UYUŞMAZLIK (ÇATIŞMA) YÖNETİMİ
9. ÖRGÜTLERDE ÇATIŞMA ÇÖZME YÖNTEMLERİ
Os relatos abaixo expressam o campo de significado que caracteriza esta quarta configuração: obrigações com a família atuam como impedimentos ao desenvolvimento escolar e profissional das jovens aqui analisadas. O ingresso precoce na vida adulta limita as suas possibilidades futuras nos campos profissional e escolar.
Em seu estudo sobre as redes sociais de mulheres imigrantes latino-americanas de baixa renda residentes na cidade de Boston, Dominguez (2004) destaca a importância dos laços fortes para a formulação das estratégias de mobilidade social dessas mulheres. Segundo a autora, os laços fortes podem, por um lado, estimular o estudo e a ascensão profissional. Por outro lado, obrigações familiares podem limitar as suas redes de relações. Além disso, determinadas dinâmicas patriarcais, como homens autoritários, podem provocar o estancamento da mulher na situação de pobreza. O progresso profissional e educacional dessas mulheres depende, portanto, da sua capacidade de estabelecer limites em suas redes de apoio e do apoio que recebem dessas redes.
As jovens reunidas nesta configuração se aproximam de uma parcela das entrevistadas pela autora: os papéis que desempenham no interior da família limitam a sua capacidade de estabelecer novos vínculos e, principalmente, a sua disposição de formular projetos para o futuro, seja no campo educacional ou profissional. Embora digam possuir uma boa relação com os pais, a família aparece como um impedimento à formulação desses projetos. Por outro lado, de forma distinta das jovens reunidas na segunda configuração, elas não encontram espaços alternativos para a superação dos limites impostos pela família.
Como resultado, notamos uma indiferença com relação à escola e aos assuntos relacionados a este espaço. De forma distinta dos alunos “considerados problema”, essas jovens passam despercebidas pela equipe escolar. No entanto, vão compor, com aqueles, a “periferia” da sala de aula.104
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É importante destacar que há um viés de gênero neste grupo – o ingresso na vida adulta se associa a eventos que costumam afetar mais fortemente as mulheres, como o casamento, o nascimento de um filho e as obrigações domésticas.
Filhas de imigrantes, estas jovens pertencem a famílias com condições socioeconômicas e culturais similares às da média dos entrevistados. Embora a renda familiar destas jovens não esteja entre as mais baixas, suas condições de moradia são precárias. As mães das jovens possuem baixa escolaridade. Com exceção de Fabiana, elas não contam com o apoio dos pais. Ao contrário, costumam assumir as suas responsabilidades, como é o caso de Diana e Joana.
O contato com Jéssica ocorreu na sala da coordenadora. Eu estava sozinha quando ela entrou. Ela precisava entregar uma justificativa pelas faltas no início do semestre. Quando a jovem viu um folheto sobre as apresentações do Fábricas de Cultura, disse que iria se apresentar. Começamos a conversar sobre o programa e perguntei se ela concordaria em conversar. A entrevista fluiu bem.
Para compreender melhor em que medida as obrigações familiares poderiam afetar a trajetória escolar e profissional dos jovens, solicitei à coordenadora que indicasse uma aluna que fosse mãe. Ela me apresentou Fabiana. A entrevista com a jovem não foi fácil. Ela parecia desanimada e foi difícil despertar o seu interesse pelos assuntos abordados.
Diana, por sua vez, foi indicada pela coordenadora do turno da manhã. A jovem é introvertida, fala pouco. Não me pareceu à vontade para falar dos assuntos abordados ao longo da entrevista. Mas, em alguns momentos, falou com mais desenvoltura.
Por fim, conheci Joana durante o período em que acompanhei as atividades do programa Centro de Juventude. Decidi entrevistá-la porque ela era uma das jovens que participava do programa e frequentava a Machado. Apesar da timidez inicial, a entrevista foi boa.
Apesar dos limites impostos pela família, até o momento da entrevista essas jovens apresentavam trajetória escolar contínua. Jéssica é uma exceção. Casada, ela apresenta trajetória escolar descontínua – tem 19 anos e está matriculada na 3ª série do ensino médio no período da manhã. Começou a estudar com 7 anos, numa escola municipal. Foi reprovada duas vezes – ambas na 4ª série e ambas por excesso de faltas. A primeira vez, comenta Jéssica, foi por desinteresse. Já a segunda foi por motivo de saúde. Como veremos mais à frente, Jéssica tem um problema sério de vista que pode ter sido responsável por sua
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dificuldade de aprendizagem. A jovem ingressou na Machado na 1ª série do ensino médio. Na 3ª série do ensino médio, ficou em recuperação de matemática.
Fabiana tem 16 anos e está matriculada na 2ª série do ensino médio no período da manhã. Até o momento da entrevista, a gravidez e o nascimento do filho não haviam impactado a sua trajetória escolar. O apoio da mãe e das vizinhas permitiu que a jovem não interrompesse a escola.
Fabiana ingressou na pré-escola com quatro anos. Cursou da 1ª a 6ª série do ensino fundamental na mesma escola municipal. Ingressou na Machado na 7ª série. Escolheu a escola porque duas primas a frequentavam. Embora afirme que o nascimento do filho não tenha provocado grandes mudanças na sua rotina escolar, notamos uma tendência à inflexão – no sentido negativo - na trajetória escolar desta jovem.
Ainda que apresente uma pequena defasagem idade-série – tem 17 anos e está na 2ª série do ensino médio matutino –, Diana nunca deixou de frequentar a escola ou foi reprovada. Ano passado, ficou em recuperação de matemática e português, mas foi aprovada. Frequenta a escola desde os três anos. Cursou todo o ensino fundamental numa escola municipal do bairro. Ingressou na Machado na 1ª série do ensino médio. Escolheu a escola porque era próxima à sua casa.
Joana tem 16 anos e está na 2ª série do ensino médio. Ingressou tarde na escola, com 10 anos, mas, desde então, sua trajetória foi contínua. Nunca deixou de frequentar a escola ou foi reprovada. Para compensar a sua distorção em relação à série que frequentava, a jovem cursou a Educação de Jovens e Adultos na 7ª e na 8ª série do ensino fundamental.
Ingressou na Machado na 1ª série do ensino médio. Matriculou-se no período da manhã, mas não se adaptou. Depois de dois meses, a jovem decidiu mudar para o turno da noite.
Todas as quatro jovens possuem uma imagem negativa da escola. A dificuldade de aprendizagem, como veremos, resulta em desinteresse pelos assuntos escolares ou, como menciona Dubet, no abandono do jogo. Por outro lado, os constrangimentos familiares e as dificuldades enfrentadas ao longo de suas trajetórias escolares parecem limitar os seus projetos futuros – escolares ou profissionais – e, consequentemente, as suas possibilidades de mobilidade social. Jéssica está fazendo o mesmo curso de administração de empresas que Patrícia e Denise. No entanto, afirma não ter interesse por nenhuma área específica. Não tem planos de continuidade dos estudos. Diana quer concluir o ensino médio para começar a
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trabalhar e proporcionar uma vida melhor para os pais. No entanto, não tem planos relacionados à formação profissional.
Joana foi a única jovem desta configuração que mencionou o desejo de cursar o ensino superior. No entanto, não tinha certeza sobre a área, apenas afirmou que gostaria de trabalhar com crianças, numa creche ou escola.
As redes de Fabiana, Diana e Joana são bastante limitadas. Para Diana, aparecem alguns elos do trabalho e, para Joana, alguns do programa social que frequenta. Já a rede de Jéssica é extensa, baseada na família, na vizinhança, na escola e no programa social de que participa.
A família
Como mencionamos anteriormente, estas jovens assumiram obrigações familiares de forma precoce. Fabiana, 16 anos, branca, paulista, é solteira, mora com os pais e é mãe de um bebê de cinco meses. Jéssica, 19 anos, parda, nascida no interior do Piauí, é casada, mas não tem filhos. Diana, 18 anos, branca, paulista, ajudava a mãe em casa e, atualmente, trabalha nos correios. A jovem é uma das provedoras da casa – sua remuneração é destinada integralmente às despesas familiares. Por fim, Joana, 16 anos, negra, paulista, é responsável pelos irmãos mais novos.
As obrigações familiares limitam a capacidade das jovens de estabelecer novos vínculos e, principalmente, a sua disposição de formular projetos para o futuro, seja no campo educacional ou profissional.
Fabiana se tornou mãe aos 15 anos. O filho nasceu durante as férias escolares. Quando recomeçaram as aulas, ele sequer havia completado dois meses. Mas a jovem decidiu voltar a estudar. Para tanto, o apoio da sua mãe, que não estava trabalhando, foi fundamental – é ela quem cuida do bebê enquanto Fabiana está na escola. Neste caso, a maternidade não resultou, pelo menos até então, no abandono da escola.
“[Minha mãe] insiste pra eu não parar, pra eu ter uma vida melhor que a deles.”
Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), Hasenbalg aponta duas consequências da maternidade precoce que repercutem nas condições de socialização dos filhos e na trajetória futura das mães. Por um lado, a maternidade acarreta,
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na maioria dos casos, o abandono da escola.105 Por outro lado, estas mulheres tendem a ter mais filhos (Hasenbalg, 2003).
Fabiana mora com os pais, o filho e os três irmãos numa casa de três cômodos. A mãe é de Belém e o pai, da Paraíba. Ambos não completaram a 4ª série do ensino fundamental. O irmão mais velho sim, mas deixou de frequentar a escola. Ele trabalha, sendo que a jovem não soube dizer o que ele faz. Os irmãos mais novos estudam. O pai é cozinheiro em um restaurante e a mãe está desempregada.
A notícia da gravidez foi recebida com surpresa pela mãe:
“Quando ela descobriu que eu tava grávida, ela ficou brava. Eu era quietinha e ela achava que eu não fazia...”
Mas, segundo a jovem, a mãe acabou aceitando. Com o pai foi mais difícil:
“Ele xingava o pai dele [do filho]. Ele só aceitou depois que ele nasceu.”
A gravidez causou um impacto em sua vida escolar:
“Atrapalhou a escola porque eu tive que faltar bastante por causa do pré- natal, dos exames de sangue...”
Embora afirme que o nascimento do filho não tenha provocado uma mudança significativa na sua vida, uma vez que não deixou de frequentar a escola, notamos que as obrigações maternas começam a afetar o seu desempenho escolar. Fabiana disse que o primeiro bimestre foi atribulado. Faltou muito e deixou de fazer provas e trabalhos de diversas matérias:
“Eu tava cansada, então, eu não quis vir... tirei nota vermelha em biologia e matemática... química e física... eu não sei ainda.”
A jovem foi indicada para as aulas de reforço de matemática, mas, não assistiu às aulas, por falta de tempo.
O pai do filho era ajudante de pedreiro e, atualmente, trabalha como segurança. Mora na zona Norte. Ela o conheceu no período em que ele estava trabalhando numa obra no bairro. Eles namoraram até o filho nascer.
105 De acordo com dados da PNAD de 1999, 82% das mães adolescentes estavam fora da escola, sendo que isso ocorria com somente 23,5% das que não tinham filhos (Hasenbalg, 2003).
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Durante os três primeiros meses, o pai visitava o filho, mas há dois meses ele não o vê. Segundo a jovem, depois que terminaram o namoro ele parou de ajudá-la financeiramente. A mãe entrou com um processo pedindo alimentos.
Jéssica veio para São Caetano com 9 meses. Moraram na casa da tia. Aos 2 anos, ela e os pais se mudaram para Mauá e, aos 7 anos, vieram para São Paulo, para o “Madalena”, bairro contíguo à escola. Há dois anos, mudaram-se da casa em que moravam para uma casa melhor, no mesmo bairro. Há sete meses, a jovem se casou e foi morar com o marido numa casa de dois cômodos. Ele completou o ensino médio e trabalha como revendedor de cosméticos.
A relação com os pais, relata a jovem, é tranquila. A mãe é analfabeta e não trabalha. De acordo com Jéssica, ela é o seu principal ponto de apoio quando tem que enfrentar alguma dificuldade. O pai estudou até a 4ª série e trabalha num supermercado do bairro, como repositor de mercadorias. Há pouco tempo, teve um problema na coluna e na perna e teve que se afastar por um período do trabalho. Contaram com o apoio do seu marido. Jéssica não costuma sair de casa, tem poucos amigos.
Diana mora com seus pais e irmãos numa casa construída num terreno que pertencia à avó. Na mesma área moram a avó e os quatro tios com suas respectivas famílias. Ela é a filha mais velha. Sempre ajudou nas tarefas de casa, além de cuidar dos irmãos mais novos. Sua mãe estudou até a 4ª série e, atualmente, não trabalha. O pai estudou até a 5ª série e trabalha como gari. A jovem relata que ambos tiveram envolvimento com o tráfico – eram usuários e trabalhavam numa das “bocas” de venda de drogas.
Diana tem três irmãos – um trabalha e estuda e dois apenas estudam. A jovem diz que a sua principal referência para os assuntos relacionados à escola e ao trabalho é o tio que mora numa das casas do terreno. Ele é solteiro, tem 40 anos e trabalha como pedreiro. Ele e sua mãe são seus únicos amigos. Diana não tem uma boa relação com o irmão mais velho:
“Ele mata aula, picha a escola e a coordenadora vem reclamar comigo...”
Joana, 16 anos, negra, paulista, mora com os pais e três irmãos num sobrado construído em parceria com o cunhado e a irmã, próximo ao CEU Rosa da China. A irmã casada mora no térreo. Joana, os pais e os outros irmãos moram no andar de cima. Estão construindo um segundo andar.