O debate em torno da contribuição da ciência para o desenvolvimento da Educação Física não se apresentou de forma uniforme dentro na RBEF. Muito menos o debate sobre como inserir o esporte nessa área. Foi possível observar críticas a um determinado modelo científico. Vários autores defensores da perspectiva dogmática teceram críticas ácidas à técnica e à cientificidade dentro da Educação Física. Para esses autores, a Educação Física perdeu sua humanidade ao prevalecer sobre ela uma dimensão do conhecimento calcada na ciência, competitividade e no autorrendimento. Entre os autores, professores e pesquisadores defensores da postura dogmática encontravam-se autoridades experimentadas da área, como, por exemplo, Pierre Seurin, presidente da Federation Internacionale D‟Educacion Physique (FIEP). Eis suas palavras sobre o caráter dos esportes e da Educação Física:
107 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1972, p.292.
Por definição, desporto e Educação Física são, portanto, coisas diferentes, mas não necessariamente opostas, uma vez que o desporto pode, evidentemente, tornar-se um meio de educação. Ponhamos em evidência algumas “duras realidades”, ilustrando, sem dúvida, situações extremas, mas permanecendo significativas, de uma tendência evolutiva que os educadores podem lamentar: o desporto moderno é, sobretudo, desporto de competição, rigorosamente seletivo, baseado no campeonato. Procede pela eliminação dos fracos. Aparece mais e mais reservado a uma minoria de elementos fisicamente dotados e fortemente ajudados pelo clube, a cidade ou o Estado. É finalmente um desporto de “privilegiados”, aos quais se concedem vantagens e honras quase sempre excessivas. É um desporto de “vedetes”, cada vez mais escravizado ao dinheiro, é por seu turno um aprisionamento do desportista a técnicas fortemente especializadas. É o contrário da cultura.109
Seurin apontava o “desporte moderno” como um lugar de “privilegiados” que primava pela “eliminação dos fracos”, uma vez que, além de profundamente seletivo e elitista, ele pouco teria de verdadeiramente educativo. A elitização proporcionada pelo esporte era denunciada como extremamente perniciosa à educação do jovem. Seurin diferenciava ainda a Educação Física do esporte. Além de trazer conceitos de um ou de outro em seu texto, o autor vinculava a Educação Física aos mais nobres ideais de formação humana110:
O desporto moderno não alcança, em realidade, na hora atual, senão muito pequena minoria de jovens e ainda menos de adultos. Esse quadro nos faz claramente compreender que nessas condições, o desporto não pode servir utilmente, em plano individual e social, à causa da educação pelas atividades físicas. Aparece mesmo uma divergência fundamental entre a escola e o clube desportivo.111
No trecho que diz “educação pelas atividades físicas” e “preparação para a vida pela formação de uma cultura geral”, Seurin revelava a importância que conferia à Educação Física como prática educativa, mas indicava incredulidade acerca das possibilidades educacionais que o esporte competitivo representaria. A busca extrema de competitividade e a incessante vontade da vitória alijariam sobremaneira o caráter do cidadão. Para ele, o “esporte moderno” precisava ser atividade pedagógica, no seu sentido pleno, de educação humanística.112
109 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1973, p.34.
110 OLIVEIRA, Marcus Aurélio Taborda. A Revista de Educação Física e Desportos (1968-1984) e a
experiência cotidiana de professores da rede municipal de ensino de Curitiba: entre adesão e a resistência. Tese (Doutorado em Educação), PUC/SP, São Paulo, 2001, p.123.
111 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1973, p.35. 112 Ibidem, p.35.
Em âmbito nacional, um exemplo claro da preocupação dogmática foi dado pelo General Jayr Jordão Ramos, colunista assíduo da RBEF:
Desde os gregos, sabemos que a Educação Física, bem compreendida, tem por objetivo cooperar no desenvolvimento integral do indivíduo. O jogo, a ginástica, o desporto, a dança, o excursionismo são os meios empregados. O desporto moderno é apenas um dos meios, cumprindo empregá-lo de maneira adequada, e sem excessos.113
Destaca-se no texto a ênfase no esporte como um meio da Educação Física, e, dentro dela, podiam aparecer a dança, o jogo e até o excursionismo. Para contribuir na formação integral do indivíduo, o esporte deveria ser empregado de maneira adequada, ou seja, sem o espírito da competição e a busca incessante da vitória.
Nota-se que para os dogmáticos a Educação Física não pode ser comparada ao esporte moderno. E a Educação Física, para esses autores, é compreendida também como manifestações culturais das mais diversas e que incluem vários elementos daquilo que se conhece por “cultura popular”: exercícios ginásticos, a ioga e as danças populares.
O fato é que muitos autores brasileiros, a exemplo de Ramos, faziam menção a uma realidade que não era a do país, e isso é indicativo de uma preocupação internacional que chegava ao Brasil e também atingia os adeptos dogmáticos brasileiros. Ramos exibia com frequência uma preocupação com a necessidade de preservar a pluralidade das práticas corporais das mais diversas origens culturais e de preservar os ideais humanitários da Educação Física:
Para terminar, acentuando o ideal a atingir pelo exercício físico sob o ponto de vista educacional, façamos nossas as observações de Pierre Seurin, figura de primeiro plano da FIEP, transcritas do jornal Le Monde: “O fato importante – o fato mundial – é que todos os países têm tomado perfeita consciência da importância humana e social da Educação Física; a confusão mais frequente entre exercício físico e desporto de grande competição (amador ou profissional) é ainda obstáculo sério aos programas de Educação Física no Mundo. O poder central (por demagogia), o público (por interesse imediato), mesmo os pais dos praticantes (por incompreensão) têm enorme tendência a ceder ao “desporto espetáculo”. No entanto, devemos esperar que um dia os educadores físicos do mundo inteiro, intimamente ligados pelos princípios essenciais, saberão impor, em todos os países, uma Educação Física racional, estruturada para ser posta, verdadeiramente, a serviço do homem e da sociedade.114
113 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1973, p.35. 114 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1970, p.90.
Ramos, oficial militar, colocava-se como exceção à regra, pois sua visão era francamente distinta das orientações oficiais para a área, que estavam influenciadas pela orientação pragmática. Seurin alertava para a necessidade de o educador tomar algumas precauções com a utilização do esporte.
O que foi para nós e para os nossos camaradas, uma coisa excelente e agradável, não é talvez a melhor, ou pelo menos a mais interessante das atividades para a juventude moderna. Sejamos, pois, moderados nos nossos “entusiasmos desportivos” e prudentes na nossa ação educativa. Tudo está por fazer, neste campo. Nós falamos, com efeito, de uma coisa que conhecemos muito mal ou muito facciosamente, mesmo parcialmente. Por agora, não podemos senão dar opiniões baseadas na nossa fé no desporto e em algumas observações pessoais. Tudo isso já foi dito pelo brilhante Dumazedier, sociólogo atento aos benefícios da Educação Física como pedagogia do caráter.115
O interesse pela valorização da Educação Física atingiu o Brasil num momento marcado historicamente pela repressão política e pelo estado de exceção, com a ditadura militar implantada em 1964 e o endurecimento do regime no governo Médici, também conhecido como “anos de chumbo”. Apesar da postura autoritária em solo tupiniquim, esse governo seguiu a tendência mundial de valorização dessa prática cultural que afirmou e corroborou a orientação pragmática, qual seja, o esporte de alto rendimento. Seurin apontou certa desconfiança em relação às benesses educacionais do esporte:
Não resta dúvida, pois, que a “motivação desportiva”, na medida em que se deixasse arrastar pelo interesse da competição (que, aliás, é a sua característica saliente), implicaria uma limitação absurda das possibilidades educativas. Mas nós devemos, entretanto, lembrar-nos de que “o que é” resulta, a maior parte das vezes, da ação do meio social: tradições, moda, propaganda; e, até, interesses financeiros, ambições locais, nacionais etc.116
Além dessas críticas, Seurin alertou quanto ao malefício que a especialização poderia causar no âmbito da Educação Física:
A motivação desportiva situa-se, assim, muito naturalmente, na grande corrente da pedagogia moderna – e é isso que, para muitos educadores, a torna sedutora. Manifesta-se, assim, a tendência pela especialidade e para a especialidade – o mesmo acontecendo em relação ao desporto, como se não existissem outros objetivos para uma
115 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1970, p.90. 116 Ibidem, p.90.
educação para a vida! E pode ainda admitir-se que, para certo número de educadores, pelo menos (é preciso ser realista), a educação geral, a partir de uma técnica particular, se transformaria, por fim, em ensino para a especialidade. E isto, apesar das recomendações expressas dos responsáveis pela Educação Física!
Poderia admitir-se, em tal caso, o desaparecimento do conceito fundamental de Educação Física, que é “educação em geral por meio de atividades psicomotrizes”. Ora, esta noção é essencial, porque, neste domínio como muitos outros domínios educativos, a escolha dos meios é muitas vezes secundária, em relação ao espírito que anima a sua utilização. Só os bons professores poderão superar esta barreira inicial que será, entretanto, tanto menos perigosa quanto mais elevada for o nível científico e pedagógico.117
O autor também adotava uma postura conservadora quando defendia a manutenção de uma determinada tradição da Educação Física, apontando o esporte como um elemento novo, ou como uma prática modernizadora. Para ele, a especialização dos professores da Educação Física na escola a partir dos esportes seria prejudicial aos cânones da disciplina. O aspecto modernizador (a adesão ao esporte pela Educação Física), rechaçado por Seurin e seus seguidores dogmáticos, foi justamente reivindicado como desejável pelo ideário oficial militar e por boa parte dos educadores físicos.
Na ótica dogmática, o esporte de competição seria o contraponto da possibilidade educativa. Sua dimensão pedagógica estaria eclipsada pela busca incessante da competição, pelo seu caráter de fim em si mesmo, pela busca da vitória a qualquer preço, sendo denunciado como exclusivista, ou seja, seletivo, em que os melhores e os mais aptos (leia-se mais bem preparados fisicamente) seriam os escolhidos.
Na verdade o mal não estava no esporte em si, mas nos seus excessos, no uso indevido que se fazia da prática esportiva. O imediatismo e a improbidade do fenômeno esportivo não configuravam uma possibilidade educativa por excelência. Antes contribuíram para exacerbar a competição, o exclusivismo, o alto rendimento e a busca incessante da vitória como um dos mais nobres ideais educativos.118
A “competição”, o “alto rendimento” e a “busca incessante da vitória” representavam as palavras-chave do pragmatismo, ou seja, o esporte como um fim em si mesmo, desenvolvido por uma lógica independente de qualquer influência educativa de caráter humanista. Para os pragmáticos, o esporte era sinônimo de Educação Física. Dessa forma, sendo o primado do esporte a competição, ele só poderia se apoiar no alto rendimento, na
117 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1970, p.90.
técnica, na preparação individual de cada atleta, mesmo em se tratando de um esporte coletivo. Até a preparação de uma equipe de futebol, por exemplo, passava a ser tratada como grande engrenagem, e cada atleta teria uma preparação individualizada (de acordo com seu perfil atlético) para o bom funcionamento da máquina.