VI. Laiklik ve Sekülerlik Kavramları
1.4 Avrupa Birliği’nin Kurumları
As traduções da obra de Gramsci começaram a chegar ao Brasil entre 1966 e 1968, antes mesmo, segundo Carlos Nelson Coutinho (1992), de aportarem na França, Alemanha e Inglaterra, apenas uma década após o início de sua publicação na Itália, na metade dos anos 50.
Porém, se a chegada da obra do autor italiano ao Brasil foi precoce, não se pode dizer que a acolhida de suas idéias tenha sido imediata. Não encontraram receptividade, em um primeiro momento, entre a esquerda brasileira, dividida entre os modelos de interpretação do marxismo da Terceira Internacional, o marxismo-leninismo, adotados pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), e os do “maoísmo e/ou do ‘foquismo’” dos grupos que seguiram a estratégia de luta armada. Estas duas linhas interpretativas, de orientação economicista, convergiam para descrever o Brasil como um país atrasado, semifeudal, cujo processo de transformação deveria mecanicamente “adotar os modelos revolucionários próprios do bolchevismo, do maoísmo ou do castrismo” (COUTINHO, 1992, p.119 -20).
A influência de Gramsci começou a se fazer sentir, apresentando um “crescimento espetacular”, a partir da segunda metade da década de 70, como resultado do início do declínio, e conseqüente redução da força repressiva, do regime militar e de uma certa “crise cada vez mais explícita das organizações marxistas tradicionais” (COUTINHO, 1992, p.120). Esta crise, a nova conjuntura da chamada “abertura política” e o fracasso das estratégias adotadas até então pelas esquerdas as levaram a buscar uma nova maneira de encarar a questão da democracia sem abandonar os princípios marxistas. A máxima “O Estado é o
comitê gestor da classe dominante” não satisfazia mais como ponto de
partida para pensar as estratégias de ampliação da tímida democracia que começava a se anunciar. O pensamento de Gramsci, com base nos conceitos de “hegemonia” e “Estado ampliado”, apontava uma saída para o impasse teórico.
Prossegue Coutinho (1992, p.120), em sua análise sobre o acolhimento das idéias do teórico italiano no Brasil, afirmando ser “sociedade civil” o conceito gramsciano mais difundido, sendo utilizado em uma ampla gama de análises políticas e históricas produzidas por estudiosos das mais diferentes tendências, de “comunistas” a “até mesmo liberais”. Mas para o autor, a “profunda universalidade” de Gramsci mostra mesmo a sua capacidade “de iluminar alguns aspectos decisivos de nossa peculiaridade nacional” no conceito de “revolução passiva [...], capaz de fornecer importantes indicações para a análise dos processos de ’modernização conservadora’ que caracterizam a história brasileira”.
O processo brasileiro de modernização conservadora é analisado, sem citar diretamente o autor italiano, por Florestan Fernandes, na obra A Revolução
Burguesa no Brasil (1976), escrita em 1966 e lançada, em primeira edição, em
1964. O sociólogo faz uma análise da estrutura social e política de nosso país que revela uma profunda semelhança com a Itália nascida do processo de unificação nacional, o Risorgimento, descrita por Gramsci.
Os episódios que marcaram a construção do Estado nacional no Brasil, Independência, Proclamação da República e Revolução de 30, e na Itália, o
Risorgimento, são caracterizados como “revoluções passivas”, “revoluções sem
revolução”, sem alterações portanto, das relações de poder entre as classes sociais.
Lá como cá, processos semelhantes teriam gerado problemas
similares: diferenças econômicas e sociais regionais, acentuada desigualdade social, grande propriedade rural, paternalismo, patrimonialismo e Estado identificado com interesses particulares. Teriam, por fim, proporcionado as condições últimas para a implantação de regimes políticos totalitários ou autoritários.
Convergem o sociólogo brasileiro e Gramsci para a constatação de que, na raiz do problema, encontra-se o fato de Brasil e Itália não terem passado por revoluções burguesas clássicas.
Para Florestan Fernandes (1976, p.203), constituem as revoluções burguesas “um conjunto de transformações econômicas, tecnológicas, sociais, psicoculturais e políticas que só se realizam quando o desenvolvimento capitalista atinge o clímax de sua evolução industrial”.
Para o teórico italiano, nos processos clássicos de revolução, “tipo perfeito de processo revolucionário” (Buci-Glucksmann, 1980, p.77), a burguesia afirma-se como classe dirigente, abrindo mão de parte de seus interesses corporativos, para se tornar porta-voz de interesses nacionais. Constrói aliança com as demais classes para derrotar os representantes da velha ordem. Torna-se hegemônica, e não somente dominante, ao absorver interesses das classes subalternas e fazer avançar toda a sociedade. Ou seja, as revoluções burguesas envolveram as classes populares no processo político. A ausência delas, nos dois casos, brasileiro e italiano, as alijou das decisões.
O Risorgimento aconteceu em “um momento histórico em que o
tempo das revoluções burguesas radicais” já havia passado, configurando um processo de unificação apoiado em “condições nacionais externas” (Buci- Glucksmann 1980, p.86). Para Florestan Fernandes, por seu turno, os vitoriosos processos revolucionários ocorridos nos países centrais marcaram o imediato início da afirmação do capitalismo como ordem econômica mundial. Assim, correspondiam a processos históricos típicos da formação do novo sistema econômico nestes países, que não se repetiriam mecanicamente em outros tempos e outros lugares, ao contrário do que pregavam, como visto nos parágrafos iniciais deste capítulo, as idéias hegemônicas entre as esquerdas brasileiras até a metade da década de 70.
Fernandes descreve o processo de formação da sociedade brasileira em sua relação com o desenvolvimento, desde o Brasil colônia, de uma burguesia em “dupla articulação”. De um lado, comprometida com as classes dominantes dos países centrais. De outro, com as oligarquias rurais. Dependente e incapaz, portanto, como afirmou também Gramsci com relação à burguesia industrial do norte italiano, de se afirmar como classe nacional e conduzir um processo revolucionário, que rompesse com o passado, promovendo o desenvolvimento nacional.
Esta longa história de “dupla articulação” tem como marco inicial o inusitado e único caso no mundo colonial de instalação da sede do poder da metrópole na colônia, com a chegada de Dom João VI e sua corte e a, assim denominada pela história oficial, “abertura dos portos às nações amigas”. Passa por diferentes fases até a “irrupção do capitalismo monopolista”, marcado pela “reorganização do
mercado e do sistema de produção, através das operações comerciais,
financeiras e industriais da ‘grande corporação’”, iniciada na década de 50 e consolidada pelo regime autoritário militar pós-64 (FERNANDES, 1976, p.225).
Gramsci desenvolveu as suas teorias mais de três décadas antes de Florestan Fernandes começar a redigir A Revolução Burguesa no Brasil. O trabalho do autor brasileiro, usando diferentes conceitos, segue uma linha de raciocínio e chega a conclusões em quase tudo coincidentes com as do teórico italiano.
Das conclusões de Fernandes pode-se afirmar, fazendo uso de algumas das categorias gramscianas, que:
1. A burguesia brasileira, dependente, não alcançou dominar a economia, construindo uma hegemonia econômica;
2. Não fez de sua cultura, podendo ser expressa por uma ideologia de desenvolvimento econômico, a cultura das classes subalternas;
3. Não conseguiu, portanto, mobilizar e dirigir as classes populares;
4. Para conseguir o poder político, apoiou-se nas oligarquias rurais, deixando de fora do jogo político e dos benefícios do desenvolvimento econômico as classes populares;
5. Este pacto entre os setores das classes dominantes jamais conseguiu sair dos termos dos interesses corporativos para considerar interesses nacionais;
Como conseqüências:
1. Formou-se no Brasil uma sociedade civil fracamente organizada;
2. O Estado brasileiro configurou-se como um Estado restrito, baseado na sociedade política;
3. O uso da coerção, do recurso à violência e ao autoritarismo, para solução de conflitos tornou-se norma.
A Revolução Burguesa no Brasil (FERNANDES, 1976, p.3-4) começou a
ser escrito em 1966, admite o autor, em nota introdutória à primeira edição, de 1974, como “uma resposta intelectual ao regime instaurado em 31 de março de 1964”. Revela a frustração pelo malogro do projeto desenvolvimentista e pelo advento do autoritarismo. Mas apesar do inevitável pessimismo presente na obra, aponta o autor, dialeticamente, a possibilidade de superação dos condicionantes estruturais da desigualdade e do autoritarismo.
Previu Florestan Fernandes (1976, p.280) que a industrialização forçada, imposta pelo capitalismo monopolista, acabaria criando um desenvolvimento urbano e tecnológico que teria como inevitável conseqüência a integração econômica e cultural de um número cada vez maior de trabalhadores. Como resultado, o nível de organização e consciência destes trabalhadores seria elevado, e, em conseqüência, aumentaria a sua possibilidade de influenciar as decisões políticas. Note-se, neste sentido, uma relação entre o que o sociólogo chamou de “poder de barganha” e o que Gramsci denominou “correlação de forças”:
Muitas correntes sindicalistas e socialistas encaram um
processo dessa natureza como uma transformação negativa e perigosa, que acarreta maior penetração da ‘condição burguesa’ no meio operário e instiga os operários mais qualificados ou ‘privilegiados’ ao elitismo profissional [...]. Para ter um peso próprio, coletivamente, os assalariados precisam melhorar sua base material de vida, alterando, assim, o que muitos descreveriam o seu ‘poder de barganha’.
As previsões, de acordo com Coutinho (1992), se confirmaram. O mais recente capítulo do processo de “modernização conservadora” que caracterizou a história brasileira, o regime militar, provocou a transformação do latifúndio em empresa agrária, um aumento da urbanização e uma complexificação da estrutura social, que se refletiu sobre as formas de organização da sociedade civil. Por conta destes fatores, conclui o autor ser hoje o Brasil, seguindo a tipologia gramsciana, uma sociedade ocidental.
Vimos, portanto, neste capítulo como as idéias de Gramsci forneceram um caminho para a reflexão sobre as estratégicas das esquerdas na democracia. Vimos também, na semelhança que guardam com o pensamento de Florestan Fernandes, a possibilidade de sua adequação para o entendimento da realidade brasileira, em seus aspectos estruturais e conjunturais.
Por outro lado, a análise de Florestan Fernandes permite entender o contexto histórico de implantação do regime militar, no início dos anos 60, e as contradições que levariam à sua superação a partir da segunda metade da década de 70. O entendimento das semelhanças e diferenças existentes entre estas duas conjunturas distintas foi fundamental para a formulação das estratégias da Reforma Sanitária.