Para compreensão deste objeto de estudo, adota-se a noção de campo na perspectiva de Bourdieu (2001), segundo a qual campo é um espaço social complexo, relativamente autônomo, marcado por um estado de relações de forças entre indivíduos ou instituições, que lutam pelo monopólio da violência simbólica. Desse modo, o campo deve ser pensado relacionalmente:
A noção de campo é, em certo sentido, uma estenografia conceptual de um modo de construção do objeto que vai comandar – ou orientar – todas as ações da pesquisa. Ela funciona como um sinal que lembra o que há que fazer, a saber, verificar que o objeto em questão não está isolado de um conjunto de relações de que retira o essencial das suas propriedades (BOURDIEU, 2001, p.27).
A autonomização relativa dos campos, segundo Bourdieu (2001), resulta de lutas em torno de interesses específicos de indivíduos e instituições, e não da sociedade como um todo, por meio de relações de força entre grupos. No entanto, é preciso ampliar essa perspectiva, tal
como propõe Cunha (2006), de que, no sentido marxista do termo, a autonomia relativa dos campos e o reforço das relações de classe na base, também, está passível a um movimento de dissolução.
Outra discussão que se insere neste estudo é a questão da sustentabilidade da mudança apontada por Clark (2004, p. 4), de que “as universidades [...] fundamentam a organização sob duas capacidades: adaptar a si próprias e adaptar-se a uma sociedade em mudança. O desenvolvimento destas capacidades de mudança torna-se o coração de um desempenho bem sucedido”. Embora sua perspectiva de uma universidade sustentável se aproxime também dos pressupostos de documentos internacionais, torna-se pertinente por apresentar a ideia de permanência, sustentação, em sentido análogo às ciências sociais (refazer, manter, controlar). Aliada a essa perspectiva está a lógica emancipatória compreendendo a universidade como bem público e que é hoje um campo de disputa interna e externa, mas que diante dos vários mecanismos de dispersão tem como principal desafio o enfrentamento da lógica global (SANTOS, 1995; 2006).
Nesse contexto, cabe questionar o processo de ampliação de oportunidades de acesso, no tocante às condições de democratização, financiamento e qualidade do ensino ofertado. Conforme aponta Dias Sobrinho (2010), é preciso assegurar o direito de todos à educação de qualidade, porém deve-se reconhecer que mesmo uma educação insatisfatória, ainda, é melhor que nenhuma, já que pode de alguma forma contribuir para elevar o patrimônio coletivo de conhecimentos e competências profissionais de uma nação. E estes podem melhor construir um itinerário educativo compatível com as demandas da sociedade global.
Longe do conformismo, a ideia é resgatar a educação como bem público e mobilizar transformações sustentáveis que ultrapassem o espaço das instituições de Educação Superior e ocorrem em médio e longo prazo. Sob essa ótima, entende-se que, mesmo com alguns percalços e dificuldades institucionais próprios e peculiares às instituições públicas de um modo geral, as universidades estaduais exercem um papel preponderante na redução das assimetrias sociais e regionais e na descentralização da produção do conhecimento e do saber. Esse processo parte da perspectiva emancipatória proposta por Santos (1995; 1999; 2003, 2004; 2005; 2006), mediada pela discussão da relação globalidades-globalizações; localidades-localizações, articulada com as discussões de reestruturação das universidades públicas no movimento de ajuste, resistência e inovação (CATANI; OLIVEIRA, 2002).
A partir dos aportes teóricos referendados, foram eleitas categorias a serem contextualizadas neste estudo:
a) Democratização – O tema da democratização é de grande relevância no acesso à Educação Superior de qualidade, o que implica dizer que não se pode pensar qualidade dissociada de quantidade. O movimento precisa ser combinado, ou seja, uma expansão qualificada para a inclusão. Entende-se, conforme aponta Ristoff (2008), que a democratização vai além da ampliação de matrículas, ou seja, do quantitativo e abrange ações que criem oportunidades e afirmem o direito dos historicamente excluídos, assegurando acesso e permanência, desprivatizando e democratizando o campus público, por meios de várias ações, dentre elas a criação de bolsas de permanência, assistência estudantil, expansão da educação à distância (EAD), (re) distribuição de ofertas de disciplinas e/ou componentes curriculares, oferta de ensino noturno público, retomada de concursos de docentes e técnicos, ampliação de investimentos. Os indicadores de democratização a serem analisados nesse estudo se pautam nas políticas de acesso e permanência implementadas pela UERN no seu percurso de expansão.
b) Autonomia – A autonomia é reconhecida pela Carta Magna de 1988, no Art. 207, ao afirmar que “as universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. No entanto, o grande dilema é a possibilidade real de assegurar que as universidades cumpram suas funções compatíveis com a autonomia que lhes é assegurada. Tal como afirma Santos (2004), nos últimos trinta anos as universidades públicas da América Latina, e do Brasil em particular, vêm passando por uma crise institucional, cujo valor em causa é a autonomia, ocasionada pela secagem financeira e descapitalização, acentuada pela perda da universidade como um bem público e pelo reduzido compromisso político do Estado com as universidades e educação em geral. Essa reflexão remete à dificuldade de resposta das universidades no seu crescimento institucional e do sentimento crescente de incapacidade para enfrentar tal situação. Essa categoria constitui-se um componente mediador da gestão universitária, em seus aspectos didático-científico, administrativo e financeiro, inerente à viabilidade de democratização e qualidade da realidade institucional.
c) Qualidade universitária – Um dos grandes desafios da gestão pública é a garantia qualificada na oferta de vagas nos cursos de modo que assegure a expansão sem a
perda do status de universidade com função social. Embora se saiba que existem várias concepções de qualidade, a perspectiva multidimensional (UNESCO, 1998; DIAS SOBRINHO, 2005a; 2008; 2010; MOROSINI, 2001; 2009) apresenta elementos que possibilita pensar para além da lógica regulatória do mercado. Esta considera como propósitos da Educação Superior não apenas a questão econômica, mas a cultural, social, democrática, respaldadas nos princípios de diferenciação – observância e emergências nas necessidades e especificidades locais; pertinência – seu papel, missão, relação com o Estado; relevância – propósitos institucionais e carências sociais e da região; e equidade – contribuição para a coesão social.
Dada à dimensão complexa dessa categoria, muitos elementos poderiam ser apontados como indicativo da qualidade, mas ultrapassa o escopo desse estudo. Desse modo, a qualidade a ser discutida está imbricada com as políticas que levem em conta a especificidade do contexto institucional, no intuito de conciliar a nova realidade de expansão da UERN, que passa a impulsionar e/ou mesmo a exigir novos encaminhamentos na sua gestão universitária, para fazer cumprir o seu papel enquanto universidade. Assim, os indicadores a serem discutidos neste estudo serão: política de pessoal (no qual se inclui o crescimento da titulação docente, além das políticas internas voltadas para a qualificação do quadro docente); regime de trabalho; pesquisa e pós-graduação.