A imagem que antecede esta quarta categoria de análise é a de um espelho para o início desta reflexão acerca da percepção de si de cada participante e da autoimagem.
No sexto encontro o grupo experienciou a dinâmica do espelho, sendo este um momento marcante para os participantes, os quais propiciaram a troca de palavras tendo como mediadora a própria imagem refletida pelo espelho, porém, a imagem de cada participante pôde ser lida, renomeada, ora re-significada pela sustentação organizada pela linguagem.
Segundo Mosquera (1978): “o nosso existir no mundo não nos é dado apenas como uma simples circunstância da vitalidade, senão como contato interativo que cria novas realidades (p.72)”. Insiste-se que o homem constrói para si um mundo interno, no qual está marcado pela linguagem que descreve e explicita e que inscreve no ser seus sentidos, porém, esta caminhada ,é percorrido pela presença do outro que o conduz pelo olhar, palavra, doação e ensinamentos. Ea descreve (texto 823) o estranhamento gerado pela experiência frente ao espelho, e de seu efeito em marcar novas palavras em seu texto pessoal, isto é em sua autoimagem: “Estranho no sentido de será que sou isso mesmo. Pois acho que é sempre bom escutar os outros falando de você, o difícil é como receber e como isso vai fazer com que isso possa mudar a sua vida”.
A partir deste um ser que fala pensar-se-á neste como um ser produtor de realidade, ora que a representa pela linguagem a sua leitura sobre a materialidade/realidade. Contudo este imprime em si, por um lado o objeto/realidade e de outro o significado circunscrito a este pela nomeação, sendo permitido, por um sistema da língua que regula a comunicação entre os homens, que não cessa de nomear o real. Mosquera (1978): “A importância da autoimagem e da autoestima decorre, efetivamente, das possibilidades qualitativas da experiência e da construção de mundos ideológicos, que dão sentido à personalidade humana, nas diferentes etapas da vida (p.71)”. Sobre a experiência do espelho como construção de um mundo para o sujeito, marcada pela linguagem, Cs assim sublinha no texto 924: “É um exercício válido para toda vida com ou sem platéia, acho que a platéia ajuda no sentido de te fazer enxergar mais
23 Texto na integra encontra-se disposto no Apêndice B. 24 Texto em apêndice (Apêndice B)
além de si, enxergar pequenos detalhes que as vezes aos nossos próprios olhos passam despercebidos.”
A função do conhecer o texto/história/discurso, relaciona-se também com a idéia de autoconhecimento, sendo este, a compreensão de fatos e o trajeto de sua vida, uma vez que esta pode ser rememorada pela própria narração que o homem faz de si. Para Mosquera (1977): “Tornar-se pessoa é algo sumamente difícil, porque exige uma revisão pessoal, profunda, séria e delicada, crença numa profunda força, sabedoria advinda não do conhecimento, mas da internalização humanizada. A experiência do espelho é descrita por Ss, texto 1025: “me fizeram refletir sobre como ando me posicionando sobre a minha vida e postura, talvez deva mudar coisas e mudar algumas atitudes que tenho tomado ao longo da vida. Foi uma experiência muito rica e produtiva que valeu a pena vivenciar.”
A experiência frente ao espelho e a meditação pode ser comparada com esta capacidade do homem de historiar, isto é, de estudar e compreender a história, logo ao tratar de autoimagem e autoestima lida-se com a capacidade que homem possui de resgatar-se pela retomada de seu texto interno que é ressignificado pela passagem de uma nova leitura sobre si. Conforme Jb, texto 1126: “O grupo fez uma “leitura” bem real de como eu realmente sou, o que me deixou feliz, por perceber que estou conseguindo me mostrar de verdade para essas incríveis pessoas com as quais estou convivendo e adorando conhecer e trocar experiências.”
Resgata-se Mosquera uma vez que fala sobre o conhecimento de si, sendo este, um dado saber sobre si, isto é, a própria reflexão que o homem faz sobre suas atitudes, bem como o reconhecimento de suas potencialidades, sendo elas da ordem do corpo e da ordem relação com os outros, ou seja, com o social, que se desdobra em autoconfiança. Mg assim demarca no texto 1227: “Teve momento para mim que era quase insuportável, pois eu senti vergonha daquela situação e ao mesmo tempo era agradável porque eram ditas palavras e coisas boas que estimulam a nossa participação e autoconfiança”.
O grupo constitui e atualiza a imagem do homem pela identificação o qual transborda para inclusão deste no grupo, e da construção de uma imagem de pertencimento figurando na autoimagem. Portanto o homem para estar em grupo, primeiramente identifica-se, contudo é avaliado pelo grupo como futuro pertencente, logo há um processo de diferenciação e de julgamento que gera angústia devido a uma possível rejeição. Ep diz um pouco sobre este
25 Texto em apêndice (Apêndice B) 26 Texto em apêndice (Apêndice B) 27 Texto em apêndice (Apêndice B)
processo, no texto1328: “Foi uma experiência estranha por dois motivos uma por estar de frente ao espelho, pois eu ficava me analisando e a outra pela pressão de outros estarem me “julgando”.Mas como tudo tem seu lado bom, foi legal para que pudesse ver e ouvir o que os outros acharam de mim e também a imagem que eu passo como pessoa.”
Segundo Mosquera (1978): “o papel dos outros é de extraordinária importância na formação do eu e acrescenta: assim como o eu físico é, em grande parte, uma função de nossa relação com as coisas, o eu dos motivos e sentimentos é, grande parte, uma função da nossa relação com o elemento humano (p. 79)”. A nomeação de um sujeito é constituída pelas marcas da linguagem, ou seja, transmite-se sentimentos os quais estão associados com imagens, por um simbólico nomeado pela língua entre os homens, os quais possibilita o homem transcender, conjeturar e sonhar. Conforme Fg, texto 1429: “O que eu ouvi e fiquei muito feliz, é de que: “sorria a vida é bela” e os problemas são pequenos para nos deixar abater.”
A seguir um quadro com trechos mais significativos dos textos escritos sobre a experiência com o espelho destacada ao longo da referida categoria:
PARTICIPANTES TRECHO DOS TEXTOS DIÁRIO DE CAMPO/LEITURA DO DINAMIZADOR
Ea “será que sou isso mesmo” Construção de um mundo
interno.
Fg “os problemas são pequenos para nos
deixar abater”
Possibilita o homem
transcender.
Ep “reconhecer a imagem que eu passo
como pessoa”
Imagem de pertencimento.
Cs “enxergar mais além de si” Construção de mundos
ideológicos.
Jb “trocar experiências” Nova leitura sobre si.
Ss “me fizeram refletir” Revisão pessoal.
Mg “estimular nossa participação e
autoconfiança”
Reconhecimento de suas potencialidades.
Quadro V – Imagem refletida
28 Texto disposto no Apêndice B 29 Texto disposto no Apêndice B
ILUSTRAÇÃO V – O TEXTO COMO REFLEXO DE SI FONTE: www.willblog.blogspot.com/2010/11/de-a-z.html
4.5 QUINTA LEITURA: DESDOBRAMENTO DO GSC ESPAÇO DE LEITURA DA