ÜÇÜNCÜ BÖLÜM ASKLEPIEIONLAR
3.8. ASKLEPIEION ADAKLARI
Os agrotóxicos foram introduzidos na agricultura com o intuito de promover a modernização e elevar a de produtividade do setor. Os agrotóxicos ou agroquímicos (herbicidas, fungicidas, inseticidas, etc.) são defensivos agrícolas que estão na pauta ambiental desde que começaram a surgir os efeitos de sua aplicação, proveniente da agricultura intensiva no mundo.
Existem vários efeitos negativos do uso de agrotóxicos. Segundo Dores e Freire (1999), as consequências indesejadas que o uso desses produtos na agropecuária proporciona são: (i) presença de resíduos no solo, água e ar, nos tecidos vegetais e animais; (ii) destruição de microorganismos do solo, mortalidade de insetos benéficos ao equilíbrio do agroecossistema e, (iii) efeitos prejudiciais sobre organismos não alvos, presença de resíduos nos alimentos e, ainda, contaminação ocupacional. O uso dos defensivos também ocasiona riscos à saúde do trabalhador.
A utilização de produtos visando ao combate de pragas e doenças presentes na agricultura não é recente. Civilizações antigas usavam enxofre, arsênico e calcário, que destruíam plantações e alimentos armazenados. Também eram utilizadas substâncias orgânicas, como a nicotina extraída do fumo (GARCIA, 1996; MEIRELLES, 1996). O intenso desenvolvimento da indústria química, a partir da Revolução Industrial, determinou o incremento na pesquisa e produção dos produtos agrotóxicos. Sua produção em escala industrial teve início em 1930, intensificando-se a partir de 1940 (MEIRELLES, 1996).
A entrada dos agrotóxicos no Brasil, a partir da década de 1960, colocou-os definitivamente no cotidiano dos trabalhadores rurais. Todavia, foi a partir de 1975, com o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), que cuidou da abertura do Brasil ao comércio internacional desses produtos, que ocorreu verdadeiro boom na utilização dos defensivos no trabalho rural. Nos termos do PND, o agricultor estava obrigado a comprar tais produtos para obter recursos do crédito rural. Em cada financiamento requerido, era obrigatoriamente incluída uma cota definida desses produtos. Essa obrigatoriedade, somada à propaganda dos fabricantes, determinou o enorme incremento e disseminação da utilização dos agrotóxicos no Brasil (GARCIA, 1996; MEIRELLES, 1996).
Quanto à sua classificação, em relação à natureza da praga controlada, os principais agrotóxicos são: inseticidas (controle de insetos); fungicidas (controle de fungos); herbicidas (combate às plantas invasoras); desfolhantes (combate às folhas indesejadas); fumigantes (combate às bactérias do solo); rodenticidas/raticidas (combate aos roedores/ratos); moluscocidas (combate aos moluscos); nematicidas (combate aos nematóides); acaricidas (combate aos ácaros). Os agrotóxicos são constituídos por uma grande variedade de substâncias químicas ou biológicas (PERES; MOREIRA; DUBOIS, 2003).
Os agrotóxicos constituem a principal fonte de poluição dos solos agricultáveis, seja pela contaminação direta dos produtos, ou indiretamente, pelos resíduos provenientes das plantas tratadas. Os fatores que afetam a absorção e contaminação de um ecossistema dependem de outros fatores, como flutuações na temperatura, interações com outros
poluentes, tipo de solo ou sedimento, teor e tipo de matéria orgânica, pluviosidade, pH e salinidade (ALVES; OLIVEIRA-SILVA, 2003).
Segundo os autores, a permanência dos agrotóxicos no ambiente vai depender da estrutura, tamanho e forma molecular do composto ou mistura dos compostos envolvidos. Pelo fato de não atingirem totalmente as plantas, nem a superfície do solo, sua dispersão no ar se dá através de resíduos na forma gasosa e daqueles que são aderidos à poeira, constituindo fontes potenciais de contaminação em larga escala.
O Brasil, que apresenta uma das maiores concentrações de terras do mundo, é o maior consumidor de defensivos do planeta pelo segundo ano consecutivo, superando os Estados Unidos, que liderava o consumo e atualmente ocupa o segundo lugar. Somente no 2009, foram vendidas 725 mil toneladas dessas substâncias no país, movimentando US$ 6,62 bilhões, são mais de 400 tipos de agrotóxicos, comercializados sob a forma de 2.195 diferentes produtos. (SINDAG, 2010)
Os agrotóxicos foram desenvolvidos para dificultar ou exterminar formas de vida; justamente por essa característica, são capazes de afetar a saúde humana. Regiões com maior utilização de agrotóxicos é maior a incidência de problemas de saúde agudos e crônicos. Por exemplo, intoxicações agudas e crônicas, má formação fetal de mulheres gestantes, neoplasia, distúrbios endócrinos, neurológicos, cardíacos, pulmonares e respiratórias, além de doenças subcrônicas, de tipo neurológico e psiquiátricos, como depressão.
Pesquisa feita em dois dos principais municípios produtores de grãos de Mato Grosso encontrou resíduos de defensivos agrícolas no sangue e na urina de moradores, em poços artesianos e amostras de água da chuva coletadas em escolas públicas. Uma pesquisa mediu efeitos do uso de agrotóxicos em Campo Verde e Lucas do Rio Verde (médio-norte de Mato Grosso). O monitoramento da água de poços revelou que 32% deles continham resíduos de agrotóxicos, também achados em mais de 40% das amostras de chuvas. Já 11% das amostras de ar tinham resíduos de tóxicos como o endossulfam - que teve seu banimento recomendado por seu potencial cancerígeno. O agrotóxico está presente na terra, na água, no ar e até mesmo no sangue e na urina dos moradores de dois municípios produtores de grãos, no Mato Grosso, a constatação foi feita pela Fundação Oswaldo Cruz e pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) (FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ, 2010).
No Mato Grosso, nas regiões que mais produzem soja, milho e algodão, tem uma incidência três vezes maior de intoxicação aguda. Diarréia, vômito, desmaio. Alguns até morrem. As substâncias dão distúrbios cardíacos, pulmonares e até distúrbios psiquiátricos.
O avanço da tecnologia nesses últimos dez anos não reduziu o consumo de defensivos agrícolas no Brasil. Pelo contrário, estes números vêm aumentando todo ano, apresentando uma variação positiva de 123,99% no consumo entre os anos de 2000 a 2009. Para este mesmo período, ocorreu uma variação positiva de 25,30% na área plantada, mostrando que a quantidade comercializada de agrotóxicos está muito acima do aumento da área. Isso equivale dizer que a comercialização de agrotóxicos ocorreu num ritmo quase 99,69% superior ao crescimento da área plantada no Brasil neste período. Esses números referem-se aos produtos legalmente comercializados, não considerando a significativa quantidade de produtos contrabandeada para o país.
O produto que mais se destaca na comercialização de agrotóxicos são os herbicidas, com uma variação positiva de 146,85% entre 2000 e 2009. Em segundo, aparecem os inseticidas (99,06%) e, em terceiro, os fungicidas (75,51%). Em quarto lugar, estão os acaricidas, que nesse período apresentaram uma redução de 2,22% (Tabela 23).
Tabela 23 – Comercialização de defensivos (ton de i.a) no Brasil
Período Herbicida Fungicida Inseticida Acaricida Outros Total
2000 174.070 51.215 67.305 12.561 18.777 323.928 2001 187.875 35.773 67.303 13.454 24.008 328.413 2002 175.748 34.407 57.730 15.055 23.643 306.583 2003 216.119 41.863 73.232 14.362 30.501 376.077 2004 251.017 65.167 97.012 13.702 36.706 463.604 2005 271.903 61.860 99.688 10.644 41.874 485.969 2006 279.215 56.077 93.154 15.895 35.779 480.120 2007 349.905 68.254 116.609 19.888 45.178 599.834 2008 389.401 78.495 138.754 20.321 46.921 673.892 2009 429.693 89.889 131.961 12.281 61.753 725.577
Fonte: Elaborado pela autora com base na SINDAG, 2010
Com a contaminação ambiental promovida essencialmente pelo uso de defensivos no Brasil, o estado deve intervir com políticas públicas efetivas para se fazer cumprir as leis que determinam uma agricultura responsável.
No estado do Mato Grosso a situação não é diferente. O consumo no estado aumentou em 262% nos últimos 10 anos. No Mato Grosso, 136 milhões de litros de defensivos foram usados na safra agrícola 2009, com uma média de 15,19 litros por hectare. A relação entre consumo de agrotóxicos e área plantada é surpreendente. Em 2000, o estado plantou aproximadamente 4 milhões de hectares, elevando para 8 milhões de hectares em 2009, dobrando a área plantada. Nesse mesmo período, o consumo de agrotóxicos passou de 37 milhões de toneladas para 136 milhões de toneladas, representando uma variação positiva de 262% (Tabela 24). Portanto, nos últimos dez anos, o consumo de defensivos cresceu 2,62
vezes mais que o aumento da área cultivada. Este aumento é justificado pelo crescimento do desmatamento, que constitui a primeira etapa da atividade agropecuária.
Mato Grosso foi responsável por 19% do consumo de agrotóxicos do país em 2009. Para este mesmo período, os herbicidas representaram 17,5%, os fungicidas 18% e os inseticidas 25,5% do total consumido em todo o Brasil.
Tabela 24 – Comercialização de defensivos (ton de i.a) no Mato Grosso
Ano Herbicida Fungicida Inseticida Acaricida Outros Total
2000 22.047 2.001 10.126 49 3.461 37.684 2001 26.702 2.638 10.529 77 3.335 43.281 2002 26.348 2.861 9.467 (16) 3.671 42.331 2003 33.891 4.856 11.541 8 4.824 55.120 2004 35.880 10.878 19.758 188 7.013 73.717 2005 41.527 10.625 22.265 39 6.922 81.378 2006 44.604 8.174 20.727 32 5.391 78.928 2007 57.389 8.955 26.401 66 8.679 101.490 2008 74.895 15.013 36.179 208 10.093 136.388 2009 73.289 16.244 33.569 216 13.196 136.452
Fonte: Elaborado pela autora com base na SINDAG, 2010
Os defensivos agrícolas atuam em processos vitais, visando controlar o crescimento ou combater alvos biológicos. Desta forma, em sua maioria, são prejudiciais também à constituição física e à saúde do ser humano. As intoxicações, decorridas da exposição a estas substâncias, não são reflexo de uma relação simples entre o produto e a pessoa exposta: vários fatores participam da determinação das mesmas, como temperatura no momento da aplicação, pré-disposição do trabalhador às intoxicações, etc.
Tabela 25 – Evolução da área cultivada e consumo de defensivos no Brasil e no Mato Grosso
Brasil Mato Grosso
Período cultivada Área
(1000 ha) Comercialização (ton de i.a) Consumo ha (kg/ha) Área cultivada (1000 ha) Consumo (1000 ton) Consumo (ha) 1999/2000 (i) 37.824 323.928 9 4.439,6 37.684 8 2009/2010 (ii) 47.396 725.577 15 8.983,3 136.452 15 (i)/(ii) (%) 25 124 67 102,34 262 88
Fonte: autora com base SINDAG, 2010
O consumo de defensivos agrícolas apresentou crescimento positivo e bastante significativo em praticamente todas as regiões do país, mas no Mato Grosso, o crescimento foi mais intenso. A área cultivada no Brasil cresceu 25% da safra de 1999/2000 para 2009/2010. Neste mesmo período, o aumento na comercialização de defensivos foi 124%, ou seja, a quantidade de defensivos aplicados por hectares teve um aumento de 76%. Para este
mesmo período, o aumento da área plantada no Mato Grosso foi de 102%, enquanto o consumo de defensivos cresceu 262%, resultando num aumento de 88% de defensivos por hectare.
O crescimento de defensivos gera preocupações, uma vez que, por mais racional que a aplicação seja realizada, é inevitável o impacto no meio ambiente. Os relatos do uso indiscriminado desses produtos são frequentes e ocorrem de forma generalizada em todas as regiões e para todas as atividades agropecuárias. A falta de preocupação com o meio ambiente é uma realidade, os aspectos no meio ambiente não ocorrem somente no uso. O preparo do produto a ser aplicado e a lavagem do equipamento após a aplicação dos produtos também são responsáveis por graves contaminações ao meio ambiente, inclusive, aos seres humanos.