É necessário ainda analisar a questão dos efeitos da Emenda Constitucional nº 45/2004 em termos processuais. Falando em termos de proteção aos direitos humanos, a Emenda referida acrescenta ao artigo 109 da Constituição Federal, que versa sobre a competência dos juízes federais, o inciso V-A, conferindo poderes aos juízes para processar e julgar as causas relativas a direitos humanos a que se refere o também acrescido parágrafo 5º, o qual abre a possibilidade de o Procurador-Geral da República, em se tratando de grave violação aos direitos humanos, objetivando assegurar o cumprimento dos tratados internacionais dos quais o Brasil faça parte, suscitar perante o Superior Tribunal de Justiça o incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.
Por essa razão, ocorre um fenômeno conhecido como “incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal”. Se um crime é considerado de grave violação aos direitos humanos, haverá o deslocamento da competência para o juiz federal, a pedido do Procurador-Geral. Não houve por parte da legislação restrição quanto às ações, tornando
134 SIMON, Op. Cit., p. 99-120.
possível a “federalização” de inquéritos ou processos de natureza cível, abrangendo questões administrativas, ações civis públicas e ações de responsabilidade, dentre diversas outras. 136
Uma das razões para essa possibilidade de mudança da Justiça Estadual – detentora da competência para julgar a maioria dos casos de violação – para a Justiça Federal é o fato de a União ser responsável pelo cumprimento dos tratados internacionais de direitos humanos. Porém, não era ela a figurar nas ações em que esses direitos foram violados. Outro motivo é a tentativa de reduzir a impunidade nesses casos, a partir da criação de um novo mecanismo de proteção aos direitos humanos. Ressalte-se ainda a possibilidade do engajamento dos Estados federados na assunção de responsabilização, novidade alcançada pelo deslocamento de competência em nível federal. 137
O primeiro caso de deslocamento de competência foi o do homicídio da missionária norte-americana Doroth Stang,138 em que foi considerado que o homicídio doloso representa grave violação ao maior e mais importante direito do ser humano, seu direito à vida. Foi considerado, todavia, improcedente o pedido, dado o princípio da proporcionalidade, de modo que não seriam todas as situações em que poderia ocorrer o deslocamento de competência. Deveria o caso correr risco devido à incapacidade do Estado-membro competente, decorrente de inércia, omissão, ineficácia, negligência ou falta de vontade pública ou condições, o que não seria a ocasião, haja vista o empenho do Estado do Pará nas investigações.
O segundo evento a ser analisado é o homicídio do ativista de direitos humanos Manoel de Mattos139 na Paraíba, em que foi reconhecido o deslocamento de competência, dado as circunstâncias do assassinato. O ativista estaria sendo perseguido já há tempos por grupos criminosos, o que, segundo o entendimento do Superior Tribunal de Justiça, evidencia
136 MARQUES JÚNIOR, Op. Cit., p. 54-71.
137 Ibidem, p. 54-71.
138 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. INCIDENTE DE DESLOCAMENTO DE COMPETENCIA nº 1, S3 – Terceira Seção. Relator: Ministro Arnaldo Esteves Lima. 08 de junho de 2005. DJ, Brasília, 10 out. 2005. (Ementa: Constitucional. Penal e Processual Penal. Homicídio doloso qualificado. (Vítima Irmã Dorothy Stang). Crime praticado com grave violação aos direitos humanos. Incidente de Deslocamento de Competência ? IDC. Inépcia da peça inaugural. Norma constitucional de eficácia contida. Preliminares rejeitadas. Violação ao princípio do juiz natural e à autonomia da unidade da Federação. Aplicação do princípio da proporcionalidade. risco de descumprimento de tratado internacional firmado pelo Brasil sobre a matéria não configurado na hipótese. Indeferimento do pedido.).
139 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. INCIDENTE DE DESLOCAMENTO DE COMPETENCIA nº 2, S3 – Terceira Seção. Relator: Ministra Laurita Vaz. 27 de outubro de 2010. DJe, Brasília, 22 nov. 2010. (Ementa: Incidente de Deslocamento de Competência. Justiças Estaduais dos Estados da Paraíba e de Pernambuco. Homicídio de vereador, notório Defensor dos direitos humanos, autor de diversas denúncias contra a Atuação de grupos de extermínio na fronteira dos dois estados. Ameaças, atentados e assassinatos contra testemunhas e denunciantes. Atendidos os pressupostos constitucionais para a excepcional medida.).
que não se trata de um simples caso de homicídio, pois “extrapola os limites de um crime de homicídio ordinário, na medida em que fere, além do precioso bem da vida, a própria base do Estado, que é desafiado por grupos criminosos (...), abalando sobremaneira a ordem social.” Enfatize-se também o descumprimento de tratados internacionais, como o Pacto de San Jose da Costa Rica, além de já ter sido feita a recomendação ao Estado brasileiro pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos para adotar medidas cautelares, buscando a proteção de pessoas ameaçadas por grupos de extermínio na região da divisa entre Pernambuco e Paraíba, medidas essas não cumpridas ou ineficazes.
Foi o primeiro caso de federalização ocorrido, tendo a Terceira Seção do STJ acolhido o pedido da Procuradoria-Geral da República, tendo sido o caso decidido pela aplicação do instituto jurídico por maioria dos votos.140 O júri popular, realizado em Recife, começou no dia 14 de abril de 2015 e culminou na condenação de dois dos cinco acusados de envolvimento no homicídio de Manoel de Mattos. 141 Foi o primeiro júri em que houve o deslocamento de competência por ter sido reconhecida a grave violação aos direitos humanos no evento em análise.
Também foi reconhecido em 2014 o deslocamento de competência para a morte do Promotor de Justiça estadual Thiago Faria Soares, tendo o homicídio indícios de que resultou da ação de grupos de extermínio do interior de Pernambuco. No caso foi entendido que houve falta de entendimento operacional entre a Polícia Civil e o Ministério Público estadual, que ensejou uma série de falhas na investigação criminal, podendo comprometer o resultado final da persecução penal, possibilitando a impunidade dos mandantes e dos executores do crime. Desse modo, foi determinado o deslocamento de competência e a transferência do Inquérito Policial para a Polícia Federal, sob o acompanhamento do Ministério Público Federal. 142
140 SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Grave violação a direitos humanos leva STJ a federalizar caso
Manoel Mattos. 28 de outubro de 2010. Disponível em:
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viola%C3%A7%C3%A3o-a-direitos-humanos-leva-STJ-a-federalizar-caso-Manoel-Mattos>. Acesso em: 11 mai 2015.
141 G1 PE. Justiça condena dois réus pela morte do advogado Manoel Mattos: Outros 3 acusados foram absolvidos em júri popular realizado no Recife. Vítima atuava contra grupos de extermínio e foi morta na PB, em 2009. G1. 16 abr. 2015. Disponível em: <http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2015/04/justica-condena- dois-reus-pela-morte-do-advogado-manoel-mattos.html>. Acesso em: 12 mai 2015.
142 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. INCIDENTE DE DESLOCAMENTO DE COMPETENCIA nº 5, S3 – Terceira Seção. Relator: Ministro Rogério Schietti Cruz. 13 de agosto de 2014. DJe, Brasília, 01 set. 2014. (Ementa: Incidente de Deslocamento de Competência. Homicídio inserido em contexto de grupos de extermínio. Grave violação de direitos humanos. Configuração. descumprimento de obrigações decorrentes de tratado internacional. Estado-Membro. Ausência de condições de apurar violações e responsabilizar o(s) culpado(s). Excepcionalidade demonstrada. Deslocamento de competência que se mostra devido.)
São alguns dos poucos casos em que foi reconhecido o deslocamento de competência para a Justiça Federal em face da grave violação aos direitos humanos, ainda com muitos outros a serem analisados pelo Tribunal. O deslocamento de competência visa à proteção dos direitos humanos, garantindo que ocorra o devido processo legal de forma célere e comprometida, dado a grave violação ao direito. Vê-se a clara influência dos tratados internacionais nesse aspecto, especialmente no previamente mencionado IDC nº 2, em que foram levadas em consideração as determinações da Organização dos Estados Americanos, objetivando a proteção da vida e integridade física. Porém, não foi atendida a recomendação do organismo internacional, sendo o não seguimento à orientação motivo que ensejou o deslocamento de competência.
Em abril de 2015, havia 49 pedidos de federalização para serem apreciados pelo Ministério Público Federal, o mais antigo há nove anos aguarda parecer da Procuradoria- Geral da República decidindo se será ou não feita a proposição ao Superior Tribunal de Justiça pelo incidente de deslocamento de competência. Dentre alguns motivos, se encontra a falta de clareza sobre quais casos deveriam ou não ser federalizados. Desde 2004, apenas quatro ocorrências foram deferidas. 143
Se for considerada apenas a grave ofensa aos direitos humanos, muitos casos merecem a consideração jurídica para que seja deslocada a competência. Porém, a abordagem do Superior Tribunal de Justiça exclui diversas situações em que deveria ser o pedido reconsiderado. Evidencia-se que, não fosse a força da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, outras hipóteses também teriam sido descartadas. Todavia, há que se considerar que houve, nas ocorrências deslocadas, claro descumprimento ao que preceitua o tratado, um dos motivos principais do acolhimento da incidência de deslocamento. Por um lado, há o descumprimento de um acordo internacional de direitos humanos, que não é desejável, mostrando o quanto ainda deve ser evoluído na aplicação do direito no Brasil. Por outro lado, foi o descumprimento que causou o deslocamento de competência, evidenciando que se reconhece sua importância, apesar de ainda ser rudemente aplicado internamente.
143 RODRIGUES, Alex. PGR analisa 49 pedidos de federalização de crimes contra os direitos humanos: o número de pedidos de deslocamento de competência à espera de encaminhamento é 12 vezes maior que o total de casos (quatro) deslocados de varas estaduais para a justiça federal desde 2004. A crítica UOL, 22 abri. 2015. Disponível em: < http://acritica.uol.com.br/noticias/Manaus-Amazonas-Amazonia-PGR-analisa-pedidos- federalizacao-direitos_0_1343865602.html>. Acesso em: 18 mai 2015.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os estudos realizados por pesquisadores, universidades e organismos internacionais permitem que mais seja feito como forma de se alcançar a plena dignidade humana em todo o mundo.
Mesmo que o universalismo absoluto, como previamente idealizado, seja considerado inalcançável por muitos dos estudiosos, pode ser afirmado que, reconhecendo a dificuldade do amplo alcance dos direitos humanos, os esforços para que esses direitos sejam positivados e efetivados em âmbito interno será uma tentativa de universalizar a proteção à dignidade humana.
Nesse aspecto percebe-se que a influência do direito internacional no direito interno é bastante relevante. Isso tem sido observado principalmente em relação ao posicionamento adotado por muitos Estados no sentido de melhor se adequar aos anseios da comunidade internacional. Ela passa a cobrar de outros Estados assim como a própria população exige de seu governo mais respeito à dignidade humana.
Apesar de certos regimes jurídicos mostrarem-se resistentes à absorção de direitos humanos, sendo relutantes em incorporar os tratados internacionais que versam sobre esses direitos, aos poucos esses regimes se abrem para que haja a incorporação do direito internacional no âmbito interno. Pode-se tratar como exemplo o caso brasileiro, que, durante muitos anos, considerou os acordos sobre direitos humanos como leis ordinárias quando da sua aplicação interna. A evolução para uma posição constitucional ou supralegal já mostra certo acolhimento dessas normas, antes vistas como afronta à soberania, no contexto jurídico nacional.
Já deveria ter sido superada a questão da soberania, tendo em vista principalmente que, em se tratando de regimes autoritários, organismos internacionais podem interferir, de modo a melhor promover a dignidade humana. Porém, ainda há certa hesitação em aceitar as normas internacionais no ordenamento interno e melhor promover sua aplicação.
No caso brasileiro, os tratados internacionais de direitos humanos vêm sendo analisados com particular cautela. Como mencionado, houve, sim, evolução no pensamento doutrinário, legal e jurisprudencial para melhor aceitar esses acordos. A atual posição brasileira sobre a natureza dos tratados – natureza constitucional para os tratados de direitos humanos admitidos sob o procedimento de Emenda Constitucional, natureza supralegal para os tratados de direitos humanos não incorporados nessas condições e natureza legal para os
demais tratados – permite observar que há maior cuidado com os acordos que versam sobre direitos humanos, embora ainda haja certos impedimentos.
Alguns consideram que a Emenda Constitucional nº 45/2004, em vez de proporcionar melhor adequação aos tratados internacionais de direitos humanos, causou maiores dificuldades para que eles adquirissem força constitucional. Foi garantido, porém, aos tratados não agraciados com essa posição, a força supralegal.
Outra conjuntura para analisar essa questão é a do incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal dos casos em que houve grave violação aos direitos humanos. Tanto no âmbito deste trabalho como em situações cotidianas, muitas situações observadas em que pode ser considerado que houve grave ofensa aos direitos humanos não são apreciadas pelo Judiciário, pois nem todas as hipóteses de violação seriam plausíveis para o deslocamento.
O posicionamento do Superior Tribunal de Justiça pode ser considerado não coerente com a tentativa de melhor incorporar os tratados de direitos humanos. Alguns casos de desrespeito aos direitos humanos não são considerados para o deslocamento, havendo um contorno às normas, selecionando quais direitos deveriam ser passíveis de tratamento privilegiado e quais não o seriam.
Por esses motivos, alguns tratados têm dificuldade em serem aplicados. Ainda se encontra certa relutância em ceder ao direito internacional dos direitos humanos a atenção devida no que se refere a seu melhor posicionamento no direito interno, enfatizando também a desorganização administrativa para promover, de modo pleno, no âmbito da federação, a proteção aos direitos humanos.
No primeiro IDC, foi rechaçada a hipótese de federalização, exibindo uma postura não condizente com a proteção aos direitos humanos. Vitória logrou o direito brasileiro ao, no segundo IDC, ser acolhido o pedido da Procuradoria, deslocando o processo para a Justiça Federal. Pode-se afirmar que, de forma tímida, os direitos humanos têm tido mais enfoque no cenário jurídico brasileiro.
Espera-se, dessa forma, que melhor evoluam os aspectos relacionados à aplicação de tratados de direitos humanos no direito interno brasileiro. Ainda existe relutância em acatar normas internacionais, tanto no que tange aos tratados que são assinados, mas que não são ratificados, como aos tratados que são ratificados, mas que não são bem recebidos pelo sistema jurídico interno.
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