiçosos e esquecidos[...] Além disso, como os
seres humanos são freqüentemente estúpidos...(BERGER e LUCKMANN, 1976, p.98)16
Para os fins deste trabalho de pesquisa, a teoria da Construção Social da Realidade é considerada o principal suporte teórico, sendo assumida a compreensão de que os fenômenos sociais assumem significações que nem sempre são objetivadas, o que remete à argumentação de que “o conceito de intersubjetividade parece ter sido reduzido, ao longo do tempo, primeiramente à subjetividade e, em seguida, à objetividade, desvirtuando a concepção original de Berger e Luckmann (1967)” (MACHADO-DA-SILVA et al, 2005, p.34). Entretanto há uma divergência central entre o pesquisador dessa investigação e os pressupostos teóricos assumidos por Berger e Luckmann e que são sustentados pela assunção de realidade pela perspectiva de Thomas e Thomas (1970), entendendo a volição como fator influenciador da construção da realidade social. Com isto, faz-se necessário um estudo do processo de construção de significação com o intuito de desenvolver essa proposição teórica de compreensão do processo de construção de estratégia. Essa proposta de trabalho se situa dentro do escopo do construcionismo social, corrente teórica que se desenvolveu á luz do trabalho de Berger e Luckmann e que será apresentada em seguida.