III. TARİH İÇERİSİNDE ARNAVUTLUK
III.1. Eski Çağlardan Osmanlı Dönemine Kadar Arnavutluk
Já no final do ano seguinte, a 19 de novembro de 1949, o jornal cearense “O mundo” publicou a notícia de que Domingos Fonseca queria fundar a Associação dos
Cantadores do Nordeste (ACN). Após retornar de viagem a São Paulo, Fonseca inaugurou a ACN, em 20 de setembro de 1951, na condição de presidente, com parceria de João Siqueira de Amorim, então 1º secretário. A primeira grande meta dos associados foi angariar fundos para a construção da Casa do Cantador, a qual deveria abrigar os repentistas que viessem se apresentar em Fortaleza, e para amparar os profissionais com dificuldades financeiras. “Desejo que na casa exista uma biblioteca de pesquisas folclóricas, uma escola de curso primário para os filhos dos cantadores e meninos pobres. Salão de diversões populares, um abrigo para cantadores e artistas populares sem recurso”, explicou Fonseca em entrevista ao jornalista Eurícledes Formiga (O Estado de São Paulo, 06 de novembro de 1955, In: Barreto, 1991, p. 56).
Horácio Custódio (entrevista gravada em Fortaleza, 2009), atual tesoureiro da Casa do Cantador, comenta sobre a iniciativa de Fonseca:
Foi engraçado, ele nascido e criado no interior do Piauí, radicou-se em Fortaleza, ficou morando aqui. Ele lamentava a situação dos cantadores que vinham do interior e tinham que voltar no mesmo dia porque não tinham onde se hospedar, e não tinham dinheiro pra pagar hotel. Ele jurou a ele mesmo e à categoria que ia trabalhar pra fazer uma casa de cantador em Fortaleza pra quando a categoria viesse do interior tivesse uma casa pra passar três dias, quatro dias ou uma semana.
Atendendo à solicitação da ACN, a Assembléia Legislativa do Ceará aprovou a doação de 100 mil cruzeiros e de um terreno localizado no bairro Carlito Pamplona, para a instalação da Casa. A obra estava orçada em 700 mil cruzeiros, isso forçou os seus idealizadores a buscarem outras fontes de renda. Primeiro a ACN investiu o dinheiro na compra de terrenos menores para obter dinheiro com o aluguel. Depois, Fonseca e Amorim viajaram a São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia no intuito de obter mais verbas para a Casa. Na capital paulista, encontraram o cantador alagoano Lourival Bandeira Lima, que também ajudou na campanha com o seu notável talento de improvisação. Cantando na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Lourival finalizou uma estrofe: Por intermédio da Rádio,/ Mando lembrança aos meus pais. Fonseca atendeu à deixa e respondeu (Linhares e Batista, 1982, p. 306):
Dos meus, não me lembro mais, Pois sou como um passarinho,
Que seus pais abandonaram, Ainda, implume, no ninho, E o primeiro vôo da vida, Quando deu, já foi sozinho!27
A empreitada com “missão tão nobre” foi divulgada em importantes veículos de mídia nas cidades onde cantaram. Muitos “sulistas” que não conheciam o repente ficaram impressionados com essa forma de arte poética. Não foram poucos os elogios e adjetivos apaixonados, ora destacando a habilidade dos cantadores, ora exaltando o caráter exemplar daquela atitude classista: “Domingos Fonseca é também um batalhador em favor de um lugar ao sol para os seus colegas de viola”, escreveu Mauritônio Vieira (A Última Hora, Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1955, In: Barreto, 1991, p. 51).
Ainda na terra de São Sebastião, Fonseca cantou com o Cego Aderaldo, que usava o acompanhamento da rabeca de Mário Aderaldo, seu filho de criação, nos estúdios da Rádio Ministério da Educação. Essa cantoria de viola e rabeca foi analisada em trabalho da Fundação Casa de Rui Barbosa (Coleção de textos da língua portuguesa moderna, Literatura popular em verso, estudos, tomo I). “Veremos inicialmente o canto alternado em sextilhas, que, na ocasião, o cego nos informou ser a métrica mais usada, substituindo as quadras, que caíram em desuso” (1973, p. 250). Fonseca e Aderaldo alternavam-se no canto, como no exemplo a seguir:
27 Barreto tem uma outra versão para essa história (1991, p. 31). “Estava Fonseca em sua cidade natal,
Miguel Alves, do Piauí, cantando com Palmeirinha, paraibano. Falando sobre antepassados, a respeito dos pais, Palmeirinha arrematou a sextilha:
- O que mais me acabrunha É a lembrança dos meus pais. Fonseca respondeu:
Dos meus nem me lembro mais, Eu fui como um passarinho: A morte roubou meus pais, Deixou-me implume no ninho, O primeiro vôo da vida, Quando dei já foi sozinho”.
Cego Aderaldo
Ó doce luz dos meus olhos Coração e a lembrança Tudo quanto eu percuro Eu vejo perseverança. Meu peito vive cansado, Porem não sente mudança.
Domingos Fonseca:
Eu desde muito criança, Que procurei me manter Vivendo da cantoria Para vestir e comer; Já que ser grande poeta Lutei, mas não pude ser.
Os relatores da Fundação observaram que a melodia da cantoria gravada estava “na escala mixolídia, apresentando certa homogeneidade na sua estrutura, ou melhor, o mesmo desenho repete-se para cada linha de verso, com pequenas diferenças, impostas pelos vocábulos, pela expressão emocional e ênfase de interpretação, na palavra proferida” (ibid, p.253). Depois os repentistas fizeram um desafio em quadrão, que é uma estrofe de oito versos, com seis sílabas poéticas, no esquema de rima: AAABBCCB. Essa modalidade termina sempre com a palavra “quadrão”, ou seja, as rimas “B” são sempre em “ão”. Um exemplo da dupla:
Domingos Fonseca:
Cheguei ao Rio de Janeiro Junto com meu companheiro, De fato ganhei dinheiro Mas já estou em precisão
D. Dulce nos convidou E nossa sorte melhorou, Cantando oitavo em quadrão.
Cego Aderaldo:
Vou preparar o quadrado E vou arrumar o esquadro, Para ver se faço quadro, Preparar a quadração.
Ver as quadras como são Depois do quadro bem feito Canto muito satisfeito
O quadrado, quadro, quadrão.
O quadrão tem um ritmo mais compassado: “Sentimos nele as rimas poéticas coincidirem com os tempos do compasso. (...) a regularidade da quadratura é rompida nas terminações das estrofes, onde o cantador faz um prolongamento, realça a terminação, dando-lhe toda força expressiva ou emocional” (idem). Na cantoria em mourãoou trocado, os estudiosos notaram que Fonseca, principalmente, tirava efeitos muito especiais da palavra ligada à música: “Na linha melódica de Domingos nota-se certo colorido, o que não ocorre na parte cantada do cego” (ibid, p. 257). Em dado instante da apresentação, Fonseca, percebendo um funcionário da Rádio espiar pela vidraça do estúdio, levou-o ao mourão:
Domingos Fonseca:
Chegou uma criatura Nos olhando da janela
Cego Aderaldo:
Para ver nossa cantiga Que nós canta pra donzela.
Domingos:
Quem será este cidadão, Que terminado este mourão Nós vamos cantar parcela.
No mourão, são sete versos setissílabos trocados, ou seja, o primeiro cantador abre a estrofe com duas linhas, depois o segundo continua para fechar a quadra, rimando necessariamente a ‘deixa’ do segundo verso com o quarto. A seguir, o primeiro volta a improvisar, encerrando com duas rimas paralelas, e uma terceira que liga com a última rima da quadra. O esquema é X: AB Y: CB X: DDB. A cantoria-aula teve o toque final de um martelo agalopado, difícil modalidade, considerada o “calvário dos repentistas inexperientes”. “A complexidade da estrofe, em décimas com versos decassílabos, cantada alternadamente e em improviso, se reflete na linha melódica. Sente-se todo o imperativo da acentuação prosódica sobre a linha da melódica” (ibid, p. 260). Foi pedido o tema “O poder da natureza”, que acaba sendo o refrão de fechamento para cada estrofe: assim, essa modalidade não precisa ‘pegar na deixa’, como demonstram os poetas:
Cego Aderaldo:
Meu amigo, eu estou preocupado Vamo agora nós dois cantá Um trabalho que eu quero citá Para ir num martelo agalopado, Segundo se vai anunciado. É uma obra bonita de grandeza É preciso fala pela nobreza, Convida aos seus, eu também vou, Como és o Domingo cantadô Veio cantá o poder da natureza.
Domingos Fonseca:
É melhor, num sentido diferente, Que cantar a natureza é bem custoso,
É preciso um poeta espirituoso E, aliás, um pouquinho inteligente. Porque só contemplar-se o sol poente, O seu raio tão rico de beleza,
E ao ar, pelo qual a chuva é presa, Pelo tempo da chuva, a terra diz Depois de mole a terra ainda assobia: É muito grande o poder da natureza.
Os cantadores retornaram ao Nordeste muito satisfeitos com a receptividade encontrada no Rio de Janeiro e em São Paulo. “Deste Sul amigo levamos as bases da nossa Casa do Ceará. Aliás, este Sul é tão nosso quanto o próprio Ceará”, disse Fonseca antes de fazer os versos de despedida a São Paulo (Tribuna da Imprensa, São Paulo, 12 de janeiro de 1956; In: Barreto, p. 62):
No dia dois de novembro Senti um prazer profundo, Quando cheguei na cidade, A que mais cresce no mundo. Terra de cimento e aço, Eis a verdade inconteste, Por isso é bem que eu diga: Terra boa, honesta e amiga Do pessoal do Nordeste.
Visitamos em São Paulo Casas residenciais, Cantamos para doutores, Vigários e generais: E como a hora é chegada Da saudosa retirada Dos cantores repentistas O Fonseca e o Bandeira, Terminam desta maneira: - Adeus queridos paulistas!
Na Terra de Alencar os poetas continuaram a peleja da arrecadação. Siqueira e Fonseca somaram ao montante parte da renda dos seus respectivos livros: “Ecos da juventude” (1949) e “Poemas e canções” (1956), e do jornal “A voz do cantador”, editado pela ACN. Barreto continuou a colaborar na divulgação do trabalho de Fonseca, muitas vezes mediando contatos para apresentações, e também com algum incentivo econômico. Certa vez o seu amigo de faculdade, Epitácio, comentou que não entendia como Barreto ficava tanto tempo com os cantadores, “um pessoal chato que não valia pra coisa nenhuma”, e este apostou com aquele que dez minutos de uma boa cantoria eram suficientes para que mudasse de opinião. “Veio a Semana Santa, na Sexta-Feira da Paixão fiz uma panelada e convidei todo mundo. O Epitácio estava lá, aí levei a dupla Domingos Fonseca e Siqueira de Amorim, que eram os melhores naquele tempo. Ele assistiu e achou ótimo... Vibrou com os improvisos”.
Alguns meses depois, Epitácio iria fazer sua festa de trinta anos no Náutico Atlético Cearense. Convidou muitos amigos, queria a famosa dupla de cantadores na programação, só que eles não estavam na cidade. “Ele desceu para a beira-mar, os primeiros que pegou afinando a viola carregou para o Náutico”, narra Barreto. Logo na primeira sextilha cantada o aniversariante decepcionou-se:
Doutor Epitácio Cruz, Que nas unhas tem esmalte. No futebol só Pelé
Fazendo os seus penálti Hoje fomos convidados Pra cantar aqui no Náuti
Aí o Epitácio desceu depressa: ‘Olha, começou, mas mais tarde vocês voltam porque o pessoal aí vai fazer um lanche’ e não sei o quê. Deu um dinheirinho pra cada um e já foram embora. Ele mesmo me contou depois: ‘Eu pensava que todo mundo era igual ao Fonseca e ao Siqueira’” (Barreto, entrevista 24/02/08).