Ailenin Yönetimi
7. İkametgah Seçim Hakkı
8.1. Kadının Kocasına İtaat Etmesi
As posses materiais dos participantes desta pesquisa são aqui analisadas no sentido de tornar mais menos opaca a compreensão sobre as condições materiais nas quais estes sujeitos estão inseridos, o que, de algum modo, revela elementos de possibilidade para o consumo, pois como afirmam Douglas e Isherwood (2009), a renda não é o determinante único das escolhas de um indivíduo, uma vez que uma série de valores sociais também tem influência direta em seu padrão de consumo.
À primeira vista, a renda privada do domicílio parece o exato equivalente do produto per capita da nação. Mas depois se descobre aqui uma ilusão. O que entra no domicílio como renda apenas em parte estabelece um piso e um teto para as possibilidades de consumo. O resto do produto depende de combinações variadas de tempo e dinheiro, e da preferência pelo trabalho, pela família ou por outros valores sociais. (DOUGLAS & ISHERWOOD, 2009, p. 224)
Partindo das contribuições de Douglas e Isherwood (2009), é possível considerar que, as posses atuais dos sujeitos também são elementos de possibilidades para se estabelecer o padrão de consumo de um indivíduo. Neste sentido, este trabalho discute a posse de equipamentos de cultura por parte dos sujeitos aqui investigados de modo a perceber as preferências e possibilidades em relação aos conteúdos culturais consumidos. A tabela 03 mostra os diferentes bens culturais junto ao grupo estudado.
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Equipamento Mulheres Homens Total
DVD 15 6 21 CD 13 4 17 RÁDIO 13 3 16 TV 16 6 22 COMPUTADOR 6 2 8 MÁQUINA FOTOGRÁFICA 5 3 8 INSTRUMENTO MUSICAL 6 2 8 INTERNET 4 2 6 TV A CABO 0 0 0
Tabela 3: Posse de equipamentos de cultura
Fonte: Pesquisa de Campo, 2012.
Como é possível verificar na tabela 03, a TV é o equipamento de cultura mais presente nos domicílios pesquisados, corroborando dados de outras pesquisas já realizadas sobre a presença da televisão nos lares de diferentes classes sociais. Embora Nogueira (2009, p.17) ressalte – especificamente em relação aos moradores da São Rafael – que a TV “é pensada como um bem essencial na vida daquelas pessoas, uma fonte de distração, de lazer, descanso e informação em seus cotidianos”, quando indagados sobre quais as atividades de lazer ocupam a sua preferência, os sujeitos desta pesquisa não situam a TV em nenhum lugar relevante nas três colocações. Esta aparente contradição constitui-se num elemento que possibilita pensar que o lazer legítimo para os sujeitos dessa pesquisa é atrelado a ações que permitam sair da rotina, quebrando com o cotidiano.
No que se refere especificamente ao conteúdo cultural, a TV predispõe os indivíduos para um consumo cultural de massa, sem muita opção de escolha, uma vez que o sistema de TV a cabo ainda não está presente em nenhum dos lares pesquisados. No entanto, esta lacuna na possibilidade de escolha de uma programação mais personalizada parece ser contornada pela posse dos aparelhos de DVDs – que ocupam a segunda posição dos equipamentos culturais presente nos lares estudados – e permitem fazer uma programação mais “personalizada”, que inclui desde a possibilidade de passar os DVDs favoritos das crianças – para mantê-las entretidas, enquanto os “cuidadores” podem desenvolver outras atividades domésticas e/ou profissionais – até mesmo a possibilidade de assistir filmes ou shows que correspondam mais à preferência do indivíduo.
Ainda em relação ao aparelho de DVD, este parece ter substituído, em alguns lares pesquisados, o lugar do aparelho de som e do rádio, uma vez que ele oferece também as mesmas funcionalidades desses dois equipamentos. Foi possível verificar este fato quando durante as entrevistas se perguntava se existia aparelho de som de CD
64 na residência. No intuito de esclarecer a pergunta, alguns entrevistados apontavam para o aparelho de DVD querendo confirmar se era daquele equipamento que se estava falando.
Já no que se refere à internet este é o equipamento menos presente no grupo pesquisado. Assim, de oito famílias que possuem o computador, apenas seis dispõem de internet em casa. No entanto, o acesso à internet é informado por um número maior de indivíduos (16 pessoas), o que significa que o consumo desse bem cultural ocorre através das lan houses, celulares, ou outras estratégias, como através do uso de equipamentos de pessoas amigas.
No que diz respeito ao acesso a conteúdos culturais, assistir televisão mantém a liderança tendo sido esta prática informada por dezessete pessoas (77,3% do grupo) como sendo realizada sempre. Já no que se refere à aquisição de um bem cultural, foi possível verificar que o DVD é o bem comprado com mais frequência, enquanto o menos frequente é a revista, como pode ser mais bem visualizado na tabela 04 a seguir.
Conteúdo Cultural Sempre Às vezes Nunca
Compra DVD 12 9 1 Compra CD 7 10 5 Lê jornal 1 12 9 Lê revista 3 7 12 Lê livro 8 10 4 Assiste TV 17 5 0 Usa Internet 8 8 6
Tabela 4: Acesso a conteúdos culturais
Fonte: Pesquisa de Campo, 2012.
Uma questão interessante a ser destacada diz respeito a quem “abastece” o lar com os bens culturais. As mulheres entrevistadas informaram que, quase sempre, é o marido quem compra os DVD e CDs e que os jornais e/ou revistas são trazidos por eles de seus trabalhos, quando estes se tornam obsoletos. Isso reflete um dispêndio financeiro da família com a compra de DVD e CD, enquanto que os outros bens culturais são adquiridos de maneira gratuita, mas este fato não representa necessariamente a preferência dos indivíduos pesquisados, uma vez que outras variáveis devem ser consideradas como o preço das revistas, jornais e livros, que são sempre mais altos do que os preços de DVD e CD, em sua maioria, não originais. Assim, no que se refere à leitura de jornais e revistas esta é esporádica e ocorre, quase sempre, em função daquilo que é conseguido de maneira gratuita.
65 Importa notar que o consumo de certos bens culturais que se efetiva através de produtos que se tornaram obsoletos para os membros das classes superiores não representa, necessariamente, um processo de imitação, como seria possível supor através de uma leitura orientada pelo referencial de Simmel (2008) ou Veblen (1985), autores que compreendem o comportamento das classes populares como sendo guiado pela imitação das classes superiores, consumindo aquilo que já é obsoleto para estas últimas. O que aqui é possível perceber é que a revista lida por estes sujeitos é qualquer uma que seja disponibilizada gratuitamente por outros indivíduos, de classes superiores ou não, o que significa que o consumo gratuito da revista e do jornal assim se efetiva por uma questão de ordem material, não representando, necessariamente, a preferência dos sujeitos aqui investigados.
No que se refere à compra de DVD realizada pelas mulheres vale destacar que, na maioria das vezes os temas destes são infantis, o que indica uma compra orientada pelo bem-estar dos filhos e da família de um modo geral, algo próximo às descobertas de Miller (2002) sobre a compra como “ato de amor”, mas que também reforça a necessidade de manter as crianças entretidas para que o cuidador possa realizar as outras atividades domésticas, pessoais ou profissionais. Logo a funcionalidade deste produto é ampliada sendo o mesmo utilizado como uma estratégia no sentido de contribuir para a otimização do tempo.
Portanto, ao perceber que a posse dos equipamentos e o consumo de bens culturais não representam necessariamente o gosto cultural da pessoa entrevistada ou da família, mas em primeira instância denota algo que pode ser utilizado de maneira funcional – como no sentido de entreter as crianças – ou como algo que chega ao domicílio sem nenhum custo monetário, como as revistas, os jornais e os livros, estes na maioria didáticos, é possível considerar que o gosto cultural do grupo estudado constrói- se de modo a priorizar a função, e mais do que isso, a potencializá-la. Assim, verifica-se a forte influência do gosto de necessidade nas escolhas dos equipamentos e conteúdos culturais dos indivíduos aqui investigados.
Neste sentido, se faz necessário levar em conta outra importante contribuição de Bourdieu (2008, p.10) ao ressaltar que o gosto é formado culturalmente, uma vez que “o olho é um produto da história reproduzido pela educação”, e serve como elemento capaz de marcar distinções entre as pessoas.
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O gosto classifica aquele que procede à classificação: os sujeitos sociais distinguem-se pelas distinções que eles operam entre o belo e o feio, o distinto e o vulgar; por seu intermédio, exprime-se ou traduz-se a posição desses sujeitos nas classificações objetivas. (BOURDIEU, 2008, p. 13)
Partindo, portanto destas considerações de Bourdieu (2008), é possível tomar o gosto como um indicador importante na definição das classes sociais, e neste sentido considerar que um gosto que é antes de tudo ético – prioriza a função no lugar da forma – é um gosto típico das classes populares.
No sentido de explorar melhor o impacto do gosto de necessidade junto aos indivíduos aqui investigados, este trabalho passa a discutir mais especificamente a questão do gosto cultural desses sujeitos, analisando mais diretamente as suas preferências em relação aos bens culturais, discutindo inicialmente os conteúdos culturais acessados via os equipamentos de cultura presentes no domicílio, conforme apresentado no quadro a seguir.
EQUIPAMENTO CULTURAL CONTEÚDO CULTURAL Preferência 1
CONTEÚDO CULTURAL Preferência 2
CD Religioso Forró
DVD Religioso Infantil
JORNAL Jornal Já Jornal O Norte/Correio da Paraíba
REVISTA Femininas Fofocas de TV
LIVRO Religioso Escolar
TV Novelas Jornal.
INTERNET Redes Sociais Pesquisa
Quadro 6: Gosto em Relação aos Conteúdos Culturais
Fonte: Pesquisa de Campo, 2012.
Embora esta pesquisa não tenha abordado diretamente a questão do credo religioso de cada participante, é possível perceber, através da preferência cultural – bem como através de diversas opiniões expressas durante os grupos focais – a forte influência religiosa na vida deste grupo. Pelo menos, o gosto pela música, pelo “filme” e pela leitura é fortemente impactado pela religião, e neste sentido, o livro apontado como mais lido pela maioria do grupo é a Bíblia. Em segundo lugar é possível identificar a leitura de livros didáticos, e isso se justifica pelo fato de que muitas destas pessoas conciliam uma rotina dupla de trabalho e estudo.
Importa notar que, embora a leitura do jornal e da revista venha se apresentando nesta pesquisa como uma prática condicionada não somente pela preferência do indivíduo, mas pelas condições objetivas às quais ele está submetido, visto que, na maioria das vezes, o contato com estes produtos ocorre como fruto da obtenção
67 “gratuita”, uma ressalva precisa ser feita em relação ao jornal mais lido (o “JÁ”), uma vez que sua leitura quase sempre é fruto da compra efetuada pelo próprio indivíduo. Este jornal tem um formato bastante diferente dos outros de grande circulação, com um número reduzido de páginas, foca em notícias locais, policiais e esportivas, e seu preço é bastante acessível (R$ 0,25 na época da pesquisa). Talvez este conjunto de elementos o torne mais interessante para o grupo pesquisado, algo que precisa ser mais bem investigado.
Em relação à TV a preferência número um é a novela, e não existe nenhum constrangimento por parte das pessoas pesquisadas em informar este gosto, diferente do que ocorre com outros segmentos sociais, como identificado por Forjaz45 (1988) num estudo sobre o lazer e o consumo cultural das elites, tomando como grupo pesquisado as famílias de grandes empresários de São Paulo.
O jornal aparece em segundo lugar como conteúdo cultural mais visto através da TV e apenas um pequeno número de pessoas afirmou gostar de assistir filme através da televisão. Este dado permite uma reflexão sobre a questão do cinema, que enquanto local de exibição dos filmes foi frequentado por um número muito pequeno de membros deste grupo (como será mais bem visualizado adiante) e, enquanto conteúdo, é pouco visto, seja através da TV ou da compra de DVDs.
Portanto, a forma como os bens culturais são adquiridos e consumidos pelos sujeitos aqui investigados e suas famílias, permite considerar a existência de uma forte influência do gosto de necessidade na base dessas escolhas, sendo possível concordar com Bourdieu (2008) sobre o fato de que:
Apesar de darem a impressão de que possam ser deduzidas diretamente das condições objetivas, uma vez que elas garantem uma economia de dinheiro, tempo e esforços, em todos os casos, pouco rentáveis, as práticas populares têm como princípio a escolha do necessário (isso não é para nós), no sentido do que é tecnicamente necessário, prático (ou, em outras palavras, funcional), isto é, necessário para se apresentar como deve ser, sem mais nada, e ao mesmo tempo, do que é imposto pela necessidade econômica e social que condena as pessoas simples e modestas a gostos simples e modestos. (BOURDIEU, 2008, p. 355)
No sentido de perceber o impacto da necessidade46 nas escolhas de um indivíduo, o relato de Dona Moça47, ao referir-se a um dia de sábado, se torna
45 No trabalho de Forjaz (1988) as pessoas de classe alta informam que não assistem novelas, e quando o
fazem, dissimulam esta prática e a informam com um certo constrangimento.
68 interessante, pois permite perceber a rotina pesada de afazeres domésticos, concomitante a uma jornada de trabalho também exaustiva, elementos que se configuram como importantes na constituição do habitus de classe, e consequentemente no gosto cultural.
Ô serviço doido é o de mulher. Homi você faz, quando você termina de fazer vai desfazer tudo de novo pra depois fazer tudo de novo. Eu é fazendo e reclamando. Eu reclamo todo dia. Eu reclamo assim: eu acordo 5 horas da manhã, deu 6, deu 7, deu 8, deu 10 e nada de eu tomar café. Na hora que eu botei o café no copo chega alguém lá na porta, eu vou atender. Ai eu volto, o café esfriou. Ai eu me viro, ai vou lavar a louça, né. Quando, Eliuma, bota um pouquinho de café pra mim, quando ela bota, chega outra pessoa. Quem foi que chegou novamente? Lá vai eu atender. Eu só sei que quando eu vim tomar café hoje era 11 horas. Quando eu terminei de tomar café: óia a pilha de pratos que tinha pra lavar de novo! Eu digo: tá danado. Ai Elaine fazia: mãe, o que tanto a senhora reclama ai? Nam, porque serviço de mulher, pense num serviço chato! Você faz, faz, faz. Quando termina de fazer vai desfazer tudo de novo, pra fazer de novo. (Dona Moça, GRUPO FOCAL, 2013)
Este relato também permite pensar nas considerações de Maurice Halbwachs (apud DOUGLAS & ISHERWOOD, 2009, p. 267) ao considerar que os “usos do tempo podem fornecer os critérios definidores de classe social”. Neste sentido, uma das características dos domicílios pobres é gastar a maior parte de seu tempo em atividades doméstica “buscando comida e preparando-a”, enquanto que as elites conseguem retirar trabalho da esfera domiciliar transferindo-o para “fora do lar”, e deste modo podem se dedicar às atividades de marcação social. A forma como os sujeitos aqui investigados utilizam o tempo será retomada na discussão sobre lazer.
Tendo conhecido o tipo de ocupação dos indivíduos aqui investigados, o seu nível de renda, bem como suas posses em relação aos bens culturais, este estudo passa a analisar mais especificamente a questão da capacidade de poupança destes sujeitos, considerando que poupar não é uma função direta da relação de sobra entre “receitas” e “despesas” de um lar.
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Dona Moça: mulher com mais de 50 anos, que trabalha fora de casa, tem sete filhos e três netos, que moram em tempo parcial no mesmo domicílio.
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