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Belgede ANDREY TARKOVSKİ SİNEMASI (sayfa 79-82)

O que faz de Yargo Gurjão, Roger Pires e Bruno Xavier, jovens jornalistas que compõem o Nigéria, um coletivo? Seria apenas a contraposição numérica ao individual, por serem três e não apenas um? O que este agrupamento traz de diferente a outras formas coletivas de organização já conhecidas na sociedade? Esta discussão torna-se imprescindível para a compreensão do objeto de estudo que temos em mãos.

O Nigéria, como os seus próprios integrantes afirmam, é uma produtora de audiovisual. Por outro lado, os anseios, desejos e motivações que os levaram a formarem-se como um grupo os encaminharam para uma organização diferente de uma empresa comercial, como veremos mais adiante. Definem-se como um coletivo e, com essa denominação, trazem para si um universo de significação que, desde o século passado, começou a transformar o sentido desta palavra em meio às organizações da sociedade civil.

Por que se unir em grupo? Maffesoli (1998) defende que “enquanto a lógica individualista se apoia numa identidade separada e fechada sobre si mesma, a pessoa (persona) só existe na relação com o outro” (p.15). O autor aponta uma tendência nas sociedades de massa de hoje para o declínio do individualismo. Ele cunha o termo “neotribalismo” para falar da emergência de um forte sentimento coletivo, identificada na necessidade cada vez mais evidente das pessoas de se organizarem em grupo. Esta seria a primeira etapa para o surgimento de um social racionalizado para uma sociedade empática. Este período “empático”, segundo ele, seria o

“perder-se” em um sujeito coletivo, seria a indiferenciação, o neotribalismo, como uma oposição à separação e à individuação.

Maffesoli recorre a Durkheim para explicar a motivação para a criação dessas comunidades emocionais.

A sua maneira, Durkheim não deixou de sublinhar esse fato. E se, por hábito, permanece prudente, nem por isso deixa de falar da “natureza social dos sentimentos” e enfatizar sua eficácia. “Indignamo-nos em comum”, escreve, e sua descrição remete à proximidade do bairro e à sua misteriosa “força de atração” que faz com que alguma coisa tome corpo. É neste quadro que se exprime a paixão, que as crenças comuns são elaboradas, ou, simplesmente, que se procura a companhia “daqueles que pensam e que sentem como nós”. (MAFFESOLI, 2008, p.18-19)

Essa necessidade de se afastar do individualismo e procurar uma identificação coletiva é discutida por Escóssia e Kastrup (2005), que buscam uma análise tanto no âmbito da sociologia, como no da psicologia. As autoras questionam a ideia fundada pelo pensamento moderno, segundo elas confusa, de uma dicotomia entre indivíduo e sociedade.

O conceito de coletivo tem sido freqüentemente utilizado, seja no âmbito da psicologia, seja no âmbito da sociologia, para designar uma dimensão da realidade que se opõe a uma dimensão individual. Entendido desta maneira, o coletivo se confunde com o social, sendo representado através de categorias como Estado, Família, Igreja, Comunidades, Povo, Nação, Massa ou Classe e investigado no que diz respeito à dinâmica de interações individuais ou grupais. Este modo de apreensão do coletivo/social deriva de uma abordagem dicotômica da realidade característica das ciências modernas, cujo efeito, dentre os mais visíveis, é a separação dos objetos e dos saberes. (ESCÓSSIA & KASTRUP, 2005, p. 295)

Escóssia & Kastrup se apoiam, então, em autores como Gilles Deleuze & Félix Guattari (1995; 1996), Michel Foucault (1972; 1977; 1985), Bruno Latour (1993; 1994), Michel Callon & John Law (1997) para propor um conceito de coletivo que não se reduz ao social ou à coletividade, tampouco ao jogo de interações sociais. Para elas, indivíduo e sociedade são polos preexistentes à sua interação.

Ancorando-se em Latour, Callon e Law, elas defendem que “o coletivo pode ser entendido como rede social, desde que se garanta o princípio da heterogeneidade do social, assim como de toda e qualquer entidade, seja ela um indivíduo, uma comunidade, um texto ou um

objeto técnico” (p. 301). A teoria de ator-rede de Latour (1993) é fundamental para a formulação do conceito aqui buscado. Este não se define na busca de um ser uno, estático e idêntico a si próprio. Por outro lado, ele busca uma identidade plural, movente e constantemente diferenciada e distante de si.

Partindo desse pressuposto, as autoras afirmam que “definir as entidades que compõem os coletivos como redes significa defini-las como efeito de processos de composições e associações que lhes conferem formas sempre provisórias” (p. 302). Com isso, defendem que coletivos são entidades híbridas, que possuem geografias variáveis, com conteúdos ou propriedades não fixados de uma vez por todas. Seguindo o entendimento de Callon & Law (1997), a identidade das entidades híbridas aqui citadas vai se construindo a partir das interações que vão sendo criadas. Não são estáticas, modificam-se com o curso das ações.

Buscando em Guattari (1992) a noção de que o coletivo deve ser entendido “no sentido de uma multiplicidade que se desenvolve para além do indivíduo, junto ao socius, assim como aquém da pessoa, junto a intensidades pré-verbais, derivando de uma lógica dos afetos mais do que de uma lógica de conjuntos bem circunscritos” (1992, p. 20), Escóssia e Kastrup afirmam que desaparece a equivalência entre coletivo e conjunto ou somatório de pessoas.

Coletivo é impessoal. Assim, as autoras concluem seu pensamento definindo coletivo como um plano de co-engendramento dos seres e de criação. Este co-engendramento provém da relação de agenciamento, trazida por Deleuze & Parnet (1998), que significa a criação daquilo que está na mediação entre o si e o outro:

Agenciar-se com alguém, com um animal, com uma coisa – uma máquina, por exemplo – não é substituí-lo, imitá-lo ou identificar-se com ele: é criar algo que não está nem em você nem no outro, mas entre os dois, neste espaço-tempo comum, impessoal e partilhável que todo agenciamento coletivo revela. A relação, entendida como agenciamento, é o modo de funcionamento de um plano coletivo, que surge como plano de criação, de co-engendramento de seres. Cabe ressaltar que este plano coletivo e relacional é também o plano de produção de subjetividades (ESCÓSSIA & KASTRUP, 2005, p. 303).

Para acrescentar a essas reflexões, trazemos as definições de coletivo forjadas por Migliorin (2012), que compartilha das ideias apontadas anteriormente ao entender esses agrupamentos como organizações híbridas, que se constroem a partir das relações que vão sendo

criadas. Ele reforça também a tendência para uma busca de um sentimento coletivo, de um neotribalismo movido por interesses e ideologias comuns, que, unidas, impulsionam para a ação.

Conforme o autor,

Um coletivo é mais que um e é aberto. Essa é uma primeira característica que evita que tratemos os coletivos como um grupo, como algo fechado; melhor seria dizer que um coletivo é antes um centro de convergência de pessoas e práticas, mas também de trocas e mutações. Ou seja, o coletivo é aberto e seria, assim, poroso em relação a outros coletivos, grupos e blocos de criação – comunidades. (MIGLIORIN, 2012, p. 2)

O autor defende que as práticas realizadas pelos coletivos são, primordialmente, abertas a outros coletivos ou a outros indivíduos. Desta característica, traz-se de volta a discussão do conceito de rede, destacado anteriormente em Latour (1993). Essa particularidade é presente no Nigéria, como iremos ver mais a seguir. Para Migliorin, o coletivo, por excelência, busca uma “intensidade de conexão com outros coletivos, forças e criações, permitindo a participação em redes que os transcendem” (p. 3).

Diria, então, que uma das características dessas redes é estabelecer a conexão entre coletivos e que os coletivos aparecem como uma tentativa micropolítica de sincronia com movimentos de redes que os ultrapassam e para as quais eles são fundamentais. O coletivo é um ponto na rede e, também, ele próprio uma rede. Na construção de redes, acentradas, entre múltiplos atores em um espaço ilimitado, os coletivos aparecem como centros de concentração de idéias, pessoas, criação, forças de onde novas conexões podem sair para compor outras redes. (MIGLIORIN, 2012, p. 8)

E o que move as pessoas a se envolverem em um coletivo? Para Migliorin, o coletivo se cria porque “pessoas compartilham uma intensidade de trocas maiores entre elas do que com o resto da comunidade, do que com outros sujeitos e práticas e, em um dado momento, encontram- se tensionadas entre si” (p. 2). Mas a formação desses grupos, destaca, não se dá apenas pela junção de certo número de pessoas com ideais comuns. É além disso: trata-se de “um bloco de interesses, afetos, diálogos, experiências aos quais certo número de pessoas adere, reafirmando e transformando esse mesmo bloco” (p. 2).

É nessa relação com outros grupos – que podem ser outros coletivos, movimentos sociais ou mesmo indivíduos – que o coletivo se transforma, ao ter contato com outras realidades, outras

formas de fazer intervenções, outras formas de entender sua própria organização. “Um coletivo não faz unidade, mas é formado por irradiação dessa intensidade, um condensador, agregador de sujeitos e idéias, em constantes aproximações, distanciamentos, adesões e desgarramentos” (MIGLIORIN, 2012, p. 2). Por esta razão, aponta o autor, um coletivo é fragilmente delimitável, seja pelos seus membros, seja por suas áreas de atuação e influência.

Essa interação, esse caráter poroso, faz com que o coletivo esteja sempre, como diz Migliorin, em “estado de crise”, levando-se em conta que seus membros não se articulam seguindo uma institucionalidade ou contrato, que são inexistentes, por ideologia, nesses grupos. Eles se articulam “por conta de uma afinidade que se concretiza em ações em tempos variados” (p. 3).

O coletivo organiza-se em contraponto às instituições presentes e dominantes na sociedade, e o ritmo de trabalho não é pautado por uma lógica produtiva. Portanto, a ideia de horizontalidade nas relações é tida como essencial. Não se busca uma individuação, mas um “perder-se” em um ser coletivo, como já dizia Maffesoli (1998). Migliorin, ao analisar os coletivos, encontra essas características. “A lógica do sucesso que está em tudo e hierarquiza uma empresa, uma família, uma sala de aula torna-se hipersignificante em um coletivo se ele se verticaliza e perde a intensidade de conexão” (MIGLIORIN, 2012, p. 3).

Belgede ANDREY TARKOVSKİ SİNEMASI (sayfa 79-82)