• Sonuç bulunamadı

siyetiyle Komünist Parti'ye propagandada hizmet amacından uzak dunnamış-

Belgede ANDREY TARKOVSKİ SİNEMASI (sayfa 61-65)

O mês de junho de 2013 ficou marcado na história do Brasil como o período no qual foram registradas as maiores manifestações populares no País, até então, desde o Fora Collor21, em 1992, chegando em dado momento a contabilizar 1 milhão de pessoas22. Estes eventos foram largamente acompanhados pela imprensa, e uma dualidade tornou-se bastante evidente: a diferença entre a cobertura realizada pela mídia convencional e aquela feita por mídias alternativas.

Tais protestos tiveram como fortes aliados em sua repercussão as redes sociais, como bem destaca Peruzzo (2013). Essa utilização foi feita não somente pela mídia convencional, como pelos próprios manifestantes e, ainda, por alguns jornalistas reunidos em diversos coletivos pelo País, que cobriram estas manifestações, mostrando angulações que pouco espaço obtinham nos grandes veículos de comunicação.

A mídia alternativa, que tanto repercutiu no Brasil durante o período ditatorial, parecia então ganhar novamente as atenções, desta vez com uma nova práxis. No plano nacional, os jovens da Mídia Ninja23 tiveram a maior repercussão24, divulgando, em tempo real, por meio das redes sociais virtuais, os acontecimentos nos protestos de junho. Em Fortaleza, o Nigéria seguia passos semelhantes. Acompanhando todos os protestos realizados na capital cearense, misturado aos manifestantes, o coletivo foi construindo suas narrativas, que também eram divulgadas por meio das mídias sociais.

Posteriormente, toda a produção audiovisual foi compilada no documentário Com Vandalismo25, que mostra aqueles eventos pela visão dos grupos que passaram, à época, a serem

21

Movimento político ocorrido no ano de 1992, onde milhares de brasileiros saíram às ruas em passeatas pedindo a saída do poder do então presidente da República, Fernando Collor de Mello.

22Conforme reportagem da Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1602961-protestos- de-junho-de-2013-atrairam-1-milhao-no-auge.shtml

23A Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) é uma rede de comunicadores de esquerda, que atua na lógica colaborativa de criação e compartilhamento de conteúdos, com pauta voltada para a “luta social e a articulação das transformações culturais, políticas, econômicas e ambientais”, conforme expresso em seu site: https://ninja.oximity.com/partner/ninja/about.

24A atuação do coletivo lhe rendeu entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 05/08/2013. 25Documentário completo pode ser assistido aqui: https://www.youtube.com/watch?v=KktR7Xvo09s

denominados de “vândalos”, aqueles que aderiram à tática conhecida por Black Bloc26. O documentário contribuiu para humanizar os “mascarados”, apresentando o que pensavam e o que os levavam a seguir aquela tática.

Figura 3: Pôster do documentário Com Vandalismo

Fonte: Nigéria.

Após afirmar, em seu trabalho de 1998, que a imprensa alternativa, no Brasil, havia chegado ao fim, com o término do período ditatorial no País, Peruzzo (2013) reavalia sua afirmação em um trabalho mais recente e afirma, então, que esta imprensa vem sendo recriada ao longo das últimas décadas.

Todos sabem o seu papel histórico nos anos iniciais do regime militar no Brasil, mas que desaparece naquela modalidade (combativa contra a ditadura e o modelo econômico). Com o passar do tempo se reinventa, muda o caráter combativo, mas continua se caracterizando como independente de governos e

26Tática surgida na Alemanha, nos anos 1970. As pessoas que aderem ao grupo usam uma tática de ação direta, de ideais anarquistas. Em geral mascarados e vestidos de preto, questionam a ordem vigente, manifestando-se contra o capitalismo e a globalização.

empresas e não se alinhando ao modo de operar dos grandes meios de comunicação, na sua lógica de mercado e como sistema burocrático. Mantém também seu caráter não aderente aos interesses ideológicos e políticos das classes dominantes. Parece não querer derrubar governos, mas exercitar a liberdade de expressão em favor do interesse público. (PERUZZO, 2013, p. 90)

Os fatos ocorridos em 2013 no Brasil não são isolados no contexto mundial. Experiências semelhantes já vinham eclodindo em outros países, especialmente após os acontecimentos de 1999 em Seattle, como veremos mais adiante. Dois anos depois dali27, portanto após observar uma nova realidade no âmbito da comunicação alternativa surgir, o autor norte-americano John Downing lançou uma obra na qual se debruça sobre o estudo das mídias de oposição, que surgem para quebrar os bloqueios oficiais à expressão pública e que buscam trazer um novo espaço de visibilidade às vozes discordantes, minoritárias e subjugadas.

Nesta análise, ele traz o conceito de “mídia radical” para referir-se a estas experiências. “Com o termo mídia radical, refiro-me à mídia – em geral de pequena escala e sob muitas formas diferentes – que expressa uma visão alternativa às políticas, prioridades e perspectivas hegemônicas” (DOWNING, 2004, p. 21).

Downing cita experiências de mídia radical desde a década de 1980, quando meios, na Alemanha, denunciavam e atacavam a corrida armamentista e os perigos da guerra nuclear. Entretanto, ele destaca que o alcance dessa mídia fortaleceu-se, de fato, no início do século XXI, caracterizando-se pela determinação de ir contra os bloqueios impetrados por diversos setores:

(...) dos poderosos elementos que compõem a dinâmica da economia capitalista, do silêncio do governo, do obscurantismo religioso, dos códigos patriarcais e racistas institucionalizados, de outros códigos hegemônicos aparentemente naturais e razoáveis, do impacto insidioso do populismo reacionário e também dos reflexos de tudo isso na esfera dos próprios movimentos oposicionistas. (DOWNING, 2004, p. 21-22)

O autor afirma que falar apenas em mídia alternativa é quase um paradoxismo, pois, segundo ele, “qualquer coisa, em algum ponto, é alternativa a alguma outra coisa” (Idem, p. 27). Por esta razão, considera necessária a inclusão do termo “radical” para firmar a definição deste

27O livro Radical media: rebellious communication and social movements foi lançado em 2001 na Califórnia. Nesta pesquisa, trabalhamos com a tradução brasileira de Silvana Vieira, lançada, em sua segunda edição, em 2004.

tipo de meio comunicativo, que, aponta, pode se apresentar numa enorme variedade de formatos: desde o teatro de rua e os murais até a dança e a música, e não apenas os usos radicais das tecnologias de rádio, vídeo, imprensa e Internet.

Diante de diversas especificidades, ele defende que o contexto e as consequências devem ser os principais guias ao que pode ou não ser definido como mídia radical alternativa. Downing aponta que, algumas vezes, essa mídia, a depender do ponto de vista do observador ou do ativista, pode representar forças radicalmente negativas, bem como forças construtivas, e cita a mídia radical fundamentalista, racista ou fascista.

Porém, se estes meios possuem algo coisa em comum, este seria o fato de romper regras – embora raramente quebrem todas elas, em todos os aspectos. Em geral, são meios tipicamente de pequena escala, com poucos recursos financeiros e, às vezes, não são amplamente conhecidos. “Às vezes têm vida curta, como uma espécie de epifenômeno; outras, perduram por muitas décadas. Às vezes, são atraentes; às vezes, entediantes e repletos de jargões; às vezes, alarmantes; e, às vezes, dotados de um humor inteligente” (Ibidem, p. 29). Outra característica apontada pelo autor é que:

(...) a mídia radical alternativa geralmente serve a dois propósitos precedentes: a) expressar verticalmente, a partir dos setores subordinados, oposição direta à estrutura de poder e seu comportamento; b) obter, horizontalmente, apoio e solidariedade e construir uma rede de relações contrária às políticas públicas ou mesmo à própria sobrevivência da estrutura de poder. Qualquer exemplo pode incluir ambos os propósitos, vertical e horizontal. (DOWNING, 2014, p. 29-30)

Para analisar este tipo de mídia, Downing traz o conceito de “audiência ativa”, substituindo os conceitos de “público”, “espectador” e “leitor”. Essa alteração se motiva pelo pressuposto de que estas formas alternativas de mídia propõem um público ativo, que questiona os enunciados, agrega novas mensagens a estes e mesmo produz novos produtos de mídia. Esta visão se contrapõe aos três termos acima citados que dão a noção de uma audiência que apenas absorve passivamente as mensagens disseminadas pela grande mídia. “Nesse processo, a linha que separa os usuários de mídia ativos dos produtores de mídia radical alternativa torna-se muito mais indistinta” (Idem, p. 40).

Esta audiência, muitas vezes, é uma referência aos movimentos sociais. Estes, em geral, têm um papel muito maior do que apenas receber as mensagens das mídias radicais. Eles, em

geral, pautam estas mensagens e muitas vezes interferem no produto final. Esta característica é bem visível no coletivo Nigéria. Como veremos mais adiante, os integrantes do grupo, em geral, definem as temáticas dos vídeos que irão produzir através das bandeiras de lutas dos movimentos sociais aos quais mantêm relação mais próxima. Em alguns casos, estes movimentos sugerem mudanças nos vídeos, que são acatadas pelo coletivo, em virtude, inclusive, de um fato citado por Downing e que é característico de mídias radicais:

“(…) podemos concluir, provisoriamente, que a enorme -- ainda que oscilante -- importância da mídia radical alternativa se deve ao fato de ser ela, comumente, que primeiro articula e difunde as questões, as análises e os desafios dos movimentos. Sua fidelidade é devotada, em primeiro lugar, aos movimentos e é por eles que ela nutre seu principal fascínio. (DOWNING, 2004, p. 65-66)

Downing recorre ainda, em sua análise das mídias radicais, a Gramsci, buscando o conceito gramsciano de “intelectual orgânico”. Para Downing, este intelectual “quase que poderia” ser reinterpretado como o comunicador/ativista. “Visto que, para Gramsci, o termo intelectual jamais se referia a pessoas que se põem a pensar grandes pensamentos, que só elas e um pequeno círculo compartilham” (Idem, p. 48). Conforme Downing, Gramsci esperava que os comunicadores intelectuais/ativistas se integrassem de forma orgânica às classes trabalhadoras para a construção de uma ordem social justa e culturalmente superior.

Ele destaca que, mais tarde, a noção de contra-hegemonia se tornou bastante comum entre escritores influenciados pelo pensamento de Gramsci, ainda que este nunca tenha usado esses termos. E essa ideia de contra-hegemônico é fortemente relacionada às mídias radicais, numa alusão às tentativas de contestação das estruturas ideológicas dominantes. “A proliferação dessa mídia seria vital, tanto para ajudar a gerar essas alternativas no debate público como para limitar qualquer tendência da liderança oposicionista, seja qual for a forma que ela assuma, de radicar-se como agência de dominação em vez de liberdade” (Ibidem).

A relação entre entre mídias alternativas e movimentos sociais é sempre muito íntima, muito imbricada. A ponto de o autor afirmar que “a ascensão desses movimentos parece ocasionar e, ao mesmo tempo, ser ocasionada pela mídia radical. De modo inverso, nas épocas em que esses movimentos refluem, o fluxo da mídia alternativa também diminui” (DOWNING, 2014, p. 55). Em virtude desta proximidade, faz-se necessário refletir um pouco sobre o que são

esses movimentos e que bandeiras de lutas trazem, em especial, aqui na realidade latino- americana.

Belgede ANDREY TARKOVSKİ SİNEMASI (sayfa 61-65)