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Os aspectos simbólicos presentes nas comemorações de São José são manifestações de fidelidade e de homenagem, uma oportunidade de se tomar consciência do valor da cultura de uma cidade e de apreciar sua originalidade. A igreja de São José se torna o lugar de junção do seu santo principal e do cortejo dos santos das comunidades rurais que vêm ao seu encontro. E esta visita representa a união de todos que querem render graças ao padroeiro.
Assim, a festa de São José guarda, desde suas origens remotas, o caráter de fecundidade destinado a perpetuar, na vida de uma sociedade, a presença de seu protetor. A pompa de que se revestem os andores é sempre renovada e vê-se aí a intenção de uma sociedade em reverenciar a presença desse grande santo, pai de Jesus. A festa convida, assim, a um contato essencial que é o da soberania de um padroeiro com o seu povo em nome de Jesus Cristo, e o cerimonial sagrado afirma, simbolicamente, que a devoção exige fidelidade ao Senhor. O andor, que representa a imagem do santo em seu trono, mostra a paternidade de S. José, pai de todos, mobilizando muitas romarias que vão ao seu encontro.
Por outro lado, a devoção ao santo heróico, celebrada com mais exaltação no dia do trabalho, buscando nele paz e prosperidade, exige, conforme o costume nas alegres entradas, confirmação em reconhecimento da libertação e privilégios concedidos pelo grande padroeiro. Portanto, o ambiente sacro conserva um aspecto muito mais tradicional do que se possa imaginar, visto que as diversas ordens de comemorações são subordinadas a uma tradição, da qual constam novenas, procissões e outros ritos. O itinerário das procissões pelas ruas da cidade modificou-se um pouco, através dos
séculos, e a decoração dos andores não segue os mesmos padrões. Tudo isso, porém, se firma sobre a base de continuidade. As mudanças refletem as transformações na estrutura de uma sociedade, dentro do estilo de vida de cada geração, ao redor de um mesmo tema, e através das formas com que manifestam sua criação artística. A tradição se mantém, apesar da evolução do povo, o que deixa algumas questões pendentes: Há quanto tempo circulam esses estilos de festa no meio social da cidade? Quantas formas já assumiram tais manifestações? A quantas gerações levaram sua mensagem? Quantas gerações se incumbiram de sua perpetuação? Se o tempo as extinguiu, isso vem reforçar a definição de Alfredo Povince (1944), citado em (ALMEIDA, 1957, p. 135), de que “tradição é a opinião pública de várias gerações”.
Sendo assim, essa riqueza e essa variedade mantêm sua continuidade e asseguram, sobretudo, a atenção do povo a um fato da História e da cultura que é a festa. Nesse sentido, a festa tem, por principal função, celebrar a continuidade de uma sociedade, cujo chefe é o Padroeiro São José, sendo que a igreja e as instituições garantem a estrutura dessa formação social. Desde a fundação da cidade, tal festa atraiu seus patrocinadores. Exemplo se encontra na família Siqueira (descendente de portugueses), uma das que, com grande número de representantes, sempre dedicou atenção e cuidado especial à festa de São José. Consta, em atas da cidade, que, desde 1949 até por volta de 1980, essa família promovia a comemoração, organizava-a e patrocinava-a com suas ofertas.
A festa visa dar uma forma tangível a um ideal de ordem social e religiosa da sociedade, na qual o chefe principal é São José. A hierarquia de funções estabelece e justifica uma compensação de serviços prestados pelo povo e
patrocinadores, sendo que, até os mais humildes experimentam sentimento de participação.
Consideramos, assim, que essa festa constitui um espetáculo completo, onde a ordem social representada se encontra incorporada a uma ordem providencial através de uma rede completa de correspondências. Ela tende a materializar a imagem coerente de um universo onde o reino de Deus e o mundo se integram, como a cidade dentro do céu e cada ocupação dentro da cidade. Por isso, descreve o evento como estando presente dentre as perspectivas cristãs e de redenção, pois se aprofunda na significação de vários textos tirados da Bíblia. Para tanto, o povo também incorpora a alegoria à lenda e a mitologia ao serviço das virtudes necessárias que São José representa, visando à preservação do corpo social. Ou seja, a festa de São José repousa sobre uma ordem temporal e espiritual.
A continuidade da comemoração encontra sua consagração na eternidade. O reconhecimento desse padroeiro para a cidade concilia a transmissão hereditária dessa festa com as comemorações do dia do trabalhador, que acham também seu prolongamento nas comemorações populares. O sagrado e o profano estão no evento da festa que se desenrola através de ritos, colocando diretamente em presença, São José, como padroeiro cristão, enquanto muitos fiéis fazem promessas para obterem desse grande Santo uma graça especial. Essa celebração torna-se importante, visto que o ideal de inspiração universal tende a se identificar com uma força histórica.
Por outro lado, a História também pode proporcionar alguma variação entre a representação idealizada da sociedade e sua realidade; entre a união que essa sociedade proporciona, e os antagonismos que ela vivencia; entre a compensação efêmera que ela procura e a opressão durável que ela dissimula. Mas, se quiséssemos
explicar, somente pela História, as manifestações desse povo, não conseguiríamos render contas da perenidade das tradições nas quais ele se inspira, nem da riqueza e da variedade de seus meios de expressão. De uma certa forma, na cultura desse povo que se manteve homogênea por algum tempo, há uma certa quantidade de regras subentendidas, não escritas, pelas quais as pessoas se guiam. Há um ethos ali, em costumes, em entendimentos, segundo o qual uma situação se mantém de certa maneira. A nossa metodologia de análise nos informará o que está por trás da música e letra de um compositor, cuja obra se chama Missa dedicada a São José. Essa arte descreve a sua própria vida.
Assim, queremos justificar que muitas obras musicais que existem e foram compostas para essa festa, como a citada Missa de José de Vasconcellos Monteiro, são reflexos das antigas comemorações que se faziam para o padroeiro São José, mas no momento em que é concebida a festa, essas obras de arte, dentre outras, estão também construindo a sociedade.
Podemos classificar os estilos da festa em dois principais: tradicional e moderno. E se nós consideramos um dos espetáculos mais característicos da festa, que é a missa, e trabalharmos com a liturgia numa perspectiva de união de várias artes, constatamos que ela realiza igualmente uma síntese daqueles dois tipos. Muito do que acontece na festa é uma transposição da cultura portuguesa em que se inserem as cenas regionais do interior de Minas. Mas, o todo em si, que faz o seu sucesso, está, dramática e artisticamente, ligado à cultura portuguesa.
A utilização do folclore29 português na festa não é moderna. Os espetáculos são os cenários que se utilizam com as decorações fixas, localizadas em diversos pontos por onde passa a procissão.
As primeiras descrições sobre a festa são antigas, mas elas contêm, para o atual período, informações precisas, abundantes que permitem entender a época em que o compositor José de Vasconcellos viveu e os estilos das festas que o influenciaram. Assim, torna-se importante um breve estudo de uma sociedade e de seu vasto domínio sobre as manifestações artísticas, que podem apresentar exemplos significativos que são pontos de partida levando a um fim, por meio da composição musical.
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Folclore é a cultura do popular, tornada modelo pela tradição. Compreende técnicas e procedimentos proveitosos que vão tomando valor emocional e racional, o que é confirmado nas seguintes palavras: “A mentalidade móvel e plástica torna tradicional os dados recentes, integrando-os na mecânica assimiladora do fato coletivo, como a imóvel enseada dá a ilusão da permanência estática, embora renovada na dinâmica das águas vivas. O folclore inclui, nos objetos e fórmulas populares, uma quarta dimensão, sensível ao seu ambiente. Não apenas conserva, defende e mantém os padrões imperturbáveis do entendimento e da ação, mas remodela, refaz ou abandona elementos que se esvaziam de motivos ou finalidades indispensáveis a determinadas seqüências ou presença grupal” (CASCUDO, 1954, p. 319).