Há um marco temporal inaugural dos estudos sobre o tipo penal. Beling foi o primeiro autor a determinar a autonomia conceitual da estrutura do tipo penal168,
166
“A tipicidade, como ratio essendi da ilicitude, comporta duas alternativas. Uma considera que a tipicidade implica a ilicitude, e esta resulta excluída em face de uma causa de justificação. É a chamada teoria do „tipo de injusto‟, sustentada principalmente por Mezger e Sauer. Outra é a teoria dos elementos negativos do tipo, tendo como principal formulador Adolf Merkel.” (VARGAS, José Cirilo de. Do tipo penal, p. 52).
167
Echandía realiza esta divisão das fases de evolução do tipo de forma diversa: “Siguiendo el planteamiento del Profesor Jimenez de Asúa, dividiremos el estúdio de la tipicidad al través del tiempo en seis etapas: a) La de su independencia; b) la del carácter indiciario do injusto; c) la de la ratio essendi de la antijuridicidad; d) la nueva concepción belingniana; e) la de su fase destructiva, y f) la actual.” (ECHANDÍA, Alfonso Reyes. Tipicidad, p. 2).
De acordo com o autor, a fase destrutiva se refere à negação do princípio da legalidade no Direito Penal nacional-socialista da Alemanha de Hitler (ECHANDÍA, Alfonso Reyes. Tipicidad, p. 6/7). Certo é que a Lei de junho de 1935 deu nova redação ao parágrafo 2º do Código Penal alemão, de 1871. Ali se introduziu a analogia, conforme indica a expressão Gesundesvolksempfinden (são sentimento do povo), como forma de interpretação judicial. Mesmo que não se considere a negação total da legalidade nessa legislação, fica claro que o estudo do tipo se afastou, naquela época histórica, da sua importante função de garantia.
168
Conforme já mencionado anteriormente, e aqui novamente apresentado por Stratenwerth: “El concepto de tipo se remonta históricamente al de „corpus delicti‟, que se puede ver por primera vez en
colocando-o definitivamente na estrutura analítica do delito. Antes de ele formular tal conceito, o delito era analiticamente definido em um esquema teórico bipartido: era composto por uma força física e por outra força moral.169
A primeira, força física, podia ser definida como um movimento corpóreo humano ou, ainda, a inércia em determinados casos específicos. Já a força moral era a vontade de realização da conduta comissiva/omissiva. Ainda, compunha esta parte moral do delito o desejo de contrariar o ordenamento jurídico positivado.
Nesta época, as categorias do crime ainda não eram separadas de forma analiticamente tripartida (tipo penal, ilicitude e culpabilidade). Estes três elementos estavam compreendidos implicitamente no conceito do crime, na sua parte objetiva (força física) ou na sua parte subjetiva (força moral).170 Houve a elaboração de uma interessante teoria da imputação: ao agente que realiza a força física se imputa objetivamente a prática do delito, sendo que a imputação subjetiva de resultado dependerá da realização da força moral.171
Farinacius (1581). Primeramente fue denominada „corpus delicti‟ la totalidad de las huellas externas de la comisión de un delito; más tarde – en siglo XVIII y principios de XIX – la totalidad de los elementos que integran un delito determinado. Recién Beling le atribuyó al „tipo‟ el papel autônomo en la estructura del delicto, que permite contraponerlo a la antijuridicidad y la culpabilidad.” (STRATENWERTH, Günter. Derecho penal; parte general I – el hecho punible. 4 ed. alemã/ 1ª ed e 1ª reimpresión argentina. Traducción de Manuel Cancio Meliá y Marcelo A. Sancinetti. Buenos Aires: Hammurabi, 2008, p. 125)
169
Veja-se, neste sentido, Carrara: “Puesto que el delito consiste en choque entre un hecho humano y un derecho, es preciso encontrar en el mismo el concorso de dos fuerzas. Estas dos fuerzas que constituyen su esencia política, son ambas indispensables, para que un hecho del hombre pueda serle a este reprochado como delito. Fuerza moral; fuerza física. Las dos fuerzas que la naturaleza há dado al hombre, el conjunto de las cuales constituye su personalidad, deben concurrir en un hecho, para que sea acto humano y pueda llarmarse delito.” (CARRARA, Francesco. Programa del curso de
derecho criminal – parte general. V. I. Traducción de la 11 edición italiana por Sebastián Soler, con la
colaboración de Ernesto R. Gavier y Ricardo C. Nuñez. Buenos Aires: Editorial Depalma, 1944, p. 66/67).
Merkel apresenta uma semelhante definição, com outra nomenclatura: “Los caracteres constitutivos del delito pueden dividirse em referentes al aspecto interno del hecho y referentes al aspecto externo. Los primeros forman los elementos subjetivos o internos del delito, y los segundos los objetivos o externos.” (MERKEL, Adolf. Derecho penal; parte general, p. 34)
170
Conforme sustenta Roxin: “Algo semejante sucede con el no hegeliano Luden, en cuya obra „Strafrechtliche Abhandlugen‟ (1840) se puede encontrar una división del delito que se aproxima ya sorprendentemente a los proyectos sistemáticos del siglo XX, cuando distingue: „1º) un fenômeno delictivo, provocado por una acción humana; 2º) antijuridicidad de esa acción; 3º) cualidad dolosa o culposa de esa acción.” (LUDEN. Strafrechtliche Abhandlugen. T. 2, 1840, p. 110 e 130. Apud ROXIN, Claus. Derecho penal; parte general. T. I., p. 236)
171
Segundo Bitencourt, foi Puffendorf, entre outros, quem sustentou que o crime era determinado pela imputação a alguém de um resultado (passível de apenação) em virtude do cometimento de um
No final do século XIX, iniciou-se uma estruturação mais complexa dos elementos que compõem o conceito de delito, a partir da concepção causal de ação penal. Von Liszt e Beling analisaram o conceito bipartido de delito, até então dominante, e entenderam existirem mais características a serem definidas.
O ponto de partida desta estruturação dos elementos do crime, para a concepção causalista, era o conceito de ação penalmente relevante. A partir da idéia de causa e efeito, definiu-se que ação é a manifestação humana voluntária, cujo movimento corpóreo produz alteração no mundo exterior.172
O conceito analítico de crime se estruturou a partir da teoria da ação penalmente relevante. Tratava-se de uma concepção positivista (denominada positivismo naturalista, ou científico), que tentava explicar os fenômenos humanos através dos fenômenos naturais. Entendia-se que o fenômeno cultural (produzido pelo homem) era faticamente igual ao fenômeno da natureza. As questões dogmáticas, na teoria do crime, eram resolvidas a partir da metodologia das ciências do ser. Tal raciocínio era considerado aplicável às ciências sociais (portanto, à ciência do Direito).173
fato. Assim, conforme essa concepção, “antijuridicidade e culpabilidade confundiam-se em um momento superior de imputação, (...), com a finalidade de distinguir o fato, como obra humana, do puro acaso.” (BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal; parte geral. T. I, p. 138). De acordo com Gomes e García-Pablos de Molina: “O conceito doutrinário ou dogmático de delito (...), na verdade, vem de muito longe (baixa idade média), desde que começaram as primeiras elaborações científicas em torno da pena e do Direito penal. Autores clássicos como Farinácio, Deciano, Carpzov etc. cuidaram da estruturação (ainda que primária) de todos os pressupostos da imposição de uma pena. Foi, entretanto, com o Direito natural e as teorias da imputação (imputatio facti e imputatio iuris) que o conceito de delito ganhou forte impulso. A segunda metade do século XIX é o marco histórico da origem mais próxima das concepções científicas em torno do delito.” (GOMES, Luiz Flávio; GARCÍA-PABLO DE MOLINA, Antônio. Direito penal; parte geral. V. 2. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 173)
172“Ação é, pois, o fato que repousa sobre a vontade humana, a mudança do mundo exterior referível
à vontade do homem. Sem ato de vontade não há ação, não há injusto, não há crime: cogitationis poenam nemo patitur.” (VON LISZT, Franz. Tratado de direito penal. T I., p. 217)
173
“La formulación clásica del concepto naturalista de acción dada por Liszt y Beling es un concepto claro e decididamente previo al derecho, no sólo por razones ontológicas, sino también de practicabilidad, ya que se suponía que solamente un concepto similar de acción podría servir de base común a los delitos dolosos y culposos, por estar completamente libre de toda valoración. Se le llama natural, porque pretende aplicar las leyes de las ciencias naturales al derecho penal y considerar la realización del tipo como una mera consecuencia científico-natural del acontecer causal previo. Esta construcción es el producto característico del pensamiento científico-natural que dominó el último tercio del siglo XIX, invadiendo incluso las ciencias sociales. Así como todo acontecimiento natural es el resultado de una cadena causal, también lo es el delito.” (MAURACH, Reinhart; ZIPF, Heinz.
Este sistema baseava-se na idéia de causa e efeito: a manifestação humana voluntária era a causa (que abrangia as comissões e as omissões, em um conceito lato174), enquanto a modificação do mundo natural exterior era o resultado (efeito). Havia uma relação mecanicista entre a conduta e o resultado, determinada pelo conceito de ação penalmente relevante que foi adotado.
Desde o sistema causal, tem-se como mais importante o desvalor do resultado, em relação ao desvalor da ação. Isto se explica com a constatação de que a ação penalmente relevante, em si mesma, não é desvalorada. Ela apenas gera um fato material que se adequa ao tipo penal (tipicidade), quando produz um resultado (modificador do mundo exterior). A ação causal pode ser definida como um comportamento voluntário que não é analisado em seu conteúdo volitivo (isto fica para a culpabilidade). Interessa, nela, apenas a adequação típica objetiva e a constatação do resultado.175
Pode-se aceitar, como crítica ao sistema causal, que esta teoria se limita a verificar a voluntariedade da ação e deixa para o momento da culpabilidade a análise do conteúdo desta vontade. Ocorre que, ao se colocar o conteúdo da intencionalidade fora do conceito de ação penalmente relevante, gera-se uma análise cega e mecânica deste último conceito.176
174
Todavia, uma primeira crítica pode ser feita ao sistema causalista. O conceito de ação desenvolvido por Liszt e Beling não explicava adequadamente a omissão penalmente relevante, pois nela não há nenhum movimento corpóreo. Mais que isto, não se produz nenhum resultado físico através de uma omissão. Pode-se afirmar, fisicamente, que “do nada, nada surge”. Conforme afirma Cerezo Mir, o conceito causal não era aplicado à omissão: “En ésta falta una relación de causalidad entre la no realización de un movimiento corporal y el resultado y, por otra parte, aunque la omisión puede ser voluntaria, la voluntariedad no es inherente alm concepto de la omisión. La voluntariedad puede faltar en la omisión imprudente.” (CEREZO MIR, José. Derecho penal; parte general. 1ª ed. brasileira. São Paulo/Lima: Revista dos Tribunais/Ara Editores, 2007, p. 392/393)
175
Importa conceituar a expressão “impulso”, na teoria causalista. Assim: “El „impulso de voluntad‟ sólo importaba en cuanto causa de la conducta externa, por lo que era indiferente cuál fuera el contenido de la voluntad y si se dirigía o no a realizar el hecho producido, con tal de que hubiera causado el movimiento corporal externo. La dirección final de la voluntad no se toma en cuenta por el concepto de acción.” (MIR PUIG, Santiago. Derecho penal; parte general, p. 183)
176
Veja-se a crítica de Welzel (WELZEL, Hans. O novo sistema jurídico-penal; uma introdução à doutrina da ação finalista, p. 35):
“O defeito fundamental da teoria da ação causal consiste no fato de que não apenas desconhece a função absolutamente constitutiva da vontade, como fator de direção da ação, mas também destrói e converte a ação em mero processo causal desencadeado por um ato voluntário qualquer („ato voluntário‟).
A partir da noção de ação penalmente relevante, Liszt e Beling estruturam o conceito analítico de crime. Mantiveram a idéia de que o delito tem dois aspectos: objetivo e subjetivo. Evidentemente, mesmo mantendo divisão semelhante, tratava- se de uma teoria que evoluiu em suas premissas, desde Puffendorf e Carmignani. Inicialmente, ainda não havia uma sistematização do conceito de tipo penal. Dividia- se a estrutura do delito nas suas partes objetiva (conduta ilícita) e subjetiva (culpabilidade). Foi apenas com Beling que surgiu o referido conceito.
Como já visto, Beling apresentou um conceito de tipo em obra publicada em 1906. Ele deu um sentido restrito ao termo Tatbestand177, no sentido de significar a descrição legal de ação punível (traduzido, no Brasil, como tipo penal).
Na obra de Beling, foi desenvolvido o primeiro conceito analítico de crime concebido com a atual forma tripartida: tipo penal, ilicitude e culpabilidade. Todavia, mesmo com esta tripartição, o autor ainda separava de forma absoluta as partes objetiva e subjetiva do delito. O tipo e a ilicitude eram objetivos, enquanto a culpabilidade era a própria expressão de vontade do agente, sendo um elemento de ordem psicológica.178
A culpabilidade constituía o vínculo subjetivo do agente com a sua conduta objetiva determinada pelo injusto, ali incluindo o resultado dela proveniente. Tal vínculo, conforme a doutrina causalista, era expresso pelo dolo e pela culpa. Estes dois conceitos eram as formas de manifestação da relação psicológica existente entre o agente e o fato praticado/resultado obtido.179 Assim, dolo (normativo, com a
Ignora que toda ação é uma obra (mais ou menos acabada), mediante a qual a vontade humana configura, isto é, dirige o suceder causal. O conteúdo da vontade, que antecipa mentalmente as conseqüências possíveis de um ato voluntário e que dirige, conforme um plano e sobre a base do saber causal, o suceder externo, converte-se em um mero „reflexo‟ do processo causal na alma do autor.”
177
Para a completa conceituação do termo Tatbestand, em momento histórico anterior à utilização feita por Beling (final do século XIX), ver nota de rodapé nº 105, constante do segundo capítulo deste trabalho. Naquela oportunidade, foi demonstrado que o instituto tinha uma conceituação mais ampla do que aquela proposta por Beling. Significava o conjunto de todos os pressupostos para a aplicação da pena. Mais que isto, na citada nota de rodapé, ficou demonstrado que a tradução desta palavra da língua alemã não teve uniformidade. No Brasil, convencionou-se traduzi-la através da palavra tipo.
178
VON BELING, Ernst. Esquema de derecho penal; la doctrina del delito-tipo. Traducción de Sebastián Soler y análisis de Carlos M. de Elía. s/ed. Buenos Aires: Libreria El Foro, 2002, p. 76/77.
179
Neste sentido, ver Beling (VON BELING, Ernst. Esquema de derecho penal; la doctrina del delito- tipo, p. 105). Acresça-se, a este conceito de culpabilidade, a imputabilidade, que lhe é um pressuposto (VON LISZT, Franz. Tratado de direito penal. Tomo I, p. 260 e ss.). Outra interessante (e
consciência atual da ilicitude), e culpa (em sentido estrito), compunham a totalidade do conceito de culpabilidade.180
No âmbito do fato típico, em resumo, verificava-se apenas a conduta humana voluntária (ação ou omissão), o resultado, o nexo de causalidade e a tipicidade
um tanto diversa) definição desta estrutura teórica de culpabilidade pode ser dada por Sebastián Soler. Ao diferenciar os conceitos psicológicos e normativos de culpabilidade, ele demonstra um equívoco nas definições tradicionalmente utilizadas. Ele apresenta sua crítica assim:
“El tema de la culpabilidad es concebido con criterios diferentes y para exponerlos se suele distinguir como fundamentales dos teorías: la psicológica y la normativa. Estas denominaciones engañan con una falsa contraposición y, además, resultan inconvenientes, en cuanto inducen a imponer a cada posición ciertas deformaciones. Es característica en tal sentido la explicación que suele darse de la doctrina tradicional, a la que, en general, se califica como psicologista, diciendo que, según ella, para afirmar la existencia de culpabilidad basta de parte del sujeto el conocimiento de los alcances de la acción, pues aquélla consistiria exclusivamente em la referencia psíquica del sujeto a ciertos acontecimientos externos a su persona. Sería el nexo psíquico que media entre el mundo sensible del autor y el resultado típico.
Esa designación puede considerarse adecuada solamente en cuanto con ella se quiere señalar que la culpabilidad viene a ser la actitud psíquica del sujeto en el momento de la acción, con respecto al hecho que produjo; pero no por ello es correcto entender que el contenido de ese estado subjetivo sea explicable como mera referencia psíquica a un hecho externo considerado como un hecho natural cualquiera. En tal sentido debería más bien decirse que nunca há existido un psicologismo puro, ya que es típico del pensamiento clásico acordar importancia decisiva al conocimiento de la ilicitud del hecho por parte del autor de éste. Y „la ilicitud‟ no es, por cierto, un hecho, sino una cualidad, resultante de una relación entre un hecho e una norma.” (SOLER, Sebastián. Derecho penal
argentino. Tomo II. 11ª reimpresión total. Actualizado por Guillermo J. Fierro. Buenos Aires:
Tipográfica Editora Argentina, 1999/2000, p. 14/16)
O autor conclui que a característica marcante da teoria psicológica da culpabilidade é a verificação real da atitude psicológica do agente com o fato praticado. Assim, ele coloca na referida teoria a denominação de “realista, ou subjetivista”, “pues no consiste en considerar la culpabilidad como una mera referencia psíquica a un hecho externo despojado de toda valoración, sino en una referencia que apunta a la criminalidad del acto y esta calidad es siempre el resultado de una proyección valorativa que, como tal, presupone la existencia de normas, ante las cuales los hechos resultan ser lícitos o ilícitos. Psíquicamente, la referencia a un hecho externio es en si misma neutra al valor, y certamiente la culpabilidad no está constituida por tal referencia.” (SOLER, Sebastián. Derecho penal
argentino. Tomo II, p. 16). Soler propõe substituir a dicotomia entre culpabilidade psicológica e
normativa, por culpabilidade real e presumida. Neste sentido, ele escreveu um artigo esclarecedor (Culpabilidad real e culpabilidad presunta. In: Anuario de Derecho penal, 1962.), que foi transcrito, parcialmente, em outra obra sua (SOLER, Sebastián. Derecho penal argentino. Tomo II, p. 20 e ss.)
180
Conforme Vargas (VARGAS, José Cirilo de. Instituições de direito penal; parte geral. Tomo I, p. 346/347), algumas críticas são sustentáveis quanto a esta teoria psicológica de culpabilidade. Uma delas se relaciona ao equívoco consistente na união de dois conceitos tão distintos em um conceito superior. Dolo e culpa não podem se unir para formar uma categoria mais ampla (culpabilidade), tendo conceitos e estruturas teóricas tão diferentes. Outras duas críticas são apontadas por Vargas (e que ele considera mais consistentes). Primeiramente, ele questiona a neutralidade valorativa do tipo, que não considera os elementos normativos e subjetivos deste conceito. Ao corrigir este equívoco, percebe-se que não se sustenta a dicotomia da culpabilidade subjetiva e do injusto objetivo. Por fim, ele questiona os crimes culposos, afirmando que somente na culpa consciente existirá relação psicológica entre o agente e a conduta punível. Realmente, não há uma explicação adequada para a culpa inconsciente. Como verificar tal liame subjetivo em situação na qual não há vínculo psicológico nenhum (culpa inconsciente)?
(adequação da conduta praticada ao esquema legal descrito em lei). A análise era, basicamente, da causalidade.
Assim, a principal característica do tipo era a sua neutralidade valorativa. A conduta humana voluntária descrita em lei era apresentada de forma absolutamente neutra, sem valorações de qualquer espécie. A simples adequação fática à lei resolvia a tipicidade181, apenas com elementos descritivo-objetivos. Como afirmado, os valores de proibição eram resolvidos na ilicitude e a análise subjetiva da conduta do agente se dava no momento da culpabilidade (com dolo ou culpa).
Faz-se necessário, então, analisar a justificativa desta separação e, mais, como se caracteriza a relação entre as duas categorias componentes do injusto.
Beling entendia que os elementos subjetivos não deviam fazer parte da estrutura típica. Por isto, não admitia aquelas parcelas típicas subjetivas. Para ele, o tipo apresentava somente a parte externa de uma conduta humana, deixando para a culpabilidade a análise interna da vontade do agente.182 Ele assim explicou o motivo da colocação (a seu ver, equivocada) dos elementos subjetivos no tipo:
La doctrina de los „elementos subjetivos del delito-tipo‟ está principalmente determinada por el hecho de que en las leyes penales se encuentran, em forma puramente literal, palabras que anuncian algo externo unido a algo interno (así se podría entender, p. ej., la palabra „impúdico‟ en C.P., 183, en el sentido de que obra „impudicamente‟ sólo aquel que con su acción de carácter sexual quisiera satisfacer sus deseos lascivos). Pero no son las palabras de la ley sino su espíritu, lo que importa para la comprensión del delito- tipo y por ello es tarea de los juristas buscar una expresión verbal para sustituir a esa inadecuada palabra compuesta, expresión que
181
Veja-se o conceito de tipicidade, para Beling: “En estas condiciones, el derecho penal se reduce a un catalogo de tipos delictivos, y la antijuridicidad lo mismo que la culpabilidad subsisten pero como notas conceptuales, de la acción punible, como caracteres externos de la tipicidad entendida en el sentido de adecuación típica (Tatbstandsmässigkeit).” (ECHANDÍA, Alfonso Reyes, La tipicidad, p. 6). Para uma notícia completa do surgimento do termo tipicidade, na obra de Beling, ver Vargas (VARGAS, José Cirilo de. Do tipo penal, p. 30).
182
VON BELING, Ernst. Esquema de derecho penal; la doctrina del delito-tipo, p. 84.
Vargas apresenta a seguinte advertência (VARGAS, José Cirilo de. Instituições de direito penal;