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C Devlet Arşivleri Genel Müdürlüğü tarafından 1995’te yayımlanan Çevre

4 BUGÜNE KADAR HAZIRLANAN TÜRKİYE ÇEVRE KAYNAKÇALARI (BİBLİYOGRAFYALARI) VE TÜRKİYE

T. C Devlet Arşivleri Genel Müdürlüğü tarafından 1995’te yayımlanan Çevre

A alegoria, antes recuperada Origem do drama barroco alemão, agora aparece em sua forma de produção (considerando que a alegoria é, de um lado, um procedimento construtivo, isto é, uma técnica metafórica empregada na construção estética e, de outro, uma forma de interpretação das coisas)134 numa obra que, embora seja um exercício criativo, guarda um marcante teor crítico. Ela pode ser vista tanto nos fragmentos que compõem o

“livro de anotações”, isto é, no “pensamento microscópico” presente nos detalhes, quanto em

relação ao conteúdo que constitui a obra.

132 SCHOLEM. Walter Benjamin: the story of a friendship, p. 66. 133

ADORNO. Benjamins Einbahnstraße, p. 681.

134 Cf. HANSEN. Alegoria construção e interpretação da metáfora. Verificar, em especial, o primeiro capítulo

Lukács, dentre outros, não hesita em dizer que Benjamin resgata a alegoria do esquecimento no estudo sobre o drama barroco como um pretexto para entregar-se a uma investigação crítica mais estreita com relação à arte a ele contemporânea, já que ela é um importante elemento da literatura de grandes nomes das vanguardas, como em dois dos autores favoritos de Benjamin: Proust e Kafka. Aparentemente, a recuperação da alegoria no campo da estética justificou-se, não apenas por esses interesses de crítica literária. Se interpretada como alegoria, Rua de mão única revela outro motivo para o resgate da alegoria: para constituir um importante elemento da dessa obra benjaminiana. A alegoria em sua própria escrita torna-se, assim, um procedimento de crítica de cultura.

Na esteira do moderno apresentado pelas vanguardas e sem perder de vista as novidades da virada do século XIX para o XX, sobretudo, a fotografia e o cinema, Rua de

mão única, com sua estrutura fragmentada, com suas frequentes interrupções e com a

apresentação de imagens dialéticas chama a atenção para o efeito da obra de arte como choque, capaz de retratar o cotidiano. Os fragmentos de Rua de mão única, escreve Adorno:

[...] não objetivam tanto oferecer um conteúdo a pensamentos conceituais, quanto através de sua forma enigmática buscam chocar e com isso apresentar o pensamento em movimento, porque o conteúdo conceitual em sua forma conceitual tradicional paralisa, parece convencional e antiquado.135

As peças que formam essa rua configuram, portanto, uma apresentação do

“pensamento em movimento”. O movimento segue entre pausas e ritmos, semelhante à

estrutura de uma música em que as frases, isto é, os trechos da composição, são relativamente autônomos. Surpreendentemente, nem sempre, continuando a comparação, os elementos que constituem a música, ou seja, a melodia, o ritmo, a harmonia, trabalham juntos. Dessa maneira, a “forma enigmática” produz o choque.

O choque, como se sabe, uma constante no pensamento benjaminiano, aparece mais tarde nos ensaios sobre cinema e nos escritos sobre Baudelaire, o poeta cuja lírica revela a vivência do choque (Chockerlebnis). Uma série de mudanças decorrentes da industrialização e urbanização que aconteceram ao longo do século XIX provocou uma contínua vivência do choque e consequentes modificações na percepção, como se torna evidente no ensaio sobre a reprodutibilidade técnica. A produção em larga escala em fábricas e indústrias, o crescimento e a modernização de grandes cidades, a invenção do cinema (que

na leitura benjaminiana possuía um papel político, já que ele “servia para exercitar o homem

135 ADORNO. Benjamins Einbahnstraße, p. 680-1. “Sie [die Stücke der Einbahnstraße] wollen nicht sowohl

dem begrifflichen Denken Einhalt gebieten als durch ihre Rätselgestalt schockieren und damit Denken in Bewegung bringen, weil es in seiner traditionellen begrifflichen Gestalt erstarrt, konventionell und veraltet dünkt”, loc. cit..

nas novas percepções e reações”)136

e a Primeira Guerra Mundial constituem o contexto histórico desses choques (no estudo a respeito de Baudelaire retomo esses assuntos).

Retomando um comentário citado no capítulo anterior, Lukács ressalta que a interpretação benjaminiana do alegórico – cujas bases para análise compreendem história e filologia e apontam para a valorização estética e filosófica da alegoria – reconhece o desaparecimento da falsa totalidade da obra e coloca em evidência a problemática da arte, cujo significado na concepção benjaminiana é a percepção da condição precária do mundo

mesmo, resumida na “iconicidade alegórica”.137 Essa “iconicidade alegórica” que pode ser vista em elementos que constroem a sociedade, em termos de economia, história e cultura, fica evidente principalmente no Passagen-Werk – o trabalho inacabado a que se dedicou Benjamin até seus últimos dias – cujo embrião estava em seu “livro de anotações” de 1928, ou seja, o princípio metodológico das montagens, o surrealismo como instrumento essencial em seu materialismo histórico e a contundência das imagens dialéticas em sua construção crítica. Curiosamente, os primeiros escritos das Passagens datam aproximadamente de 1927, um ano antes da publicação de Rua de mão única.

Com seu “idiossincrático materialismo histórico”, Benjamin demonstra

importantes constituintes da sociedade burguesa, como a influência das mercadorias na vida das pessoas. O fragmento “Cervejaria” descreve paradigmaticamente a ligação dos marinheiros com a terra (onde raramente descem) que na era do fetiche de mercadoria “se

estabelece” mediante souvenires: “A cidade não é visitada, mas comprada. Na mala do

marinheiro o cinturão de couro de Hong-Kong está ao lado do panorama de Palermo e uma

foto de moça de Szczecin”.138

Até mesmo o universo da transmissão da experiência é, em certa medida, afetado, uma vez que no contexto onde a relação com os lugares é mediada pelas mercadorias, o marinheiro, um dos dois tipos ideais de narradores, conforme

mencionado em seu texto “O narrador” (1936), abdica de trazer para perto a experiência para

então contar estórias e escolhe comprar uma lembrança, considerando a ambiguidade do termo, no universo benjaminiano.

Rua de mão única marca o início do surrealismo como elemento da metodologia

crítica na reflexão de Walter Benjamin. Assim, materialismo histórico e justaposições de imagens passam a integrar o modus operandi de seu pensamento. Conforme aponta Adorno, o

136

BENJAMIN. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, p. 174.

137 LUKÁCS. Alegoría y símbolo, p. 460-461. 138 BENJAMIN. Rua de mão única, p. 67.

grande insight dessa obra se encontra na “força da deterioração no objeto até o literal

esfacelamento do mesmo”.139

O último fragmento de Rua de mão única, “A caminho do planetário”, novamente realça uma perspectiva contrária ao sistema capitalista a que o homem está submetido e oferece bons argumentos para interpretar essa obra como uma alegoria. O capitalismo é visto, afinal, lado a lado com o desastre. Benjamin reflete sobre as pretensões do homem crente na técnica como dominação da natureza – ingenuidade herdada daquela perspectiva iluminista que via apenas a maximização do bem-estar como fruto do domínio da natureza.140 Retomando os comentários presentes nesse excerto, primeiramente o naufrágio da

“experiência cósmica” se dá com a idade moderna. A experiência “na qual nos asseguramos unicamente do mais próximo e do mais distante, e nunca de um sem o outro” e que só pode acontecer na comunidade, onde o homem “pode comunicar em embriaguez com o cosmos”141 passa a ser desconsiderada. Em seguida, a técnica que antes, conforme a instrução recebida pelos imperialistas, subjugava a natureza para beneficiar o homem, trai a humanidade e se torna instrumento de aniquilação do próprio homem.

Continuando, o texto anuncia que, se por um lado, os homens “como espécies

estão, decerto, há milênios no fim de sua evolução”, por outro, “a humanidade como espécie está apenas no começo”, ou seja, a vida em coletivo é ainda uma novidade. A técnica, como

uma physis, possibilita um moderno contato com o cosmos. O fato é que essas “novas

experiências” não abarcam a grandeza da natureza e, portanto, se diferem daquela genuína “experiência cósmica”, abandonada pelo homem moderno. Exatamente por desconhecer essa

verdadeira dimensão, a classe dos proletários desconhece o alcance de sua própria potência. Na última sentença do fragmento, Benjamin recorre ao significado da palavra proletariado (aquele que é levado em consideração por sua prole) ao dizer sobre o único recurso para suportar o aniquilamento da primeira guerra: “O vivente só sobrepuja a vertigem do aniquilamento na embriaguez da procriação (Rausch der Zeugung)”.142 Em outras palavras,

desconhecendo a possibilidade da revolução, o proletariado “supera” o aniquilamento a que

está submetido apenas pelo instinto de preservação da espécie.

139 ADORNO. Benjamins Einbahnstraße, p. 685. “[...] Aber nur kraft der Verfallenheit ans Objekt, bis zur

buchstäblichen Auslöschung des Selbst, waren die Einsichten der Einbahnstraße zu erringen”, loc. cit..

140

Alguns anos mais tarde, Adorno e Horkheimer na Dialética do esclarecimento complementam esse pensamento oferecendo uma reflexão ainda mais contundente acerca da relação do homem com a natureza no mundo moderno, conforme o trecho anuncia: “O que os homens querem aprender da natureza é como empregá- la para dominar completamente a ela e aos homens”. ADORNO; HORKHEIMER. Dialética do esclarecimento, p. 18.

141 BENJAMIN. Rua de mão única, p. 68.

A ideia do colapso do sistema capitalista pré-anunciada apresentada nesse fragmento evidencia uma semelhança com a posição de George Lukács em História e

consciência de classe. Benjamin, de certa forma, reitera a causa proposta pelo pensador

húngaro, para quem o proletariado no momento de crise deve tomar consciência de sua classe e, assim, assumir o controle de seu próprio destino. No entanto, na esteira do surrealismo, o desfecho de Rua de mão única, possui um tom diferente daquele otimista, apresentado por

Lukács. “A caminho do planetário” ilustra uma perspectiva pessimista, lembrando a ideia de

organizar o pessimismo, prenunciada por Pierre Naville (mencionado no ensaio sobre o surrealismo, de 1929, publicado na revista Literarische Welt). Todavia, ao ressaltar a ignorância do proletariado, ele chama atenção para a potência latente de realizar a revolução.

Tal qual numa rua em que se caminha a partir de qualquer quadra ou esquina, a leitura de Rua de mão única pode ter início em qualquer fragmento, evocando desse modo, provocativamente o questionamento a respeito de um sentido único proposto pelo título. O sentido, talvez, seja único para os carros, o bonde, os elementos que fazem referência à técnica (Technik), a qual é definida como “dominação da relação entre Natureza e

humanidade”.143

Apesar da construção dos blocos que compõem a rua chegarem a um último

fragmento, “A caminho do planetário”, a composição da obra evidencia de antemão algumas

contradições desse sentido único, que poderia ser naturalmente relacionado com uma linearidade cartesiana – oposta ao procedimento reflexivo por ele empregado, o método constituído de meandros –, já que os passantes podem buscar uma ou outra direção como mostra a provocativa capa da primeira edição (FIG. 3). Assim, novamente reiterando a ideia

de “obra aberta”, conforme a proposição de Umberto Eco, a montagem e a não-linearidade

natural dessa constituição fragmentada possibilita uma leitura semelhante a um passeio que um transeunte realiza.

Além dessa liberdade de ter seu início em qualquer excerto, a leitura, consoante ao método do desvio (Umweg) que Benjamin anuncia no prefácio epistemo-crítico do livro sobre o drama barroco, pode iniciar-se incansavelmente. Afinal, as montagens que constituem Rua

de mão única são construções paralelas ao mosaico do Trauerspielbuch, aquela forma anti-

sistemática, eleita como modo de apresentação textual do estudo sobre a alegoria. Assim sendo, o(a) leitor(a) ao percorrer essa rua efetua uma série de movimentos, ou seja, segue, retorna, pára, entra num estabelecimento, distrai-se com imagens oníricas, observa o seu

143 BENJAMIN. Rua de mão única, p. 69.

redor, percebe diversas situações prosaicas e enxerga, enfim, uma idiossincrática descrição de uma época.

Embora esse seja um livro notavelmente criativo nos padrões vanguardistas – com um hibridismo composto de elementos diversos como dadaísmo, construtivismo, surrealismo e inserção tipográfica da arquitetura em sua forma (FIG. 3) –, o teor crítico construído por um materialismo histórico muito particular anuncia o retrato de uma época na alegoria de uma rua. Tal como a história aponta para um telos, a rua tem uma mão única. No entanto, esse sentido está longe de ser uma aposta hegeliana no progresso. O final dessa rua, não se sabe onde ele leva. Rua de mão única é um livro de fragmentos que, apesar de centrado na República de Weimar, pode funcionar como uma miniatura de outros momentos de instabilidade e ilusão e, seguindo a trilha de Marx e Lukács (aquele de História e consciência

de classe), assinala como o fetiche de mercadoria e a reificação, que tem se agravado

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