C. Metnin Neþri Hakkýnda
II. MÜEZZÝN
Inicialmente, o Direito Internacional dos Direitos Humanos incorpora característica comum aos direitos humanos como um todo, qual seja, a da universalidade, pela qual os direitos consagrados no bojo dos tratados internacionais de direitos humanos pertencem a todos os membros da espécie humana, sem distinção de qualquer espécie.
É esse o espírito consagrado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos em toda a sua extensão. De fato, já em seu Preâmbulo, a Declaração proclama estar fundamentada no “reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e seus direitos iguais e inalienáveis”, que passava a ser considerada, aliás, “fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”370. Em seguida, logo em seus primeiros artigos,
a Declaração proclama expressamente que os direitos humanos pertencem a todas as pessoas sem distinção, nos seguintes termos:
Artigo 1
Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
Artigo 2
I) Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião 369SALGADO PESANTES, Hernán. La constitución y los derechos humanos. In: LEÃO, Renato Zerbini Ribeiro (coord.). Os rumos do direito internacional dos direitos humanos: estudos em homenagem a Antônio Augusto Cançado Trindade, Tomo V, p. 70.
370A primeira consideranda da Declaração Universal dos Direitos Humanos traduz exatamente essa inteligência, nos seguintes termos: “CONSIDERANDO que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”
política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
II) Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.
Acerca da universalidade, Gérson Marques aponta a exigibilidade desses direitos em todas as circunstâncias, inclusive independentemente do lugar onde se encontre a pessoa, acrescentando ainda que, por conta do caráter universal desses direitos, todos os Estados, indiferentemente, estão obrigados a observá-los, nos seguintes termos:
Sabendo-se que o cidadão é portador incontinenti de direitos humanos e de garantias essenciais à sua defesa, reconhecidas internacionalmente, ele os leva todos consigo, podendo apresentá- los onde quer que se dirija. E todas as nações devem-lhe obediência e obrigação de fazê-los ver respeitados, contra quem quer que seja.371
A universalidade implica em que, portanto, não devem importar fatores circunstancias da vida humana na definição da titularidade de direitos, fazendo todas as pessoas, portanto, jus ao respeito de uma pauta mínima de prerrogativas, que se refere a sua própria e inerente dignidade. É nesse sentido que Paulo Bonavides, analisando o tema das gerações dos direitos humanos, que foge ao escopo desta pesquisa, afirma:
A nova universalidade procura, enfim, subjetivar de forma concreta e positiva os direitos da tríplice geração na titularidade de um indivíduo que antes de ser o homem deste ou daquele País, de uma sociedade desenvolvida ou subdesenvolvida, é pela sua condição de pessoa um ente qualificado por sua pertinência ao gênero humano, objeto daquela universalidade.372
Como anteriormente afirmamos, os tratados de direitos humanos revestem-se de caráter especial no âmbito do Direito Internacional. Com efeito, a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados permite, em seu artigo 60, que um tratado seja extinto ou tenha sua execução suspensa por conta de uma “violação substancial” por parte de uma de suas partes. Entretanto, o item 5 desse mesmo artigo dispõe que tal possibilidade não se aplica “às disposições
371 LIMA, Francisco Gérson Marques de. Por uma visão internacional antropocêntrica dos
direitos humanos, num mundo de terrorismo, guerras, insegurança e avançadas tecnologias, p.
11.
sobre a proteção da pessoa humana contidas em tratados de caráter humanitário, especialmente às disposições que proíbem qualquer forma de represália contra pessoas protegidas por tais tratados”, pelo que ficam os tratados de direitos humanos intocados mesmo diante de ações ilícitas por parte de outros Estados, prevalecendo, portanto, a proteção da pessoa.
Outra característica do Direito Internacional dos Direitos Humanos refere-se ao papel primordial do Estado na implementação dos direitos consagrados nos tratados de direitos humanos. Com efeito, como tivemos oportunidade de apontar anteriormente, os próprios tratados atribuem uma série de funções aos Estados, obrigando-os a tomar medidas de caráter administrativo, legislativo e jurisdicional em seus respectivos âmbitos internos com vistas a efetivar esses direitos, fazendo com que os Estados se comprometam, em última instância, a garantir a todos os indivíduos que se encontrem em seu território e que estejam sob a sua jurisdição os direitos reconhecidos nos compromissos internacionais373. Entretanto, em vista das
dificuldades que as idéias não-intervencionistas acerca da soberania nacional ainda podem impor para a efetivação dos direitos humanos internacionais, bem como pelo fato de que a maior parte da população mundial efetivamente está sob a jurisdição dos Estados, estabelece o Direito Internacional dos Direitos Humanos que o papel do Estado é primordial para a concretização desses direitos. É aquilo que Cançado Trindade chama de “papel de proteção primária”374 dos direitos humanos, que se infere não só das altas funções que
são atribuídas à entidade estatal na proteção da dignidade humana como também do papel meramente subsidiário dos órgãos internacionais de proteção dos direitos humanos, que só podem agir na defesa dos direitos consagrados nos tratados quando esgotados os recursos internos colocados à disposição dos indivíduos375.
373Recordamos que essa é a inteligência do artigo 2º do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, que em seu item 1 determina que “Os estados-partes no presente Pacto comprometem-se a garantir a todos os indivíduos que se encontrem em seu território e que estejam sujeitos à sua jurisdição os direitos reconhecidos no atual Pacto”.
374 CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Tratado de direito internacional dos direitos
humanos.,v. 1, p. 411.
375 Essa é a inteligência da Convenção Americana de Direitos Humanos que determina, no artigo 46, a, que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos só apreciará uma petição individual ou uma comunicação que reclame a inobservância de direitos garantidos pelo
Em vista da obrigação estatal de promover a maior interação entre o direito internacional e o interno, por meio da tomada de medidas que permitam que os tratados de direitos humanos logrem aplicação no universo jurídico estatal, e exatamente para alcançar a eficácia desses tratados, é que surge aquela que é outra característica do Direito Internacional dos Direitos Humanos, que diz respeito exatamente à obrigação estatal de compatibilizar os dispositivos de direito interno com as normas internacionais de direitos humanos. Com isso, visa-se a prevenir conflitos entre os ordenamentos internacional e interno, por meio da harmonização entre os respectivos âmbitos jurídicos, sempre em vista do imperativo maior de proteção da pessoa.
O papel primário do Estado na proteção dos direitos humanos previstos em tratados não se restringe à tomada de medidas de caráter legislativo, mas alcança também a obrigação de prover recursos internos eficazes, voltados a possibilitar que o indivíduo logre a devida proteção de seus direitos ameaçados ou a reparação cabível por qualquer violação de que sejam vítimas. Com efeito, se cabe aos Estados, que efetivamente exercem jurisdição sobre a população mundial, cuidar de que seja assegurada a dignidade inerente a essas pessoas, é cediço que a garantia dessa dignidade passa não só pela prevenção da ocorrência de violações desses direitos e por iniciativas voltadas a promover o gozo, em intensidade crescente, dos direitos humanos, mas também pela repressão a eventuais episódios de inobservância desses direitos, que garantirá a reparação da dignidade humana desrespeitada.
É nesse sentido que deverão os Estados se preocupar em fornecer recursos internos eficazes para que os indivíduos possam exigir o respeito a direitos que estejam consagrados em instrumentos internacionais, notadamente mecanismos judiciais, embora não se possam excluir outros mecanismos extra-judiciais, desde que estes efetivamente contribuam para que prevaleça a preservação da dignidade humana. Além disso, cabe lembrar que os mecanismos judiciais requerem o apoio de outras estruturas não judiciais, como a policial, fundamental para as investigações que apurem a materialidade
Sistema Interamericano de Direitos Humanos caso “hajam sido interpostos e esgotados os recursos da jurisdição interna, de acordo com os princípios de Direito Internacional geralmente reconhecidos”
de violações de direitos e, eventualmente, para cumprir as medidas que a autoridade judicial entenda como necessárias. Por fim, não se deve esquecer que o Poder Executivo também pode agir para cumprir as determinações às quais o país se vinculou internacionalmente por meio de políticas públicas pertinentes.
Entretanto, é corolário direito da obrigação estatal de disponibilizar esses recursos o dever correspondente do indivíduo reclamante de utilizá-los como condição de admissibilidade de recurso a um órgão internacional. Em outras palavras, todo e qualquer indivíduo, que queira reclamar à entidade internacional encarregada de promover a efetivação de direitos garantidos em tratados por conta de violação de algum direito consagrado em compromisso internacional, deve primeiramente recorrer aos mecanismos internos até seu esgotamento. Em todo caso, enfatiza Cançado Trindade que a regra do esgotamento dos recursos internos só pode “ser considerada adequadamente em conexão com a obrigação correspondente dos Estados de prover recursos internos eficazes”376. É nesse sentido que a exigência do esgotamento dos recursos internos pode ser levantada quando tais recursos não existam ou não funcionem de maneira eficaz377.
Em suma, como afirma Cançado Trindade acerca do envolvimento estatal neste ponto, “os tratados supracitados confiam assim a proteção dos direitos humanos também aos órgãos e procedimentos de direito público interno e à legislação constitucional ordinária”378.
376 CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Tratado de direito internacional dos direitos
humanos, v. 1, p. 425.
377Exemplo disso é dado pela Convenção Americana de Direitos Humanos que, em seu artigo 46, 2, determina que a exigência de esgotamento dos recursos internos para que seja interposta petição ou comunicação junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos não se aplicará quando: “a) não existir, na legislação interna do estado de que se tratar, o devido processo legal para a proteção do direito ou direitos que se alegue tenham sido violados; b) não se houver permitido ao presumido prejudicado em seus direitos o acesso aos recursos da jurisdição interna, ou houver sido ele impedido de esgotá-los; e c) houver demora injustificada na decisão sobre os mencionados recursos”.
378CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. A interação entre o direito internacional e o direito interno na proteção dos direitos humanos. In: CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. (editor). A incorporação das normas internacionais de direitos humanos no direito brasileiro, p. 226.
Entretanto, o papel primordial que exercem os Estados na proteção internacional dos direitos humanos não os exime da possibilidade de que seus atos sejam monitorados por foros internacionais, com o intuito de que seja verificada a conformidade das ações estatais com os compromissos que assumiram nos tratados de direitos humanos. É aquilo que Cançado Trindade chama de possibilidade de “supervisão internacional da compatibilidade dos atos internos dos Estados com suas obrigações internacionais de proteção”379, pela qual é possível que entidades internacionais verifiquem a compatibilidade de todos os atos estatais, inclusive as leis e as decisões judiciais, com os tratados com os quais se comprometeram os Estados, sendo capazes de promover a responsabilização internacional do ente estatal que descumpra algum de seus compromissos.
Com efeito, os tratados internacionais de direitos humanos prevêem esquemas de monitoramento e supervisão do cumprimento dos compromissos internacionais dos Estados, a exemplo de órgãos jurisdicionais, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana de Direitos Humanos, competentes, nos termos da própria Convenção Americana de Direitos Humanos380, para “conhecer de assuntos
relacionados com o cumprimento dos compromissos assumidos pelos estados- partes” desse tratado.
Carol Proner aponta outro exemplo de monitoramento internacional dos direitos humanos, qual seja, o da Organização Internacional do Trabalho (OIT), organismo internacional voltado à promoção dos direitos econômicos sociais e culturais, com ênfase nas relações de trabalho. A respeito, a autora afirma o seguinte:
A OIT também possui mecanismos de controle para vigiar a aplicação de direitos pelo Estado. Esse controle é exercido através da análise dos informes apresentados periodicamente pelos governos (realizada pela Oficina Internacional do Trabalho) e a 379 CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Tratado de direito internacional dos direitos
humanos, v. 1, p. 410.
380 A Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece, entre os artigos 33 e 69, os chamados “Meios de Proteção” do Sistema Interamericano, nomeadamente a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana de Direitos Humanos, “competentes para conhecer de assuntos relacionados com o cumprimento dos compromissos assumidos pelos estados-partes nesta Convenção”.
formulação de recomendações, fiscalizada por uma Comissão de Expertos, formada por representantes do governo, representantes de empregadores e de trabalhadores.381
Entrementes, cabe destacar a advertência de Cançado Trindade acerca do real caráter dos foros internacionais de monitoramento e de supervisão do cumprimento dos compromissos aos quais aderiram os Estados nos tratados, que é subsidiário em relação aos tribunais estatais internos, sem prejuízo, entretanto, de seu papel de exame da conformidade dos atos dos Estados com os tratados:
Em terceiro lugar, é certo que os tribunais internacionais de direitos humanos existentes – as Cortes Européia e Interamericana de Direitos Humanos – não “substituem” os tribunais internos, e tampouco operam como tribunais de recurso ou de cassação dos tribunais internos. Não obstante, os atos internos dos Estados podem vir a ser objeto de exame por parte dos órgãos de supervisão internacionais quando se trata de verificar a sua conformidade com as obrigações internacionais dos Estados em matéria de direitos humanos. Os atos internos dos Estados não se encontram isentos de verificação quanto ao seu valor de prova, porquanto podem não estar conformes às obrigações internacionais do Estado.382
Adicionalmente, Lindgren Alves também menciona o caráter complementar do sistema de proteção internacional dos direitos humanos, lembrando que “o sistema internacional de proteção aos direitos humanos é reconhecidamente complementar aos nacionais, tentando sobre eles influir”383.
O esquema do Direito Internacional dos Direitos Humanos, que alia o papel primarcial do Estado na promoção da dignidade humana e a capacidade de acompanhamento da comunidade internacional é sintetizado por Cançado Trindade:
Mas cabe, ademais, aos tribunais internos, e outros órgãos do Estado, assegurar a implementação em nível nacional das normas internacionais de proteção, o que realça a importância de seu papel em um sistema integrado como o da proteção dos direitos humanos, no qual as obrigações convencionais abrigam um interesse comum superior de todos os Estados Partes, o da proteção do ser humano. 381PRONER, Carol. Os direitos humanos e seus paradoxos: análise do sistema interamericano de proteção, p. 87-88
382CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. A interação entre o direito internacional e o direito interno na proteção dos direitos humanos. In: CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. (editor). A incorporação das normas internacionais de direitos humanos no direito brasileiro, p. 212-213.
383 ALVES, José Augusto Lindgren. O sistema de proteção das Nações Unidas aos direitos
humanos e as dificuldades brasileiras.In: CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto (editor). A incorporação das normas internacionais de direitos humanos no direito brasileiro, p. 247.
Os órgãos de supervisão internacional, por sua vez, controlam a compatibilidade da interpretação e aplicação do direito interno com as obrigações convencionais, para determinação dos elementos factuais a serem avaliados para o propósito da aplicação das disposições pertinentes dos tratados de direitos humanos.384
Por fim, a conseqüência natural do eventual descumprimento de um tratado de direitos humanos é a possibilidade de que o Estado seja responsabilizado internacionalmente.
Com efeito, a partir do momento em que um Estado ratifica um tratado e este entra em vigor, passa o ente estatal a estar juridicamente obrigado a cumprir seus dispositivos, o que implica em que sua eventual inobservância sujeita o Estado a sofrer sanções jurídicas, naquilo que em Direito Internacional se define como “responsabilidade internacional”. Nesse sentido, o descumprimento de qualquer norma de tratado de direitos humanos por qualquer órgão do Estado, ou a omissão estatal em evitar a inobservância desses tratados dentro de seu território pode ensejar o estabelecimento de medidas contra o Estado.
Cabe destacar que, como lembra Cançado Trindade, respaldado pela Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, de 1969, ”nenhum Estado pode invocar dificuldades ou deficiências de direito interno como desculpas para evadir suas obrigações internacionais”385.
Exemplo de sanção é a possibilidade de que a Corte Interamericana de Direitos Humanos determine em sentenças que o Estado pague indenizações a indivíduos que sofreram violações de direitos humanos386. Outro exemplo é apontado por Carol Proner e refere-se às
chamadas “intervenções humanitárias”387, promovidas pelo Conselho de
384 CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Tratado de direito internacional dos direitos
humanos, v. 1, p. 415-416.
385Id. p. 426.
386 Nesse sentido, o artigo 63, 1, da Convenção Americana de Direitos Humanos determina expressamente que “Quando decidir que houve violação de um direito ou liberdade protegidos nesta Convenção, a Corte determinará que se assegure ao prejudicado o gozo do seu direito ou liberdade violados. Determinará também, se isso for procedente, que sejam reparadas as conseqüências da medida ou situação que haja configurado a violação desses direitos, bem como o pagamento de indenização justa à parte lesada”.
387A respeito, Carol Proner afirma que, em alguns casos de violação dos direitos humanos, o Conselho de Segurança “adota medidas contundentes para obrigar os Estados a respeitar suas obrigações internacionais de respeito à manutenção dos direitos humanos”, referindo-se
Segurança das Nações Unidas e que consistem em operações internacionais militares ou de caráter humanitário em regiões onde estejam ocorrendo violações dos direitos humanos.
2. 4 O princípio da primazia da norma mais favorável
A análise do princípio da primazia da norma mais favorável parte da idéia de proteção integral da pessoa, princípio essencial do Direito Internacional dos Direitos Humanos, e da óbvia constatação de que esse ramo do Direito, não obstante estar voltado a toda a humanidade, se aplica mormente àquelas pessoas que mais necessitam ter assegurada e promovida a dignidade que lhes é inerente. É nesse sentido que Cançado Trindade vai afirmar que o “Direito Internacional dos Direitos Humanos” não rege as relações entre iguais; opera precisamente em defesa dos ostensivamente mais fracos”388. Com isso, devem as normas internacionais de proteção aos direitos humanos ser sempre interpretadas e aplicadas prioritariamente em vista da proteção das pessoas que estejam sendo vítimas da não observância de um determinado direito a que fazem jus.
É por isso que o Direito Internacional dos Direitos Humanos, guiado por esse imperativo superior de proteção da pessoa, estabelece que, diante de eventuais antinomias que envolvam normas de direitos humanos, por um lado, e outras normas, internacionais ou internas, por outro, ou normas de direitos humanos entre si, deve sempre prevalecer aquela norma que melhor proteja a dignidade da pessoa humana. É o princípio da primazia da norma mais
certamente às missões de paz da ONU. Ver: PRONER, Carol. Op. cit., p. 86. Celso de Albuquerque Mello também menciona tais intervenções, referindo-se a elas como “direito” ou “dever” de inferência, que se fundamentariam, para o autor, exatamente na “consideração de que os direitos do homem não pertencem mais à jurisdição doméstica dos Estados”. Entretanto, o autor considera um risco tais intervenções, entendendo que podem configurar intervenção indevida nos assuntos dos Estados. MELLO, Celso de Albuquerque. Direito
constitucional internacional,p. 134-135. Já Lindgren Alves refere-se a tais ações como “direito
de ingerência”, definindo-o como a ferramenta que, em conflitos armados, tem o objetivo de “assegurar o fornecimento de assistência às populações de áreas conflagradas, muitas vezes controladas por movimentos insurrecionais de oposição ao governo central. ALVES, José Augusto Lindgren. O sistema de proteção das Nações Unidas aos direitos humanos e as