I. BÖLÜM
26. Av ve Eti Yenen Hayvanlar ile Ġlgili Hadisler
“Pois não existe desenvolvimento econômico que não seja ao mesmo tempo desenvolvimento ou
mudança de uma cultura”. E. P. Thompson.
Os escritos de Manoel Ferreira Nobre sobre Mossoró em seu livro são um arsenal de dados e informações relevantes, no que tange ao seu crescimento econômico, urbano e político em sua constituição como uma vila e futura cidade nas décadas de 1860 e 1870. Mostraremos como o autor reuniu suas ideias para construção de uma imagem de Mossoró, que cada vez mais, estava adquirindo status na província do Rio Grande do Norte, além de grande centro comercial dos sertões do Norte. Assim, sua descrição revela elementos para tornar a cidade uma opção de sobrevivência e chamariz para milhares de retirantes nos três anos de longo estio.
“Setenta e duas léguas ao Norte da capital e sete longe do mar, esta a comerciante e populosa cidade de Mossoró à margem esquerda do rio do seu nome”, essas são as primeiras
informações sobre Santa Luzia em seu livro. Os limites da cidade “principiam da Praia do Tibau, no lugar onde confina esta província com a do Ceará, e daí pelo cimo da Serra de Mossoró até o sítio Pau de Tapuia, inclusive; deste compreendendo o sítio das Aguilhadas no Rio Mossoró”, que se estende até a fazenda Chafariz, da freguesia do Campo Grande, no rio Upanema; e “daí pelo rio abaixo por uma e outra parte, até a sua embocadura no mar. Este território foi desmembrado do município do Apodi, a que então pertencia”. Enquanto ao seu clima, Mossoró é sadia, “raras vezes se desenvolvem moléstias com caráter epidêmico”. (NOBRE, 1986, p. 9-10). O autor nessas passagens tem a preocupação de construir o território da vila, ou melhor, dar idéias das dimensões que o conforma e delimita fisicamente. Temos uma primeira idéia de uma prática espacial e espaço concebido de Mossoró nesse contexto.
Manoel argumenta que os costumes da cidade são seu principal destaque, pois o “povo se lança ao trabalho com uma atividade verdadeiramente pasmosa”, mesmo pelos “rigores do tempo, a rudeza dos campos e a falta de braços não o fazem empecer”. O autor mostra-nos aqui seu olhar sobre as condições complicadas (materiais e sociais), a dureza da vida dos campos e a falta de mão-de-obra, mas mesmo nesse quadro, não vê obstáculos para a promissora cidade de Mossoró. Até as mulheres não escaparam de seu olhar e pincel; essas “distinguem-se por sentimentos sublimes, profundos e generosos”. Como político do partido conservador e homem de espírito forte, aponta que o luxo, “esse cancro, companheiro fiel dos vícios, é completamente desconhecido da população de Mossoró” (NOBRE, 1986, p. 11). A cidade de Santa Luzia, na percepção do autor, é livre desse câncer, isto é, dos vícios urbanos40, que se espalham e destroem qualquer sociedade saudável, pois a rusticidade de sua população, de alguma maneira, age como um baluarte contra esse inimigo, e escudeiro aos sentimentos nobres e labores espantosos. Temos aqui uma espécie de casamento entre os valores “tradicionais” com as mudanças socioeconômicas do período. Assim quando Nobre destaca os costumes, as mulheres e valores daquele espaço, deixa-nos uma imagem do espaço vivido em seus escritos.
Manuel Nobre discorre ainda sobre a “Barra de Mossoró” e o “Porto de Areia Branca”. A primeira é uma das mais “abrigadas e mais calmas do Norte do Brasil. Navios de todo porte podem descarregar e tomar seus carregamentos ali com muita economia e prontidão”. Tempestades são desconhecidas, além de o canal ser regular e livre de pedras.
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É interessante frisarmos que o primeiro código de postura da cidade de Mossoró foi criado em 1855, e nesse encontra-se a preocupação com o ordenamento social no território da cidade. Assim as infrações e delitos ocorridos já eram motivos para multas e prisões dos responsáveis. Consular, Códigos de Postura do Município
de Mossoró: 1855, 1881, 1888, 1908 e 1940. Fundação Vingt-Un Rosado. Coleção Mossoroense, Série C, Nº
Enquanto seu porto “é um dos mais próximos da Europa. Muitas embarcações estrangeiras e vapores o visitam anualmente”. Até aquela data nunca recebeu melhoramento material, entretanto, “navios, calando 12 pés d‟água, entram e saem francamente”. Tanto a Barra como o Porto possui distância de sete léguas com a cidade de Mossoró. A mesma ainda possui o “Porto da Ilha”, que por uma gamboa navegável saindo de Areia Branca, fica a distância de uma légua da cidade. “Pequenas embarcações vão constantemente ao Porto da Ilha descarregar e tomar carregamentos, com muita facilidade. É considerável o movimento diário entre a ilha e a cidade”. Cem carros de bois levam as mercadorias e gêneros de produção da terra, “cada um desses carros conduz, de uma só vez, 16 a 18 sacos”, além de existir sempre no Porto da Ilha “três carruagens, conduzindo e reconduzindo passageiros, por preço cômodo” (NOBRE, 1986, p. 11, 12 e 13). Notamos nessa descrição a mobilidade comercial entre a cidade e seus portos. O mar e o rio trazem e levam o estrangeiro ao seu espaço, seja por bois e carruagens, ou pelos navios e vapores. Desse modo, identificamos o caráter contínuo e descontínuo do espaço da cidade, que contêm elementos “modernos” da técnica (navios e barcos a vapor) com a força de animais (carroças) ao desenvolvimento comercial local e interprovincial. Novamente percebemos na escrita de Nobre uma prática espacial que re- produz e dá coesão aquele lugar específico.
Seguindo na mesma linha, sobre a descrição do comércio, Manoel Nobre afirma que de “dia em dia, vai fazendo progresso espantoso”. O território da cidade é “fertilíssimo para todo o gênero de cultura”. O lugar chamado “Serra Verde”, que fica sete léguas ao sul da cidade de Santa Luzia, até pouco tempo “era coberta de espinhos, e cercada de cardos, hoje em dia é o primeiro ponto de agricultura de Mossoró”, chegando ele a escrever que sua “uberdade não pode ser excedida pelas mais fecundas das províncias”. A sua produção agrícola vêm do “algodão, e de gêneros alimentícios, como a farinha de mandioca, milho, feijões, etc., é prodigiosa em outras serras, que ficam no mesmo território” (NOBRE, 1986, p. 14). Sobre a indústria ele aponta que “as artes mecânicas vão tendo algum merecimento”. Entre os produtos exportados estariam a “Borracha da mangabeira”, a “fabricação de velas de ceras, tirada dos carnaubais [...] que se emprega uma grande parte da população, com muito proveito”, queijos e o sal. Esse último encontra-se em “riquíssimas salinas de uma superfície de perto de 50 quilômetros quadrados, produzindo uma qualidade de sal superior, o mais estimado dentro e fora da província”. O cálculo de sal fabricado chega a seis milhões de quilogramas, que, “quase todos, são transportados para o centro no dorso de cavalos e burros, em comboios de até 200 animais”. O município exporta os seguintes produtos: “sal, courama, queijos, algodão, cera de carnaúba, grande quantidade de velas da mesma cera, chapéus de
couro e esteiras de palha de carnaúba”. (NOBRE, 1986, p. 15, 16 e 25). É relevante destacar que a cidade já contava com casas “comerciais estrangeiras”, como a do próprio suíço Ulrich Graf, que em 1867 pediu “licença para edificar dois armazéns em terreno aforado a Joaquim Nogueira” (NONATO, 2010, p. 08).
O processo de expansão das casas comerciais estrangeiras da segunda metade do XIX foi bem explorado pela historiadora Denise Monteiro Takeya no seu livro “Europa, França e Ceará”41
. Ela discorre que dentre “algumas das casas mais importantes que se instalaram nos anos sessenta [...], encontravam-se a Kalkmann & Cia; a Brunn & Cia e a J. U. Graff”, esta, tinha uma “matriz em Paris e filiais no Rio Grande do Norte e Ceará, parece ter abandonado seus negócios, nesta última província, ao iniciar-se o decênio de setenta” (TAKEYA, 1992, p. 136-137). No livro de Câmara Cascudo, “Notas e Documentos sobre a História de Mossoró”42
, encontra-se que “João Ulrick Graff e seus companheiros Henrique Burly, Rodolfo Guysne, Conrado Mayer” tiveram o firme propósito de “abrir uma casa comercial importadora de fazendas e exportadoras de produtos do Nordeste Brasileiro – Algodão, peles, cera, etc.” (CASCUDO, 2011, p. 301). Assim as duas províncias, Ceará e Rio Grande do Norte, encontraram sua integração de mercados nas correntes do comércio internacional, com a chegada e implantação da expansão agro-exportadora das décadas de 60 e 70 do século XIX. Desse modo a observação de Manoel Ferreira Nobre, acerca do comércio da cidade de Mossoró, mostra-se muito mais consubstanciada ao contexto socioeconômico do Norte Imperial, que um simples registro da temática em seu livro.
Sobre os elementos “físicos” de Mossoró encontram-se também passagens sobre as “edificações” e “hospedarias” da urbe, nas “construções modernas, alguma coisa possui que honra a cidade. Já algumas ruas estão arborizadas”, enquanto no hotel, no largo da Matriz, “ocupam dois vastos edifícios nos melhores pontos da cidade, tendo quartos mobilhados, salas de jantar, etc. O tratamento é bom e variado o serviço de mesa”. Ele ainda acomete sobre a construção da “igreja Matriz” e da “receita e despesa” municipal. Essas últimas anualmente são orçadas na quantia de 2: 000$000, enquanto sua despesa é “fixada na quantia de... 1: 062$000”. A receita da cidade provém da “aferição de pesos e medidas, conforme o sistema
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TAKEYA, Denise Monteiro. Europa, França e Ceará: origens do capital estrangeiro no Brasil. Natal: UFRN. Ed. Universitária, 1995, 202p. A historiadora delineia as transformações econômicas e “teias” de relações comerciais entre o Brasil, especificamente a província/estado do Ceará, com a casa comercial estrangeira “Boris Frères” entre as décadas de 1860 a 1930.
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CASCUDO, Luiz da Câmara. Notas e Documentos para a História de Mossoró. Edição Especial para o Acervo Virtual Oswaldo Lamartine de Faria. Disponível em: < www.colecaomossoroense.org.br>. Acesso em: 20 de mar. 2011
métrico decimal. Foros de seu patrimônio. Licenças. Multas por infração de posturas. Ditas estabelecidas pelo Código do Processo e mais leis em vigor” (NOBRE, 1986, p. 24-25).
Até agora tentamos mostrar a construção da imagem da Santa Luzia de Mossoró, nos escritos de Manoel Ferreira Nobre, como uma vila em pleno desenvolvimento socioeconômico da segunda metade do século XIX, embora faltassem alguns detalhes a atingir, essa urbe acabaria tornando-se o refúgio e chamariz de milhares de famílias sertanejas na seca de 1877, causa provável da sua influência no setor agro-exportador e político da província naquele período. Também acompanhamos que as dimensões da produção do espaço (percebido, concebido e vivido) estão presentes na escrita do intelectual sobre esse lugar específico, logo, construindo uma imagem do espaço social de Mossoró. Enquanto o livro de Ferreira Nobre que circulou nessa época, apesar de não mencionar a seca de 1877, chegou a passar pelas mãos de alguns citadinos no ano de 1878, “pedimos aos distintos cavalheiros que receberam exemplares do livrinho “Breve Notícia sobre a Província do Rio Grande do Norte”, o grandioso favor de remeterem a importância de suas assinaturas, ao autor, Manoel Nobre” (OLIVEIRA, 1992, p. 33-34). Contudo não temos fontes que comprovam que sua leitura tornou-se popular ou parte de algum grupo específico do período, porém podemos dizer que foi uma das primeiras a construir uma “imagem”, social e física, da cidade de Mossoró43.
1.1.3 Cidade Morta e Apinhada, Cidade Capital e Libidinosa: as tintas mórbidas descrevem