Na RBEF94, periódico mais abrangente do ideário militar para o setor, o tema mais recorrente foi o da cientificidade da Educação Física e o espaço que os esportes deveriam ocupar dentro dessa área. O apelo científico não era prerrogativa exclusiva do governo militar. Desde o Estado Novo de Getúlio Vargas foi nítida a preocupação com o “novo homem” que estava sendo “construído”, além do tom cientificista das diversas teorias higienistas que tanto influenciaram a Educação Física no início do século XX, no Brasil e também no mundo ocidental, bem como dos próprios métodos ginásticos desenvolvidos na Europa a partir dos primeiros anos do século XIX.95
Apesar das várias denominações96, a RBEF sempre permaneceu sob a influência do MEC. Até o número 10 (1970) foi distribuída, com ônus financeiro, pelos postos da Fundação Nacional de Material Escolar (FENAME). A partir do número 11 (1971) estabeleceu-se o critério de assinatura não gratuita, mas a partir do número 47 (1981) voltaria a ser distribuída gratuitamente. Sua tiragem inicial era de 2.000 exemplares, aumentando para 5.000 a partir do
93 Revista Brasileira de Educação Física. “Campanha de Esclarecimento Esportivo”. Brasília: MEC, 1974, p.21. 94 A RBEF foi editada a partir de 1968, ainda no governo Costa e Silva (1967-1969), pela Divisão de Educação
Física (DEF) do MEC. A partir de 1971, a Divisão de Educação Física passaria a se chamar Departamento de Educação Física e Desportos (DED), para, em 1980, novamente alterar sua dominação para Secretaria de Educação Física e Desportos (SEED.) Até seu número 8 (1969), a Revista Brasileira de Educação Física e
Desportos denominava-se Boletim Técnico e Informativo de Educação Física. Depois, seu nome foi alterado para Revista Brasileira de Educação Física e Desportiva (1970), para Revista Brasileira de Educação Física (1971) e, finalmente, Revista Brasileira de Educação Física e Desportos (1975), nome que permaneceu até sua última edição, em 1984, ano do seu término.
95 FERREIRA, João Fernando. A Construção do Pacaembu. São Paulo: Paz e Terra, 2008, p.45.
96 Para evitar algum tipo de equívoco, haja vista as inúmeras denominações, esta tese sempre se dirige ao
número 06 (1969) e saltando para 50.000 a partir do número 47 (1980). O último número (53) saiu com uma tiragem de 100.000 exemplares.97
Figura 5 - Capa da RBEF de 1971: “Brasil: potência olímpica”.98
Nas páginas da revista circulavam autores nacionais e estrangeiros das mais diversas orientações. Do ponto de vista do seu conteúdo, a revista possuía um discurso atrelado ao discurso estadunidense e da Europa dita ocidental, com um teor técnico enfatizando a prática esportiva e o culto do corpo mediante as “novas” teorias científicas que enfocavam a Educação Física e os esportes brasileiros. Mas era visível a divergência dentro do periódico. E esses conflitos manifestavam-se em torno da melhor forma de incluir o esporte entre as atividades da Educação Física. Esse embate vinha de fora e caracterizava-se como o enfrentamento de duas tendências distintas: a “pragmática” e a “dogmática”. A classificação das duas tendências apareceu nas páginas da própria revista:
97 OLIVEIRA, Marcus Aurélio Taborda. A Revista de Educação Física e Desportos (1968-1984) e a
experiência cotidiana de professores da rede municipal de ensino de Curitiba: entre adesão e a resistência. Tese (Doutorado em Educação), PUC/SP, São Paulo, 2001, p.70.
O dogmatismo tem uma preocupação com a formação humana a partir das atividades corporais, contribuindo com a Educação Física para a integração social dos indivíduos. A Ioga e muitas artes orientais, assim como danças se tornam importantes na dimensão humanista do esporte como forjador de caráter e integrador social. O esporte como meio de educação e dignificação humana. O pragmatismo aponta abordagem competitiva em relação à Educação Física. Ação competitiva e vitoriosa vinculada aos cânones da ciência esportiva. Tendência, essa, movimentada pelo desempenho individual na representação do seu município, do seu estado e da Nação que o atleta deve representar.99
Em análise aos exemplares da RBEF, verifica-se que havia uma quantidade maior de artigos de orientação pragmática. Os editoriais caracterizavam-se muito mais como panfletos apologéticos dos feitos do governo autoritário, quase sempre de autoria de um militar. Quando procuravam dar um enfoque mais técnico, os editoriais faziam apologia ao esporte de alto rendimento e defendiam a necessidade de desenvolvimento das atividades esportivas no país. Ou seja, mesmo havendo um debate entre as duas tendências no interior da revista, a visão oficial tendia, na maioria das vezes, para a orientação pragmática, em que o esporte de alto rendimento era o ponto nodal da política ditatorial.
A revista abriu espaço para a exposição e o debate de ideias. E essas ideias manifestavam-se em posições antagônicas acerca da importância da Educação Física na formação dos indivíduos. Em linhas gerais, o periódico expressava como os militares divulgaram e conformaram um determinado modelo de Educação Física para a escola, para a universidade e, por conseguinte, para a “Pátria”. Modelo que se baseava na técnica, no rendimento, na competição e no desempenho esportivo. Ou seja, os militares, em quase sua totalidade, advogavam a visão pragmática da Educação Física.
Na década de 1970, havia um embate internacional em torno da importância e do significado da Educação Física na escola. Assim, emergiam preocupações dos mais diversos agentes sociais e órgãos governamentais no sentido de uma renovação da Educação Física brasileira. “E o governo, através de todo um aparato legislativo, antecipou-se na direção dessa
renovação, organizando muitas das reivindicações feitas pelos profissionais da área.”100
A intenção era forjar atletas que pudessem representar a pátria e conquistar medalhas e taças em disputas internacionais. Numa época em que os números eram importantes, figurar entre os primeiros tornava-se a mola propulsora da ação. A quantificação foi alçada como
99 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1972, p.98.
100 OLIVEIRA, Marcus Aurélio Taborda. A Revista de Educação Física e Desportos (1968-1984) e a
experiência cotidiana de professores da rede municipal de ensino de Curitiba: entre adesão e a resistência. Tese (Doutorado em Educação), PUC/SP, São Paulo, 2001, p.82.
fator de superioridade. Não por acaso o milésimo gol de Pelé, em 1969, foi veiculado nos jornais mundo afora como prova quantitativa da superioridade do “rei do futebol”.
A Educação Física, associada ao milagre econômico brasileiro, trouxe também mostras significativas de como, àquela época, essa disciplina passava a ser concebida com um forte apelo científico. O apelo à ordem científica representaria a possibilidade de dotá-la de legitimidade, de um reconhecimento social, a partir da racionalização das suas práticas, que passariam a ter mais sentido na direta proporção do seu atrelamento aos cânones científicos.101
Nas páginas desse periódico, o apelo à ciência aparece de forma um tanto quanto confusa, pois, na maioria das vezes, a ciência se confunde com a técnica, concebendo-se essa técnica nos moldes tradicionais de mensuração, verificação, controle e prova. E o discurso cientificista foi pauta mundial, exemplo disso diz respeito ao método desenvolvido nos Estados Unidos por Kenneth Cooper102.
Por muito tempo as formulações de Cooper foram incorporadas como o método mais avançado no que se refere à pesquisa científica nas atividades físicas. A corrida de longa distância e as teorias acerca do ritmo dos batimentos cardíacos em relação ao peso do corpo e ao desempenho de cada atleta ajudaram Cooper a disseminar a ideia de que saúde é apenas uma questão de comportamento individual, de postura e do bom ordenamento do corpo.103
Na RBEF podemos acompanhar as formas de apelo científico. Um bom exemplo é o artigo de Lamartine Pereira da Costa:
Para a solução de muito de nossos problemas está a incidência da pesquisa científica na Educação Física. A pesquisa deve ser despertada e incentivada entre alunos e professores dentro das condições materiais disponíveis e essencialmente no campo dos desportos.104
A retórica da produção científica colocava-se como a panaceia capaz de resolver os problemas da área. No Diagnóstico, de autoria do próprio Lamartine, nota-se que a ciência deveria ser o vetor entre a Educação Física e o jovem brasileiro:
101 OLIVEIRA, Marcus Aurélio Taborda. A Revista de Educação Física e Desportos (1968-1984) e a
experiência cotidiana de professores da rede municipal de ensino de Curitiba: entre adesão e a resistência. Tese (Doutorado em Educação), PUC/SP, São Paulo, 2001.
102 Kenneth Cooper foi o autor do livro Aerobics, que deu origem à ginástica aeróbica praticada tanto nas
academias como competitivamente, pela Federação Internacional de Ginástica. Publicou o livro em 1968, com o intuito de aperfeiçoar a preparação física das forças armadas estadunidenses.
103 SOBRAL, Francisco. Cientismo e credulidade. Porto Alegre: Latus, 1995, p.209. 104 Revista Brasileira de Educação Física. Brasília: MEC, 1974, p.34.
Não é mais possível nos abster dos benefícios que traz a ciência nos dias de hoje e nos dias vindouros. Os jovens são os mais beneficiados desse modernismo e eles serão determinantes para colocar em prática os anseios do governo revolucionário. E a ciência, aspecto determinante da civilização moderna, é, talvez, o maior aliado de um humanismo do corpo, porque, afinal de contas, a ciência ensina-nos precisamente que o corpo pode nos trazer os benefícios para uma grande nação.105
Também a pesquisa científica era pedida no ambiente escolar e defendia-se a necessidade de uma boa formação científica para o professor de Educação Física dentro da escola:
No âmbito escolar, só podemos registrar a inexistência quase total de pesquisa, podendo-se tão somente louvar os esforços isolados desenvolvidos por uns poucos docentes. Três são os fatores responsáveis pelo estado atual da pesquisa, insignificante ou praticamente inexistente no campo da educação e da Educação Física: falta de reconhecimento da necessidade de pesquisas educacionais; falta de aceitação dos resultados das pesquisas educacionais; e falta de recursos para custear os projetos de pesquisas educacionais.106
Fica evidente que o autor do artigo chamava a atenção para a vinculação entre pesquisa educacional e pesquisa em Educação Física, além do diagnóstico da falta de uma postura científica por parte dos professores da área. Também é digno de nota que a Educação Física entrava no debate em todos os seus segmentos, tanto para os teóricos do regime como por parte dos professores das escolas, haja vista que os autores eram em boa parte professores e lecionavam para estudantes do ensino colegial.
Outro fator relevante na cientificidade da Educação Física foi a necessidade de legitimação desse campo por parte da área educacional. Nesse sentido, muitos professores aderiram ao projeto político proposto pelo governo Médici. E para essa legitimação a adesão à ciência era prerrogativa básica naquele momento de tecnização vivido pelo país.
Mas o desenvolvimento científico da Educação Física, ou pelo menos a sua pretensão, tem se mostrado mais como prescrição ideológica do que como um elemento realmente potencializador das suas práticas no contexto societário. Daí a recorrência ao termo “cientificismo”. Entendê-lo como fenômeno histórico carregado de determinações históricas e ideológicas é imprescindível. Sua dimensão teleológica deita raízes na constituição da própria modernidade ocidental, como já
105 COSTA, Lamartine Pereira da (coord.). Diagnóstico de Educação Física e Desportos no Brasil. Brasília:
MEC, 1971, p.189.
tive oportunidade de apontar. A crença irrestrita na ciência para perscrutar a realidade, para explicar o real, converteu-se num dos aspectos mais significativos do legado iluminista. Assim, a ciência se prova pelo seu poder explicativo. Do ponto de vista da verdade, o saber científico seria superior a todas as formas de saber. Não por outro motivo são obscurecidas todas as demais formas de saber, principalmente o “saber comum”, um dos mananciais mais profícuos da Educação Física escolar.107
A Educação Física e os esportes foram influenciados pelo discurso científico. E isso tem implicações diversas para a cultura brasileira no período em questão: de um lado, observamos a profunda dependência brasileira em relação aos conhecimentos produzidos nos centros mais desenvolvidos; do outro, foi evidente o esforço de integração do Brasil ao debate acadêmico-científico internacional envolvendo a Educação Física.108
Dessa forma, percebe-se que essa prática ganhou impulso no país na década de 1970. A tecnificação e o cientificismo da Educação Física e dos esportes eram clamados por muitos e odiados e rechaçados por alguns teóricos dogmáticos, conforme indica o próximo tópico.