3.4. MÜTEAHİDİN TEMERRÜDÜ SONUCU ARSA SAHİBİNİN
3.4.2. Konu Hakkında Doktrindeki Görüşler ve Yargıtay İçtihadı
3.4.2.2. Dönme Görüşünün Gerekçeleri
3.4.2.2.2. Mütemerrit Müteahhidin İnşasını Tamamladığı Kısımla Orantılı
Os campos semânticos em que a literatura especializada reporta a presença de arabismos portugueses podem ser analisados consoante os três contextos de contato português-árabe já descritos como sócio-histórica e culturalmente tão diferenciados (seção 2.3.5). Em decorrência de fatores extralingüísticos, tais como o prestígio da língua árabe, a amplitude de uso desta e duração do contato, é de se esperar assimetria na quantidade de campos semânticos em que se verificam os arabismos introduzidos em cada contexto, bem como diversidade de material léxico encontrado em cada campo semântico investigado.
Durante a Idade Média ibérica, ainda que em proporções diferenciadas, verificou- se a importação, pelos romances e línguas locais, de maior número de vocábulos originados na língua árabe, que se distribuiu por ampla gama de campos semânticos, abrangendo aspectos da vida cotidiana, das ciências e das técnicas e mesmo da religião.
No que concerne à língua portuguesa e considerando-se os campos citados por Elia (2004, p. 107), Silva Neto (1988, p. 333), Teyssier (2001, p. 22), Vargens (2007, p. 221- 225) e Vasconcelos (1956, p. 301-302), encontra-se o referido vocabulário nos campos semânticos de:
1. técnicas e produtos agrícolas: açude, almuinha, safra, sega; açúcar, café, tamarindo. 2. guerra e vida militar: alferes, algema, almirante, arrais, arsenal, bodoque, calibre,
refém.
3. indústria e comércio: açougue, alambique, armazém, azenha, azêmola. 4. administração e finanças: aduana, alfândega, alvará, aval, leilão, tarifa. 5. profissões: alfaiate, almoxarife, magarefe.
6. ciências, técnicas e artes: algarismo, álgebra, zero; achaque, elixir, enxaqueca, nuca,
xarope; alquimia; alaúde, atabaque, atambor, axabeba, cifra.
7. vestuário: babuche.
8. alimentação e culinária: almôndega, cuscuz.
9. compartimentalização espacial e acidentes geográficos: aldeia, arrabalde, bairro,
rincão.
10. habitação e vida doméstica: alcova, alicerce, almofada, andaime, azulejo, chafariz,
divã, saguão, sofá, taça, taipa.
11. fauna (inclusive pesca): anta, atum, gazela, girafa. 12. flora: aloé, alfazema, haxixe, estragão, saramago. 13. jogos: xadrez.
14. religião: imame, ulemá, mussurumim, islame, jihad, mesquita, minarete, moçafo,
tecebá.
15. dinastias, etnias, gentílicos: almóada, almorávida, beduíno, berbere, coraixita, malê. Entretanto, a presença de afro-muçulmanos no Brasil escravagista, sobretudo no século XIX, inaugurou a “via brasileira” de introdução de arabismos na língua portuguesa. A análise do vocabulário de origem “malê” registrado no Léxico Português de Origem Árabe (VARGENS, 2007) aponta a predominância quase absoluta de arabismos do campo religioso: de 25 vocábulos, apenas 01, aluá (designando alimentos, doce e bebida), pertence ao campo da culinária (MARANHÃO, 2009a, p. 10).
Por sua vez, o levantamento dos arabismos portugueses do campo religioso documentado no Léxico Português de Origem Árabe (VARGENS, 2007) resultou na identificação de 96 vocábulos distribuídos por 14 campos semânticos. Em destaque, os 25 vocábulos legados pelos escravos islamizados no Brasil, um dos quais integrando uma expressão híbrida, português-árabe: 1. ministros do culto islâmico (aba, alfaqui, alicali,
almuadem, alufá, arabi, caciz, imame, lemano, marabuto, miramolim, mufti, ulemá, xeque);
2. crentes e infiéis (alcoranista, almôada, almorávida, amim, babi, cafre, daroês, elchem
faquir, hadji, malê, maronita, moçárabe, mogatace, mosleme, muçulmano, mudéjar,
mussurumim, rafadi, rume, sufi, sunita, xerife, xiita); 3. religiões e seitas (almóada,
almorávida, babismo, islame, maronita, muçulmanismo, sufismo, xiismo); 4. Preceitos
(assumi, azaca, jihad, sacá); 5. locais sagrados ou a estes relacionados (açotéia, alcorão
almádena, alquibla, Caaba, djema, maçalassi, marabuto, mesquita, mimbar, minarete, mirabe); 6. livro sagrado (alcorão, moçafo, suna, sura); 7. objetos litúrgicos (acitara, alfaia, almocela, Caaba, tecebá); 8. orações (açubá, adixá, aiassari, ailá, alimangariba, o híbrido
português-árabe fazer sala e salá); 9. divindade e outras entidades (abedale, Alá, aligenum,
caneco, djim, ifrite); 10. eventos (hégira); 11. morte (almocábar, ataúde); 12. segregação
religiosa (aduana, almocábar); 13. premiação e punição (aljube, huri); 14. saudações, interjeições e expressões interjetivas (barica da suba, bissimilai, Maneco lassalama, salamaleco, salamaleque).
Os 25 arabismos religiosos legados por afro-muçulmanos ao português brasileiro constituem 26% do total dos arabismos religiosos documentados no Léxico Português de
Origem Árabe, fato que corrobora a hipótese então testada, de que, dada a restrita difusão do
islamismo no Brasil escravagista, a contribuição malê de arabismos no referido campo seria, efetivamente, menor que a herança européia. Contudo, a sua participação em 08 dos 14 micro- campos analisados refutou a hipótese secundária, de que este vocabulário estaria restrito a micro-campos como o de ministros do culto islâmico e de orações, designando exclusivamente especificidades do culto islâmico “malê”.
Ao contrário, a herança afro-muçulmana se faz sentir, em ordem decrescente, nos seguintes micro-campos religiosos: preceitos (em que 100% dos vocábulos têm origem afro- muçulmana);71 orações (85,71%);72 saudações, interjeições, expressões interjetivas
71 Integram este micro-campo semântico as formas assumi, azaca, jihad e sacá.
72 Constituído o micro-campo pelos vocábulos açubá, adixá, aiassari, ailá, alimangariba, fazer sala, salá, dos
(66,66%);73 ministros do culto islâmico (21,42%);74 objetos litúrgicos (20%);75 verificando-se igual participação nos campos divindades e outras entidades76 e locais sagrados ou a estes relacionados77 (com 16,66% de vocábulos legados pelos escravos islamizados) e, por fim, crentes e infiéis (com 12,5 % de contribuição “malê”).78
Como já se disse (seção 2.2.3), o levantamento dos arabismos legados pela imigração sírio-libanesa registrados no Léxico Português de Origem Árabe (VARGENS, 2007) resultou na identificação de 12 vocábulos, todos, de fato, integrantes do campo semântico da culinária: baba hanuche, beleua, cafta, esfiha, falafel, homos, laban, labna,
mijadra, quibe, tabule, tahine (MARANHÃO, 2009b, p. 06-07).
O Léxico Português de Origem Árabe (VARGENS, 2007) registra, além da herança afro-muçulmana e sírio-libanesa, outros 732 arabismos chegados ao Brasil com a língua do colonizador, o português europeu, distribuídos pelo autor por 13 campos semânticos, além de 03 grupos constituídos com base na classe gramatical a que pertencem e 01 grupo das saudações: 1. administração pública (justiça, penas, impostos, tarifas, títulos de nobreza e honoríficos); 2. guerra, exército, marinha, armas, náutica; 3. vida social e relações sociais (religião, mitos, filosofia, profissões, doenças, medicamentos, língua); 4. vida privada (corpo, mobiliário, vestuário, alimentação, utensílios); 5. nomenclatura rural e urbana (casa, transportes, acidentes geográficos, astronomia, astrologia, fenômenos da natureza, meses do ano); 6. flora; 7. recursos naturais, química; 8. fauna, pesca, pecuária; 9. agricultura; 10. pesos e medidas, moeda, matemática; 11. comércio e indústria; 12. dinastias, etnias, gentílicos; 13. cores; 14. adjetivos; 15. instrumentos gramaticais; 16. verbos; 17. saudações (VARGENS, 2007, p. 221-225).
Considerando que, para Iordan e Manoliu, “[...] as palavras de uma língua podem oferecer materiais para conhecer o desenvolvimento social do povo que a fala, ou, dito de outro modo, a quantidade e índole de conhecimentos que esse povo tem em todo tipo de
73 Este micro-campo é formado pelas formas “malês” barica da subá, Bissimilai, Maneco Iassalama, salamaleco, além das transplantadas com o colonizador português, oxalá e salamaleque.
74 Encontram-se neste micro-campo os itens aba, alfaqui, almuadem, arabi, caciz, imame, marabuto, miramolim, mufti, ulemá e xeque, a par dos “malês” alicali, alufá e lemano.
75 Neste campo, apenas tecebá constitui contribuição afro-muçulmana ao português brasileiro. Outras formas
encontradas neste micro-campo são acitara, alfaia, almocela e Caaba.
76 Formado pelos vocábulos abedale, Alá, caneco, djim, ifrite e aligenum, este último herança dos escravos
islamizados.
77 Além dos afro-muçulmanos djema e maçalassi, ocorrem, neste micro-campo, ainda, as formas açotéia, alcorão, almádena, alquibla, Caaba, marabuto, mesquita, mimbar, minarete e mirabe.
78 Este micro-campo é integrado pelos vocábulos alcoranista, almôada, almorávida, babi, cafre, daroês, elche, faquir, hadji, maronita, moçárabe, mogatace, mosleme, muçulmano, mudéjar, rafadi, rumi, sufi, sunita, xerife e xiita, além das formas introduzidas no português brasileiro por escravos islamizados: amim, o próprio termo malê e mussurumim.
atividades”79 (IORDAN; MANOLIU, 1989, v. 2, p. 63, tradução nossa), e que, segundo Sapir, “Pode-se aproximativamente apreciar o papel que os vários povos têm desempenhado no desenvolvimento e expansão das idéias culturais, registrando-se o grau de infiltração dos seus léxicos em outras línguas” (SAPIR, 1980, p. 154), justifica-se que em Alandalus, onde se deu uma interação mais duradoura e intensa do árabe com os romances e línguas ibéricos, com maior prestígio da civilização muçulmana e efetiva transmissão de inúmeros saberes aos cristãos europeus, tenha se verificado a adoção de inúmeros arabismos nos mais diversos campos semânticos. Restrito o alcance da língua árabe no Brasil, isto é, com as suas funções sociais restritas à religião, no caso dos escravos islamizados, e à designação exclusivamente de elementos étnico-culturais, no que respeita aos primórdios da imigração árabe, o número de arabismos importados pela língua portuguesa diminuiu, assim como o número de campos semânticos em que ocorrem.
Novas investigações, em documentos produzidos à época de ingresso de afro- muçulmanos no Brasil, bem como de arabismos e africanismos documentados pela Lexicografia brasileira, além de pesquisas sócio-ligüísticas nas regiões de recente imigração árabe-muçulmana podem indicar se, com efeito, restringem-se apenas a estes os arabismos do português brasileiro e os campos semânticos em que se organizam.