D. Orta ve Doğu Avrupa Genişlemesi:
IV. Avrupa Komşuluk Politikası (AKP)
A edição de número 6, referente aos meses de janeiro a março de 1978 (SAÚDE EM DEBATE, 1978, n.6, p.3), trata da I Assembléia Nacional de Delegados do Cebes, realizada, no final de março daquele ano, com a representação de núcleos constituídos em 10 estados e no Distrito Federal, ocasião ideal para a discussão da identidade da organização e de sua linha de atuação.
Acreditamos que este constante questionamento da identidade era relacionado com a própria novidade do tipo de organização representado pelo centro. Tinha, como já apontamos, uma ligação orgânica com as categorias profissionais da saúde, sobretudo, os médicos, mas era não propriamente uma entidade de classe. Voltava-se para a produção de conhecimento, mas não era
uma instituição acadêmica. Preocupava-se com a divulgação de fatos, eventos e
4 A ausência da participação popular no processo histórico de formação da sociedade brasileira foi analisada por Iglesias (1993), Carvalho (2004) e Fernandes (1976).
idéias, mas não era um órgão de imprensa. Era assumidamente político, declarando-se apartidário.
A melhor definição para o Cebes era de movimento cultural com implicações políticas, ou, quem sabe, inversamente, movimento político com implicações culturais, implícita no Programa de Trabalho aprovado na assembléia “cujo eixo central consiste na idéia de reforçar o caráter de centro de estudos do Cebes”. O editorial afirma a orientação da assembléia, que norteará a atuação da organização pelos anos seguintes, de definitiva vinculação entre as “lutas desenvolvidas no setor por melhores condições de vida e saúde para o nosso povo àquelas pela democratização geral do país e pelas liberdades democráticas”. Note-se que a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte e de vinculação do projeto de Reforma Sanitária ao de aprovação de uma nova Constituição não se colocava ainda na pauta oficial do centro, embora já defendida por um de seus sócios em artigo publicado na edição anterior.
O Programa de Trabalho (SAÚDE EM DEBATE, 1978, n.6, p.5-6), publicado na mesma edição, procurava definir o sentido desta militância cultural, mostrando no que ela se diferenciava da produção acadêmica e reafirmava o papel da revista como instrumento privilegiado de atuação. Fazia um balanço associando a vida da publicação ao desenvolvimento do centro, afirmando que ela refletia, em seus números iniciais, “a produção acadêmica, especialmente dos Departamentos de Medicina Preventiva”, tendo incorporado o saber de outras áreas da universidade. Proclamava a necessidade de superar “o hermetismo
inicial, ainda presente, e através da ligação à prática concreta atingir e
influenciar setores mais amplos”. Os sócios do centro são conclamados a colaborar com a publicação e, ao mesmo tempo, buscar uma aproximação com outros setores da sociedade, sobretudo os movimentos sociais, que começavam a se organizar, de forma a aproximar, na prática, a questão da saúde da questão social mais ampla e trazer para a publicação uma reflexão alimentada por esta prática, diferenciando-se da produção acadêmica propriamente dita.
Este constitui, a nosso ver, um aspecto do “dilema reformista” não abordado por Fleury Teixeira (1989), que denominaremos o dilema da linguagem: a possibilidade de um grupo de intelectuais formados na universidade, tendo desenvolvido a linguagem própria da academia, estabelecer uma comunicação com os chamados setores populares. Percebe-se nesta edição da revista, que o Cebes faz uma tomada de consciência deste dilema, mesmo não o nomeando diretamente desta forma, e procura definir estratégias para superá-lo, sobretudo quando proclama a necessidade de “superar o hermetismo”.
Nos números 7 e 8, reunidos em uma mesma edição, do segundo trimestre de 1978 (SAÚDE EM DEBATE, 1978, n.7/8, p.3-4), os problemas de identidade se transformam em crise aberta no núcleo do Rio de Janeiro, o segundo mais numeroso, que chegou inclusive a discutir uma proposta de auto-dissolução. Esta é uma discussão particularmente importante por relacionar a análise da conjuntura às estratégias de luta e às formas de organização da sociedade.
A conjuntura de 1978, com o país iniciando um longo processo de democratização, ou de abertura lenta e gradual, como apregoava o discurso do regime burocrático-autoritário, era semelhante àquela anterior a 1964? Por isso,
deveria o movimento democrático retomar as formas tradicionais de
organização – das categorias profissionais, nos sindicatos e associações, e do saber, nas universidades – interrompidas pelo golpe militar? Ou esta era um conjuntura totalmente nova, para a qual as formas tradicionais de organização eram necessárias, mas não suficientes?
Os que propunham a auto-dissolução se alinhavam com a primeira posição. Diante do avanço de um movimento sindical realmente representativo dos interesses dos profissionais de saúde, cuja expressão foi a vitória das oposições nos sindicatos dos médicos em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, e da possibilidade de ampliação do debate nas universidades, o Cebes perdia o seu sentido, pois o seu papel havia sido o de acolher o debate e as reivindicações profissionais impedidas de se manifestar pelos seus canais usuais.
O segundo grupo encarava, ainda que esta posição pudesse não se manifestar de modo totalmente claro, ser a conjuntura bem diversa daquela do início dos anos 60. O modelo de desenvolvimento forçado imposto pelos governos militares havia alterado o quadro econômico e social, sendo mesmo o crescente assalariamento de médicos e demais profissionais de saúde um fenômeno típico daquela conjuntura, uma expressão dos resultados deste modelo. Era preciso bem examinar esta realidade e a, partir deste exame, propor novas estratégias de luta. A sociedade era outra. Deviam ser outras, portanto, as formas de organização. Neste sentido, o Cebes podia e deveria se afirmar como uma nova forma de organização, ainda que, naquele momento, esta afirmação como entidade cultural se mostrasse um tanto vaga.
Estas formulações têm uma influência claramente gramsciana,
mesmo não declarada. Primeiro no que diz respeito à negação de formas mecânicas de análise de conjuntura. Procura-se enxergar o quadro da época não como evolução de um processo histórico interrompido, mas como uma síntese nova e diferenciada deste processo. Coincidiam com as análises de Fernandes (1976), que via como resultado, não previsível, das mudanças impostas pelo modelo econômico monopolista e concentrador, implantado pelos militares, alterações na estrutura social que poderiam apontar uma saída para os impasses da revolução burguesa brasileira, conservadora e coercitiva.
O Brasil havia, sobretudo, experimentado um incrível crescimento urbano, com todos os problemas sanitários daí decorrentes, como bem mostraram as páginas de Saúde em Debate ao longo dos seus dois anos até aqui analisados, que criava novas possibilidades de organização e de circulação de informação. Neste contexto, das decisões estratégicas dos movimentos populares e democráticos dependeria a possibilidade de fazer deste um quadro realmente novo, construindo uma sociedade civil rica, não mais “gelatinosa”.
Este era o sentido, acreditamos, do posicionamento do Cebes como entidade cultural, mas que não esgotava os seus objetivos na produção cultural pura e simples, no seu sentido acadêmico ou diletante. Era sim o seu objetivo promover uma mudança cultural na saúde, tanto no ambiente profissional e acadêmico quanto no que diz respeito à percepção da questão da saúde pela população. Uma mudança cultural, como já afirmamos, com profundas implicações políticas.
No número 9 (SAÚDE EM DEBATE, 1980, n.9, p1-3), de janeiro/
março de 1980, percebe-se como evoluiu a discussão sobre a identidade do centro. A crise institucional, vivida com a proposta de auto-dissolução do núcleo do Rio de Janeiro, parecia ter propiciado as condições para um maior amadurecimento. Manifestam-se, especialmente, neste número as origens universitárias do movimento sanitário apontadas por Escorel (1999) na construção da identidade da organização. Percebemos como o centro de estudos procurava, gradativamente, se diferenciar destas origens sem com elas romper o vínculo. Por isso trata o editorial de analisar as diferenças entre o saber produzido na universidade e aquele produzido em um centro de estudos no formato do Cebes.
Há uma análise sobre as características da produção acadêmica, cujos mecanismos de aferição (teses, publicações, etc.) e seus meios de viabilização e sustentação (bolsas, financiamentos, etc) apontam para a construção de carreiras individuais. Diferente do que classifica o documento como uma produção coletiva, voltada para uma prática política transformadora, a qual se propõe o Cebes. Apontava-se esta diferença para, em seguida negar “a dicotomia produção teórica x prática política”, tida como falaciosa.
A partir deste questionamento, parece começar a se definir mais claramente a identidade do centro como organização voltada para estabelecer uma ligação entre o conhecimento crítico produzido na universidade e a prática política. O documento afirma existir, já naquele momento, uma massa de produção acadêmica sobre as determinações sociais da saúde, mas reconhece que este conhecimento não alcançou ser instrumento de transformação social. Não se transformou em “bandeiras de luta que fossem absorvidas sequer pelos
movimentos organizados na área de saúde, quanto mais pela população em suas diversas formas associativas”.
Ao Cebes caberia justamente construir este “elo”, realizar o trabalho “que possibilita a transmutação do trabalho intelectual do especialista em dirigente”. E a revista cita diretamente Gramsci, a quem atribui a equação “dirigente=especialista + político”.
Define-se, portanto, como objetivo do Cebes ter o mesmo papel atribuído pelo teórico italiano ao partido. Ser, na área de saúde, o intelectual orgânico, articulando o saber acadêmico com a prática política setorial e esta com política mais ampla do país. Este é o momento no qual a linguagem e a inspiração gramsciana para as decisões estratégicas são assumidas claramente pelo centro.
Salienta ainda o documento que o Cebes só poderá afirmar estar cumprindo plenamente o seu papel no momento em que for capaz de, apropriando-se “da produção científica já realizada”, utilizar “suas conquistas na formulação de contra-políticas e construção de novos modelos de atuação”.
Tanto os termos “especialista” e “dirigente” quanto a sentença “formulação de contra-políticas e construção de novos modelos de atuação” aparecem em negrito, demonstrando a afirmação mais clara do papel que caberia ao centro e dos objetivos a serem alcançados. Elege-se também a Reforma Sanitária como projeto de contra-política na área de saúde.
O número seguinte, Saúde em Debate (n. 10, 1980, p.3-5), relativo aos meses de abril a junho de 1980, pinta um quadro otimista de “um novo panorama em relação à organização da sociedade civil” e de “novas formas” de articulação
do Estado com a sociedade. Quadro este propício a uma definição ainda mais clara do papel do movimento sanitário na formulação de contra-políticas.
O Cebes teria até então funcionado como ponto de convergência de todas as insatisfações dos profissionais de saúde sem canais de manifestação. Com o que qualifica de “enriquecimento da vida política na área de saúde”, abriram-se outros canais e o centro pôde definir mais claramente o seu objetivo, diferenciando-se dos sindicatos e associações e da universidade.
Define-se mesmo agora um processo de trabalho do Cebes, que pode ser resumido na “consolidação do pensamento crítico acerca da problemática de Saúde, visando subsidiar a formulação de estratégicas de ação política”. Clarifica- se uma estratégia de atuação, voltada, em primeiro lugar, “para a politização das questões de saúde junto aos profissionais de saúde”, e, em um segundo, dirigindo-se “à articulação com os grupos populares, basicamente no sentido de compartir o saber relativo às condições de vida e trabalho consideradas como determinantes das condições de saúde”.
Consideramos que o ano de 1980 encerra uma fase do Cebes no qual o centro buscou insistentemente definir uma identidade, que se mostra claramente, a partir deste momento, alinhada com o papel do intelectual orgânico, dirigente, e articulador da teoria com a prática, definido por Gramsci.