a) A influência da televisão e a autoreferencialidade jornalística
Em 1995, Pierre Bourdieu proferiu uma aula que deu origem ao livro Sobre a
Televisão, no qual analisa este meio de comunicação e sua influência sobre os demais produtos jornalísticos. Para o autor, a televisão trabalha com “fatos ônibus” (omnibus: para todo mundo), fatos que não devem chocar ninguém, que não envolvem disputa, que não dividem, que formam consensos, que interessam a todo mundo, mas de modo tal que não tocam em nada importante (Bourdieu, 1995: 23). Ao mesmo tempo a televisão procede de uma forma paradoxal que consiste em “ocultar mostrando”, cobrindo o que é preciso de forma com que aquilo se torne insignificante ou que não corresponda à realidade.
A televisão, diz Bourdieu, é capaz de reunir diante do jornal das 20h mais pessoas os leitores de todos os jornais impressos reunidos, por isso detém uma espécie de monopólio sobre a formação de uma parcela muito importante da população, que não lê jornais e tem este meio como sua única fonte de informações. Porém, se a informação oferecida se trata de uma “informação-ônibus” podem resultar dela efeitos políticos e culturais como a banalização e homogeneização das notícias. Bourdieu diz também que este meio prioriza as variedades e isso leva à falta de informações pertinentes que o cidadão deveria possuir para exercer seus direitos democráticos.
A concorrência entre os diversos veículos de comunicação incitaria a uma eterna vigilância das atividades do concorrente resultando em uniformidade na informação. Isto não acontece apenas na tevê, mas atinge todos os demais meios de comunicação. A diferença entre o que é publicado em um ou outro veículo e suas abordagens, segundo
Bourdieu, é imperceptível para o espectador médio. Isto só poderia ser notado se o público assistisse simultaneamente a várias emissoras. Diante deste quadro, as escolhas que se produzem na televisão são de certa forma escolhas sem sujeito, pautadas pelos índices de audiência (que definem o que é de interesse) e pela informação circular (a dependência de fontes oficiais como informes de governos e das assessorias de imprensa, o material produzido pelas agências de notícias, a repercussão do que é publicado em outros veículos e todo um esquema de retroalimentação da mídia).
Bourdieu afirma que ninguém lê tanto jornais como os jornalistas. A leitura dos jornais, do clipping e o acompanhamento das notícias nos canais de televisão abertos e a cabo, em sites e rádios de notícias são atividades que fazem parte do cotidiano do profissional e esse é um mecanismo acaba levanto à homogeneização. “Essa espécie de jogo de espelhos refletindo-se mutuamente produz um formidável efeito de barreira, de fechamento mental” (Bourdieu, 1997: 33) Com isso a mídia, não apenas televisiva, tem como característica marcante a autoreferencialidade. Os jornalistas da imprensa escrita então se encontram diante de uma escolha: caminhar no sentido do modelo dominante – isto é, fazer com que os jornais sejam quase televisão – ou acentuar a diferença entre os jornais e este meio sob o risco de perder o púb lico.
A proposta do autor seria que artistas, escritores, cientistas, etc., tentassem coletivamente instaurar negociações com os jornalistas, buscar uma reflexão destinada a buscar meios de superar em comum as dificuldades apontadas e lutar para o que poderia ter se tornado um instrumento de democracia direta – a televisão - não se converta em um instrumento de opressão simbólica. Da mesma forma, ele propõe que sejam feitas “alianças trans-jornais” para neutralizar efeitos que nascem das concorrências. Firmar, por exemplo, um acordo, por exemplo, de não dar voz a fascismos.
A influência da televisão no jornalismo (cobertura sensacionalista, espetacularizada, com características de programas de entretenimento) não se restringe aos telejornais. Segundo José Arbex Junior (2001), o advento e a expansão da televisão comercial produziram efeitos profundos e de grande importância sobre o conjunto da mídia que atingem até os jornais mais analíticos e radicionais, como o britânico The
Guardian e o francês Le Monde. Entre os efeito imediatamente visíveis dessa influência estão a adoção de cores, diagramação mais “leve” e a ampla utilização de mapas e boxes didáticos, o aumento no tamanho dos caracteres, o uso de parágrafos mais curtos, o
aumento no tamanho e no número de fotografias, enfim, uma gama de recursos que faz com que o jornal se pareça uma “televisão impressa”.
Arbex afirma que à medida que a imagem se torna suporte preponderante na transmissão da informação tende a ganhar força a concepção de que o jornalismo é uma espécie de espelho fiel dos fatos e que o trabalho do jornalista é mostrá-los ao público “tal como realmente aconteceram”. Contudo, a pretensão de que os fatos possam ser capturados “objetivamente” e transmitidos ao “fielmente” ao público é insustentável. O narrador – que pode ser o historiador, o jornalista, o cientista político – escolhe e singulariza o fato motivado por aquilo que deseja demonstrar, faz o recorte da realidade que pretende mostrar. Isso não significa, porém, que tenha o poder de alterá-los livremente.
Para Eugênio Bucci (2003), a idéia de que as notícias dos jornais “retratam a realidade” não faz sentido. Seria melhor dizer que os jornais “consolidam a realidade”. Não que os jornais mintam, distorçam ou manipulem. É possível admitir que os grandes veículos da imprensa se esforcem na direção da objetividade e da verdade factual. O que está em jogo neste caso, não é como procedem os jornalistas, uma conduta ética da imprensa, mas a natureza do que é considerado como fato jornalístico.
Para o autor o fato já nasce como relato. Isso quer dizer que não há fato jornalístico sem o relato jornalístico. O que chamamos de “realidade” é um discurso que articula signos lingüísticos e visuais. A realidade seria antes uma realidade discursiva. Nessa concepção o relato jornalístico é o fator que ordena e constitui a realidade que ele mesmo apresenta. Os protestos antiglobalização, as intervenções do Movimento de Trabalhadores Sem Terra, ações do Green Peace e outras ações voltadas para chamar atenção da opinião pública seriam exemplos de fatos que já nascem para ser relatos. Isso não significa que aqueles sujeitos que detêm o poder sobre as instituições midiáticas (mais precisamente sobre as instituições jornalísticas) adquiram o poder de controlar a função simbólica exercida pelo fluxo das notícias. Existem conivências e interesses palpáveis de acionistas ou de empresas jornalísticas que interferem sobre o conteúdo editorial. Mas existem também determinantes do discurso que fogem aos desígnios de patrão ou sindicato.
Embora essa proposição a respeito de fatos que já nascem para ser relatos faça algum sentido (sobretudo nos casos citados de ações que nascem com o objetivo de atrair atenção da mídia), ela não se aplica a tudo o que é publicado na mídia. A concepção de jornalismo aplicada nesta pesquisa é que este não é um “retrato fiel da realidade” e sim um recorte que deixa de lado vários outros possíveis. O que motiva este recorte e por que ele é feito (se é que existe uma causa) foge aos objetivos deste trabalho. Por outro lado, como afirma Arbex, aceitar puramente que os fatos não existem coloca situações embaraçosas, especialmente quando se trata de eventos que provocam impacto coletivo, como é o caso do 11 de Setembro. Isso significa dizer que podem existir fatos simplesmente e também fatos que nascem para serem relatos. O modo em que eles serão tratados na mídia será um recorte de realidade que atravessado por múltiplas forças, mas que não depende inteiramente da vontade ou intenção de um indivíduo, seja o narrador, o agente da notícia ou dono da empresa jornalística.
O mundo do jornalismo é um microcosmo que tem leis próprias e que é definido por sua suposição um mundo global e pelas atrações e repulsões que sofre da parte de outros microcosmos. “O que se passa nesse mundo não pode ser compreendido de maneira direta a partir de fatores externos, o que seria uma forma de materialismo curto, associado à tradição marxista, que não explica nada, que denuncia sem esclarecer nada”, diz Bourdieu. O campo jornalístico é atravessado por fluxos que transformam o campo e a prática. Com isso, nada mais impróprio do que afirmar que o jornalista é o sujeito que “manipula os fatos”, pois o próprio jornalista é atravessado pelas mudanças em curso na sociedade, ainda que não sejam conscientes disso.
b) Jornalistas como objeto
Bourdieu afirma que os jornalistas e o campo jornalístico devem sua importância ao fato de que eles detêm um monopólio real sobre os instrumentos de produção de difusão em grande escala de informação e isso acaba proporcionando aos jornalistas (pelo menos aos mais poderosos) uma consideração muitas vezes desproporcional a seus méritos intelectuais. Isso nos remete ao que Foucault diz a respeito da rarefação do sujeito que fala, da autoridade, que está ligada a legitimidade conferida pelo “sobrenome institucional”. Esta é a situação dos “âncoras” dos telejornais, colunistas dos grandes jornais, ou ainda aqueles que depois de vasta experiência na reportagem migraram para os blogs; todos encontram-se confortavelmente instalados na posição de
intelectuais-jornalistas, mas o que credencia como sujeitos falantes é justamente o fato de trabalharem ou terem trabalhado em grandes empresas jornalísticas. Vide o caso dos blogs de Josias de Souza, Luís Nassif, Sérgio Dávila, entre outros, ou a mítica em torno do falecido Paulo Francis.
As mudanças econômicas e as inovações tecnológicas das últimas décadas promoveram transformações significativas no cotidiano das redações e perfil do profissional jornalista. A alta rotatividade de profissionais nas redações e o advento da Internet, somados ao endividamento progressivo dos jornais desde a década de 1970 deram origem a outro tipo de profissional e outro tipo de cobertura. Ao mesmo tempo em que houve a diminuição de salários e a saída dos profissionais mais velhos e melhor remunerados, aumentou a exigência pela qualificação dos jornalistas que ingressam nas redações. Bourdieu afirma que o campo jornalístico é um lugar onde há pessoas cada vez mais cultas e onde cada vez mais cedo os profissionais entram em crise. “O jornalismo é uma das profissões em que se encontram mais pessoas inquietas, insatisfeitas, revoltadas ou cinicamente resignadas” (1995: 53). Contudo, ainda se está longe de uma situação em que essas amarguras ou repúdios poderiam tomar a forma de uma verdadeira resistência, individual ou coletiva. Individualmente os profissionais que atuam nas redações vão se adaptando.