KURAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
3.3. Veri Toplma Araçları 1. Kişisel Bilgi Formu
3.3.2. Aile Bağlamında Benlik Ölçeği
Do impuro, o que pode sair de puro? E que verdade se pode tirar da mentira?405
Os Écrits sur la grace406 é uma obra teológica de Pascal. Nela percebemos que o teólogo francês foi um leitor atento às controvérsias sobre a graça que se encontravam na miscelânea de textos que exsudam no século XVII. Os quatro escritos revelam seu caráter metódico quando o leitor – impenetrável a uma leitura superficial – desta está atento ao “método” geométrico descrito no De l` Esprit Geométrique et de l` Arte de Persuader. Metodologicamente, a tentativa de Pascal é mitigar o equívoco da linguagem marcada pelo processo entrópico que a discussão tomava direção. Ele tenta traçar as fronteiras entre as diversas escolas: Molinismo, Calvinistas, Luteranos e Jansenistas. Nela está presente uma espécie de síntese do Augustinus de Jansenius, todavia, não se trata de plagiar o mesmo. A disposição da matéria é diferente, ou seja, a aplicação de Pascal da teologia de Jansenius é outra: se Jansenius queria afirmar uma leitura ortodoxa de Santo Agostinho, Pascal, além disso, executa um trabalho de filosofia da linguagem sobre o debate vigente acerca da graça para fazer brotar a unidade conceitual. Tal unidade visa vincular à doutrina jansenista o agostinianismo e a teologia de Paulo sobre a graça. Ao romper com as fronteiras entre estes três pólos, Pascal endireita o caminho para que as pessoas não errem ao tomar sua decisão. Desprezar o jansenismo implica renegar o “Doutor da Graça” e o “grande Apóstolo”, ou seja, negar cruz de Cristo. Desta maneira, nosso trabalho toma como objeto a segunda parte dos
Écrits sur la grace.
Nela Pascal trabalha a doutrina agostiniana da condição humana antes e depois do pecado adâmico, ou seja, os dois estados de natureza e suas fronteiras limitadas por um divisor de águas: o pecado original. O homem depois da queda tem um estado de natureza distinto da criatura adâmica saída das mãos de Deus. Desta maneira, faremos do pecado original tema deste capítulo. Nosso objetivo é verificar como Pascal concebe esta transposição
405 Eclo 34, 4, Português. In: Bíblia Sagrada. São Paulo: Paulus, 1990. Ed. Pastoral.
406 O título desta obra inacabada não é de Pascal, mas foi dado pelos editores que encontraram os Écrits nas gavetas do aposento do escritor francês. (cf. Henri GOUHIER, Blaise Pascal: conversão e apologética, p. 33).
entre o antes e depois da queda, tentando verificar quais as conseqüências do pecado. Além das possíveis conseqüências que encontraremos, objetivamos situar nossa pesquisa nas mudanças epistemológicas que sofreram o aparelho cognitivo humano. Desta maneira, indagamos: como o aparelho cognitivo humano apresenta-se depois da queda? Em suma, o objetivo deste capítulo é descrever a doutrina do pecado original, verificando as conseqüências em função da queda e, depois disso, deter-se nas possíveis implicações epistemológicas da queda.
Traçado este mapa pelo qual previamente almejamos percorrer, uma hipótese norteará nosso capítulo: a contingência epistemológica em Pascal é uma conseqüência da queda adâmica. Sustentamos que a contingência, conceito que trabalharemos mais abaixo, é um desdobramento da soberba adâmica, ou seja, do pecado original. Para tal análise contaremos com três autores que serão nossos referenciais teóricos. O primeiro é Luiz Felipe Pondé, autor da obra Conhecimento na desgraça. Nela o autor reconhece os danos causados pelo pecado original e tenta sublinhar as possíveis conseqüências na física pascaliana: o autor detecta que Pascal produz um conhecimento local criando critérios para a construção do conhecimento. O segundo é Jean Mesnard, com seu clássico artigo Essai sur la signification des Écrits no qual comenta a obscuridade cognitiva que permearia o homem depois da queda, trazendo dados significativos para nossa pesquisa. Finalmente, a comentadora Catherine Chevalley, autora de
Pascal, contingence et probabilités, obra que analisa o conceito de contingência à luz da física de Pascal, afirmando que a contingência manifesta-se em toda parte, todavia, restringe sua pesquisa à física. Depois de termos mapeado os objetivos, traçado a hipótese e convocado os comentadores, nos preparamos para assimilar o percurso de um pensador marcado pelo sofrimento corpóreo, pelo choque de sua cabeça no muro da razão e no sentimento de fragilidade frente ao mistério. Este porém, ao mesmo tempo que revela a fé outorgada por Deus como dádiva ao homem, manifesta também a contingência marcada pela incompreensão humana dos mistérios que acompanham a doutrina do pecado original. Todavia, veremos que são os mistérios que explicam o estado do homem depois da queda. Desta maneira, Pascal revela-se um pensador do homem, da natureza e de Deus, através do mistério. Este, pela sua incompreensão, manifesta a contingência, logo, a doutrina do pecado original com seus mistérios e a contingência apresentam-se nas pontas de um mesmo novelo de lã. Cabe ao nosso capítulo desfazer os nós e aplainar o caminho.
1 – A relação entre o pecado e a contingência.
Na esteira de Santo Agostinho, Pascal distingue dois estados de natureza: antes e depois do pecado.407 No entanto, fazer-se-ia necessário ressaltar – em função das possíveis conseqüências epistemológicas que estes pormenores poderiam trazer – que para o teólogo francês não há duas naturezas, uma antes outra depois do pecado, mesmo que muitas vezes ele se refira assim em outros textos408. Para Pascal o homem adâmico e pós-adâmico possuem uma mesma natureza quantitativa409, mas divergem qualitativamente410, entretanto, a
divergência não é total, algo que explicaremos abaixo. Mas no que implica ser partidário da idéia de duas naturezas – uma adâmica e outra pós-adâmica – que compõem o homem, ou seja, defender o “aumento quantitativo”, e quais as conseqüências ao defender uma mudança total “qualitativamente”, ou seja, uma diferença radical entre o estado adâmico e o estado pós adâmico? Quais as implicações epistemológicas disso? Pascal considera um erro sustentar uma diferença quantitativa da natureza, assim como radicalizar a diferença entre o estado antes e depois da queda, ou seja, radicalizar a diferença qualitativa. Vejamos as conseqüências da posição Luterana e de Pascal.
1.1 – Posição de Lutero e Blaise Pascal quanto ao estado de natureza do homem.
A diferença quantitativa – duas naturezas – e a radicalização da mudança qualitativa – uma natureza totalmente diferente depois da queda – são sustentadas por Lutero. Este, na ótica de Pascal, ou seja, de seu agostinianismo jansenista, erra ao dizer que com o pecado o
407 “Santo Agostinho distingue os dois estados dos homens antes e depois do pecado e tem dois sentimentos convenientes a estes dois estados.”. (Blaise PASCAL, Écrits sur la grace, p. 317).
408 “Segui os vossos movimentos. Observai a vós mesmos e vede se não encontrareis aí os caracteres vivos dessas duas naturezas.”. (Idem, Pensamentos, Laf. 149, Bru. 430, p. 64). Apesar de Pascal usar do conceito “duas naturezas” neste fragmento, isto não significa que ele defenda a idéia de que há realmente duas naturezas no sentido literal do termo. A idéia de duas naturezas é defendida por Lutero, a qual Pascal repudia. Para melhor estabilizar a linguagem ficaremos com os conceitos usados por Pascal no início do segundo Écrits sur la grace: “dois estados de natureza”. Assim, o leitor poderá compreender aquilo que chamaremos de mudança qualitativa da natureza em Pascal, na qual uma natureza santa é corrompida pelo pecado.
409 O conceito “quantitativo” será usado para nos referirmos à quantidade de naturezas que envolvem a teologia aderida por Pascal e pelos Luteranos. Pascal sustenta a idéia de uma única natureza, antes e depois do pecado, uma em estado de santidade e depois em estado de corrupção. Já os Luteranos afirmam a existência de duas naturezas, uma antes e outra depois do pecado.
410 O conceito “qualitativo” será usado para nos referirmos ao estado do homem antes e depois do pecado. Para Pascal o homem depois do pecado conserva resquícios do período adâmico, já para os Luteranos a primeira natureza é absolutamente opaca ao homem decaído.
homem perde totalmente a primeira natureza e que agora possui uma natureza totalmente411 concupiscente e diferente daquela de Adão – diferença qualitativa radical entre o Adão saído das mãos de Deus e o Adão pecador. “Com efeito, para os teólogos reformados em geral, e pelos luteranos em particular, a natureza humana foi totalmente corrompida pelo pecado original [...].”.412 É por este motivo que a graça de Jesus Cristo não regenera a natureza, pois esta, na visão Luterana, está em um estado tão lastimável que impossibilitaria a ação da graça eficacíssima no processo regenerativo. Portanto, a graça para Lutero destrói a natureza413 e concede aos escolhidos uma nova. Esta é a diferença quantitativa414 existente na teologia
Luterana. Assim como o pecado destrói a natureza santa criada por Deus, a graça destrói a natureza pecaminosa e concede uma nova natureza. Pascal e Luteranos estão de acordo que Deus é criador de todas as coisas, conseqüentemente, criador de uma natureza boa e sem mácula. A natureza foi maculada pelo pecado para os Luteranos, assim como para Pascal, todavia, as conseqüências do pecado adâmico são desastrosas para os Luteranos: não resta nenhum vestígio do seu estado adâmico. Para os Luteranos, a diferença qualitativa entre o homem antes e depois da queda é tão radical que a ação da graça precisa destruir a natureza pecaminosa, pois a graça não consegue fazer com que a criatura rompa com o pecado, fazendo dos mandamentos preceitos impossíveis415 de ser cumpridos. O homem fica preso à gravidade do pecado. A graça, para os Luteranos, além de não devolver o livre arbítrio, pois o homem ainda encontra-se preso a uma natureza corrupta digna de destruição, somente concede aos escolhidos uma natureza nova, esta porém, concedida somente depois da morte, pela qual o homem liberta-se do corpo. Pascal concorda que a morte tem um valor
411 Para Pascal, o homem depois do pecado possui marcas de sua natureza antes do pecado de Adão. “Eis aí o estado em que os homens estão hoje. Resta-lhes um vago instinto impotente da felicidade da sua primeira natureza, e estão mergulhados na miséria de sua cegueira e de sua concupiscência que se tornou a sua segunda natureza.”. (Blaise PASCAL, Pensamentos, Laf. 148, Bru. 430, p. 63). Este “vago instinto” é resquício do primeiro “estado de natureza” e, desta forma, anula qualquer possibilidade de que para Pascal exista duas naturezas, como muitas vezes ele se refere. Não há como sustentar a idéia de duas naturezas caso a segunda traz consigo resquícios da primeira. O homem, para Pascal, não perde a natureza com o pecado, mas mancha a natureza sem mácula que possuía antes da queda adâmica. A felicidade que está ancorada como um vago instinto depois do pecado é o suficiente para impulsionar o homem na busca do primeiro estado de natureza. Todavia, a busca é sempre inócua, pois a distância é grande e o homem, deixado à mercê de suas próprias forças é cego, não totalmente, como pensa Lutero, mas o suficiente para procurar um bem que não vai encontrar.
412 Hélène MICHON, L´ordre du coeur: philosophie , théologie et mystique dans Pensées de Pascal, p. 191. 413 “De fato, toda teologia reformada, e particularmente luterana, é pensada em termos de oposição: a natureza se opõe à graça, a inteligência à fé, o homem a Deus.”. (Ibid., p. 195). A natureza corrompida não tem nenhuma relação com a graça, desta maneira, cabe a graça destruir a natureza.
414 “Tudo aquilo que está em nossa vontade é mal, tudo aquilo que está em nossa inteligência é erro. Isto é porque em consideração às coisas divinas, o homem só tem pura trevas, erro, malícia, perversidade da vontade e da inteligência.”. (Luther, Commentaire de l`épître aos Galates, Genève: Labor et Fides, 1958, t. XV, p. 186 apud Hélène MICHON, L´ordre du coeur: philosophie, théologie et mystique dans Pensées de Pascal, p. 192). A pureza da concupiscência é o resquício de um pecado que dilacera toda Imago Dei presente no homem.
restaurador, mas discorda naquilo que diz respeito à concessão da parte de Deus de uma nova natureza, pois isto implica em diminuir o poder da graça, na medida em que ela não pode restituir a natureza nem devolver o livre arbítrio. Pascal discorda dos Luteranos, para ele o homem terá sua natureza restituída, assim como seu livre arbítrio416, na medida em que Deus concede a graça.
Pascal, criticando os Luteranos, insiste que se o homem não tem livre arbítrio não há porque ter preceitos, ou mandamentos, pois, se a natureza é corrupta e nunca se regenera pela graça, o homem está determinado a fazer o mal e é coagido a fazê-lo, desta maneira, o teólogo jansenista em questão acusa os Luteranos de maniqueísmo.417 Ao contrário dos Luteranos,
Pascal defende a idéia de uma graça que cura e regenera uma natureza corrompida pelo pecado, a graça eficaz funciona como um remédio, desta maneira, não há destruição da natureza, mas cura da mesma. Portanto, em Pascal não há mudança quantitativa. Outro ponto que exsuda como um problema na visão de Pascal da doutrina Luterana como conseqüência do fato de que a natureza é destruída com a graça, é que o homem não seria capax Dei418 (capaz de Deus), eliminando a cooperação – no sentido agostiniano419 –, diminuindo a eficácia da graça e, conseqüentemente, anulando a cruz de Cristo. Porque Deus haveria de mandar seu filho muito amado para salvar o homem das garras do pecado através da graça se a natureza poluída não se regenera? Qual a função da graça se o homem é coagido a fazer o mal? A conseqüência
416 Pascal não faz muita diferença entre os conceitos de liberdade e livre arbítrio, algo presente em Santo Agostinho. Para Pascal, o livre arbítrio corrompido garante à possibilidade de escolher o mal que queremos fazer, já o livre arbítrio concedido pela graça faz com que o convertido cumpra os preceitos designados nas Escrituras, pois a graça regenera a vontade.
417 “Percebe-se suficientemente por tantas provas que os Maniqueístas e os Luteranos estavam dentro de um erro parecido naquilo que diz respeito à possibilidade dos preceitos; e que ainda que eles difiram, os Maniqueus atribuíam uma natureza má e incorrigível, os Luteranos, imputam a corrupção invencível da natureza, eles estão de acordo, entretanto, dentro das conseqüências, ou seja, que o livre arbítrio não está no homem de maneira
nenhuma; que os homens são constrangidos a pecar por uma necessidade inevitável; e que os preceitos são absolutamente impossíveis.”. (Blaise PASCAL, Écrits sur la grace, p. 340). Pascal compara os Maniqueístas aos Luteranos com o objetivo de associar a heresia maniqueísta à posição Luterana. Os maniqueístas com uma natureza “má e incorrigível” tem o mal como absoluto e, desta forma, “incorrigível” na medida em que o mal presente é em si. Já os Luteranos a corrupção invencível diz respeito à natureza, na qual não se regenera com a graça, mas é destruída, algo que não acontece para os maniqueus. Estes dois pontos fazem parte das divergências, os maniqueus abolutizando o mal e os Luteranos abolutizando a corrupção. Mas é naquilo que convergem que Pascal tira conclusões consideráveis para seu objetivo: não há livre arbítrio, desta maneira, os homens são constrangidos a pecar e, conseqüentemente, os preceitos são impossíveis. Pascal constrói um silogismo com o intuito de depreciar a doutrina Luterana. “Das duas mais célebres heresias, o maniqueísmo e o pelagianismo, estas mesmas às quais combateu Santo Agostinho, Pascal vê sempre, em sua época, as vivas resurgências e estragos. A existência das heresias, a acusação de heresia, são um dos traços dominantes do espaço espiritual do século XVII.”. (Denise LEDUC-FAYETTE, Pascal et le mystère du mal. Paris: Clerf, 1996, p. 186 – 187).
418 Ver Blaise PASCAL, Pensamentos, Laf. 444, Bru. 557, p. 179 e Hélène MICHON, L´ordre du coeur:
philosophie, théologie et mystique dans Pensées de Pascal, p. 271 – 275.
deste raciocínio é coroada com a afirmação de Pascal que relaciona a época de Santo Agostinho e as controvérsias sobre a graça que borbulhavam na França como um caldeirão fervilhante: “[...] os Maniqueus eram os Luteranos de seu tempo, como os Luteranos são os Maniqueus do nosso.”.420
1.2 – Pontuações epistemológicas.
Não temos o objetivo em nossa pesquisa de nos ater às diferenças quantitativas e qualitativas entre Pascal e os Luteranos, mas somente destacá-las para verificar algumas das conseqüências epistemológicas destas diferenças, sendo este último o objetivo principal deste ítem. A permanência de uma mesma natureza em Pascal nos ajuda a perceber que o estado do homem depois do pecado ainda preserva “vestígios” de um primeiro estado de natureza que estão cravados no “fundo da alma”421: um “[...] instinto secreto que restou da grandeza de nossa natureza primeira [...]”.422 Mas instinto vago do quê? Da verdade e da felicidade: este instinto quem inspira o homem a buscar tanto a verdade quanto a felicidade423, conceitos que para Pascal possuem sentido na natureza – relativos e sujeitos a mutações constantes –, mas sempre relacionados a uma perspectiva sobrenatural. Para sublinhar as conseqüências epistemológicas que queremos precisaremos entender a relação entre o instinto e o coração em Pascal.
Concordamos com Mesnard quanto a sua afirmação que o “ [...] melhor sinônimo da palavra ‘coração’ é sem dúvida a palavra instinto”.424 Assim, o coração é sensor que apreende e conserva os vestígios do primeiro estado de natureza, ou seja, tanto àquilo que concebemos como verdade quanto àquilo que concebemos como felicidade. A visão destes vestígios é sempre confusa, mas o suficiente para fazer o homem indagar-se sobre eles, buscá-los, ou, até mesmo, viver como se já tivesse encontrado, mas nunca totalmente, pois, caso encontre um destes vestígios sofrerá para conservá-los. Para Pascal todos os homens possuem uma opinião
420 Blaise PASCAL, Écrits sur la grace, p. 340. 421 Cf. Idem, Pensamentos, Laf. 136, Bru. 139, p. 53. 422 Ibid., Laf. 136, Bru. 139, p. 53.
423 “Anelamos pela verdade e só encontramos em nós incerteza. Buscamos a felicidade e só encontramos miséria e morte. Somos incapazes de não desejar a verdade e a felicidade e somos incapazes de certeza e de felicidade. Esse desejo nos é deixado tanto para nos punir como para fazer-nos sentir de onde caímos.”. (Ibid., Laf. 401, Bru. 437, p. 154). A verdade em Pascal faz parte de um desejo que se manifesta pela busca. Todavia, o homem é incapaz de encontrá-la. A busca da verdade torna-se a via sacra de um homem caído que sente a verdade mas não tem certeza de estar com ela ou não estar, desta maneira, o que permeia o homem é a incerteza, característica fundamental da criatura caída. A busca da verdade é o resultado da marca que ainda restou de um estado de natureza que no momento presente – decaído – é desconhecido.
sobre a felicidade, afirmação feita no fragmento 136 (Bru. 139), ou buscam-na, ou estremecem de medo de poder perdê-la, na medida em que acreditam possuí-la. No fragmento 401 (Bru. 437) também será afirmado um desejo humano em buscar a verdade, tal desejo nos pune pelo labor da busca e nos faz perceber de onde caímos. Tanto a felicidade quanto a verdade são desejos misteriosos que o homem concebe em seu coração como vestígios vagos de uma natureza santa de outrora, sustentará Pascal nos Pensamentos. Mas será também no coração onde se encontram os chamados primeiros princípios usados pela razão para conduzir o raciocínio. Vejamos:
Nós sabemos que não estamos sonhando. Por maior que seja a impotência em que nos encontramos de prová-lo pela razão, essa impotência outra coisa não concluiu senão a fraqueza de nossa razão, mas não a incerteza de todos os nossos conhecimentos, como pretendem eles. Pois os conhecimentos dos primeiros princípios: espaço, tempo, movimento, números, são tão firmes quanto qualquer daqueles que os nossos raciocínios nos dão e é sobre estes conhecimentos do coração e do instinto que é necessário que a razão se apóie e fundamente todo o seu discurso.425
Como o bispo de Hipona, Pascal muitas vezes não diferencia alma e coração.426 “Como o coração agostiniano, o coração pascaliano representa muitas vezes o dinamismo da alma.”427, dirá Philippe Sellier. Desta maneira, podemos dizer, com Sellier, que o coração é um dinamismo intrínseco no fundo da alma por fazer parte do mais íntimo do ser humano. Todavia, encontramos aqui uma diferença capital entre a concepção agostiniana e pascaliana do conceito coração: se para o Bispo de Hipona o coração envolve as faculdades da razão, Pascal, diferentemente, separa coração e razão428: “Mas Pascal nos contraria imediatamente recusando esta bela simplicidade, pois ele não cessa [...] de opor coração à espírito, à razão, ao raciocínio [...]”.429 Isso não significa que o coração é irracional, mas ele é um modo de conhecimento diferente da razão. O coração capta os termos primitivos e sustenta os
princípios que a razão irá usar para produzir seus raciocínios e conclusões. Neste momento teremos quer traçar as diferenças de uso que Pascal faz entre os conceitos termos primitivos,
425 Blaise PASCAL, Pensamentos, Laf. 110, Bru. 282, p. 38. Nesta citação há um erro presente em algumas edições que trazem problemas graves na interpretação do fragmento. Falaremos deste erro abaixo.