VERGİYİ DOĞURAN OLAYIN GENEL ESASLARI
D. Verginin Kanuniliği İlkesinin Boyutları
4. İlkenin Kapsamı
Dentre as variantes dos gêneros do discurso que compõem o espaço biográfico estão as memórias, diários íntimos, diários de viagem, os talk shows e reality shows e a entrevista. Segundo Arfuch (2010) o novo viés midiático de espaço público transformou os gêneros auto/biográficos canônicos, que de uma certa forma esboçavam as formas modernas de enunciação do eu. Segundo a evolução das
formas midiatizadas e a tecnologia foi permitindo, a transmissão ao vivo possibilitou que as biografias de fórum intimo, privado, permanecessem disponíveis na mídia até a exaustão. Nessa linha, uma modalidade parece concentrar o biográfico de forma reconhecida nos diversos gêneros: a entrevista. A entrevista pode se transformar em uma biografia, auto/biografia, confissão, história de vida, testemunho...
Esse gênero do discurso que aparece constantemente na contemporaneidade parece estar sempre ancorado na vida das pessoas, personalidades, histórias de vida ilustres e comuns. Trata-se de um gênero menos fantasioso do que a biografia, pressupõe uma interação face a face que se ancora na palavra expressa, em um relacionamento quase sacro do retrato fiel expresso pelos participantes da interação. Essa ponte que não é teoricamente intransponível entre o privado e o público que se materializa pelo caminho inverso da autobiografia, por consideramos que a entrevista somente é dada por aquele que já alcançou determinado sucesso e não busca necessariamente a interioridade nem a unicidade do eu.
Sobre a entrevista Arfuch acrescenta que “ faz com que essa forma dialógica possa ser considerada, com pleno direito, a mais moderna dentro da constelação autobiográfica consagrada” (2010, p. 152).
Ela ainda acrescenta:
Como gênero biográfico, mesmo não sendo considerada entre os “canônicos”, que apresentam vidas diversamente exemplificadoras, por excelência ou defeito, a entrevista é também de educação, aspecto modélico por antonomásia. O “retrato” que a entrevista brinda irá, então, para além de si mesmo, dos detalhes admirativos e identificatórios, em direção a uma conclusão suscetível de ser apropriada em termos de aprendizagem. Falando da vida ou mostrando-se viver, o entrevistado, no jogo dialético com seu entrevistador, contribuirá sempre, mesmo sem se propor, para o “acervo” comum (2010, p.153).
Os gêneros biografia e autobiografia foram historicamente marcados pela curiosidade por grandes personalidades, sejam elas políticas, científicas, artístico- literárias, das artes plásticas ou arte dramática, músicos etc., contudo os efeitos de proximidade e o encontro da identidade com a identificação foram transformando essas personalidades em celebridades consagrando os mais diversos tipos de
figura. Trata-se da indústria do jornalismo e da produção industrial do desejo. A aparição dessas personalidades célebres implica uma dinamização do mercado modelizado pelo desejo identificatório e consumista em que as pessoas detentoras desse valor passam a ser consideradas como símbolos sendo, portanto, a celebridade personalidade fundamental para a cena midiática.
A entrevista tem como chave do seu sucesso a imediaticidade do sujeito em que mesmo a entrevista sendo realizada pela distância tendo a palavra gráfica como sua intermediaria a emoção de uma réplica reproduzida a partir da afetividade, a surpresa, a ira, um sorriso, o entusiasmo, justificam o imenso sucesso. “O acesso à vivência mesmo quando não se fala da vida” (2010,p.154).
Derrida acrescenta em relação a imediaticidade da entrevista que:
O gênero teatral da entrevista sucumbe, ao menos ficcionalmente, a essa sabedoria da presença imediata, ao vivo. Um jornal prefere sempre publicar uma entrevista com um autor fotografado, mais do que um artigo que assuma a responsabilidade da leitura, da avaliação, da pedagogia (DERRIDA e STIEGLER, 1996, p.13 apud ARFUCH, 2010, p. 155).
Essa proximidade que prevê a interação face a face entre entrevistador e entrevistado, que, segundo Arfuch (2010), prevê a partir desse diálogo, o imaginário de um terceiro diálogo entre o destinatário e o receptor, em que esse diálogo materializará a constituição da figura do herói ou da heroína no imaginário, entre as diversas opções de herói e heroína na contemporaneidade.
É importante as considerações de Arfuch a respeito da teoria bakhtiniana sobre gêneros do discurso, e ainda, sua observação sobre a entrevista:
Em sua teoria dos gêneros discursivos, Bakhtin acentuava a potencialidade transformadora dos mesmos na vida da sociedade, a influência de certos estilos – sobretudo os cotidianos, conversacionais – na mudança e na flexibilização dos costumes, léxicos, mentalidades; postulava ainda a existência de gêneros predominantes segundo a época, que fornecem um “tom” particular à comunicação discursiva. Sem pretensão totalizadora, poderíamos dizer que a entrevista, por sua constante expansão temática, estilística e de audiências, pela diversidade de usos e registros e pelo imaginário de imediaticidade e autenticidade que implica, é hoje um desses gêneros (p. 155).
E é precisamente tal ubiquidade, o fato de apresentar um leque inesgotável de identidades e posições de sujeito – e extensivamente, de vidas possíveis – e, mais ainda o fato de que essas vidas oferecidas à leitura no espaço público o sejam em função de seu sucesso, autoridade celebridade, virtude, o que torna a entrevista um terreno de constante afirmação do valor biográfico. Talvez dificilmente se expresse melhor do que nessa noção bakhtiniana a tendência – e a paixão – que leva consumir até o excesso vidas alheias no fast-food da instantaneidade midiática (2010, p. 155).
Para Arfuch, o uso da entrevista transcende a informação propriamente dita, faz parte do espaço biográfico e complementa um universo de protagonistas, de aspectos, de temas. Como parte desse universo está a figura do entrevistador e seus objetivos.
A imaginação, ao sustentar o diálogo com outro, funciona como um vislumbre da interioridade e que, portanto, não é suscetível de ser apreendida de outra forma. “Podemos não acreditar no que alguém diz, mas assistimos ao acontecimento de sua enunciação” (2010, p.156). Ou seja, quando alguém nos diz algo por meio da nossa imaginação, podemos pensar em um além do que a pessoa quer realmente dizer.
Arfuch questiona: “Mas como apreender a qualidade biográfica da entrevista na multiplicidade de suas ocorrências?” (2010, p.159).
A autora responde:
O investimento de sentidos em um gênero dado: a vida como um caminho, trajetória, peripécia, encruzilhada, destino – e seus correlatos, a “lição”, o modelo, a expectativa, “a prova”. A vida como viajem temporal e suas estações obrigatórias: a infância a juventude, a maturidade, a morte. A vida como “herança” familiar, geracional, histórica, que dificilmente escapa a tentação causal. A vida como desdobramento do personagem que se narra diante desse outro, o entrevistado – cujo olhar é determinante – ,colocado em jogo diversos “biografemas” – ou motivos esteriotípicos – no velho habito da conversa. Avatares da experiência, demonstrações, reflexões, conclusões: a vida como um saber sobre a vida. Desacertos, infortúnios, tropeços, desenganos, a vida como um padecer. Mas também – e quase propriamente – os acertos, sucessos, virtudes; a vida como cumprimento, como realização (2010, p. 159).
Para Arfuch não necessariamente importam a relevância da personagem tampouco o estilo da entrevista e do entrevistador “há percursos pré-fixados e
modos de andar bem conhecidos” (2010, p.159). Trata-se de não remeter a vida como imposição de ordem obrigatória para esse percurso, mas trata-se do gênero e sua combinação de vozes, sua postura conversacional, que definirá as formas de relato.
Arfuch se atém a Bakhtin e exemplifica:
Se nos atemos à distinção entre gêneros primários e secundários efetuada por Bakhtin, a entrevista é um gênero secundário, complexo, mas cuja dinâmica intersubjetiva, em diversos contextos, opera com certa semelhança em relação às formas cotidianas do diálogo, aos intercâmbios familiares, à conversa, ou seja, aos gêneros primários. Essa peculiar condição não é alheia à sua funcionalidade, tanto no plano da comunicação midiática quanto em outros contextos institucionais (entrevistas de seleção, de trabalho, psicológicas, sociológicas etc.). Mas, embora se trate de uma instância de competências compartilhadas pelos interlocutores, diferentemente do que acontece na conversa cotidiana, aqui a faculdade performativa da interrogação – com suas diferentes acentuações – será exercida prioritariamente por quem está habilitado para isso, o entrevistador. Essa não reversibilidade das posições enunciativas em termos do direito a perguntar, que supõe uma diferenciação normativa dessas posições, é talvez, junto com a estandardização temática e de procedimentos, o que torna a entrevista um gênero altamente ritualizado, embora seja construída sobre os valores da fluidez e da espontaneidade (2010, p. 160-161).
A pergunta, a interrogativa, é na entrevista midiática uma prerrogativa e constitui uma função de caráter social no meio, ou seja, na imprensa. O entrevistador é um sujeito que está autorizado pelo meio a perguntar, portanto, a vida da personagem, que é um traço importante para o gênero do discurso entrevista, é uma das questões de maior importância.
Arfuch comenta a heterogeneidade no gênero entrevista:
Consequentemente com essa heterogeneidade que Bakhtin definiu como constitutiva dos gêneros discursivos, a entrevista não só revelará as marcas da conversa, mas também a de outros gêneros secundários: o teatral, o romance, o dialogo socrático, o relatório científico, a arenga política e, evidentemente, todos os que se incluem, canonicamente, entre os autobiográficos, não somente como aposta especifica, o que constituiria um tipo particular, a entrevista biográfica ou intima, mas também como derivação ocasional, que poderá ter lugar em qualquer uma de suas atribuições (informativas, políticas, de divulgação cientifica, ou artística, de entretenimento etc.) (2010, p.162).
Entretanto, não se fazem a esmo as perguntas sobre a vida. Na entrevista, opera-se um desdobramento de seus inúmeros registros por intermédio de uma seleção hierarquizada daquele a quem se entrevista; as posições de autoridade, a função política, institucional, a vocação, aqueles que são de alguma forma figuras heroicas, seus arquétipos, a profissão etc. Trata-sede outorgar a essas figuras uma posição de legitimidade. Portanto, as perguntas são previamente pensadas a serem feitas a sujeitos que as mereçam por ter conquistado uma posição de destaque, seja por virtude, por merecimento profissional, seja por destaque na mídia,o que faz com que essas histórias se tornem imediata e irremediavelmente modelos, histórias modelizadoras.
As vicissitudes das narrativas da entrevista são evidentemente muito amplas e aparecem não apenas de forma clássica entre cientistas, artistas, escritores e intelectuais, mas também nos anedotários, repetições do senso comum e pela invasão entre o que é público e o que é privado, entre aquilo que se pode dizer e a intrusão. Não se trata da pureza ou impureza do gênero entrevista e seu espaço biográfico, mas daquilo que é realmente relevante, que é a dessemelhança dessas manifestações.