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A obra de Nietzsche comporta uma variegada expressão das investigações filosóficas, dentre elas podemos salientar aquelas relativas à Arte, ao Conhecimento, à Ilusão e à Verdade. Escrita em grande parte sob a forma ligeira do aforismo, que lhe permitiu, porém, expressar com profundidade e originalidade suas reflexões, tem seu contraponto estilístico em O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. Apresentada sob a forma de um texto contínuo e com estilo peculiar, nela, malgrado nos encontrarmos no romper do dia de sua obra, já podemos vislumbrar questões decisivas para o contexto do seu pensamento. Período fértil, alguns ensaios dessa mesma época de juventude, apresentam já a mesma criatividade filosófica dos períodos posteriores. Falamos do texto Introdução Teorética Sobre a Verdade e a Mentira no Sentido Extra-Moral, onde encontramos elementos basilares à sua crítica da linguagem, e onde são apontadas questões que serão retomadas em outros momentos do seu pensamento.

Partindo desse mosaico, onde a Arte surge como uma das figuras de destaque, é que voltamos nossa pesquisa. Abordando a Arte a partir de duas perspectivas distintas – primeiro, sua expressão na tragédia ática e depois em sua manifestação na Linguagem -, procuramos traçar os elementos peculiares àqueles momentos que Nietzsche chamou de relações estéticas. Em sua obra de estréia, ele revelou aquela intenção que, crucial aos pensadores do século XVIII, em particular os da Escola Romântica, buscava resgatar o espírito luminoso e artístico do grego da época arcaica. Entendendo que sua época atravessava um período décadent, certamente influenciado pela guerra franco- prussiana onde, entre os estrondos, o livro surgia,211 sua tentativa de renovação da

211 Relata o próprio Nietzsche: “Enquanto o troar da batalha de Wörth se espalhava por sobre a Europa,

cultura alemã, procurou resgatar os valores artísticos peculiares àquele momento da arte grega, e que ele pensou ser possível através da música de Richard Wagner. Elaborando suas teses sobre a Música a partir da concepção estético-musical de Schopenhauer, Nietzsche a associou ao impulso dionisíaco, tornando-a então o autêntico medium de expressão do ser originário, a linguagem metafísica por excelência. É então a partir dessa proposta de uma linguagem universal, que a melodia da canção popular é entendida como espelho musical do mundo.

De si mesma, a melodia dá à luz a poesia e volta a fazê-lo sempre de novo; é isso, e nada mais, que a forma estrófica212 da canção popular nos quer dizer: fenômeno que sempre considerei com assombro, até que finalmente achei esta explicação. Quem examinar à luz de tal teoria uma coletânea de canções populares, Des Knaben Wunderhorn (A corneta mágica do menino), por exemplo, descobrirá incontáveis exemplos de como a melodia incessantemente geradora lança à sua volta centelhas de imagens, as quais, em sua policromia, em sua abrupta mudança, em sua turbulenta precipitação, revelam uma força selvagemente estranha à aparência épica e ao seu tranqüilo fluir.213

A Música passa assim a ocupar, definitivamente, lugar de destaque na Estética e na obra de Nietzsche ao assumir a finalidade de grande afirmadora da existência. Fonte de onde brotam sentimentos lírico-poéticos, a Música, que está associada ao estado estético da embriaguez, é a grande estimuladora do estado estético apolíneo, estado do sonho gerador de imagens. A Música é pensada então como núcleo da Tragédia Grega que, por meio do coro dionisíaco, incita o mundo de imagens apolíneo a se exercer. A

um recanto dos Alpes, muito entretido em cismas e enigmas e, por conseqüência, muito preocupado e despreocupado ao mesmo tempo, anotando os seus pensamentos sobre os gregos (...)”. Tentativa de Autocrítica, § 1.

212 O tradutor da obra, Jacó Guinsburg, em nota, comenta esta passagem: “Cabe reportar-se à raiz grega

da palavra strofé, que quer dizer ‘volta’, ‘virada’ cênica da evolução do coro, para entender-se a interpretação proposta”.

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Arte, que tem sua grandiosa expressão por meio da Música nesse primeiro momento, para além do lúdico ou do prazer que possa suscitar, revela-se também como uma espécie de bálsamo para o herói trágico. Expressa através do coro trágico, ao reconfortar o herói em sua queda – queda motivada pela sabedoria trágica da existência –, a Música por meio desse mesmo coro, encoraja-o a viver.

É nesse coro que se reconforta o heleno com o seu profundo sentido das coisas, tão singularmente apto ao mais terno e ao mais pesado sofrimento, ele que mirou com olhar cortante bem no meio da terrível ação destrutiva da assim chamada história universal, assim como da crueldade da natureza, e que corre o perigo de ansiar por uma negação budista do querer. Ele é salvo pela arte, e através da arte salva-se nele –- a vida.214

A Música, fonte pródiga de imagens que envolvia o teatro ático numa espécie de encantamento, e que incitava Arquíloco a poetar, motivou também a filosofia de Nietzsche. Mas não qualquer música, e sim aquela música que diz sim à vida, que o tornava “melhor filósofo”, que, incorporando-se como uma vestimenta, o acompanhou sempre. “De que sofro, quando sofro do destino da música? Do fato de que a Música foi despojada de seu caráter afirmativo, transfigurador do mundo, de que é Música de décadence e não mais a flauta de Dionísio...”.215

Assim, nesse primeiro instante, a Arte, através da Música, se instaura como singular estimulante para a vida.

A questão da música nos traz algumas dificuldades, que, apontadas por muitos de seus comentadores, já haviam sido percebidas pelo próprio Nietzsche. O conflito é:

214 NT § 7, 55 215

se da cultura grega arcaica restou-nos somente os libretos – “Eu afirmo, com efeito, que o Ésquilo e o Sófocles que conhecemos nos são conhecidos unicamente como poetas do texto, como libretistas, ou seja, que precisamente nos são desconhecidos” 216 – cabe a questão: como compreender, então, essa importância da Música para o grego antigo?

Por outro lado é possível apontar também inovações e intuições originais, peculiares ao seu pensamento e relevantes para a Estética. A duplicidade e contraposição das forças artísticas, aqui pensadas a partir da imagem das divindades olímpicas Apolo e Dionísio, e que regem a criação artística do grego arcaico, surgem como uma dessas inovações. Ou ainda a tese da superação do pessimismo que, alcançada pelos gregos através da arte, também demarcam essa originalidade. Ou como Nietzsche aponta: Sócrates reconhecido pela primeira vez como instrumento da dissolução grega, defensor da racionalidade contra o instinto, típico décadent.217

As influências dessa “racionalidade” surgida com Sócrates, que terminaram por influenciar as peças trágicas de Eurípides, orientaram-nos a partir desse segundo momento. Nietzsche sugere que, ao introduzir essa racionalidade em suas peças trágicas, Eurípides rompe com o envoltório mítico, tão caro ao entendimento dessa manifestação da Arte. O tragediógrafo, ao relegar à Música um papel secundário, afasta também aquele efeito embriagador-criativo provocado por ela. Eurípides iniciando novos preceitos em suas peças, forma um outro público para suas apresentações, o público do homem sóbrio, do homem teórico representado aqui pela figura de Sócrates.

Antes a Arte tinha aquele aspecto pródigo em criar imagens e expressar a natureza por via simbólica; agora a Arte participa daquele surgimento e fixação da linguagem, isto por meio da metáfora, porém de modo menos fecundo em relação ao

216 DM 217

caráter generoso da Música. A linguagem conceitual é então associada imediatamente àquele tipo que Nietzsche chamou de homem teórico, o homem da ciência. Através da Linguagem, que se firma a partir do abandono e do esquecimento daquele princípio artístico, o homem teórico encontra o meio adequado para estabelecer a diferença entre Verdade e Mentira, o Conhecimento e o Erro. Se antes o conhecimento tinha o caráter de promover a vida e, orientado pela Arte instaurava aquela sabedoria trágica tão essencial ao grego e à sua valorização da vida, agora o conhecimento traz em seu âmago o caráter instrumental, que, na figura do homem teórico com seu otimismo fundado na dialética, elege a Verdade como finalidade última a ser alcançada.

Ao apontar, desde as peças trágicas euripidianas, a decadência do elemento artístico como imprescindível à vida, Nietzsche percebe na formação da Linguagem a volta desse mesmo elemento, porém, pensado agora enquanto utensílio às suas exigências práticas. O Conhecimento assim instituído, revela aquela necessidade básica ao viver gregário do homem, e o liame entre eles será amplamente pautado pela linguagem. Necessária ao homem e às suas questões práticas, a linguagem assemelha-se àquela carência do sonhador que toma o estado onírico como essencial à sua vida – “É um sonho! Quero continuar a sonhá-lo!”218

Surgem dois pontos em contraste entre os textos. Um revela a dissolução da consciência, que resulta naquele contato com a natureza mesma; no outro, a formação dessa consciência consolida-se a partir da linguagem. Nesse estado de perda da consciência, a Arte servirá como prodigiosa provedora para uma tal condição. Nele o homem está imerso numa coletividade no coro trágico. Marcadamente artístico, nesse momento o homem tem o ganho de uma aproximação com o mais íntimo da natureza, nesse caso uma aproximação consigo mesmo. Noutro, o alcance da consciência se dá no coletivo, e a Linguagem é o meio onde essa conquista ocorrerá. Esse estado será

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norteado pelos princípios de necessidade e utilidade. Aqui o afastamento da natureza e do mais íntimo de si aproxima-se daquele principium individuationis, marca do apolíneo.

Ao encetar sua crítica à Linguagem, o filósofo aponta para a incapacidade desse utensílio em ser o meio de cristalização da Verdade. Por meio da Linguagem, fica impossibilitada a expressão dos pensamentos e mesmo da Verdade.

Mas, se a Linguagem é um meio impróprio para apreensão de pensamentos, o que estamos lendo no contato com os textos de Nietzsche? Talvez a solução de tal problema esteja em seu próprio texto que, ao valorizar a metáfora, supera as limitações da escrita. A metáfora surge então como o grande exercício artístico do filósofo, que indica, por um lado, a impossibilidade de um contato da palavra com o pensamento, mas, por outro lado, aponta para a generosa capacidade do intelecto humano em redefinir conceitos.

A aproximação dessas reflexões sobre a Arte, através das culturas trágica e moderna, nos revelam perspectivas diferenciadas de contato e de apropriação do fazer artístico. A cultura Ática, orientada pela Música, elemento artístico unificador e restaurador, encontra na Arte o leitmotiv para viver, atividade que expressa uma postura afirmativa e artística diante da vida. Por outro a cultura moderna, herdeira do socratismo estético, relega à Arte o aspecto de indigente reflexo da aparência, impossibilitando assim o renascimento do espírito trágico entre eles.

Devido ao contraste marcante entre as culturas, ática e moderna, relativas ao contato com a arte, Nietzsche parece encontrar um obstáculo ao seu desejo de fazer renascer aquele modelo de pensamento e aquela atividade, próprios da arte trágica. Não obstante, nesse primeiro momento, a Arte instaura-se como elemento notável e

principal motivador de seu exercício filosófico, e marcará definitivamente sua obra posterior.