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IV- BAĞDAT VALİSİ ALİ P AŞA’NIN İRAN SEFERİ VE NETİCELERİ

1- Baban Sancağı’nda Meydana Gelen Olaylar ve İran’ın Müdahalesi

A exemplo do que ocorreu no Rio de Janeiro e em São Paulo, no Rio Grande do Sul o ingresso do negro no futebol ocorreu diante de tensões. Entretanto, diferente dos demais estados, os negros se propuseram a criar uma liga própria, exemplificandoa tendência entre os negros gaúchos a construir uma territorialidade e uma sociabilidade à parte da sociedade "branca". Durante quase duas décadas, os descendentes de escravos disputaram a Liga das Canelas Pretas (nome dado de forma jocosa aos times formados por negros), oficialmente chamada de Liga Nacional de Futebol Porto Alegrense.

Podemos situar seu início em meados da década de dez, a partir da constatação da apropriação, desde 1911/12, do abandonado campo do SC Internacional pela população negra local que, numerosa, teria provavelmente possibilidades de organizar alguns times de futebol. Sua oficialização pode ter ocorrido no final daquela década. Consta que contava no início com os seguintes clubes: Primavera, Bento Gonçalves (famoso clube que excursionou com êxito pelo interior do estado em 1923), União, Palmeiras, Primeiro de Novembro, Rio-Grandense, 8 de Setembro, Aquidabã e Venezianos. (MASCARENHAS, 1999, p.2).

Naquela época, nacionalmente não era permitido ao negro participar das principais ligas, no estado gaúcho com um grande afluxo de imigrantes, principalmente italiano e germânico, e Porto Alegre como capital polo industrial e centro de convergência para a próspera zona colonial ítalo-germânica, teria proporcionado ainda mais propício para o pensamento racista e para uma lentidão para o processo de aceitação racial no esporte, como conta Mascarenhas (1999). Já segundo Mauch (1988), nesse período, ao mesmo tempo em que o trabalho de negros era utilizado em todos os setores da cidade, os mesmos circulavam com restrições, a presença

negra ficava “refugiada” em colônias étnicas que se formaram em áreas especificas da capital: Colônia Africana, Ilhota e Areal da Baronesa.

Ao longo do século XIX, nessas zonas pobres da cidade de Porto Alegre pequenos núcleos habitacionais de predominância negra foram formados, havia também no período a existência de regiões (as emboscadas) caracterizadas por abrigar temporariamente escravos fugitivos, partes da cidade que valorizavam principalmente os elementos da cultura negra, com realização de manifestações religiosas como o candomblé e rodas de capoeira. Entretanto, com o intenso processo de modernização da vida urbana, foi inevitável que o futebol das elites chegasse também até esses lugares, atraindo dezenas de admiradores e praticantes, tornou-se parte da rotina.

Mesmo passadas décadas desde o fim da escravidão, a territorialidade negra continuou a ganhar corpo nos 20, um “cinturão de cor” foi fixado entorno da cidade branca que se aburguesava aos poucos, as divisões raciais ficavam mais evidentes e os conflitos também. As tensões raciais em todos os setores se repetiam no Rio Grande do Sul, assim como restante do país, a liberdade do negro não significava a permissão para que os excluídos pudessem oficialmente participar das disputas em ligas oficiais.

Segundo Cardoso (1962), em 1915 existiam associações esportivas exclusivas para "mulatos", como forma estratégia de adentrar nas disputas de futebol, por exemplo, a manobra representava ao mesmo tempo uma negação à negritude. Desse período, o autor cita que uma pequena burguesia negra, originária de artesãos urbanos do século XIX, e que teve acesso à educação, seguiu a tendência ao “branqueamento”11, disfarçando as características de origem

para integrar clubes. No Internacional dos anos 20, conforme Cardoso, havia uma "resistência racial oculta", que permitia apenas o acesso de mulatos e que tivessem condição social mais elevada. O preconceito pode ser também demonstrado pela decisão nos anos 20 do Internacional, quando imediatamente barrou o ingresso do Rio-Grandense, time formado por negros, na liga estadual (a Liga Metropolitana).

Em 1922, a liga "branca" criou uma segunda divisão e possibilitou o acesso para jogadores e clubes negros, a oportunidade atraiu inúmeros atletas, provocando uma gradual decadência da Liga da Canela Preta, quando iniciaram os arrastões nos elencos da clandestina

11 Cardoso (1962) afirma que essa burguesia negra passa a se expressar no periódico O Exemplo, jornal que tinha

liga de negros. A percepção dos diretores de clubes gaúchos era inspirada na atitude dos cartolas do centro do país, que já percebiam o futebol como negócio e diante dos maus resultados dos times formados por descentes de imigrantes europeus e brancos, compreenderam a necessidade de qualificar as equipes. Nos anos seguintes, o sucesso dos clubes de Pelotas, Rio Grande, Bagé e Santana do Livramento, que tinham negros no plantel, faz com que os que mais se destacavam no interior passem a ser cobiçados pelos times da capital.

Em algumas pesquisas consta que o Grêmio teria sido o último clube gaúcho a aceitar negros no plantel, porque seguia à risca a cláusula criada pelos germânicos que determinava que caso fossem aceitos jogadores negros no clube, o terreno doado por alemães (onde foi construída a sede do clube) seria perdido, por isso teria sido apenas em 1952 o primeiro aceite oficial de um atleta negro, esse já conhecido pela habilidade com a bola em todo país, campeão carioca pelo Vasco e campeão sul-americano com a Seleção Brasileira, Tesourinha.

No jornal Correio do Povo, dia 6 de março de 1952 é publicada uma nota oficial sobre

o fato “A diretoria do Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense vem trazer ao conhecimento de seus associados e simpatizantes que, por decisão unanime, resolveu tornar insubsistente a norma que vinha sendo seguida de não incluir atletas de cor em sua representação de futebol”. Ainda no pronunciamento, trechos que destacam o novo “olhar” do clube gaúcho sob o futebol multirracial:

Sob o ponto de vista legal, se havia procedimento irregular, este era o de estabelecer a diferenciação em apreço, contrariando o princípio básico da própria democracia —  o da igualdade de todos. (...) O uso que se formou, a tradição que se consolidou, mais por uma questão de sentimentalismo e de homenagens aos próprios fundadores e aos primeiros dirigentes do Grêmio, embora merecedores de todo o nosso respeito, não podem mais prevalecer na época atual, onde um profissionalismo absoluto está sempre a exigir as mais decidas medidas para a garantia da sobrevivência das agremiações. As épocas mudaram e daquele amadorismo sadio de então nos transportamos, como sinal dos tempos, para a realidade de hoje, muito mais diversa e arrebatadora, onde todas as energias são convocadas para as permanentes porfias, que constituem situação normal em todos os setores de atividades. Assim também no futebol. Não há possibilidade de restrições, de peias e embaraços. A agremiação esportiva vive pela pujança de sua representação, pela união de seus associados, pelo entusiasmo de seus torcedores. (CORREIO DO POVO, 6/3/1952).

O texto segue como uma justificativa para os associados, embora afirme o sentimento “democrático” do clube, reside na nota um tom preconceituoso, ao expressar que entende a permissão de aceitar jogadores negros por conta do fim do regime de amadorismo e não pela oportunidade racial concedida.

Em coluna no jornal A Última Hora12, em 1963

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Lupicínio Rodrigues, negro, cantor e compositor do atual hino do Grêmio, escreveu sobre a extinta Liga:

A Liga dos “Canelas Pretas” durou muitos anos, até quando o “Esporte Clube Ruy Barbosa”, precisando de dinheiro, desafiou os pretinhos para uma partida amistosa, que foi vencida pelos desafiados, ou seja, os pretinhos. O segundo adversário dos moços de cor foi o Grêmio, que jogou com o título de “Escrete Branco”. Isso despertou a atenção dos outros clubes que viram nos “Canelas Pretas” um grande celeiro de jogadores e trataram de mudar seus estatutos, para aceitarem os mesmos em suas fileiras, conseguindo levar assim, os melhores jogadores, e a Liga teve que terminar. O Grêmio foi o último time a aceitar a raça porque em seus estatutos, constava uma cláusula que dizia que ele perderia seu campo, doado por uns alemães, caso aceitasse pessoas de cor em seus quadros. Felizmente, essa cláusula já foi abolida, e hoje tenho a honra de ser sócio honorário do Grêmio e ter composto seu hino que público ao pé desta coluna. (A ÚLTIMA HORA, 6/4/1963).

Sobre o Grêmio e a questão racial, o jornalista e escritor Léo Gerchmann publicou em 2015 o livro Somos Azuis, Pretos e Brancos em que desconstrói a tese de que o Grêmio foi fundado com base na discriminação, ao contrário do rival, considerado clube da massa. Gerchmann conta com base em pesquisas de documentos da época que em ambos os times não havia negros de forma “oficial”, porque essa era a realidade do resto do país seguindo o formato amador do futebol, não sendo exclusividade do clube gremista. Segundo ele, o Internacional de fato trouxe da Liga da Canela Preta, o jogador negro Tesourinha, que posteriormente foi para o Grêmio, selando a abertura para atletas de todas as cores.