No número 115 (SAÚDE EM DEBATE, 1980, p.2), o editorial sai em defesa do Programa de Ações Básicas de Saúde (Prev-Saúde), desenvolvido conjuntamente pelos Ministérios da Saúde e Previdência, que representava já uma manifestação concreta das mudanças no quadro institucional e nas formas de articulação entre o Estado e a sociedade. Reconhecia-se no programa “a incorporação de muitas das reivindicações da população defendidas pelo Cebes”, sobretudo a universalização dos serviços e a integração das ações dos dois ministérios, defendida desde os primeiros números da revista.
A abordagem revela um ponto central de discussão que estará em foco nesta fase: o apoio a programas de governo na área de saúde considerados coerentes com os princípios até então defendidos pelo centro e a participação em sua elaboração e implementação. Aproveitar “as brechas” de participação nas políticas oficias como forma de promover a mudança ou não? Esta era a questão.
Percebemos que a discussão se aprofunda ao analisarmos o Editorial do número 13 de Saúde em Debate (1981), colocando problemas teóricos de aplicação, na prática política, dos conceitos gramscianos. Até o momento, o movimento sanitário, institucionalizado no Cebes, se esforçava para, atuando no campo da sociedade civil, ou dos aparelhos de hegemonia, como afirmou Gramsci, formular contra-políticas na área de saúde e lutar pela sua
5 Entre os números 11 e 18 a revista não informa o mês de publicação, somente o ano e o número. A esta fase corresponde uma alteração no projeto gráfico, que se torna mais rebuscado, e a uma constante irregularidade na periodicidade.
implementação. Era de se pensar que este esforço deveria resultar,
seguindo um raciocínio lógico, e a própria dinâmica democrática, considerando que a sociedade brasileira começava, lenta e gradualmente, a se democratizar, na absorção pelo Estado, ou por setores dele, das reivindicações, ou parte delas, implementadas por meio de programas e projetos.
O que fazer no momento em que algumas reivindicações fossem acolhidas pela estrutura do Estado? Levar a guerra de posição, que a teoria afirmava ser travada na sociedade civil, no Estado ampliado, nos aparelhos de hegemonia, para dentro do Estado em sentido estrito, dos aparelhos de coerção? Esta era uma questão estratégica que parecia carecer de uma sustentação teórica. Era preciso formulá-la. É interessante ressaltar, que respondida a primeira questão – Pode a guerra de posições ser levada para dentro do Estado? – , era preciso mapear um campo que se mostrava diverso, com personagens diferentes, daquele da sociedade civil. Um novo ator entrava em cena e suas características precisavam ser analisadas: a burocracia estatal.
Ao tangenciar este assunto em edição anterior, de número 10 (SAÚDE EM DEBATE, 1980), a revista reconhece uma produção intelectual sobre a saúde brotando dos membros da burocracia estatal. Analisa que esta traduziria a ligação orgânica de seus membros com o Estado e, portanto, com as classes dominantes. Admite, no entanto, não ser o Estado algo monolítico, estando sujeito a contradições internas, que davam a chance de manifestação de interesses de outras classes sociais, “as brechas”, que começavam a ser discutidas no movimento.
Esta discussão remete a alguns problemas visíveis na própria
concepção de Estado em Gramsci. Em uma primeira leitura, pode parecer que o teórico italiano concebia a sociedade civil como campo único dos embates, da diversidade de pensamento e de posições e de construção de consensos como síntese do conflito de interesses particulares. O Estado em sentido estrito, a sociedade política, parece mesmo mostrar-se monolítico, unido e coeso no seu papel coercitivo. Os estudos que até empreendemos nos levam a concluir que o teórico percebia esta limitação de sua análise do Estado ao lhe atribuir papéis fixos e estanques. Esta separação entre sociedade política e sociedade civil, teria ele admitido, exerceria uma função metodológica, não conseguindo captar a realidade em toda a sua riqueza.
Para Buci-Gluksmann, Gramsci teria analisado a burocracia, evidenciando que, malgrado o seu papel no Estado restrito, ela tinha origem na sociedade civil, entre as classes sociais, o que tornava problemático o exercício de seu papel de intelectual orgânico das classes dominantes. Este enfoque revelou-se, sobretudo, nas suas tentativas de compreender o fascismo como fenômeno de massa, nas quais Gramsci (1971 apud BUCI-GLUCKSMANN, 1980, p.138) mostrava a relativa permeabilidade existente entre os conceitos de sociedade política e sociedade civil, revelando como a burocracia ganhou uma certa autonomia, assumindo o papel “essencial da organização interna do bloco social dominante, que permite a uma classe dirigente enraizar-se organicamente nas massas”.
Mas Gramsci terminou por se dedicar mais ao estudo de guerra de posição na esfera da sociedade civil. Teria, segundo Fleury Teixeira (1980, p.43), cabido a Poulantzas, a tarefa de mostrar como na análise da materialidade do Estado,
aparentemente monolítico no exercício do papel coercitivo para uns e neutro para outros, manifesta-se também a correlação de forças.
Este debate interno ao movimento sanitário foi iniciado, ainda em suas origens, na segunda metade da década de 70, quando uma nova postura do governo militar em relação às políticas sociais, motivada pela necessidade de buscar legitimidade em face da derrota eleitoral de 1974, criou possibilidades de alterações, ainda que restritas, nos rumos da política oficial de saúde. Estas possibilidades se ampliaram depois da crise da previdência do início da década de 80, facilitadas pelas mudanças no quadro político.
Revela-se, neste momento, uma mudança no foco de análise da correlação de forças na área de saúde. Antes era restrita a uma luta entre setores progressistas atuando no campo da sociedade civil contra interesses privatizantes representados no interior do Estado por meio dos anéis burocráticos. Agora a correlação de forças, como afirmamos, poderia ser medida no próprio interior do aparelho de Estado, visualizando a sociedade política como campo também de conflitos e não como representação de um único interesse de classe. Identificam- se, no interior do Estado, “setores modernos” e “setores conservadores” associados aos “interesses empresariais ainda dominantes”. Dessa correlação dependeria o sucesso ou o fracasso das iniciativas que poderiam potencialmente contribuir para a mudança dos rumos da política de saúde oficial, como o Prev- Saúde.
O número 14 (SAÚDE EM DEBATE, 1982, n.14, p.2) faz uma espécie de balanço dos cinco anos do Cebes, mostrando a sua evolução de “espaço democrático, aglutinador de oposições no setor saúde” a “corpo coletivo,
multiprofissional, divulgador e produtor de saberes e conteúdos sobre a
saúde coletiva, e como articulador entre o conhecimento produzido na Academia e a prática política dos nascentes movimentos sociais da década de 70”.
Note-se o uso da expressão saúde coletiva como referência a um novo campo focado no estudo das relações entre saúde e estrutura social. Em entrevista preliminar para a realização deste trabalho, realizada em dezembro de 2004, Sarah Escorel ressaltou que não se pode deixar de considerar a formação da Saúde Coletiva como novo campo de estudo acadêmico na área de saúde como um resultado de toda esta movimentação intelectual e política no setor, ocorrida a partir da década de 70.
Consideramos ser esta questão da maior relevância para o entendimento das mudanças culturais na saúde que ora estudamos. No entanto, a formação de um campo disciplinar é sempre um tema complexo, devendo ser tratado como um objeto próprio de estudo, como bem ensina Bourdieu (1987,2003). Por isso, embora não possamos deixar de fazer referência a ele, resolvemos, dada a sua relevância e complexidade, não nos deter neste aspecto.
O editorial prossegue creditando ao Cebes uma contribuição à politização do tema da saúde ao ter ajudado para a sua inclusão na pauta dos movimentos sociais em organização. Há, no entanto, um certo tom de frustração em relação à estratégia de participação em iniciativas de mudança na política setorial nascidas no âmbito do próprio governo ao denunciar que “forças empresariais com interesses bem definidos conseguem valer seus propósitos, sabotando no nascedouro propostas importantes de reordenação do setor”, referindo-se ao Prev-Saúde.
8.5. A Assembléia Nacional Constituinte e o foco na frente