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OLUŞTURULMASI ve TÜRKİYE’DE EKONOMİK ÖZGÜRLÜKLER

3.1. TÜRKİYE EKONOMİK ÖZGÜRLÜK ENDEKSİ

3.1.5. Ekonomik Özgürlük Endeksinin Değerlendirilmesi

A imagem que temos dos Muiscas do período Tardío corresponde em boa medida aos relatos feitos pelos primeiros colonizadores espanhóis e pelos “Cronistas da Conquista”. Seus comentários, passados pelo crivo da mentalidade de um povo que esteve oito séculos em guerra religiosa contra os grupos invasores muçulmanos na Península Ibérica, dificilmente refletem aquilo que os Muiscas pensavam de si próprios, sobretudo no que tem a ver com o plano cultural, espiritual e ideológico. No entanto, durante os séculos que se seguiram, este foi o único material disponível para desenvolver os estudos acadêmicos e literários sobre a história desse grupo. Os documentos sobre o período colonial, que repousavam nos arquivos, ainda não tinham sido redescobertos. No último século, o desenvolvimento da arqueologia como ciência e dos estudos etno-históricos, permitiram mudar esta situação, permitindo uma aproximação ao passado baseada na evidência material (e no estudo crítico desse material) acompanhada de uma análise heurística das fontes documentais. Considerando suas limitações, estas fontes podem ser de grande proveito quando usadas de forma adequada. Nem sempre o uso das informações etno- históricas tem sido bem sucedido e há arqueólogos que tem feito reiterados chamados de atenção de que algumas pesquisas arqueológicas se têm limitado a provar aquilo que diz a crônica ou a acomodar os dados do registro arqueológico segundo a informação etno-histórica (LANGEBAEK, 2000; LLERAS, 2000). Sem dúvida que a informação etno-histórica é proveitosa para ajudar a resolver as questões propostas pelos estudos arqueológicos, mas sua leitura nunca pode ser literal, sobretudo porque às vezes carece de coerência e homogeneidade (LANGEBAEK, 2000; LONDOÑO, 1988), por ser um corpo documental construído por diversos autores, que falam sobre os mesmos assuntos em momentos temporais diferentes, e porque na maior parte dos casos quem registra é um espanhol, para quem o universo intelectual dos indígenas é completamente alheio àquilo que até então tinha conhecido.

Isto levou a que as diversas fontes se contradigam em relação às informações dadas sobre os Muiscas. Os primeiros Cronistas os descrevem como uma confederação de pequenos cacicados com elites débeis ainda em processo de consolidação, onde alguns chefes tinham conseguido submeter outros cacicados mais débeis, ampliando seu domínio político. Entre eles estariam o Zipa de Bogotá, o Zaque de Tunja, Sogamoso, Duitama e Guatavita (GAMBOA, 2008). No entanto, no século XVII se consolidou uma outra visão dos Muiscas, sendo descritos

como um dos grupos mais desenvolvidos do Novo Mundo, com cacicados fortes com uma organização política e econômica complexa, entre os quais o Zipazgo de Bogotá, que abarcava metade do território Muisca e que estaria em guerra com o Zaque de Tunja pelo controle político de todo o território (CASTELLANOS, 1600; PIEDRAHITA, 1688) (Vide fig. 8).

Fig. 8. Planalto “Cundiboyacense”, território Muisca (em vermelho), território do Zipa de Bogotá (em amarelo), e grupos vizinhos. Adaptado de RODRÍGUEZ CUENCA, 2011.

Porém, uma análise cuidadosa pode contribuir muito para a compreensão das sociedades pré-colombianas como tem mostrado nos últimos anos o rigoroso trabalho de Jorge Gamboa (2008). Este pesquisador tem proposto uma explicação bastante coerente que resolve várias das

questões sobre a forma de organização social e política dos Muiscas. A análise da documentação colonial levou-o a concluir que os Muiscas tinham diferentes níveis de organização sócio- política. A unidade menor, depois da unidade doméstica, era a Uta, integrada por pessoas unidas por laços de consanguinidade. Dois ou mais Utas integravam uma Sybyn, chamada no período colonial Capitania. E cada capitania podia, por sua vez, pertencer a outras Capitanias Maiores, e estas por sua vez se reunir numa Confederação de Capitanias, como foi o caso de Bogotá ou Sogamoso.

Só que entre os Muiscas não houve um sistema rígido e escalonado da organização em que as Utas se integravam em Sybyn, e estas em Capitanias, e estas em uma Confederação. Pelo contrário, as fronteiras entre estas unidades eram difusas. Uma Uta podia ser independente, ou depender diretamente de uma capitania, por sua vez um capitán podia controlar várias Sybyn e Utas, mas podia ao mesmo tempo estar subordinado a um outro capitán36. Além disso, como a autoridade do chefe estava baseada no prestigio (BRUMFIEL, 1994), se uma Sybyn se desentendia com o seu capitán poderia migrar para outra capitania ou confederação (GAMBOA, 2008). Em síntese, teríamos uma organização sócio-politica bastante elástica e móvel, próxima do conceito de heterarquia de Crumley (2007), onde as redes de dependência atravessavam diferentes níveis (passando, por exemplo, da Uta diretamente para a Confederação) e estavam sujeitas a constantes mudanças. Uma explicação bastante consistente que deriva da exegese da documentação colonial.

Por outro lado, a pesquisa arqueológica tem sido fundamental para compreender melhor a forma de ocupação do espaço por parte destas unidades sociais. As fontes documentais têm-se revelado contraditórias nesta matéria, sendo que umas referem que o padrão de povoamento era nucleado, com habitações à volta da casa do Cacique, outras falam de um povoamento disperso e desagregado, e outras ainda de uma mistura de pequenas concentrações de habitações junto com casas dispersas, sendo muitas destas últimas ocupadas de forma temporária pelos mesmos moradores das aglomerações nucleadas. Qual a verdade em tudo isto?

Pesquisadores como Boada (2006), Romano (2003 b), Langebaek (2000) e Kruschek (2003) tem procurado no registro regional sistemático uma fórmula para começar a entender não só o padrão de povoamento dos Herrera e Muiscas, mas também o fenômeno da organização

36Esta forma de compreender a organização social Muisca é um bom exemplo do conceito de Heterarquía definido

social e da mudança social entre os grupos do planalto andino (LANGEBAEK, 2000). Suas pesquisas têm evidenciado que de fato houve uma forma de organização do espaço mista, que já se vislumbra durante o Muisca Temprano, como referido atrás, mas que se consolida durante o Muisca Tardio: a existência de aldeias nucleadas e assentamentos dispersos.

Para esta fase final o material cultural, fundamentalmente cerâmica, continuou a aumentar drasticamente, mostrando que a tendência para a densificação e o aumento populacional se manteve (BOADA, 2000b; 2006; KRUSCHEK, 2003). Os tipos cerâmicos que caracterizam esta fase são os Guatavita Desgrasante Gris (GDG), Guatavita Desgrasante Tiestos (GDT) e o Laminar Duro (LD). O GDG é predominantemente de cor laranja ou amarelo em sua parte exterior e cinza em sua parte interna. A superfície é lisa e polida e poucas vezes tem engobe. A pasta é compacta e laminar. Sua decoração é incisa ou com desenhos em cor vermelha e branca de animais estilizados ou figuras geométricas (ROMANO, 2003b).

Fig. 9. Cerâmica do período Muisca Tardío. Sitio Las Delicias. Fonte: ENCISO, 1989

O GDT é mais abundante no norte da Sabana, mas também se encontra em pequenas quantidades no sul da Sabana. Esta cerâmica normalmente tem um lustre ou uma cor cinza na superfície. Pasta compacta, muitas vezes laminar e, normalmente, tem desengordurante de cacos esmigalhados. Desenhos em vermelho e branco são comuns. No LD, a pasta varia de creme ou cinza claro para o marrom, compacta e laminar (KRUSCHEK, 2003, p. 36). A variedade de formas aumenta sendo características as cerâmicas em forma de copa e a cerâmica mocasín (chamada assim por ter a forma de um sapato).

Esquerda: Fig. 10a. Cerâmica Muisca Acima: Fig. 10b. Cerâmica Muisca Fonte: Museum für Völkerkunde, 1994.

Na área prospectada por Boada (Cota, Suba, Chia) foi evidenciado um forte aumento do espaço ocupado: do Muisca Temprano para o Muisca Tardío este aumento é de 129,4%, mas a tendência é para continuidade nos mesmos locais do Muisca Temprano, expandindo-se apenas seu raio de ação (BOADA, 2006). As aldeias nucleadas aumentaram seu tamanho e muitas delas fizeram parte dos Cercados37dos caciques locais, atraindo uma população dispersa à sua volta.

A tendência para a concentração no centro da Sabana, já visível no Muisca Temprano, se consolida, fundamentalmente, nos terraços aluviais perto do Rio Bogotá e de seus afluentes, ficando entre 3 m e 8 m acima do nível da planície. No entanto, também vão aumentar os assentamentos no sopé das colinas que rodeiam a Sabana e na própria várzea do rio Bogotá, padrão que não teria sido possível sem a antropização da paisagem através da construção de um sistema de controle da água. Outro elemento que evidencia a transformação do meio natural é a construção de terraços artificiais para instalação de moradas como no caso de Facatativá, Tocancipá (HAURY; CUBILLOS, 1953) e Suba (O’NEIL, 1972).

37O Cercado foi a residência dos caciques. Era uma agrupação de casas fortificadas com uma, duas ou até três linhas

de defesa feitas com paliçadas. No seu interior morava o cacique com sua família extensa e pessoal administrativo. As casas no interior eram tanto de moradia como armazéns. Sabemos da existência destes Cercados pelas descrições feitas pelos primeiros colonizadores, mas também pela ourivesaria Muisca, dado que em algumas ocasiões se tem encontrado representações de pessoas ao interior destes cercados (Vide Figs 11 e 12) e por uma planta de habitação identificada em Tunja (Boyacá), onde se aprecia dois círculos concêntricos: o menor sendo a moradia e o circulo que o envolve sendo a paliçada do Cercado.

O material cultural mostra que em Chia a tendência é para a nucleação, em Suba, Cota e Funza nota-se o padrão misto de aldeias nucleadas e assentamentos dispersos (BERNAL, 1990; BOADA, 2000 b; 2006; O’NEIL, 1972; ROMANO, 2003 b), enquanto que em Tibaitatá parece que o povoamento foi disperso (BERNAL, 1990; BOADA, 2006; KRUSCHEK, 2003).

Fig. 11. Representação de um Cacique no interior de seu cercado. Figura votiva. Área Muisca. Fonte: Museum für Völkerkunde, 1994.

Ao sul da Sabana, nas duas margens do Rio Tunjuelito o povoamento, antes escasso, aumenta significativamente durante esta última fase, com presença de aldeias de média dimensão segundo o que se pode inferir dos trabalhos arqueológicos. Nesta região têm predominado as escavações em área, muitas vezes associadas a trabalhos de salvamento, tendo-se obtido dados específicos sobre padrões funerários e de habitação que permitem conhecer melhor o quotidiano dos Muiscas. Uma das primeiras escavações sistemáticas na área foi feita por Eliecer Silva Celis em 1943, tendo sido encontrado em um terraço natural na Vereda Panamá, Município de Soacha, quatro níveis de ocupação pertencentes ao Muisca Tardio, segundo a tipologia cerâmica identificada. Cada nível tem enterramentos que variam desde os 17 túmulos até os 29 túmulos,

sendo possível identificar nos três níveis inferiores 23 plantas de habitação no total, junto com lixeiras. Infelizmente todo o material cartográfico, fotográfico e de analises químicos se perdeu, pelo que não sabemos a que camadas as habitações correspondiam, nem qual sua distribuição em relação aos túmulos e as lixeiras. Também não temos informações sobre o tamanho da área escavada. Só podemos constatar que houve aqui uma ocupação permanente e estável, provavelmente de uma aldeia nucleada de oito casas em média para cada camada (ENCISO; THERRIEN, 1996 a, p. 154-155).

Fig. 12 Reconstrução hipotética de um Cercado Muisca. Museu de Sogamoso. Fonte: CASTELLANOS, 1997.

Mais para oeste, na mesma Vereda Panamá, Botiva (1988) fez trabalhos de salvamento no sitio Porta Alegre, localizado na planície aluvial do Rio Tunjuelito. Ali, em uma área de 1.2000 m², se identificaram 130 túmulos associados a sete plantas de habitação e múltiplos buracos de poste que parecem indicar múltiplos momentos de reconstrução das habitações. O sitio, datado de

1035 DC e 1230 DC, possui uma organização espacial similar àquela identificada por Romano, de unidades residenciais de três casas com uma media de 5,8 m de diâmetro, em linha reta ou em triangulo e mais uma casa aparentemente isolada.

Perto dali, em terrenos da antiga fazenda Terreros, sitio Tibanica, se descobriu uma das maiores necrópoles Muiscas, com 600 túmulos registrados em uma área de três hectares38. No setor central se identificou um assentamento nucleado de 13 plantas circulares de habitação e mais outras quatro dispersas na área, com diâmetros que variam desde os 2, 62 m até aos 5,7 m (LANGEBAEK, 2011, p. 182-189). Segundo a análise em ossos humanos, a antiguidade do sitio estaria em 1000 a 1200 DC (ARISTIZABAL, 2010). A tipologia cerâmica, típica do Muisca Tardio, também confirma estes dados.

É importante assinalar que um pouco mais para oeste se encontraram também vestígios arqueológicos do Muisca Temprano e Tardío, incluído 98 túmulos (Sitio San Mateo) e abundante material cultural. A descoberta foi produto de escavações de salvamento, mas quando os pesquisadores chegaram ao local, a camada superficial já tinha sido destruída por maquinaria pesada, pelo qual foi impossível identificar locais de habitação (BONILLA, 2005; 2008), mas tendo em conta o número de túmulos, e que os enterramentos costumam estar associados às moradias, ficando muitos deles no interior da casa, é bem provável que existisse aqui uma aldeia nucleada.

Deixando o município de Soacha e entrando na cidade de Bogotá, seguindo ao longo do vale do rio Tunjuelito, em direção oeste-leste, encontramos mais dois sítios, ambos descobertos no decorrer de obras urbanísticas e portanto parcialmente afetados pela maquinaria. O sitio, chamado Candelaria La Nueva, localiza-se na margem sul do rio Tunjuelito, em um terraço natural entre a várzea do rio e as montanhas que rodeiam a cidade. Numa área de 4.000 m², foram identificadas seis plantas de habitação associadas a 50 túmulos, muitos deles dentro do perímetro das casas. Não foi possível determinar o tamanho do assentamento por se tratar de um resgate arqueológico limitado à faixa onde se estava construindo uma estrada, mas é claro que seu tamanho devia ser maior e que deveram existir mais locais de habitação do que se conseguiu registrar.

38O sitio arqueológico provavelmente seria maior já que foi identificado no contexto de escavações de salvamento,

Pela distribuição das casas parece que estamos perante um padrão de aldeia nucleada, mas sem se observar unidades domésticas de três casas como proposto por Romano, mas sim unidades domésticas de casas individuais. O diâmetro das casas mantém a media característica para a Sabana, mas chama a atenção a existência de uma habitação maior, com 9,5 m de diâmetro e que se encontra afastada dos túmulos e de outros traços arqueológicos (depósitos subterrâneos). Trata-se provavelmente de um espaço de reunião comunitária, como ainda usado pelos grupos indígenas, mas não se encontrou aqui material cultural em particular que permitisse afirmar isto. Duas datações (túmulo 28 e túmulo 40) colocam o sitio entre 1175 DC e 1250 DC (MORENO; CIFUENTES, 1987).

Mais para leste, na margem norte do rio Tunjuelito, sobre um terraço natural, encontra-se outro sitio, chamado Tunjuelito. O sitio arqueológico já tinha sido parcialmente alterado pela maquinaria sendo impossível identificar locais de habitação. No entanto, se registraram vários túmulos dispersos (a pesquisadora não precisa o número) e uma lixeira com abundante material cultural. Segundo os tipos cerâmicos achados se trataria de um sitio do Muisca Temprano e Tardío (BROADBENT, 1961).

Em síntese, esses fragmentos da vida dos Muiscas do período Tardío, que o estudo arqueológico permite-nos conhecer, mostra que houve uma continuidade na forma como foi ocupado o espaço, mantendo-se instalados em abrigos, terraços a céu aberto e no sopé das colinas, em assentamentos de pequena e média dimensão ou em outros dispersos e isolados (ROMANO, 2003 b). A paisagem da Sabana é, portanto, uma síntese das múltiplas formas de organizar a espacialidade ao longo do tempo.

Isto não quer dizer que estejamos falando de uma situação sem solução de continuidade, pois de fato muitos locais foram abandonados. Aquilo que queremos chamar a atenção é nas recorrências, nos locais persistentes como definido por Schlanger: “a place that is used repeatedly during the long-term ocuppation of a region” (1992, p. 92), aonde os grupos humanos da Sabana de Bogotá voltam sempre, mesmo que tivessem passados séculos ou milênios. Este fenômeno de persistência já era perceptível na fase inicial do período agrícola, mas acentuou-se posteriormente com os Muiscas. Eles mantiveram praticamente os mesmos núcleos de população dos Herrera, densificando-os, expandindo-os e dispersando-se à volta deles. Talvez a única exceção seja o extremo sul da Sabana onde até agora só se encontraram vestígios a partir de 770 DC (Sitio Las

Delicias), mas este fato pode ser entendido dentro do processo de ampliação do território ocupado.

Todos estes sítios exprimem a ideia de estarmos perante um grupo muito homogêneo, com o mesmo tipo de casas, de planta circular, com 5 m de diâmetro em média e com um material cultural similar (cerâmica de uso cotidiano, ferramentas para o processamento de alimentos como pilões e instrumentos para a tecelagem). Os túmulos, em geral, têm forma retangular, às vezes com lajes em pedra, e em menor quantidade se encontram poços circulares (no caso do sitio Tibanica por exemplo se encontraram 553 túmulos retangulares e 48 de poço circular) (LANGEBAEK, 2011, p. 145-147). A partir da disposição dos corpos, de sua orientação geográfica ou de seu espólio funerário não é possível deduzir elementos indicativos de diferenciação social: a forma como o corpo era depositado no túmulo é muito heterogêneo e não revela qualquer padrão por sexo, idade ou de pertença a um grupo social específico.

O espólio, por seu lado, é muito simples quando está presente. Como exemplo, aponte-se o caso de Tibanica onde apenas 22% dos túmulos tinham espólio funerário, a maioria com um ou dois objetos (Ibidem, p. 155). O caso de Candelaria La Nueva é similar, possuindo poucos enterramentos com espólio funerário e quando este ocorre consiste apenas em um ou dois objetos (BOADA, 2000a, p. 38) Predominam os potes cerâmicos seguidos de contas de colar, instrumentos para a tecelagem, ferramentas de uso quotidiano, ossos de animais e algumas figurinhas em ouro ou tumbaga39. Por vezes, também se encontram objetos de fora da Sabana como conchas de caracol marinho (BOADA, 2000a; BROADBENT, 1961; LANGEBAEK, 2011).

Os trabalhos de prospecção também revelaram a escassez de cerâmica ou de artefatos que indiciem um maior investimento de energia na sua produção ou obtenção (objetos exóticos) destinados a uma elite diferenciada (BOADA, 2000 b; KRUSCHEK, 2003). Todos estes elementos falam-nos, portanto, de uma sociedade com pouca diferenciação social, pelo menos no que diz respeito à ostentação material, onde a acumulação de riqueza ou a posse de elementos exóticos é mínima e, portanto, o poder político das elites não reside no poder econômico. O controle da população por parte dos Caciques devia residir em aspectos menos tangíveis no registro arqueológico como o prestigio social (CLARK; BLAKE, 1994), derivado de seus atributos pessoais e de sua capacidade para gerir os assuntos da comunidade, afirmados

constantemente através de eventos sociais como as festas ou os rituais religiosos (KRUSCHEK, 2003).

Embora o espólio encontrado em todos os sítios da Sabana seja similar, na região do vale do rio Tunjuelito há uma maior quantidade de artefatos associados às atividades de tecelagem do que no resto da planície. Em quase todos os sítios escavados se tem encontrado volantes para fuso, agulhas e lançadeiras, como nos sitios Tibanica (LANGEBAEK, 2011); San Mateo (BONILLA, 2005); Terreros (BONILLA, 2008); Porta Alegre (BOTIVA, 1988); Panamá (REICHEL-DOLMATOFF 1943), Sibaté (REYES, 1949); Candelaria La Nueva (MORENO; CIFUENTES, 1987) e Tunjuelito (BROADBENT, 1961). Os sítios Las Delicias e Panamá se destacam pela grande quantidade de volantes de fuso, com 57 completos e 18 fragmentos para o primeiro, e com 93 volantes no segundo caso para além de múltiplos fragmentos. Nos outros sítios, a abundância diminui, mas mesmo assim encontra-se uma média de 15 artefatos relacionados com a atividade de tecelagem em cada um deles. Em contrapartida, nos sítios do centro e norte da Sabana, a quantidade de volantes de fuso e agulhas cai para três em média.

É claro que os Muiscas da região sul se especializaram na atividade da tecelagem, destinada à elaboração de telas de algodão (chamadas comumente mantas), indispensáveis para prover os moradores do planalto andino de vestes adequadas para o frio. Esta afirmação também se apoia em outro elemento, nomeadamente, o fato do sul da Sabana possuir um clima seco com solos pouco adequados para a agricultura (RODRIGUEZ GALLO, 2011) pelo que seria expectável que os grupos que aí se instalaram não tivessem a agricultura como sua atividade principal. De fato, o sistema hidráulico de campos elevados de cultivo não se estendeu pelo setor médio e alto do vale do rio Tunjuelito (Ibidem, p. 93-99). A isto se deve adicionar um aspecto central no padrão de povoamento desta área: segundo as evidências arqueológicas predomina a organização do espaço em aldeias nucleadas. Se a agricultura não é a atividade central, provavelmente não deveu existir muito estímulo para a dispersão dos assentamentos. O padrão disperso predomina nas regiões agrícolas já que em este caso, as pessoas procuram se estabelecer