Nos últimos anos, o mundo vem se esforçando com vista a diminuir a dependência de derivados de petróleo, este posicionamento esta na origem da oscilação do preço do barril de petróleo no mercado mundial, da instabilidade política nos países produtores e da escassez dessa fonte de energia. É nesse contexto que se pensa no uso de energia que provém da biomassa, os agrocombustíveis.
Falar dos agrocombustíveis é até certo ponto falar de agricultura global na era neoliberal, onde dentro deste assunto, podem advir vários temas nomeadamente:
“liberalização do comércio, mudanças do padrão comercial global de mercadorias
agrícolas e batalhas a elas associadas dentro e em torno da Organização Mundial do Comércio (OMC) BERNSTEIN (2011: 101).
Estes aspectos têm fortes ligações ao que nos propomos trabalhar nesta pesquisa. Segundo BERNESTEIN (2011) esta e outras matérias são tópicos espinhosos bastante abordados em debates públicos e acadêmico no Norte e no Sul.
A procura por uma matriz energética limpa que possa substituir o uso do petróleo é atualmente um desafio travado por muitas nações pelos motivos acima levantados. No entanto, o tema inerente ao tipo de combustível a usar associa-se a questão ambiental, nomeadamente a responsabilide de todos setores sociais e produtivo na proteção ambiental do Universo dos possíveis danos ambientais advindo de uso excessivo de combustiveis fosseis. Posto isto, ainda não nos deparamos com a fonte energética adequada que supra todas as necessidades energéticas e não engendre grandes impactos ao ambiente como já referimos na introdução desta pesquisa.
Para SILVA (2008: 1) o tema em torno ao agrocombustíveis não é recente, muito pelo contrário, este assunto está associado às novas formas de representação capitalista.
Na realidade, estes não são temas novos. O novo se explica a junção dos dois temas, aparentemente separados, porém, faces da mesma moeda. Trata-se de produtos agrícolas inseridos num contexto de expansão da acumulação do capitalismo mundial. Portanto, além de um enfoque econômico, há necessidade de levarmos em conta a perspectiva política e ideológica, as novas estruturas de poder instituídas pelas
grandes corporações transnacionais que controlam as fontes de agroenergia e alimentares (SILVA, 2008: 1).
No entanto, para entedermos o setor do agrocombustivel, seu funcionamento e relações de produção; tem que se ter como base quem desponibiliza o capital investido para a produção desse combustível, o tipo de mercado a que se destina, pois, este tipo de negócio também envolve complexidade de ordem estrutural e produtiva. É sobre essas bases que assenta-se o estudo sobre agrocombustíveis. Para entendermos este fato e neceessário lembrar da ECO-92 no Brasil, várias Conferências das Partes (COP) – Orgão Supremo da Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas que tiveram lugar, com vista a tornar efetivo o que foi proposto em conferências anteriores. Uma delas, a COP3 realizada em Kyoto no Japão, em 1997, onde foi discutido, negociado e aprovado o Protocolo de Kyoto, um compromisso global de redução das emissões de gases com representantes de 166 países. Oficialmente, este Protocolo entrou em vigor em fevereiro de 2005 após a ratificação da Rússia (ROCHA, 2003). Todavia, o protocolo de Kyoto é concretizado em 1997, aquando da adesão dos países participantes na COP. As diretrizes do protocolo de Kyoto consite em reduzir para uma média de 5,2%, os gases com efeito de estufa em relação aos níveis de emissão deste gás no periodo que compreende 1990-2012.
O caminho escolhido para conseguir ou se aproximar a este objetivo foi o uso de agrocombustíveis que durante seu uso (queima) não emite a mesma quantidade de gases comparativamente ao petróleo e demais combustíveis fósseis. Sendo assim, estes combustíveis são vistos como solução de alguns problemas a este nível. Porém, o tipo de produção, decorrem problemas a que se referem às relações e formas de trabalho implantadas por este modelo de agricultura, bem como seus impactos ambientais sobre os modos de vida dos sujeitos do campo. Entretanto, o modelo de produção a qual nos referimos, cinge-se aos procedimentos a par da agricultura industrial hoje aceite e incluída no paradigama do “agronegócio”.
Segundo FERNAMDES (2009) o agronegócio é responsável pela expansão da conflitualidade, pois amplia o controle sobre o território e as relações sociais, intensificando assim, as injustiças sociais. Esta atividade (agronegócio) não significa apenas concentração fundiária, pois controla além da terra, as tecnologias de ponta.
“O agronegócio é um novo tipo de latifúndio e ainda mais amplo, agora
não concentra e domina apenas a terra, mas também a tecnologia de produção e as políticas de desenvolvimento”
Para este autor o agronegócio não só se preocupa em produzir com vista a aumentar o capital, mas sim, em se apropriar do território onde se desenvolve tais atividades. E neste contexto que se verifica lutas de posses no agronegócio, fundamentalmente em locais onde os movimentos sociais estão formados e entraram nessa luta mesmo não havendo capital financeiro para o feito.
Segundo Rosa Luxemburgo capital é visto como meio “primitivo” que permite as relações de troca e que induz o funcionamento do capitalismo como sistema. Para esta autora esse processo se espacializa como lógica de acumulação regida por práticas imperialistas. Em A Acumulação de Capital, Luxemburgo conceitua o Imperialismo da
seguinte maneira: “[...] o imperialismo é a expressão política do processo de
acumulação do capital, em sua competição pelo domínio de áreas do globo ainda não conquistadas pelo capital” (1985: 305).
Esta autora demonstra alguns pressupostos que vão ditar o processo histórico de
“acumulação de capital” na seguinte expressão:
“o processo de acumulação de capital, como um todo, como processo
histórico concreto, apresenta dois aspectos distintos: um deles se desenvolve no centro de produção da mais-valia, ou seja, nas fábricas, nas minas, nas propriedades agrícolas e no mercado, e o outro, é o que se verifica nas formas de produção não capitalista, onde o seu palco principal é o mundo. Neste último o que reina são os sistemas de empréstimos internacionais, a política das esferas de influência e as guerras. É aí que a violência aberta, a corrupção, a repressão e o saque aparecem sem disfarce, dificultando a descoberta do desenho das leis
severas do processo econômico” (LUXEMBURGO, 1985:305).
Com os apontamentos de Luxemburgo pode se construir bases para perceber a produção de agrocombustíveis, sendo que esta também é parte do agronegócio, tanto no mundo bem como em Moçambique. Portanto o mercado global de agrocombustíveis é apontado como uma grande oportunidade para o desenvolvimento dos países pobres. Este posicionamento esta relacionado com a questão comercial vinculada aos novos mercados e nova organização do trabalho no mundo. Por sua vez, este processo está intimamente ligado as novas formas de exploração, tanto do trabalho, assim como, da natureza.